A esquerda não pode ficar nesse grau de inanição, avalia Safatle
Foto: Marcelo Camargo/Abr
Em evento na USP, pesquisadores Ruy Braga, André Singer e Vladimir Safatle analisaram a realidade política do país, levando em consideração os protestos ocorridos nos dias 13 e 15 de março
21/03/2015
Por Bruno Pavan,
De São Paulo (SP)
O que se espera da esquerda organizada diante do movimento que levou milhares de pessoas às ruas no dia 15 deste mês para protestar contra o governo da presidenta Dilma Rousseff? Esse foi dos questionamentos em debate nessa sexta-feira (20) durante evento na Universidade de São Paulo (USP). Os pesquisadores Ruy Braga, André Singer e Vladimir Safatle analisaram a realidade política do país, levando em consideração os protestos ocorridos nos dias 13 e 15 de março.
O cientista político André Singer destacou a importância do ato do dia 13, convocado pelas centrais sindicais e movimentos sociais. Para ele, o caminho é novamente tomar as ruas para mostrar que as medidas de austeridade tomadas pelo governo não serão aceitas.
Já o filósofo Vladimir Safatle apontou uma desorganização e uma falta de união no campo da esquerda, que não consegue mais propor um futuro melhor e que se limita a ser o “partido da ordem”.
“Hoje a esquerda não está conseguindo mobilizar as pessoas em torno de um futuro que pode ser diferente do presente. Onde se cria uma situação de que o PT está agindo como partido da ordem no discurso contra o impeachment. Isso mostra como nós deixamos a esquerda chegar em um grau de inanidade. Não podemos simplesmente ficar nessa situação de reação sem propor nada“, finalizou.
Protestos
Ao contrário do que foram as manifestações de junho de 2013, onde diante de tantas demandas e bandeiras não se sabia ao certo quem estava nas ruas, o sociólogo Ruy Braga disse que a manifestação do dia 15 levou as ruas “uma direita que não teme dizer seu nome“.
Para ele, o que estava nas ruas era claramente um reflexo da luta de classes no país. “A camada mais ricas da população se sentiu diretamente atingida pelas políticas de distribuição de renda e ampliação dos direitos. Por exemplo, hoje essa parcela da população não tem mais a facilidade de contratar uma empregada que durma no serviço”, afirmou.
Risco de golpe militar
Grupos organizados que, além de pedir o impeachment da presidenta Dilma, saíram as ruas com faixas pedindo intervenção militar no país chamaram atenção.
Mas, ao contrário do que uma primeira análise pode mostrar, de acordo com a pesquisa Datafolha, 85% dos entrevistados que estavam na manifestação do dia 15 na Avenida Paulista acreditam que a democracia é melhor que qualquer ditadura.
Singer e Braga acreditam que não há clima para um novo golpe, pois os militares estão distantes da política nacional e que não há hoje no continente um clima de Guerra Fria.
Para Singer, a opinião pública e a esquerda não podem tratar os que pediram militares de volta ao poder como uma maioria. Ele aponta que grupos de extrema direita tem que ser denunciados por atentar contra a ordem democrática.
“A Constituição garante o direito de todos dizerem o que pensam, mas não admite que se atente contra a ordem democrática. Nós pagamos um preço muito alto no passado por não entender isso. Nós temos que agir, sim, para defender essa democracia”, declarou.
Para Safatle, contudo, a situação é mais grave. Para ele, não só o ciclo do lulismo e do neodesenvolvimentismo acabou no Brasil, como toda uma estrutura que ele chama de “nova república“ também sucumbiu deixando margem para que houvesse uma naturalização do discurso pró golpe militar.
“Os 4% que saíram às ruas para pedir golpe não é a questão. A questão é que esse discurso não assusta mais ninguém. É natural que um grupo organize uma passeata a favor da ditadura militar. Você naturaliza um discurso de brutalidade política em um ponto que pode não ter o golpe militar, mas já existe essa brutalização desse conflito”, analisou.
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