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sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Educação em São Paulo: uma reorganização questionada - Revista Fórum

Educação em São Paulo: uma reorganização questionada
A proposta de reduzir a extensão da rede estadual de ensino apresentada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) é criticada por professores, alunos e especialistas. Para aliviar o impacto negativo, secretaria de Educação afirma que unidades não serão fechadas e podem ser transferidas para outras atividades da área
Por Ivan Longo e Leonardo Fuhrmann
De olho na disputa do Palácio do Planalto em 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), conseguiu criar nas últimas semanas um slogan poderoso contra si. O tucano, que já era conhecido pelos seus planos de expansão do sistema prisional e por defender um maior tempo de internação para adolescentes infratores, acrescentou a seu “currículo” o fechamento de escolas, graças ao plano de reorganização da rede de escolas estaduais. Segundo a proposta, 94 prédios onde antes funcionavam unidades educacionais paulistas deixarão de integrar a rede.
Por conta da reação negativa, capaz de dar munição a seus adversários, o governo paulista se apressou a anunciar que, desses, 66 poderão continuar funcionando em atividades relacionadas à educação, seja em redes municipais, como escolas técnicas ou mesmo para receber atividades burocráticas da secretaria de Educação, caso das delegacias de ensino. “É capaz ainda que eles apresentem algum número de redução de custos e ainda ganhem um prêmio de gestão”, ironiza um professor entrevistado porFórum, crítico da forma como as mudanças da rede de ensino foi feita. O comentário tem razão de ser, já que, em meio à crise de abastecimento de água, Alckmin foi homenageado, por indicação do deputado federal tucano João Paulo Papa (PSDB-SP), pela “gestão hídrica” de seu governo.
A ameaça à imagem do governador, que está em seu quarto mandato, é real. Enquanto países como a Suécia e a Holanda fecham presídios, em razão da expansão da aplicação de penas alternativas, São Paulo apresenta um plano que reduz o número de escolas, um ano depois de um outro projeto, que previa a inauguração 49 novos presídios. Segundo dados divulgados neste ano, dos 616 mil presidiários do Brasil, 220 mil estão em São Paulo, onde 27,2% do total é de presos provisórios.
Mas, assim como a crise hídrica, as consequências da reestruturação afetam a população. Serão diretamente atingidos pelo ato da Secretaria de Educação 311 mil alunos e 74 mil professores, que serão transferidos de unidades que deixarão de existir. Mas integrantes da rede calculam que o número de atingidos pode ser ainda maior. “A vinda desses professores desorganiza a escola que os receber, porque a atribuição de aulas se dá por escolha, conforme o ponto acumulado pelo professor. Os mais antigos têm mais pontos que os novos. Isso quer dizer que os professores que vierem com mais pontos tomam o lugar daqueles com menor ponto, que tentam conseguir as aulas que sobram, e se não sobrarem, terão que pegar aulas no saldo total, na diretoria de ensino. Ou seja, professores que já estão na mesma escola por dois, três ou mais anos podem ser obrigados a pegar o saldo restante de aulas, o que geralmente significa aulas em várias escolas diferentes, com alunos que não conhece, às vezes em escolas distantes uma da outra”, comenta a professora Ana*, entrevistada por Fórum, (leia os depoimentos na íntegra abaixo).
Segundo a presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Maria Isabel Azevedo Noronha, a Bebel, há uma preocupação com novas reduções na rede. “É necessário ter um olhar muito preocupado porque não vai parar por aí, a tendência é fechar períodos e mais escolas. Tudo acontece de forma muito autoritária, não entende nada de educação básica esse secretário [Herman Voorwald], deve ser um grande profissional pra construir aeronaves, menos lidar com pessoas”, ironiza.
De acordo com Bebel, o governo deveria assumir que é a contenção de despesas de uma pasta que já tem sofrido muito com isso. “Para se ter uma ideia nós não temos verbas de manutenção nas escolas, os professores fazem ‘vaquinha’ pra comprar papel higiênico, o café já nem falo, porque desde a época em que eu estava na sala de aula, a gente fazia vaquinha pra comprar café. É um negócio muito absurdo, isso está acontecendo no estado mais rico da nação. Falar que vai fechar 94 escolas no momento em que toda prioridade tem que ser pra educação básica é um absurdo autoritário”, diz.
