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sábado, 21 de março de 2015

REFLEXÕES SOBRE PAULO FREIRE E A NOVA DIREITA INFORMADA E DESINFORMADA


Sobre o inaceitável mas real ataque a Paulo Freire e a/os professores 'doutrinadores marxistas':
ao contrário do que se pensa, afirmo que quem ataca conhece sua obra. Quem reproduz os slogans são os que foram convencidos por aqueles. Antes de qualquer avaliação ou iniciativa a respeito, é importante entender como se construiu essa falácia de 'doutrinação'e sua justificação.
Todo dia me surpreendo com declarações de pessoas que relutam em enxergar que não há propriamente ignorância mas, sim, nítida propaganda ideológica na disputa efetuada por um campo que se opõe a tudo o que Freire significa no combate à Educação-mercadoria e à visão anticapitalista de mundo.
Por que negar a esse campo uma tomada de posição ideológica antagônica à de Freire, ou melhor, ao que representa? Embora com menor visibilidade e virulência, também fazem tal crítica a Milton Santos e Hobsbawm, dentre outros cânones caros à esquerda.
O fato é que o trabalho de convencimento da pertinência da crítica a Paulo Freire é feito por quem o conhece bem o suficiente para ver nele a idéia fundamental da superação de classes a partir de uma sociedade cada vez mais inclusiva e igualitária. Crítica, portanto, autônoma. Esse convencimento é feito sobre quem não conhece a obra freireana a contento. Ou seja, sobre a parcela da população alijada de um debate que há muito deixou de ser feito na sociedade, na universidade, nas faculdades de Formação de Professores e que assim, consequentemente, não chega como práxis ao ensino básico. Tampouco houve aproveitamento de seu legado no projeto educacional dos governos petistas.
Pode parecer incrível, mas há algum tipo de vida inteligente sob a crítica a Paulo Freire e a Gramsci. Inteligente o suficiente para vir fazendo disputa de hegemonia nas universidades, nas escolas, nos espaços virtuais ou físicos de suas organizações e, mais recentemente, arregimentando público a partir de slogans os mais catárticos. Ou simbólicos de uma intenção única, em direção contrária a tudo que defendemos. Enquanto muitxs de nós, na esquerda, abandonamos o terreno há mais de uma década, o campo que o faz compreendeu a importância de desmoralizar a eficácia de Paulo Freire na utopia de um mundo não voltado exclusivamente para os interesses econômicos da plutocracia que o hegemoniza. Precisa o Mercado desse mundo desigual e dessa perda de esperança numa mudança tão radical. Precisa essa direita que mais e mais pessoas acreditem que a Educação é parte do contrato entre um prestador de serviço e seu cliente, gerenciada para obter resultados aceitáveis/desejáveis pelo mercado e cuja eficácia seja garantia de prosperidade material para o indivíduo e para a sociedade. Essa escola cumpre metas e, portanto, não lhe cabe fazer justiça social nem lutar contra a lógica de mercado.
Sim, vejo facilmente a concatenação dessas idéias sob os slogans pobres, paradoxais e desconexos da multidão que vem sendo polarizada por essa direita. Observo-a há tempo suficiente. E reflito. Há uma linha condutora que atravessa toda essa cacofonia. Há uma idéia-guia. Não obstante não haver
acordo sobre uma 'nova guerra-fria', esse campo trabalha como se dependesse deles a derrota prévia de um revival 'soviético': essa a fórmula encontrada para reunir segmentos tão díspares da sociedade contra um 'inimigo' facilmente identificável, o vermelho-corrupto-governo-pró-ditadura-comunista-das-minorias. E há todo um assoalho lógico que desenvolvem para atração de neófitos predispostos a enxergarem tal desfecho para a atual crise ético-político-econômica e de costumes que reputam tanto aos princípios quanto aos desmandos da esquerda. No seu polo extremo, até o governo Obama e o PSDB se incluem nesse campo à esquerda pq mantêm funções sociais do Estado em seus programas.
Quem adere a tal campo alinhado com o Livre Mercado e a formação de empreendedores sociais e econômicos é convencido a negar e/ou tentar desmoralizar o significado da obra freireana através da introjeção de que toda *defesa do oprimido* (chamam coitadismo) visa à imposição da ordem socialista ou comunista - sob a qual os recursos nacionais são desviados do desenvolvimento
