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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Rússia expõe a estratégia clandestina dos EUA na Síria



Pravda.ru - 17/09/2015

O problema dos refugiados sírios vinha amadurecendo lenta e continuadamente e teria sido o pretexto perfeito para uma 'intervenção humanitária' comandada pelos EUA ["Bombardear para Proteger"] na Síria.  Mas a Rússia chegou antes, e o róseo plano norte-americano pode ter gorado
As políticas dos EUA para o Oriente Médio vêm-se mantendo obcecadamente fixas em 'mudança de regime' na Síria há pelo menos uma década, desde a invasão do Iraque em 2003. (A agenda neoconservadora original planejava 'mudar' regimes no Iraque, Irã e Síria, mas deu em nada, quando os campos de matança no Iraque começaram a ditar a geopolítica.)


Não é difícil entender e acreditar que a inteligência russa, sim, pôs fim à trama diabólica dos EUA para criar um fato consumado em solo, na Síria. O pactofaustiano entre Washington e a Turquia e a autorização do presidente Barack Obama para ataques aéreos na Síria (inclusive contra o Exército Árabe Sírio), o frenesi com que Grã-Bretanha e Austrália uniram-se às missões de bombardeios norte-americanos contra a Síria, declarações da OTAN, os incansáveis esforços dos EUA, por baixo dos panos, para minar o trabalho de Moscou para iniciar e pôr em andamento um processo de paz entre os próprios sírios - de todos os lados abundavam os indícios daquele sinistro plano político-militar.

Mas o suspense subiu à estratosfera, quando a inteligência russa entrou claramente em cena. Numa rara cena de 'revelação', domingo à noite, durante entrevista ao canal estatal de televisão - provavelmente pré-arranjada deliberadamente - o ministro de Relações Exteriores da Rússia semeou 'pistas' crucialmente importantes sobre a agenda norte-americana clandestina para a Síria escondida por trás da chamada luta para 'degradar e derrotar' o Estado Islâmico. Disse Lavrov:

  • "Espero não estar cometendo alguma indiscrição, se disser que alguns de nossos contrapartes, membros da coalizão, dizem que às vezes recebem informação sobre as posições de alguns grupos do Estado Islâmico, mas o comandante da coalizão - nos EUA, naturalmente - nunca entende que seja boa hora para atacar.
  • Ou nossos contrapartes norte-americanos, nunca, desde o início, contaram com coalizão muito coesa, ou, na verdade sempre quiseram atingir outros alvos, diferentes dos declarados. A coalizão formou-se de modo muito espontâneo: em apenas uns poucos dias, declararam que estava tudo pronto, alguns países já se haviam unido, e começaram alguns ataques.
  • Quem analise a aviação da coalizão verá coisas bem estranhas. O que suspeitamos é que, à parte os objetivos declarados de dar combate ao Estado Islâmico, há algo mais nos planos da coalizão. Não quero oferecer conclusões precipitadas - ainda não se entende claramente que impressões, informações ou superiores ideias o comandante acalenta - mas há sinais desse tipo e não param de chegar.

Lavrov é diplomata experiente e brilhantíssimo. De modo algum teria feito esses comentários movido por impulso instantâneo. Verdade é que a guerra à distância dos EUA contra a Síria ganhou um toque de terrível beleza.

Lavrov disse aos EUA, polidamente, que desistam de tentar impedir a Rússia de saltar na jugular do Estado Islâmico. E que, se não desistirem, choverá lama na cabeça de Obama.

Em palavras simples, Lavrov sinalizou a Washington que Moscou já sabe sobre o plano dos EUA de meter os terroristas do Estado Islâmico como sua pata de gato, mais dia menos dia, no baixo ventre macio da Rússia na Ásia Central e no norte do Cáucaso.

É claro que a inteligência russa sabe que centenas de combatentes viajaram da Rússia para se unirem ao EI. (De fato, Abu Omar Shishani, checheno étnico, é alto comandante do EI.) Dada essa sombria realidade, Moscou decidiu traçar sua linha vermelha. Concluiu que o EI é ameaça significativa às regiões russas de maioria muçulmana no norte do Cáucaso.

A seriedade com que Moscou está tratando a ameaça incipiente à sua segurança nacional está evidente na decisão do presidente Vladimir Putin de ir à Assembleia Geral da ONU no final desse mês, para fazer conclamação planetária a favor de os países cooperarem para derrotar o EI.

As duas vias paralelas - aprofundar o envolvimento militar na Síria também em solo e abrir uma via diplomática até o pódio da ONU - visam a derrotar a ação dos EUA que tenta repetir a estratégia da guerra fria, de blindar Washington e jogar o Islã militante contra a Rússia.

A diplomacia russa no passado recente trabalhou para desenvolver extensiva rede pelo Oriente Médio muçulmano. O esforço parece ter valido a pena. Interessante: Lavrov praticamente revelou, durante a entrevista pela televisão, ontem, em Moscou, que os aliados regionais dos EUA no Oriente Médio, eles mesmos, também já suspeitam das reais intenções de Washington quanto ao EI. É revelação deveras espantosa.

Lavrov também ergueu outra pontinha do véu, ao fazer saber aos norte-americanos que a inteligência militar russa está não apenas monitorando as operações da força aérea militar norte-americana no Iraque, mas, além disso, já analisou cientificamente os planos de voo dos aviões dos EUA e coisa-e-tal. Em resumo, os russos parecem já ter cacife de inteligência para comprovar algo que os iranianos dizem há muito tempo, a saber - que a aviação norte-americana está regularmente fornecendo suprimentos para o Estado Islâmico.

Fato é que o firme movimento militar russo na Síria colheu Washington de surpresa. A menos que ponha coturnos norte-americanos em solo sírio, as opções de Washington para forçar os russos a recuar são mínimas. Grécia e Irã já fizeram saber aos russos que garantirão direito de trânsito aéreo aos aviões russos em voo para a Síria. (Washington fez de tudo para que Atenas não autorizasse o trânsito dos aviões russos.)

Mas o mais duro golpe que está sofrendo a estratégia norte-americana de contenção contra a Rússia na Síria está vindo da dramática mudança na opinião pública de países europeus, obrigados a lidar com a questão dos refugiados sírios. O sistema de vistos Schengen, que era orgulho e símbolo da União Europeia, foi engavetado do dia para a noite, e reapareceram os postos de controle de fronteira
 (Ver aqui e aqui).