Estudantes protestam contra o fechamento das escolas (Foto: Jornalistas Livres)
Estudantes protestam contra o fechamento das escolas (Foto: Jornalistas Livres)
Para os afetados pelo projeto, o problema não está só na reestruturação, mas na falta de diálogo. “Eles esqueceram que escola não é apenas educação, é um lugar onde se constrói a sociedade, é uma comunidade, uma família. Você não pode romper um família, isso te afeta. Não gosto dessa reorganização também porque alegam coisas absurdas. Falam que não querem misturar idades e isso é um absurdo, já é tudo dividido por horário, já acontece. Eles não pediram opinião de ninguém, da sociedade”, sustenta a estudante Amanda França, 17 anos, da Escola Estadual Adelaide Rocha, no Grajaú, Zona Sul da capital paulista.
“O pior é que foi um projeto gestado na surdina, sem consultar pais, professores, alunos e funcionários. É como se, para eles, essas pessoas não fizessem parte do sistema público de ensino”, completa Carolina*, professora entrevistada pelos repórteres.
Essa mesma professora compara a situação com a da progressão continuada e diz que o governo estadual copia projetos sem qualquer planejamento. “Foi assim com a progressão continuada”, comenta. “Do jeito que fizeram aqui, os alunos com alguma defasagem não têm condições de se recuperar e abandonam o estudo mesmo que estejam presentes na sala de aula”, compara.
Maria Madalena Peixoto, pesquisadora da Escola de Educação da PUC-SP, tem opinião similar. “É comum o governo de São Paulo pegar coisas importates no campo da educação e desvirtuar. Fez isso com a chamada progressão continuada, que do ponto de vista educacional é uma proposta muito interessante. Mas ele desvirtuou, fez progressão que não era progressão”, afirma. “Agora, meu medo, e não é um medo infundado, é que ele acabe desvirtuando a ideia de ter escolas especializadas de atendimento a ciclos”, completa.
Além da falta de diálogo, os profissionais criticam o fato do plano ter sido colocado em prática de afogadilho. “Se existem dois galpões com capacidade para 2 mil caixas cada um e percebe que um tem 1,2 mil caixas e o outro 800, você pode juntar tudo em um galpão e deixar o outro vago. Mas não dá para pensar em seres humanos como se eles fossem caixas. Existem especificidades dentro dessas comunidades”, afirma o professor Lucas*. Ele lembra que existem rixas entre as escolas de um mesmo bairro e que isso afeta as relações entre os estudantes. “Não sabemos como vai ser quando esses novos alunos chegarem, até porque existe uma rixa entre as escolas, coisa de adolescentes mesmo. Alunos que ficam incomodados quando a escola do outro se sobressai em relação a deles. Esses estudantes que vão chegar chegam a dizer que vão depredar tudo, que querem ver se a escola é tão boa assim”, explica.
Alckmin improvisa aula de química na Escola Estadual Cel. Eduardo José de Camargo, em Paraibuna (Foto: Reprodução/Facebook Geraldo Alckmin)
Alckmin improvisa aula de química na Escola Estadual Cel. Eduardo José de Camargo, em Paraibuna (Foto: Reprodução/Facebook Geraldo Alckmin)
Lucas destaca ainda que a reorganização vai afetar especificidades de escolas, principalmente aquelas com métodos que são referência dentro da própria rede. “A escola vai receber 800 novos alunos do dia para a noite e não vai ter como incluí-los no projeto que desenvolvia”, diz. A pesquisadora da PUC-SP diz que a mudança só se justifica se for corte de gastos, mas foi feita de forma autoritária. “Se fosse pra melhorar a qualidade, o método não era esse. Segundo, como disse, tem que ter uma configuração que não é só mudança de escola, é numero de alunos por sala, professor, tem que ter uma reestruturacao que envolve elementos de qualidade, não só quantitativo. Só pode se justificar, nesse método, buscando racionalidade, diminuir despesa”, analisa.
“O ser humano é adaptável”
A secretaria do Estado da Educação, por sua vez, refuta todos os argumentos contrários à medida apresentados pelos professores, alunos e especialistas entrevistados pela Fórum. De acordo com o dirigente regional de ensino da Secretaria, Sandoval Cavalcante, não há a possibilidade de, por exemplo, a reestruturação acarretar na superlotação das salas de aula – ponto que veio à tona nos últimos dias diante da repercussão da medida.
“Na verdade, todos os estudos que foram feitos foram a partir de escolas que apresentam salas disponíveis para a reorganização da rede. Então, não haverá possibilidade de ter superlotação de salas pois faremos a ocupação de espaços que hoje não são ocupados nas unidades escolares”, explicou, reforçando ainda que será estabelecido um diálogo com pais, alunos, professores e vizinhança para que a mudança não impacte na vida e no aprendizado de estudantes que já estavam inseridos em uma lógica comunitária e em um projeto pedagógico já constituído em sua unidade de ensino.
