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quinta-feira, 13 de julho de 2017
Dos 104 Mortos Na Venezuela, Apenas 35 Estavam Em Atos Contra Governo, Diz Relatório | Brasil de Fato
Conforme foi dito em outra postagem nesse blog (Aqui) é maior o número de vítimas por conta das ações criminosas da oposição do que opositores do governo bolivariano..
Dos 104 Mortos Na Venezuela, Apenas 35 Estavam Em Atos Contra Governo, Diz Relatório | Brasil de Fato
Dos 104 Mortos Na Venezuela, Apenas 35 Estavam Em Atos Contra Governo, Diz Relatório | Brasil de Fato
Amigo Neoliberal, sua defesa do Liberalismo não o livra de ser um fascista
AMIGO NEOLIBERAL, SUA DEFESA DO LIBERALISMO NÃO O LIVRA DE SER UM FASCISTA
Os “liberais” podem ser chamados de fascistas? A chave para responder a essa pergunta vem da filosofia e da psicologia, não da história.
“A verdade e a mentira são construções que decorrem da vida no rebanho e da linguagem que lhe corresponde. O homem do rebanho chama de verdade aquilo que o conserva no rebanho e chama de mentira aquilo que o ameaça ou exclui do rebanho. (…) Portanto, em primeiro lugar, a verdade é a verdade do rebanho.” (Friedrich Nietzsche)
Introdução

Depois de junho de 2013, explodiu na internet coletivos raivosos que se autointitulam “liberais”. Tais grupos estão se destacando mais pelo voluntarismo e pela agressividade que pelas reflexões que poderiam suscitar. Com exceção do Partido Novo, que não demonstra o mesmo ódio dos colegas, esses grupos são frequentemente acusados de fascistas.
Seus membros se defendem afirmando que o nazi-fascismo era antiliberal e, portanto, fascistas são quem os acusa. Eles estariam supostamente defendendo a liberdade e, por fim, mandam o interlocutor ir estudar história. Pois bem, aceitei o desafio. Será que liberais podem ser chamados de fascistas? Adianto a resposta: podem. E não apenas liberais. Qualquer pessoa pode ter uma atitude fascista. O nazi-fascismo é muito mais amplo e complexo do que esses grupos de direita imaginam. E, sim, eles estão adotando posturas que muito se assemelham às brigadas paramilitares dos anos 1930.
Um dos exemplos da arrogância e pobreza intelectual dos liberais é o texto publicado no site Spotniks. O argumento principal é sempre o mesmo: não somos fascistas, pois defendemos o livre mercado. Os fascistas são estatistas, populistas, trabalhistas e uma séria de outros istas. Lamento informar, mas os atuais “liberais” brasileiros estão mais próximos de Mussolini que de Adam Smith.
Antes de mais nada, gostaria de dizer que sei que fascismo e liberalismo são coisas diferentes. Saber isso, por mais que seja dito com ar de arrogância, não torna ninguém especialista no assunto. Sou professor de história e essa matéria é ensinada no nono ano do ensino fundamental. Para adolescentes de 13/14 anos. Para que possamos aprofundar o debate, é preciso sair da adolescência intelectual.
Não é a intervenção estatal que define o que seria fascismo. A Ditadura Militar brasileira era intervencionista e não era fascista. O mesmo pode ser dito de Roosevelt, Nixon, Reagan e tantos outros. Governos interferem de uma maneira ou de outra na sociedade e na economia. Até o Macri, recentemente, resolveu levantar barreiras comerciais na Argentina e isso não faz dele um fascista. Portanto, a despeito de ser verdadeiro que os governos fascistas eram intervencionistas, não é essa categoria de análise que os define.
Como, então, entender o fascismo? A chave para responder a essa pergunta vem da filosofia e da psicologia, não da história. Para o historiador cada evento é único. O que ocorreu nos anos 1930 não irá se repetir. Por isso, os atuais radicais de extrema-direita são chamados de neofascistas, para serem diferenciados dos seus avós.
A filosofia, contudo, apreende esse conceito não apenas como um movimento político que, por sua natureza, seria datado. Mas como uma forma de encarar a realidade. Em outras palavras, o fascismo, além de um movimento político, é igualmente uma postura ética.
É desse fundamentalismo ético que os críticos estão se referindo quando chamam esses grupos de fascistas. Não é preciso ter um pôster do Mussolini no quarto para ser considerado fascista, pois ele está na forma como a realidade é estruturada. Está na forma de pensar e ler o mundo. Foi, com efeito, nesse fascismo ético que Hitler e Mussolini estruturam o seu movimento político. O fascismo ético é mais antigo que o político e não morreu em 1945. Por isso, é também mais perigoso. Poderíamos afirmar que essa forma de fascismo nunca desaparece. Mas ele pode ser mantido sob controle. Mas, para isso, é fundamental entendê-lo.