A conclamação feita pela chanceler alemã Angela Merkel de que Europa e Rússia devem cooperar no caso da Síria é sinal claro do que está por vir. Obviamente, Moscou deve estar sentindo que o humor europeu vai-se tornando cada dia mais desfavorável a que os EUA mantenham a estratégia para conter a Rússia - e não só na Síria, como também na Ucrânia (Vide no meu blog Ukraine tensions easing, but EUA won't let go easily [Diminuem as tensões na Ucrânia, mas EUA não admitirão facilmente nenhuma solução].)

O ponto é que os europeus não podem aceitar que estejam sendo convocados pelos EUA para dar conta dos cacos que voam para todos os lados do que restou da estratégia dos EUA de fomentar e insuflar uma guerra civil para derrubar o governo estável e democrático do presidente Bashar Al-Assad na Síria. O presidente Obama tem planos para preparar os EUA para aceitarem quota de 10 mil refugiados sírios no próximo ano - mas é menos que uma gota no oceano, considerando que 4 milhões de pessoas, 1/5 da população síria, foi obrigada a deixar o país desde o início da guerra em 2011.

Tudo isso parece estar-se convertendo no maior desastre de política exterior de toda a presidência de Obama. Os EUA estão presos entre a espada e o paredão. A Rússia dificilmente mudará um passo, apesar dos EUA, porque há interesses centrais da segurança nacional russa envolvidos na luta contra o EI, luta para a qual a Rússia precisa da participação da força militar do governo sírio.

Por outro lado, os aliados regionais dos EUA e os neoconservadores em casa pressionam Obama a 'fazer alguma coisa', ao mesmo tempo em que os aliados europeus já deixaram claro que querem o imediato fim do conflito na Síria.

A única via aberta para os EUA seria detonar, de vez, o EI; e enterrar o projeto de manipular grupos militantes islamistas como se fossem ferramentas naturais das políticas dos EUA na região e recursos para inflar estratégias de contenção contra a Rússia. Mas... cortar na carne da própria carne não há de ser assim tão fácil. *****
14/9/2015, MK Bhadrakumar, Indian Punchline 
Ler original
 
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2015/09/14/Rússia-exposes-EUA-hidden-agenda-in-syria/

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domingo, 20 de setembro de 2015

Síria: Medidas militares que estão sendo adotadas pelo Reino Unido, pela Austrália e pela França

ORIENTE mídia - 19 set 2015



O Governo da República Árabe da Síria informou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas sobre as medidas militares que estão sendo adotadas pelo Reino Unido, pela Austrália e pela França, com base numa interpretação distorcida do Artigo 51 da Carta das Nações Unidas, constituindo, desta forma, uma flagrante contradição com a Carta e com as resoluções do Conselho de Segurança Nos. 2170, 2178 e 2199, as quais afirmam o respeito dos países à integridade, à soberania e à unidade dos territórios da República Árabe da Síria.
O Artigo 51 da Carta prevê: “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva, no caso de ocorrer um ataque armado contra um membro das Nações Unidas, até que o Conselho de Segurança tenha tomado as medidas necessárias para a manutenção da paz e da segurança internacionais”. A França, a Grã Bretanha e a Austrália alegam estar tomando estas medidas a pedido da República do Iraque, em apoio aos esforços conjuntos iraquianos de autodefesa. Neste sentido, a República Árabe da Síria esclarece o seguinte:

  • A Síria estranha que países, alguns deles membros permanentes no Conselho de Segurança, violem o direito internacional e a Carta das Nações Unidas ao ousarem fazer interpretações distorcivas ao significado de tão importante e sensível parágrafo da Carta, que pode resultar na disseminação do caos e das guerras no mundo e esclarece que não apresentou nenhum pedido deste tipo. O Conselho de Segurança já aprovou várias resoluções sobre o combate ao terrorismo na Síria, o que exige dos países membros das Nações Unidas um compromisso com tais resoluções.
  • O Exército Árabe Sírio, em conformidade com suas obrigações constitucionais e com a autorização do Governo sírio, não hesitou em enfrentar e combater os grupos terroristas armados, a exemplo do ‘Daesh’, ‘Jabhat Al Nusra’ e outras organizações ligadas à Al Qaeda, apoiadas pela Turquia, Jordânia, Arábia Saudita, Qatar e países ocidentais conhecidos por todos, que financiam, armam, abrigam e treinam os grupos terroristas. Quem quer, de fato, combater o terrorismo na Síria, deve reconhecer as conquistas do Exército Árabe Sírio e das Forças Armadas Sírias no combate ao terrorismo e deve manter uma coordenação com eles.
  • As ações do Exército Árabe Sírio no combate ao “Daesh”, à “Jabhat Al Nusra” e às outras organizações terroristas desmentem as palavras fúteis e mentirosas que não merecem, sequer, uma resposta e que foram expressas, especificamente, na carta da Austrália, sem contar o fracasso dos chamados ‘aliados internacionais’, liderados pelos Estados Unidos, que não realizaram nenhuma ação substancial nesta guerra contra os grupos terroristas mas, sim, permitiram ao grupo terrorista “Daesh” e aos grupos que giram em sua órbita e estão aliados a ele, que avançassem e se propagassem, com total liberdade, não apenas na Síria mas também no Egito, na Líbia, no Iêmen, na Tunísia, no Kuwait, na Arábia Saudita e até mesmo em alguns países ocidentais que estimulam, com suas ações e discursos políticos, estes atos terroristas.
  • Qualquer presença armada nos territórios sírios ou em qualquer um de seus espaços, seja ele aéreo, terrestre ou marítimo, de qualquer país que seja, sem a aprovação do Governo sírio, com o argumento de combater o terrorismo, é considerada uma violação a soberania da Síria. O combate ao terrorismo em territórios sírios exige uma estreita coordenação com o Governo sírio, com o objetivo de implementar as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas relativas ao tema do combate ao terrorismo.
  • O verdadeiro combate ao terrorismo exige dos governos britânico, australiano e francês e dos seus órgãos que parem de exportar os terroristas extremistas para a Síria e que se abstenham de fornecer-lhes o apoio logístico e os meios midiáticos para que divulguem o seu pensamento obscurantista destrutivo.
A República Árabe da Síria afirma que é necessário ao Reino Unido, à Austrália e a França respeitar as resoluções do Conselho de Segurança, especialmente as resoluções 2170, 2178 e 2199, que afirmam a importância de respeitar a unidade, a soberania e a integridade dos territórios da República Árabe da Síria, assim como exigem o fim de todas estas violações e errôneas interpretações do Artigo 51 da Carta das Nações Unidas.
Fonte: Embaixada da República Árabe da Síria
Tradução: Jihan Arar
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domingo, 20 de setembro de 2015

Mario Cajé: O depoimento assustador de uma brasileira fugitiva do terror

“O país era seguro, próspero. A gente podia andar na rua com joias sem medo [...] a educação era ótima. Depois, morrer com um tiro na cabeça era lucro”. Confira a seguir o depoimento assustador (e surpreendente) de uma brasileira que fugiu da guerra civil na Síria.

