Educação em São Paulo: uma reorganização questionada
A proposta de reduzir a extensão da rede estadual de ensino apresentada pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) é criticada por professores, alunos e especialistas. Para aliviar o impacto negativo, secretaria de Educação afirma que unidades não serão fechadas e podem ser transferidas para outras atividades da área
Por Ivan Longo e Leonardo Fuhrmann
De olho na disputa do Palácio do Planalto em 2018, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), conseguiu criar nas últimas semanas um slogan poderoso contra si. O tucano, que já era conhecido pelos seus planos de expansão do sistema prisional e por defender um maior tempo de internação para adolescentes infratores, acrescentou a seu “currículo” o fechamento de escolas, graças ao plano de reorganização da rede de escolas estaduais. Segundo a proposta, 94 prédios onde antes funcionavam unidades educacionais paulistas deixarão de integrar a rede.
Por conta da reação negativa, capaz de dar munição a seus adversários, o governo paulista se apressou a anunciar que, desses, 66 poderão continuar funcionando em atividades relacionadas à educação, seja em redes municipais, como escolas técnicas ou mesmo para receber atividades burocráticas da secretaria de Educação, caso das delegacias de ensino. “É capaz ainda que eles apresentem algum número de redução de custos e ainda ganhem um prêmio de gestão”, ironiza um professor entrevistado porFórum, crítico da forma como as mudanças da rede de ensino foi feita. O comentário tem razão de ser, já que, em meio à crise de abastecimento de água, Alckmin foi homenageado, por indicação do deputado federal tucano João Paulo Papa (PSDB-SP), pela “gestão hídrica” de seu governo.
A ameaça à imagem do governador, que está em seu quarto mandato, é real. Enquanto países como a Suécia e a Holanda fecham presídios, em razão da expansão da aplicação de penas alternativas, São Paulo apresenta um plano que reduz o número de escolas, um ano depois de um outro projeto, que previa a inauguração 49 novos presídios. Segundo dados divulgados neste ano, dos 616 mil presidiários do Brasil, 220 mil estão em São Paulo, onde 27,2% do total é de presos provisórios.
Mas, assim como a crise hídrica, as consequências da reestruturação afetam a população. Serão diretamente atingidos pelo ato da Secretaria de Educação 311 mil alunos e 74 mil professores, que serão transferidos de unidades que deixarão de existir. Mas integrantes da rede calculam que o número de atingidos pode ser ainda maior. “A vinda desses professores desorganiza a escola que os receber, porque a atribuição de aulas se dá por escolha, conforme o ponto acumulado pelo professor. Os mais antigos têm mais pontos que os novos. Isso quer dizer que os professores que vierem com mais pontos tomam o lugar daqueles com menor ponto, que tentam conseguir as aulas que sobram, e se não sobrarem, terão que pegar aulas no saldo total, na diretoria de ensino. Ou seja, professores que já estão na mesma escola por dois, três ou mais anos podem ser obrigados a pegar o saldo restante de aulas, o que geralmente significa aulas em várias escolas diferentes, com alunos que não conhece, às vezes em escolas distantes uma da outra”, comenta a professora Ana*, entrevistada por Fórum, (leia os depoimentos na íntegra abaixo).
Segundo a presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), Maria Isabel Azevedo Noronha, a Bebel, há uma preocupação com novas reduções na rede. “É necessário ter um olhar muito preocupado porque não vai parar por aí, a tendência é fechar períodos e mais escolas. Tudo acontece de forma muito autoritária, não entende nada de educação básica esse secretário [Herman Voorwald], deve ser um grande profissional pra construir aeronaves, menos lidar com pessoas”, ironiza.
De acordo com Bebel, o governo deveria assumir que é a contenção de despesas de uma pasta que já tem sofrido muito com isso. “Para se ter uma ideia nós não temos verbas de manutenção nas escolas, os professores fazem ‘vaquinha’ pra comprar papel higiênico, o café já nem falo, porque desde a época em que eu estava na sala de aula, a gente fazia vaquinha pra comprar café. É um negócio muito absurdo, isso está acontecendo no estado mais rico da nação. Falar que vai fechar 94 escolas no momento em que toda prioridade tem que ser pra educação básica é um absurdo autoritário”, diz.
Estudantes protestam contra o fechamento das escolas (Foto: Jornalistas Livres)
Para os afetados pelo projeto, o problema não está só na reestruturação, mas na falta de diálogo. “Eles esqueceram que escola não é apenas educação, é um lugar onde se constrói a sociedade, é uma comunidade, uma família. Você não pode romper um família, isso te afeta. Não gosto dessa reorganização também porque alegam coisas absurdas. Falam que não querem misturar idades e isso é um absurdo, já é tudo dividido por horário, já acontece. Eles não pediram opinião de ninguém, da sociedade”, sustenta a estudante Amanda França, 17 anos, da Escola Estadual Adelaide Rocha, no Grajaú, Zona Sul da capital paulista.