nacional para a sustentação de uma vasta camada de dependentes, que fazem inchar e esgotar a máquina estatal com fins de sustentação/autopreservação dessa mesma ordem.Segundo seus articuladores, para se chegar ao Estado mínimo, ou seja, à maior desregulamentação econômica/fiscal possível, é preciso libertar a Educação desse vestígio (chamam projeto bolivariano) socialista/comunista de proteção estatal das minorias dependentes. Para isso, fazem-nos - idealmente, à sociedade, incluindo as próprias minorias - acreditar que é no Mercado que se
dão as oportunidades eficazes - porque meritocráticas - de progresso individual e coletivo. E, simultaneamente, negam a injustiça pertinente à desigualdade social através da eficácia do 'remédio' meritocrático. Quem se esforça, alcança. As dívidas históricas não devem ser pagas pelo presente nem pelo futuro, argumentam. Por isso, não às cotas.
Desnecessário dizer que o discurso anti-corrupção (que todos sabemos ilógico pq ninguém 'defende' corrupção) se justifica sob a mesma lógica, ou seja, a de que a grande função da existência e domínio do aparato estatal é a de instrumento de cooptação para formação de correlação de forças que permitam a 'vitaliciedade' da ordem 'comunista', sob liderança despótica de sua burocracia dirigente, igualmente corrupta e corruptora.
Esse micro apanhado geral sobre os/as anti-freireanos (sim, são contra, conhecendo ou não sua obra!) parte da compreensão básica do pano de fundo que vem aglutinando setores menos informados da população virtualmente 'engajada em defesa do país'- com seus preconceitos e valores tradicionais/conservadores oriundos do modo de vida capitalista - aos mais articulados dos
prosélitos dessa nova direita. Não tem, portanto, a pretensão de esgotar toda a análise sobre o fenômeno de fusão e ascenso desse coletivo em expansão que ainda reúne, a partir do consenso exposto, outros campos de crítica à esquerda, como religiões fundamentalistas; militares e policiais punitivistas; nichos de intolerância racista, machista, homofóbica; defensores do livre porte de armas, esses os mais visíveis. A argumentação anti-freireana ainda se circunscreve ao
microcosmo da comunidade escolar e, quiçá, Academia. No entanto, através de estudantes e responsáveis convencidos, tende a tornar-se senso comum, caso não seja confrontado.
Nesse sentido, volto à questão que me trouxe aqui: por que parece tão difícil compreender-se esse campo como ator social em franca luta de classes? Será devido à fluidificação de convicções que perpassa o universo acadêmico? É injustificável que ainda se mantenha uma visão tão simplificadora como a de que "criticam Freire porque ignoram sua luta emancipatória", se é tão conhecida quanto concreta a marcha da direita contra a educação emancipadora! Na verdade, em muitas redes públicas de ensino - e supõe-se que na rede privada ainda mais - a "escola de metas" já descartou o legado de Paulo Freire há muito. Mas isso não pode significar desconhecer o que está sendo proposto para a sociedade sob a falácia da doutrinação.
Não fazer essa discussão é dar-lhes razão: a de que não há mais esperança para a inclusão igualitária e libertadora nesse mundo meritocrático, dirigido pelo e para o Mercado. Destaco que em 3 anos de militância virtual decodifiquei grande parte de seus simbolismos significantes e suas formulações teóricas subjacentes a muitos de seus discursos midiáticos e propagandas subliminares. Ainda resta alcançar a fundamentação de seus objetivos globais, que não seria a 'guerra-fria' de sua propaganda, penso. O neoliberalismo quer algo mais que estabilidade. Mas daqui em diante qlqr elucubração seria especulação, diferente de toda as observações acima.
Concluo apenas com um chamado às consciências porque não adianta apenas negar as evidências ou minimizar-lhes o objetivo: há crítica à obra de Paulo Freire e há perseguição efetiva aos chamados professores 'doutrinadores marxistas'; inclui, essa última, um movimento organizado que busca obter respaldo legal, através de projeto de lei que criminaliza professores 'doutrinadores'; incrivelmente, o fato de duas cidades brasileiras já terem tal lei aprovada em suas câmaras legislativas não causou qualquer comoção. Destaco o fato para salientar que essa propaganda anti-freireana é menos inócua do que parece, para quem ainda não chegou a tal conclusão. A questão requer mais atenção, principalmente, do conjunto de professores/educadores desse país, principalmente os/as da chamada Academia.
Liliam Pontes Brezinski

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