Por Mario Cajé, no Opera Mundi - 20/09/2015



Bairro destruído na cidade de Alepo, Síria
Depois de mais de quatro anos de guerra civil na Síria, o mundo parece, finalmente, ter despertado para a gravidade da situação dos refugiados. A imagem do menino Aylan Kurdi, de três anos, sem vida, em uma praia turca, se tornou símbolo de um povo que peregrina sem destino. A supervisora de vendas Luiza Silva(*), de 38 anos, não conhece o drama humanitário do país só por fotos ou vídeos. “Cheguei a pensar em tirar a minha vida e a dos meus filhos para acabar com o sofrimento”, confessa.

Mas a vida dela no Oriente Médio nem sempre foi assim. Luiza, que recebeu o nome árabe de Amhasam, ainda guarda na memória as imagens de uma outra Damasco, de uma outra Síria, muito diferente do cenário de devastação em que já morreram 240 mil pessoas, de acordo com o relatório mais recente do Observatório Sírio para os Direitos Humanos (OSDH). “O país era seguro, próspero. A gente podia andar na rua com joias sem medo”, conta.



O caminho da mulher nascida no Estado do Rio de Janeiro – ela prefere não revelar a cidade – até a capital síria, Damasco, começou graças a uma amiga que lhe apresentou quem se tornaria, pouco depois, seu namorado e, em seguida, marido. O sírio era filho de uma brasileira e veio ao país pedir a dupla nacionalidade. Ele jurava amor ao Brasil e dizia não ter vontade de voltar à terra natal. Foi a primeira de muitas mentiras.

Em 1998, Luiza foi à Síria pela primeira vez. A proposta do marido era resolver uns problemas e voltar em pouco tempo. Os “poucos meses” se transformaram em 14 anos. Em Damasco, nasceu o filho mais velho do casal, que hoje tem 16 anos. O irmão mais novo, de 15, nasceu em Paris para garantir a nacionalidade francesa. De lá, eles voltaram para o Brasil e ficaram até que a sogra de Luiza, carinhosamente chamada de Mama, descobriu que tinha um câncer.

Mama pediu para não morrer sem conhecer o neto mais novo e o casal resolveu voltar para Damasco. Luiza passou, então, a cuidar da sogra até os últimos dias. O medo de ter o mesmo destino da mulher que deixou o Brasil aos 17 anos e nunca mais voltou foi inevitável. “Ela, sendo brasileira, viveu ali, sofreu ali e iria morrer ali. Eu olhava pra ela e pensava: ‘Mama, eu não passar o resto da vida aqui, eu não vou morrer aqui’”.

Luiza estava certa: Mama nunca mais veria a terra onde nasceu. Apesar de não saber, se dependesse do marido, sua história repetiria a da sogra.

Se, em geral, não havia muito do que reclamar da vida no país, dentro de casa a situação se tornou insustentável. O marido, outrora encantador, começou a mudar. Não demorou para que a brasileira sofresse a primeira agressão, depois de interromper uma partida de baralho. “Pedi para ele levar nosso filho mais novo ao hospital. Ele me puxou para o quarto e começou a me espancar. ‘Daqui você não sai mais. Estava louco pra fazer isso! Me segurei muito’, ele disse. E os homens continuaram a jogar baralho como se nada estivesse acontecendo”. Por causa da surra, Luiza passou a sofrer com um grave problema de coluna e quase ficou paralítica.

A partir daí, o desejo de voltar ao Brasil cresceu. Mas, ao buscar ajuda na embaixada brasileira em Damasco, soube que só poderia sair da Síria com os filhos se conseguisse a autorização do pai.

O ex-marido de Luiza é alauíta, mesma corrente religiosa do presidente sírio, Bashar al-Assad. O grupo representa cerca de 10% da população e é uma das minorias que compõe o país, ao lado de cristãos e drusos. Os alauítas detêm o comando militar e político. A maioria dos sírios é sunita – cerca de 70% da população.

Por pertencer ao mesmo grupo religioso do líder do país, a família de Luiza tinha uma boa posição social. O sogro dela tinha sido governador, inclusive. Além disso, a convivência, apesar de alguns problemas isolados, era amistosa. “O (presidente sírio) Bashar al-Assad fez uma lei que tornava crime a ofensa à religião dos outros, justamente para evitar a guerra”, diz Luiza.

Apesar de parte da comunidade internacional considerar Assad um ditador violento, e ser acusado de ter utilizado armas químicas contra a população – fato nunca provado -, Luiza tem uma visão diferente. “Ele é um homem justo. Se um parente errasse, ele puniria da mesma forma. Bashar ‘abriu’ e melhorou muito país, que passou a ter shoppings, por exemplo. Ele queria modernizar a Síria. A mídia cria uma falsa imagem dele e eu tenho muita pena porque Bashar não queria a guerra, só que chegou a um ponto em que não dava mais para aguentar os ataques dos rebeldes. Ele defendia as minorias, inclusive os cristãos, e levou a culpa por muitos assassinatos sem ter cometido”, argumenta.

Quando Luiza se recuperava da cirurgia de coluna, recebeu a visita de um primo de Assad, que era casado com uma sobrinha do marido dela. Ele já desconfiava das agressões e quis confirmar. A princípio, com medo, Luiza negou. “Aí ele me disse: ‘Confia em mim. Eu vou te defender. Você não está sozinha aqui’. Algum tempo depois, quando eu já estava em casa, ele nos fez uma visita e falou claramente para o meu marido: ‘O dia em que você encostar a mão nela de novo, você vai se ver comigo. Eu vou defendê-la como se ela fosse minha irmã’.” As agressões físicas contra ela acabaram ali, mas os filhos passaram a ser ainda mais espancados.

