Eleições na Andaluzia: No primeiro teste do Podemos, uma vitória e uma derrota
Podemos foi vitorioso pela votação conseguida, porém, sofreu derrota frente às expectativas geradas: 60% do parlamento será dominado por PSOE e PP
Na noite do domingo (22/03), foram divulgados os resultados das eleições regionais na Andaluzia, no sul da Espanha. A região foi uma das mais afetadas pela crise que assolou a Espanha (além de Grécia, Portugal, dentre outros), com índices altíssimos de desemprego e geral empobrecimento da população.
A região é governada pelo PSOE em aliança com a Esquerda Unida, pese o PP ter sido o mais votado nas eleições anteriores. Curiosamente, o partido castigado pela situação econômica foi o próprio PP, que viu sua maioria de 50 cadeiras ser reduzida a 33, além da Esquerda Unida, parceiros minoritários do PSOE, que perderam mais da metade de cadeiras, baixando de 12 para 5.
Agência Efe

Eleitores votam na Andaluzia; Podemos virou terceira força política na região
Eleitores votam na Andaluzia; Podemos virou terceira força política na região
O grande vencedor das eleições foi o PSOE, que conseguiu se descolar da crise na região e manteve seus 47 lugares no parlamento andaluz. O PSOE foi bem sucedido em colar a crise no PP, partido que governa a Espanha e nacionalizar o problema do desemprego, do empobrecimento além de outras mazelas sociais.
O Podemos acabou conseguindo 15 vagas no parlamento, um número expressivo para um partido nascido há pouco mais de um ano e ainda no processo de se organizar internamente, tendo acabado de levar adiante eleições internas — que terminaram por expor fraturas e conflitos e por vezes alguma claudicância ideológica — e tendo pouco tempo para efetivamente se organizar para uma campanha eleitoral de tamanho considerável.
Apesar da boa votação — o partido pouco mais que dobrou o número de votos conseguidos em maio de 2014 para o Parlamento Europeu, pulando de pouco menos de 200 mil votos para 500 mil — o Podemos acabou ficando aquém das expectativas eleitorais e projeções. Segundo as últimas pesquisas divulgadas o partido conseguiria algo entre 19 e 22 vagas, acabou com apenas 15. O PP, de direita, acabou ficando dentro das previsões, ao passo que a Esquerda Unida ficou abaixo e o PSOE acima.
Em resumo, o Podemos pode se considerar vitorioso pela votação conseguida ainda no início de sua caminha partidária, porém podemos pensar que sofreu uma derrota frente às expectativas geradas. O bipartidarismo que persiste não apenas no parlamento espanhol, mas também em diversas regiões - dentre elas a Andaluzia - permanece, ou ao menos as duas principais forças permanecem as mesmas, ainda que com alguma ameaça pontual. O fato é que mais de 60% do parlamento andaluz será dominado por PSOE e PP, ainda que novos partidos tenham despontado para desafiar esta hegemonia. Se trata-se de um indicativo de algo maior, só o tempo dirá.
Outro partido que surpreendeu nas eleições foi o Ciudadanos-Ciutadans, partido de centro-direita de origem catalã (e que se opõe fortemente ao nacionalismo catalão, adotando uma agenda pró-Espanha), deu seus primeiros passos fora de sua região natal e conseguiu 9 vagas no parlamento local frente à previsão de no máximo 7, chegando a multiplica mais de 5 vezes sua votação anterior para o parlamento europeu (de 46 mil votos para 320 mil).
O partido vem se aproveitando de um certo hype nos primeiros meses do ano, crescendo nas pesquisas em todas as regiões pese não ter até o momento apresentado nada de novo em termos programáticos ou ideológicos, porém o partido acaba agregando eleitores de centro, insatisfeitos com os arroubos conservadores do PP e críticos às políticas do PSOE, numa tática bastante conhecida de buscar adotar um discurso inconsistente e mesmo incoerente para agradar um eleitor de perfil semelhante e que comumente se declara de centro.
União Europeia diz que Grécia tem ‘tratamento privilegiado’ e libera € 2 bilhões
Em dia de eleições, Podemos vira 3a força na Andaluzia e, na França, direita vence regionais
Netanyahu se desculpa por atacar árabes na campanha; minorias rejeitam retratação
O Ciudadanos surfa na onda criada pelo Podemos, ou seja, de atacar o bipartidarismo histórico espanhol, porém ao contrário do Podemos, sem uma definição ideológica clara — pese, como mencionado, certos recuos e inconsistências do lado do Podemos.
O partido começa a crescer nas pesquisas e demonstrou alguma força possivelmente conseguindo atrair eleitores insatisfeitos do PP e, agora, pode vir a formar a base necessária para que o PSOE possa governar na região.
Agência Efe

Candidata à presidência da Junta de Andaluzia pelo Podemos, Teresa Rodríguez-Rubio
Candidata à presidência da Junta de Andaluzia pelo Podemos, Teresa Rodríguez-Rubio
Uma aliança entre PSOE e Podemos com o objetivo de se alcançar a maioria absoluta de 55 cadeiras no parlamento parece impossível dadas as declarações pré-eleitorais de líderes de ambos os partidos e mesmo de inúmeras incompatibilidades ideológicas e práticas, ao passo que mesmo com a Esquerda Unida o PSOE não conseguiria chegar à maioria. Restaria então uma opção improvável de uma coalizão ampla com o PP (o que não seria ideologicamente incompatível, mas difícil em um cenário polarizado em que ambos os partidos irão se enfrentar em eleições nacionais e buscam tirar votos um do outro e tentar pintar o pior quadro possível do adversário), um governo em minoria com apoios pontuais e a aliança com o Ciudadanos, que já se mostrou partidário em outros momentos do arranjo.
Um arranjo que seria muito interessante para o partido, pois este seria absolutamente necessário para garantir as aspirações do PSOE na região e também para usar a Andaluzia como vitrine para as eleições nacionais.
Por fim, é importante ter em mente que a grande vencedora das eleições foi, na verdade, a abstenção. Com 1 milhão e 400 mil votos aproximadamente, o PSOE ficou atrás das 2 milhões e 200 mil abstenções. Curioso que o Podemos surgiu como um partido que seria capaz de fazer o eleitor que costumeiramente se abstém ir às urnas, mas o encanto do partido não foi suficiente para alterar o quadro de apatia frente à classe política e as eleições.
Os próximos dias serão de análises e planejamento por parte dos partidos políticos eleitos a fim de se formar um governo viável, porém pese o pequeno entrave imposto ao bipartidarismo, pouca coisa mudou no cenário eleitoral espanhol. Não se pode dizer que a Andaluzia será o modelo para outras eleições regionais, tampouco para a nacional que deverá acontecer até o fim do ano, mas é um indicativo de que o Podemos deverá trabalhar mais e melhor para conquistar o eleitor indeciso e o que se recusa a votar (ou que não vê razões para tanto), e que o Ciudadanos poderá se mostrar uma pedra no sapato, especialmente pela sua capacidade de se aliar com PP ou PSOE dentro de sua flexibilidade ideológica patente.
Nenhum comentário :
Postar um comentário