“Toda mudança provoca reação nas pessoas. O que as pessoas precisam entender é que a mudança no processo da educação faz parte por que o objetivo principal dela é a melhoria da qualidade do ensino. Então, as escolas vão encaminhar, tanto aquelas que vão receber quanto aquelas que vão transferir os alunos, todo um procedimento de conversa com a comunidade e nenhum aluno será alocado em escola a mais de um quilômetro e meio de distância da escola onde se encontra hoje. Nós entendemos que o ser humano é adaptável”, argumentou. De acordo com a Secretaria, ao contrário do que diz o sindicato que representa os professores, a medida não acarretará em redução da carga horária dos profissionais.
*Os nomes dos professores desta matéria são fictícios em função do medo de represálias
Foto de capa: USP Imagens
Leia os depoimentos de professores e alunos da rede estadual
“As salas estão cheias. Não dá nem para circular entre as carteiras” (professora Ana)
Cada escola fechada ou ‘reorganizada’ (que vire apenas ciclo II fundamental, por exemplo) tem seu grupo de professores concursados ou não. Esse grupo terá que ser realocado. Para os concursados, significa, provavelmente, que serão realocados para escolas mais próximas das fechadas ou reorganizadas, assim como alunos. A vinda desses professores desorganiza a escola que os receber, porque a atribuição de aulas se dá por escolha, conforme os pontos acumulados pelo professor. Os mais antigos têm mais pontos que os novos. Isso quer dizer que os professores que vierem com mais pontos tomam o lugar daqueles com menos, que tentam conseguir as aulas que sobram, e se não sobrarem, terão que pegar aulas no saldo total, na diretoria de ensino. Ou seja, professores que já estão na mesma escola por dois, três ou mais anos podem ser obrigados a pegar o saldo restante de aulas, o que geralmente significa aulas em várias escolas diferentes, com alunos que não conhecem, às vezes em escolas distantes uma da outra.
Já está todo mundo apavorado com essa ideia. A gente se acostuma com a escola onde está e já conhece os alunos. Tenho uma ótima relação com minhas salas de segundo ano, já com tudo acertado para pegá-los no terceiro. E agora não sei nem se continuo na mesma escola. Para os alunos e pais, é mais insegurança. Para onde vão? Os alunos também criam vínculos com o ambiente e com os funcionários. Já estamos com salas lotadas, não dá nem para circular entre as carteiras, e temos três escolas que vão sofrer ‘reorganização’ perto, inclusive uma que fecha completamente. Minha escola deve receber alunos e professores delas? Para colocar onde?”
“Teremos de desativar a sala de vídeo” (professor Lucas)
Se existem dois galpões com capacidade para 2 mil caixas cada um e percebe que um tem 1,2 mil caixas e o outro 800, você pode juntar tudo em um galpão e deixar o outro vago. Mas não dá para pensar em seres humanos como se eles fossem caixas. Existem especificidades dentro dessas comunidades. Atualmente, trabalho em uma escola que é reconhecida pela própria Secretaria da Educação por conta do trabalho inovador desenvolvido por seu diretor. Foi um trabalho desenvolvido por quase uma década dentro daquele ambiente e que agora está ameaçado. Ele, que chegou a fazer palestras a pedido da delegacia de ensino sobre o trabalho que estava desenvolvendo, agora pensa em abandonar a escola para não ver o que vai acontecer lá. Nossos índices de desempenho nos exames são mais do que o dobro da média. A escola vai receber 800 novos alunos do dia para a noite e não vai ter como inclui-los no projeto que desenvolvia. Normalmente, recebemos um número de alunos todo ano que dá para incluir, explicar como as coisas funcionavam.
A gente investia em criar uma cultura de responsabilidade, a começar pela organização do caderno. Era um projeto pedagógico desenvolvido com a comunidade, com as participações de pais, alunos e professores. A reestruturação poderia ser feita, mas devia ter o mínimo de planejamento, além de ter dialogado com as pessoas envolvidas, é claro. Em um prazo de alguns anos, é possível fazer a incorporação de escolas de baixa demanda.