Início da guerra

Com o acirramento dos conflitos, que começaram em março de 2011 – durante o processo de insurreição que ficou conhecido como Primavera Árabe -, deixar a Síria passou a ser uma questão de sobrevivência. Aos poucos, o país virou um cenário de terror em que forças do governo, oposição armada e militantes do Estado Islâmico disputam o domínio dos territórios.

Os problemas de saúde de Luiza foram se acumulando – depressão, cardiopatia e síndrome do pânico, além da fragilidade física causada pelas sucessivas agressões. Ela chegou a passar um mês no Brasil para tentar recuperar a saúde, mas voltou por medo do que poderia acontecer com os filhos.

As amigas brasileiras foram deixando Damasco, uma a uma. A última foi a esposa do embaixador brasileiro, que voltou com o marido por recomendação do Itamaraty.

Além dos bombardeios, os alauítas, assim como os cristãos, temem ser exterminados por serem uma minoria. Não são poucos os casos de tortura, estupro e esquartejamento de alauítas de que Luiza se lembra. “Meu marido não cuidava de nós e muita gente tinha raiva dele. Pra mim, ele queria que a gente morresse ali. As pessoas me falavam, em tom ameaçador: ‘Chegou a hora do olho por olho, dente por dente’. Pelo nome, pela identidade, dá pra saber a qual segmento religioso você pertence, então era muito perigoso. Morrer com um tiro na cabeça era até lucro e meu medo era ser estuprada, torturada. De repente, a Síria foi banhada de sangue.”

Faltavam luz, água e alimentos. O desespero fez com que ela se preparasse para fugir passando pela Turquia. Quando comunicou a decisão à embaixada, ouviu sobre os riscos de passar por Homs, cidade que estava sob o domínio dos rebeldes. Além disso, ela poderia ser acusada de sequestro dos filhos. Luiza desistiu.

Depois de algum tempo e muita insistência, o sírio disse que a deixaria voltar se a família dela pagasse as passagens. “Ele disse isso em tom de zombaria porque as passagens tinham ficado muito caras depois do início da guerra e ele tinha certeza de que a minha família não teria condições de me ajudar”. Para a surpresa dele, o cunhado de Luiza comprou os bilhetes.

A brasileira teve três meses para convencer o marido. Tudo indicava, porém, que ele não cumpriria a promessa, feita em tom de deboche. Um dia antes da data marcada para a viagem, Luiza já não tinha mais esperanças, mas o destino a surpreendeu. Tudo graças à visita de um profeta alauíta, que foi consultado pelo marido sobre a viagem. “Eu não via o homem, mas o ouvia. Ele revelou que sabia o quanto eu tinha sido maltratada e como eu estava doente. O desespero foi tanto que eu tentei me comunicar com ele por telepatia, pedindo para poder ir: ‘Eu vou morrer aqui com meus filhos’, eu dizia a ele pela mente. Ele falou para o meu marido autorizar a viagem e jurou que, se eu não voltasse, ele me traria de volta pra ele, beijando os seus pés”.

Volta ao Brasil

Finalmente, em 2012, Luiza conseguiu voltar com os filhos para o Brasil, mas não sem um último obstáculo. Quando chegou ao aeroporto, ela descobriu que a Air France – companhia pela qual viajaria – não estava pousando em Damasco desde o início da guerra civil. Por um instante, ela teve certeza de que nunca mais conseguiria ir embora, até descobrir que seria preciso pegar um voo para a Jordânia e de lá outro para Paris, de onde, finalmente, voariam para o Brasil. “Chorei muito quando cheguei à França. Foi quando percebi que o inferno tinha acabado”.

Apesar de estar em segurança novamente, retomar a vida normal não foi fácil. Luiza precisou reaprender o português porque estava, como ela diz, com a “língua pesada”. Até hoje, precisa tomar remédios para tratar as doenças que herdou dos anos de tortura física e psicológica. Os filhos, que não têm interesse em retomar o contato com o pai, também precisaram fazer terapia. No começo, qualquer barulho um pouco mais forte assustava a família.

O filho mais velho ainda fala árabe e sente saudade de parte da família, principalmente das tias. Ele tem vontade de voltar a morar na Síria quando o país retomar a estabilidade e a segurança. “Um futuro distante”, ele mesmo admite. O rapaz lembra como, de uma hora para a outra, a vida mudou. “É normal a nostalgia porque as pessoas viviam muito bem lá. A educação era excelente”, conta o adolescente que, além do árabe, aprendeu a falar francês e inglês fluentemente na escola.

Apesar da história traumática que Luiza viveu com os filhos, ela se considera uma mulher de sorte, que teve a fé renovada. Quem tem dupla nacionalidade ainda consegue deixar o país. Os que não têm, arriscam tudo para sair da Síria com a ajuda de atravessadores, rumo a um destino incerto. A vida passa, então, a valer muito pouco. E assim surgem histórias e fotos como as do menino Aylan, que chocam o mundo inteiro. Mesmo que seja por cinco minutos.

(*) Nome fictício, a pedido da entrevistada
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Wanderley Guilherme: Os tambores (ou surdos?) das mudanças



Por Wanderley Guilherme dos Santos - 21 de setembro de 2015 - no Segunda Opinião

Setembro, 2015
Enquanto o governo gagueja e a oposição vitupera, o Legislativo se desarranja, o Supremo Tribunal Federal se vulgariza com a loquacidade intempestiva e atitudes desabridas do ministro Gilmar Mendes e a investigação Lava-Jato mantem a política sitiada. Névoa perigosa à frente. As instituições perderam capacidade preditiva, não garantem mais a rotina que as definiam, substituídas por iniciativas individuais de juízes, políticos, policiais, jornalistas, aposentados da fama de outrora, veteranos ou novos provocadores. O tradicional e respeitável espaço público se transforma a olhos vistos na casa da sogra, em que a ignorância faz striptease, a grosseria inventa sapateados e a mediocridade recebe bônus de audiência. Inútil esperar sensatez daqueles que, por sensatez, ou não vão longe ou passaram do tempo. Estamos no intervalo dos ex: ex-presidentes, ex-candidatos, ex-jornalistas, ex-economistas, ex-professores, ex-ministros, com discursos mofados e receitas econômicas de macumba.