“O pior é que foi um projeto gestado na surdina, sem consultar pais, professores, alunos e funcionários. É como se, para eles, essas pessoas não fizessem parte do sistema público de ensino”, completa Carolina*, professora entrevistada pelos repórteres.
Essa mesma professora compara a situação com a da progressão continuada e diz que o governo estadual copia projetos sem qualquer planejamento. “Foi assim com a progressão continuada”, comenta. “Do jeito que fizeram aqui, os alunos com alguma defasagem não têm condições de se recuperar e abandonam o estudo mesmo que estejam presentes na sala de aula”, compara.
Maria Madalena Peixoto, pesquisadora da Escola de Educação da PUC-SP, tem opinião similar. “É comum o governo de São Paulo pegar coisas importates no campo da educação e desvirtuar. Fez isso com a chamada progressão continuada, que do ponto de vista educacional é uma proposta muito interessante. Mas ele desvirtuou, fez progressão que não era progressão”, afirma. “Agora, meu medo, e não é um medo infundado, é que ele acabe desvirtuando a ideia de ter escolas especializadas de atendimento a ciclos”, completa.
Além da falta de diálogo, os profissionais criticam o fato do plano ter sido colocado em prática de afogadilho. “Se existem dois galpões com capacidade para 2 mil caixas cada um e percebe que um tem 1,2 mil caixas e o outro 800, você pode juntar tudo em um galpão e deixar o outro vago. Mas não dá para pensar em seres humanos como se eles fossem caixas. Existem especificidades dentro dessas comunidades”, afirma o professor Lucas*. Ele lembra que existem rixas entre as escolas de um mesmo bairro e que isso afeta as relações entre os estudantes. “Não sabemos como vai ser quando esses novos alunos chegarem, até porque existe uma rixa entre as escolas, coisa de adolescentes mesmo. Alunos que ficam incomodados quando a escola do outro se sobressai em relação a deles. Esses estudantes que vão chegar chegam a dizer que vão depredar tudo, que querem ver se a escola é tão boa assim”, explica.
Alckmin improvisa aula de química na Escola Estadual Cel. Eduardo José de Camargo, em Paraibuna (Foto: Reprodução/Facebook Geraldo Alckmin)
Lucas destaca ainda que a reorganização vai afetar especificidades de escolas, principalmente aquelas com métodos que são referência dentro da própria rede. “A escola vai receber 800 novos alunos do dia para a noite e não vai ter como incluí-los no projeto que desenvolvia”, diz. A pesquisadora da PUC-SP diz que a mudança só se justifica se for corte de gastos, mas foi feita de forma autoritária. “Se fosse pra melhorar a qualidade, o método não era esse. Segundo, como disse, tem que ter uma configuração que não é só mudança de escola, é numero de alunos por sala, professor, tem que ter uma reestruturacao que envolve elementos de qualidade, não só quantitativo. Só pode se justificar, nesse método, buscando racionalidade, diminuir despesa”, analisa.
“O ser humano é adaptável”
A secretaria do Estado da Educação, por sua vez, refuta todos os argumentos contrários à medida apresentados pelos professores, alunos e especialistas entrevistados pela Fórum. De acordo com o dirigente regional de ensino da Secretaria, Sandoval Cavalcante, não há a possibilidade de, por exemplo, a reestruturação acarretar na superlotação das salas de aula – ponto que veio à tona nos últimos dias diante da repercussão da medida.
“Na verdade, todos os estudos que foram feitos foram a partir de escolas que apresentam salas disponíveis para a reorganização da rede. Então, não haverá possibilidade de ter superlotação de salas pois faremos a ocupação de espaços que hoje não são ocupados nas unidades escolares”, explicou, reforçando ainda que será estabelecido um diálogo com pais, alunos, professores e vizinhança para que a mudança não impacte na vida e no aprendizado de estudantes que já estavam inseridos em uma lógica comunitária e em um projeto pedagógico já constituído em sua unidade de ensino.
“Toda mudança provoca reação nas pessoas. O que as pessoas precisam entender é que a mudança no processo da educação faz parte por que o objetivo principal dela é a melhoria da qualidade do ensino. Então, as escolas vão encaminhar, tanto aquelas que vão receber quanto aquelas que vão transferir os alunos, todo um procedimento de conversa com a comunidade e nenhum aluno será alocado em escola a mais de um quilômetro e meio de distância da escola onde se encontra hoje. Nós entendemos que o ser humano é adaptável”, argumentou. De acordo com a Secretaria, ao contrário do que diz o sindicato que representa os professores, a medida não acarretará em redução da carga horária dos profissionais.
*Os nomes dos professores desta matéria são fictícios em função do medo de represálias
Foto de capa: USP Imagens