Não sabemos como vai ser quando esses novos alunos chegarem, até porque existe uma rixa entre as escolas, coisa de adolescentes mesmo. Alunos que ficam incomodados quando a escola do outro se sobressai em relação a deles. Esses estudantes que vão chegar chegam a dizer que vão depredar tudo, que querem ver se a escola é tão boa assim. Com o aumento no número de salas de aula, teremos de desativar a sala de vídeo. Tem condições lá que podem parecer ridículas para quem não conhece a realidade da rede estadual de ensino, mas que são exceção. Por exemplo, lá temos papel higiênico, toalha para secar as mãos e espelhos nos banheiros.”
“É uma máquina de estatística apenas” (professora Carolina)
Fui estudante da escola pública e comecei a dar aulas nos anos 1980. Depois, parei e voltei em 2002. A partir dos anos anos 1980, o acesso à educação cresceu muito, mas essa conquista veio acompanhada de uma queda expressiva na qualidade de ensino. E esse processo de deterioração continua até hoje. Quando voltei, fiquei chocada com o que vi, mas meus colegas diziam que era assim mesmo. Essa reorganização é só mais um capítulo. Quando a gente pensa que chegou ao fundo do poço, eles pioram mais um pouco. Imagino que a ideia do governo era fazer a mudança no começo do ano, mas a greve de professores atrasou os planos da secretaria de Educação. O pior é que foi um projeto gestado na surdina, sem consultar pais, professores, alunos e funcionários. É como se, para eles, essas pessoas não fizessem parte do sistema público de ensino.
Hoje, vejo a situação de uma maneira muito pessimista, porque não há um projeto, o governo do estado apenas copia iniciativas que produziram algum resultado interessante em outra circunstância. Foi assim com a progressão continuada. Eles pegaram um programa que deu certo no Paraná e tentaram passar para cá, mas sem dar as condições existentes no original. Do jeito que fizeram aqui, os alunos com alguma defasagem não têm condições de se recuperar e abandonam o estudo mesmo que estejam presentes na sala de aula. Agora, investem mais no ensino de Língua Portuguesa e Matemática em detrimento de outras disciplinas importantes para desenvolver a maneira de pensar, como História, Filosofia e Geografia. É uma maneira de melhorar os resultados das escolas sem aprimorar o ensino, porque são as duas áreas que são medidas na maioria dos exames nacionais e internacionais. E, se o Brasil vai mal nessas provas, São Paulo é um dos piores desempenhos do país.
Não existe uma preocupação com o futuro dessas crianças e adolescentes. É uma máquina de estatísticas apenas. Existem salas de aula que, se todos os alunos entrarem, não haverá carteiras suficientes. A gente só consegue dar aulas porque boa parte deles fica no pátio. Vão para a escola porque lá é também um espaço para encontrarem os iguais a eles, se inserirem socialmente.”
“Problema de drogas: você pega um foco isolado que tem e coloca outro em cima” (Amanda França, estudante)
“Sempre participei das reuniões da comunidade escolar e desde março falaram que ia ter a reorganização da unidade. Porém, ia ser pouca coisa. Começou a aparecer recentemente no jornal e tudo mais e segunda-feira vieram falar que iam fechar nossa escola. A proposta é para corte de gastos. Por que eles estão fechando escolas e não melhorando o ensino? Outra coisa, quanto à reorganização, eles vão mudar alunos de escolas, fazê-los estudar mais longe de suas casas. Esqueceram que escola não é apenas educação, é um lugar onde se constrói a sociedade, é uma comunidade, como uma família. Você não pode romper um família, isso te afeta.
Não gosto dessa reorganização também porque alegam coisas absurdas. Falam que não querem misturar idades. Isso é um absurdo, já é tudo dividido por horário, já acontece. Eles não pediram opinião de ninguém, da sociedade. Eles só falaram: vamos fazer isso e fechou. Cadê a participação da comunidade nisso? Sinceramente, meus professores de Humanas são pessoas incríveis, aprendi muito, são maravilhosos. Com isso, vou perdê-los. Mudando de escola, as salas vão ficar superlotadas. Se já é difícil numa sala de 20, imagine com 40 alunos.
A mudança também deve agravar o problema das drogas. É uma situação que toda escola pública enfrenta. Mas, com isso, você pega um foco isolado que tem, e coloca outro em cima, vindo de outra escola. Junta tudo! E ai? Tinha um foco pequeno que vira um foco grande. É óbvio isso! Vai arrastar de um lugar pro outro e o problema vai ficar maior. Não sairemos da rua. Vamos continuar batendo o pé enquanto eles decidirem manter essa medida.”
Educação em São Paulo: uma reorganização questionada - Revista Fórum

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