A cada dia faz sentido afirmar que, individualmente, não voltaremos a ser os mesmos. É natural. Mas toda cautela ainda não basta quando se trata de instituições políticas, econômicas e sociais.  O atual interregno de interrogações não conduzirá à normalidade pretérita. As instituições estão puídas por dentro, mesmo que a casca permaneça viçosa. O tempo de mutação é imprevisível, entregue, em parte, ao milenarismo torquemada de jovens procuradores, em parte a grupelhos desorientados e, não obstante, dogmáticos, e a multidão de siglas que supostamente representa parcelas da opinião pública, mas não passa de um monte de sacos rotos, como diria minha avó, incapazes de ativar apoio efetivo a coisa alguma. Parece um desses momentos em que são todos a favor e todos contra, só que, sempre, a bandeiras diferentes. Em outros tempos, chamava-se a esses momentos de “desinstitucionalização”, mas pode chamar de “luta pela hegemonia” que também serve.
Os peões se tomam por castelos, os bispos por puros-sangue, o rei desapareceu e os castelos são de papel. A rainha tem grave problema auditivo, mas ainda não percebeu.
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NÃO BASTA SER HIPÓCRITA, TEM QUE SER UM HIPÓCRITA COMPLETO




NÃO BASTA SER HIPÓCRITA, TEM QUE SER UM HIPÓCRITA COMPLETO

Junto com o infame discurso do golpe, o exercício da hipocrisia se manifesta em intensidade máxima, derrubando máscaras.
Um lote de bandidos apregoa a necessidade de derrubar Dilma como forma de combater a desonestidade, a corrupção.
Neste bloco estão Eduardo Cunha, 22 processos por corrupção; José Serra, 16 processos por corrupção; FHC, um apartamento em área nobre de Paris, avaliado em 11 milhões de euros, segundo ele mesmo, valor equivalente a mais de trezentos anos de salários de ex presidente e professor universitário, acumulados; Alkimin, envolvido até a alma em corrupção na Sabesp e no metrô tucano, de São Paulo; tevê Globo, com 776 mandados de cobrança judicial sobre impostos sonegados...
Há operação Zelotes, com valor desviado 12 vezes maior que o apurado na Lava Jato, com dezenas de tucanos e nenhum petista; o escândalo do HSBC suíço, com 8 000 contas secretas de brasileiros, a maioria aberta e com mais depósitos durante as privatizações de FHC, onde até agora não apareceu um nome petista, pelo menos unzinho...
A outra argumentação é a da pedalada, igual à de Médici, Geisel, Figueiredo, Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula, igual a de 23 dos atuais 28 governadores, inclusive os tucaníssimos Alkimin, Richa e Marcone Perillo.
E aí que as contas de campanha não bateram.
E aí as de nenhum presidente bateram, nunca. As de nenhum político bateram, nunca. E só quem nunca concorreu a um cargo eletivo ou nunca dirigiu um órgão classista acredita que contas de campanha batem.
A melhor prova disso é que um único ex presidente teve as suas contas checadas à exaustão e que geraram um processo investigativo, por motivo óbvio: Getúlio Vargas, e o processo deu em nada.
E chegam as críticas tucanas à economia:
Batem no fator previdenciário e não dizem que eles foram os criadores do fator previdenciário.
Batem no ajuste e não dizem que eles criaram o ajuste, porque isto era parte do receituário do FMI.
Batem na CPMF e escondem que são os seus criadores.
Batem na taxa de desemprego, que continua próxima ao patamar mínimo, histórico, e não dizem que continua sendo uma das menores do mundo, no momento, enquanto quando eles eram governo fomos vice campeões mundiais de desemprego.
Criticam as tarifas de energia elétrica sem citarem o fato de serem mais caras nos estados governados por eles, porque lá sobre as tarifas incidem as maiores taxas de ICMS do país.
Citam as tarifas elétricas, esquecendo-se que há uma escassez hídrica (falta de chuvas) como não houve quando eles eram governo, o que obriga à geração de energia elétrica a partir do petróleo, nas termoelétricas, gerando energia muito mais cara.
Não dizem que, por conta da ineficiência na produção e distribuição de energia elétrica, enfrentamos apagões, parando máquinas e apagando o comércio, gerando prejuízos e desemprego, no governo deles.
Fingem que não sabem que estão sendo construídas duas mega usinas, uma delas que ficará entre as dez maiores do mundo, a de Belo Monte, além do investimento na geração alternativa, principalmente eólica.
Fizeram um estardalhaço quando o preço da gasolina aumentou, fingindo não saber que em 8 anos de governo tucano o consumidor amargou 280% de aumento de preços acumulados na gasolina, e que nos 13 anos de administração petista esse aumento acumulado ainda não chegou a 100%.
Por fim, Dilma deve ser afastada porque quebrou o país.
Que país, a décima sexta economia do mundo, de FHC, ou a oitava economia de hoje?
Quebrou quando? Quando multiplicou as reservas cambiais por 25? Quando não recorreu ao FMI, deixando de ser devedor para ser credor? Quando se transformou em terceiro maior credor, em volume de dinheiro, dos Estados Unidos?
Quando se tornou o segundo produtor mundial de alimentos ou quando descobriu o PreSal?
Hipócritas! Hipócritas é o que são, dizendo-se solteiros para não mostrar os chifres, fingindo-se donzelas para que não os saibamos prostitutas.
Mas... Não adianta, Lula vem aí, e isto é o que os desespera e os faz hipócritas, sem o menor pudor.

Francisco Costa
Rio, 20/09/2015

Contra o cinismo, expressão cultural do sistema

Contra o cinismo, expressão cultural do sistema

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150913-Drooker
Novo livro sugere: para superar lógicas capitalistas é preciso enfrentar crença de que tudo merece crítica – mas não vale a pena engajar-se, porque nada mudará
Por Pete Dolack | Tradução: Gabriela Leite | Imagem: Eric Drooker
Quando discutimos neoliberalismo, o atual estágio do capitalismo, naturalmente nos focamos em economia e política. Mas nenhum sistema de dominação pode surgir, e muito menos permanecer e se aprofundar ao longo das décadas, sem um aparato cultural que se estenda bem além da simples propaganda.
Os sentimentos de desesperança precisam ser engendrados. Embora possam ser difundidos por técnicas propagandísticas — o “não há alternativa” de Margaret Thatcher é um exemplo essencial –, para que sejam incorporados à alma das sociedades é preciso que transitem por múltiplos canais. Para manter um sistema como o capitalismo liberal e impor as medidas de “austeridade”, inclusive em suas formas mais severas, é preciso um reforço cultural contínuo.
TEXTO-MEIO
150913-NegativeCapitalismUm cinismo desolador — um pessimismo profundo, para o qual mesmo que as coisas estejam muito ruins não há nenhuma alternativa — mantém as sociedades paralisadas de maneira mais eficaz que qualquer força policial. O que é essa resignação se não uma aceitação passiva do status quo? Acreditar em um mundo melhor é um ato de otimismo. Requer a consciência de que tal mudança é realmente possível; de que não somos obrigados a aceitar padrões de vida degradantes, excesso de trabalho, emprego precário e uma monocultura corporizada que põe as fofocas de celebridades e o espetáculo acima da autêntica troca humana e da comunidade.
O cinismo, portanto, é a expressão cultural natural de nossa época. Ele articula-se com o fatalismo coletivo para constituir uma força desorganizadora, segundo argumenta J. D. Taylor num livro vigoroso:Negative Capitalism: Cynicism in the Neoliberal Era* [“Capitalismo negativo: o cinismo na era liberal”, em tradução livre]. Embora o cinismo possa assumir muitas formas, e funcione com frequência como uma armadura contra um mundo indiferente, Taylor conceitualiza-o como “a resistência psicológica pervertida do indivíduo moderno, que se recusa a acreditar em governos ou na mídia, mas também renuncia a fazer qualquer coisa contra a desgovernança ou a desinformação.” [pág 102] A recusa a agir não pode transformar-se em outra coisa exceto a aceitação:
“O fatalismo coletivo é uma crença em massa de que uma mudança significativa é impossível. Os indivíduos outorgam sua tomada de decisões, na expectativa de que alguém vá fazê-la em seu nome, com ou sem seu consentimento. Isso leva a uma infantilização de cidadãos, que gozam sua falta de poder convertendo-se em consumidores solitários… para os quais as compras são seu derradeiro e significativo ato de afirmação, sinalizando um novo tédio que, na falta de alternativas, leva ao fascismo.” [págs 105-106]
Os espaço e o tempo foram conquistados pelo capitalismo; e quanto mais forte o capitalismo, menos nossas vidas importam. Isso, é claro, não “acontece” simplesmente — não é um fenômeno natural, como as ondas do oceano, ao contrário do que os propagandistas gostariam de fazer crer. Trata-se, ao contrário, de um projeto em curso, um consenso do sistema financeiro global e das elites empresariais. Somos progressivamente mais consumidores que cidadãos, “empoderados” por mais escolhas de produtos, e simultaneamente com um poder declinante sobre nossas vidas.
A raiva é fútil alternativa
Compensações como o uso compulsivo do álcool e outras drogas e uma aparente cornucópia de consumo que só faz a roda do hamster girar mais rápido são substitutos fracos a comunidades saudáveis. O autor escreve:
“O trabalho contemporâneo é frenético e, em meio a ele, raramente se vê os amigos. A tela do computador é a janela pela qual um mundo sempre desperto e alerta bombardeia nossos neurônios com emails importantes, spams de Viagra, narcisismo, catástrofes contínuas e pornô faça-você-mesmo. Essa mudança ontológica no status de ser humano é uma das razões essenciais para o profundo senso de mal-estar e depressão que existe nos jovens adultos hoje. Esse modo de viver não é suficiente, e quando alguém não é mais capaz, ou escolhe não se comportar como simples consumidor, ou interagir com o mundo por meio de logotipos de publicidade ou aplicativos, a raiva e a frustração crescem. …
A vida está ficando mais difícil, empobrecida, deprimente e monótona. Isso não é inevitável, e certamente não deveria ser aceitável — mesmo que muitos continuem a ceder ao aspecto sombrio da existência cotidiana, por falta de alternativas credíveis.” [págs 15-16]
Não há nenhuma alternativa no interior do capitalismo. As rebeliões culturais são logo cooptadas, já que a lógica do enclausuramento econômico de todos os espaços leva os que se rebelam desta maneira a acabar se acomodando. Apenas a transformação econômica e política através de ações de massa decisivas é possível. Mas uma ação de massas, por sua vez, não pode ser efetiva sem objetivos sociais relevantes e tangíveis. Taylor argumenta que as responsabilidades e direitos de adultos poderiam ser definidos por “uma nova constituição e um novo contrato social impregnado de cidadania”, o que seria um caminho para a criação de uma alternativa ao capitalismo.
Pleno emprego, com jornada de trabalho reduzida para todos, poderia não apenas oferecer um padrão digno de bens e serviços para todos mas também assegurar o acesso ao trabalho. Mas ao imaginar essa ideia, Capitalismo Negativo oferece uma mistura curiosa de pensamento revolucionário e reformista. Por um lado, o livro defende  um movimento político em torno do Trabalho que demanda direitos e proteções sociais ampliadas e, a certa altura, um movimento para “forçar” as Nações Unidas a impor medidas de bem-estar social de alcance global. Ao mesmo tempo, vai bem além de tais reformas básicas, ao demandar a introdução de uma Renda de Cidadania mundial, limites universais à duração da jornada de trabalho  e uma punição dura às empresas que causam danos aos trabalhadores ou aos ecossistemas.
Aí, novamente, um movimento global para superar o capitalismo não pode crescer a não ser que haja objetivos tangíveis e ideias de como um mundo melhor seria — não apenas conceito teóricos e abstratos. Apesar de nunca mencionado em Capitalismo Negativo, o conceito de Leon Trotsky de “programa de transição” vem à mente aqui: objetivos e demandas que pareçam reformistas e inicialmente possam ser trabalhadas como reformas, mas são “grandes demais” para serem acomodadas pelo capitalismo e, ao fim das contas, só podem ser atingidas através da transformação para um sistema novo e diferente. A teoria aqui é: uma vez que as pessoas vejam que os objetivos razoáveis são impossíveis no interior do sistema, elas estarão preparadas para ir além do reformismo.
Por isso, deveríamos deixar nos manter abertos em relação a objetivos e táticas. Um movimento efetivo terá que apresentar claramente o que pretende, em termos facilmente compreensíveis. Como chegaremos lá? Nenhum de nós tem a resposta para isso, mas uma multiplicidade de formas de recusar-se a obedecer são necessárias. Um movimento democrático pode manter-se unido numa “guerra civil” contra o sistema financeiro neoliberal, com o foco em programas estratégicos simples, argumenta Taylor:
“O poder não pode desaparecer, mas ele é neutralizado quando se difunde entre uma massa igualitária de agentes democráticos que reconhecem a regra do coletivo, não do individualismo. O capitalismo pode ser desfeito. Isso nos levará a uma perturbação da vida social que temos e, inicialmente, a um período de conflitos sociais profundos, mas a história das sociedades humanas demonstra que as culturas não são, em essência, nem “boas” nem “ruins”, como afirmam muitos dos críticos morais e defensores do capitalismo. O certo é que as pessoas gostam mais de diálogos, amizade e generosidade do que de consumo e trabalho.” [pág 26]
Criatividade na oposição
Como vamos chegar lá? Para começar, livrando-nos do cinismo e da crença de que nada pode mudar. A criatividade é uma arma necessária para qualquer contra-ataque. Capitalismo Negativo defende o “rompimento espetacular” de pontos débeis do sistema como parte de uma desobediência de massa diante das convenções sociais. Trata-se de rupturas “com impulso tão violento quanto a pobreza forçada, a falta de assistência social e a destruição do meio ambiente” impostos pelo capitalismo.
Hackeamento anti-sistema, boicote a dívidas, criação de novos parlamentos autônomos, locais e nacionais, organização das comunidades e atos estratégicos de violência dirigida a alvos específicos — como “varredura de supermercados” e ocupações coordenadas de edifícios financeiros e governamentais — são algumas das ações sugeridas. Ao mesmo tempo, o livro propõe que a esquerda abandone o “bom-mocismo moral e a linguagem elitista”. Nenhuma lista de táticas, inclusive as relacionadas acima, pode em si mesma levar a lugar nenhum, sem que esteja acompanhada de uma noção mais ampla sobre que objetivos se deseja alcançar, uma estratégia de mais longo prazo realista e ao menos as noções gerais sobre como seria uma sociedade melhor.
Em relação ao que esperariam alguns ativistas (admito que estou entre eles), J.D. Taylor avança pouco sobre teoria — mas ele merece crédito por reconhecer suas próprias dúvidas, enquanto lida com este vasto leque de temas também na condição de ativista. Não é mais suficiente, para nós, dizer o que não queremos, nem chamar atenção para a miséria que atravessa o mundo. Precisamos ser a favor de algo. Os conceitos do autor sobre um novo contrato social, que assegure participação democrática significativa e direitos, podem chocar um leitor reformista ou revolucionário, e talvez ambos. Mas eles expressam os contornos de um mundo melhor em termos gerais — um objetivo essencial, em meio à ardua obra de tornar mais concretas certas ideias que, embora elevadas e cruciais, ainda são abstratas.
Aprender a assumir responsabilidade pelo futuro e a compartilhar as habilidades, a formação e a compaixão por criar a cidadania democrática que um mundo melhor requer são essenciais — especialmente para os mais jovens — para alcançar, um dia, tal objetivo. Não há atalhos.
“O otimismo não pode significar a construção coletiva de mentiras convenientes, para tornar as pessoas infelizes mais capazes de enfrentar seus infortúnios. Ao invés disso, ele articula a criatividade necessária para ir além dos meios hoje existentes e envolver-se num patamar de atividade novo e desconhecido. O otimismo é criativo… O pessimismo é reacionário… Sua incapacidade de dar conta da natureza violenta do desejo, tanto cultural quanto biológico, o conduz à submissão cínica. O neoliberalismo é um sistema poderoso deste tipo.” [pág. 87].
Este sistema poderoso não será vencido até que deixemos de aceitá-lo:
“A História não será criada pelos nihilistas, mas por gente determinada a ir além de seus contemporâneos nihilistas” [página 88]
O livro de J.D. Taylor não oferece um roteiro — o que é bom, já que se trata de algo impossível. Ao contrário, ele nos convida a prestar mais atenção às dimensões culturais do domínio do mundo pelo neoliberalismo. Ele presta um grande serviço, ao lembra-nos que um sistema muito abrangente como o capitalismo moderno consolida a si próprio por meio de um vasto espectro de mecanismos institucionais — e não pode ser combatido sem que compreendamos em que grau ainda absorvemos suas expressões culturais.

J.D. Taylor, Negative Capitalism: Cynicism in the Neoliberal Era[Zero Books, Winchester, England, and Washington, D.C. 2012]
Contra o cinismo, expressão cultural do sistema

UM CHAMADO Á RESPONSABILIDADE

OBSERVAÇÕES PERTINENTES


Força do PT na RESISTÊNCIA AO GOLPE dependerá da DISCIPLINA dos seus DIRIGENTES.

A resistência ao golpe de Estado, que agora se afigura iminente, exige que o Diretório Nacional do PT use o estatuto do partido para estabelecer, urgentemente, a disciplina necessária para o combate, em toda a sua cadeia de comando. Os dirigentes do PT, de todos os níveis, devem ser convocados, imediatamente, a assumirem seus postos e suas responsabilidades, neste momento de gravíssima ameaça à democracia e aos avanços sociais da última década. O não atendimento a esta convocação deve ser punido com a aplicação das sanções previstas no Estatuto, que podem chegar até à destituição do cargo ocupado.

O PT tem hoje mais de 1,7 milhão de filiados que precisam ser, urgentemente, chamados e preparados para o confronto com as forças golpistas. E isto só será possível se os diretórios do partido, efetivamente, funcionarem, assumindo as funções que o Estatuto lhes atribui, de organizadores e dirigentes de suas respectivas bases de filiados.

Os diretórios do PT são as unidades combatentes do partido. Se eles não funcionam ou se funcionam precariamente, fica o partido limitado em seu poder de ação, como um exército impossibilitado de mobilizar a maior parte do seu contigente.

A cadeia de comando do PT, formada pelos diretórios Nacional, regionais, municipais e zonais, precisa funcionar adequadamente para impulsionar e coordenar as ações dos filiados da base. Se a cadeia de comando do partido não funciona, a base se mantém desmobilizada e dispersa, incapaz de realizar as ações planejadas pelo Diretório Nacional. Por isso, sejam quais forem as ações pretendidas por esta instância, é preciso providenciar, o quanto antes, a superação do elevadíssimo déficit de controle e disciplina das instâncias intermediárias e inferiores do partido, para que elas garantam, efetivamente, a realização das missões que lhes forem atribuídas.

Sem dirigentes disciplinados é absolutamente inviável qualquer ação envolvendo grandes contingentes de filiados. E é deste tipo de ação que hoje mais se precisa. Por isso, não pode mais, o PT, prescindir da disciplina dos seus dirigentes. Por isso, deve usar os meios que seu estatuto contém, para impor disciplina aos membros dos diretorios e constituir uma cadeia de comando que cumpra, realmente, o papel que lhe cabe, nesta verdadeira guerra que temos que enfrentar e vencer.

O golpismo avança e é preciso reconhecer que o PT não está preparado para o confronto. A negligência contumaz dos seus dirigentes, favorecida pela ausência de qualquer controle, manteve inteiramente desorganizada a ampla base de filiados do partido. Trata-se agora de fazer o que jamais foi feito, nestes 35 anos de vida do Partido dos Trabalhadores: controlar o desempenho dos diretórios e impor disciplina aos seus dirigentes, para que eles cumpram o dever de organizar suas respectivas bases, fazendo do PT uma verdadeira máquina de mobilização social para o combate político. É este o desafio que está colocado para os "generais" do nosso Diretório Nacional, como condição para o PT ser capaz de vencer o golpismo e conquistar o controle do governo Dilma ou fazer-lhe oposição democrática, com o programa vitorioso, logo abandonado pela presidenta, para surpresa e frustração dos seus eleitores.


Votar no PT é coisa para loucos | Brasil 24/7

Votar no PT é coisa para loucos

Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula: <p>Com Dilma, Lula e Mujica, PT celebra 35 anos de fundação em BH Presidente Dilma, Lula, José Mujica e Pimentel foram ovacionados. Foto: Ricardo Stuckert / Instituto Lula</p>
Esta é, em resumo, a reação com a qual me deparo sempre que comento que, não obstante os óbvios problemas que enfrentamos, devo continuar votando em candidatos do PT. Essa escolha, a despeito dos pruridos de meus interlocutores, é a mais lógica para quem, como eu, estabelece como ideal um Estado de viés social-democrata em contraposição, por um lado, à direita neoliberal (que quase nunca admite se reconhecer como direita que é), e, por outro, à esquerda radical extemporânea (que muitas vezes, quando consegue assumir a titularidade da caneta, age como a centro-esquerda que tanto critica).
Em primeiro lugar é preciso descartar de plano os argumentos moralistas que têm proliferado, no sentido de se rejeitar o PT em função de uma suposta exclusividade no quesito corrupção, ou ainda, de, na compreensão da inexistência dessa fantasiosa exclusividade, de uma hipotética primazia em termos de "prevalência" da corrupção. Nada mais equivocado. Cidadãos que se apegam a esse tipo de argumento -a maioria agindo de boa fé- são mal informados, pois obtêm suas informações exclusivamente a partir de empresas jornalísticas que têm insofismável interesse na inviabilização do PT.
Cabe lembrar que em 2003, quando Lula assumiu o poder, passou a diluir a destinação da milionária verba publicitária do governo federal, que até então era distribuída entre cerca de 400 veículos de mídia e passou a ser investida em mais de 8000 - e este fato por si já explica o ódio mortal que as grandes redes de comunicação têm quanto ao PT: como diria Bill Clinton, "É a grana, estúpido!".
Ao contrário do que imaginam esses cidadãos, não só o PT não tem a exclusividade da corrupção como também, em termos de valores, os petistas são aprendizes diante, por exemplo, da bandalheira das privatizações da era FHC. Escândalos bilionários envolvendo próceres peessedebistas são diligentemente ocultados pela "grande mídia", e não chegam ao conhecimento desses cidadãos, que assumem como expressão da verdade o que é veiculado nos telejornais e não se anima a procurar informações alternativas.
Ultrapassado o insubsistente argumento moral, cabe analisar a questão sob o ponto de vista ideológico, aqui entendidas especialmente as propostas e ações de caráter social e econômico.
Hoje temos um partido no poder, o PT, que em termos econômicos pode ser classificado como centro-direita e, no tocante a políticas sociais, como centro-esquerda. Essa esquizofrenia é relativamente recente, e foi bastante intensificada neste início de segundo mandato de Dilma. Quanto à questão social, é cristalino, até mesmo para organizações e personalidades internacionais entre as mais sérias e respeitadas, que o PT no poder operou uma mudança de paradigmas. Os governos Lula e boa parte do primeiro governo Dilma fizeram uma inflexão (ainda que, a meu ver, parcial e insuficiente) no sentido da priorização do social. Números não mentem, e a evolução, nos últimos treze anos, de indicadores relacionados a diversos fatores de cunho social corroboram essa afirmação. Já na questão econômica, houve, nos últimos meses, uma outra inflexão, esta negativa, em direção a ditames propagados por correntes econômicas cuja aplicação sistemática nos últimos anos destruiu as economias de vários países europeus e colocou em risco gigantes como os EUA e o Japão.
Dilma, aparentemente encantada pelo canto da sereia do neoliberalismo entoado por seu principal ministro (que nas horas vagas defende os interesses de bancos), tomou esse rumo temerário, e o malfadado "ajuste fiscal", como têm ocorrido desde sempre, é suportado pelas classes menos favorecidas e pela classe média, poupando os habitantes do topo da nossa pirâmide social. Ocorre que esta situação, esse desvio negativo no campo econômico, tende a sofrer fortes pressões de setores populares que, em última análise, são a base eleitoral do próprio PT. Assim, é certo que medidas ainda mais draconianas (e desastrosas) que sem dúvida chegaram a ser propostas, foram descartadas diante dessa constante pressão social à qual o partido é sensível, ainda que eventualmente por puro pragmatismo.
No limite, a depender do andar da carruagem econômica e da exacerbação dessas pressões, a própria lógica neo-neoliberal pode ser revista. Desnecessário comentar que num hipotético governo tocado pela oposição tucana essas pressões sociais seriam solenemente ignoradas e o viés neoliberal da condução econômica seria muito mais profundo, com reflexos claros nas políticas sociais que seriam em grande parte desmanteladas.
Em suma: há no poder, por um lado, um partido de centro-esquerda no âmbito social e de centro-direita no econômico, estando esse último viés sob constante pressão, havendo perspectiva de retomada futura de rumos. A única alternativa eleitoralmente viável na oposição é representada pelo PSDB, um partido que pode ser classificado como partido de direita nos dois aspectos e que jamais seria sensível a qualquer pressão popular. Eis por que digo e repito: para mim, por enquanto, é PT novamente. Se a política é tida como "a arte do possível", eu jamais trocaria o possível pelo improvável.
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