Por uma vida não fascista
O filósofo Michel Foucault, ao ser convidado para escrever o prefácio do livro Antiédipo, do seu amigo Gilles Deleuze, disse que essa obra teria um inimigo estratégico: o fascismo. Com efeito, o alvo do filósofo não era Hitler ou o intervencionismo estatal, mas aquilo que Foucault chamou de “fascismo ético”. “O inimigo maior, o adversário estratégico, o fascismo. E não somente o fascismo histórico de Hitler e Mussolini — que soube tão bem mobilizar e utilizar o desejo das massas —, mas também o fascismo que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.
Essa passagem é perturbadora. Normalmente, o fascista é sempre o “outro”. Assim como Copérnico, que tirou a Terra do centro do universo, Foucault propõe uma “revolução do eixo de gravidade”. O fascismo não está na história, nos alemães, no passado ou em qualquer outro lugar distante, mas ele se encontra vivo dentro de cada pessoa. Em mim, em você e no próprio Foucault.
Esse fascismo pode ser percebido em gestos e atitudes. Portanto, leitor, você não está sendo chamado de fascista, mas lembrado que, como qualquer mortal, é capaz de assumir posturas próximas daquelas que legitimaram as atrocidades do Holocausto.
Se o vírus do fascismo está alojado em nosso DNA, se, como avisou Brecht, a cadela do fascismo está sempre no cio, como fazer para que ele não se reproduza, como impedir que o ovo da serpente não seja chocado? Foucault também nos ajudar a entender essa questão.
Segundo o filósofo, a ética seria um exercício permanente de enfrentamento do fascismo. As armas seriam a constante crítica do sujeito. Ou, em suas palavras, o exercício permanente de construção, ou cuidado, de si. Esse conceito é um pouco complexo e não pretendemos abordá-lo nesse texto. Mas apenas destacar alguns conselhos, do próprio Foucault, para que possamos encarar esse “inimigo estratégico”:
• Liberem a ação política de toda forma de paranoia unitária e totalizante.
• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.
• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
• Não se apaixonem pelo poder.
• Façam crescer a ação, o pensamento e os desejos por proliferação, justaposição e disjunção, e não por subdivisão e hierarquização piramidal.
• Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. [(199)]
• Não imaginem que seja preciso ser triste para ser militante, mesmo se o que se combate é abominável. É a ligação do desejo com a realidade (e não sua fuga nas formas da representação) que possui uma força revolucionária.
• Não utilizem o pensamento para dar a uma prática política um valor de Verdade; nem a ação política para desacreditar um pensamento, como se ele não passasse de pura especulação. Utilizem a prática política como um intensificador do pensamento, e a análise como multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.
• Não exijam da política que ela restabeleça os “direitos” do indivíduo tal como a filosofia os definiu. O indivíduo é produto do poder. O que é preciso é “desindividualizar” pela multiplicação e o deslocamento, o agenciamento de combinações diferentes. O grupo não deve ser o liame orgânico que une indivíduos hierarquizados, mas um constante gerador de “desindividualização”.
• Não se apaixonem pelo poder.
Foucault escreve de uma maneira rebuscada e de difícil compreensão. Ele também usa noções que foram explicadas em outras obras, o que aumenta a dificuldade. Minha tarefa aqui é tentar apresentar essas ideias da maneira mais simples possível.
Algumas rápidas explicações. Quando Foucault diz que o indivíduo é produto do poder, ele está se referindo a um conceito muito particular. Ao contrário do senso comum e do liberalismo vulgar, que trabalham com a oposição entre indivíduo x Estado ou tirania X liberdade, Foucault entende o poder de modo diferente. As relações de poder não seriam opostas à individualidade, mas produtora. Explico. Imagine uma mulher qualquer. Pode ser sua mãe, sua filha ou você, caso seja uma leitora. Pense no seu comportamento, na sua forma de pensar e nos seus desejos. Depois, compare com os da sua avó. Vá para a Grécia Antiga e mire-se nas mulheres de Atenas, descritas pelo Chico Buarque. As pessoas são diferentes, não há duas mulheres idênticas no mundo. Porém, caso uma brasileira do século XXI entre numa máquina do tempo, ela não irá se reconhecer nesses outros espaços. A mulher, que eu pedi para você imaginar no início desse parágrafo, é uma representação. E, como tal, ela é socialmente construída.
Essas diferenças, segundo Foucault, são o resultado das relações de poder, que não se limitam a impor castrações, mas também são capazes de produzir modos de vida, ou seja, subjetividade. O poder, portanto, não seria repressor, mas indutor e estimulador de comportamentos. Por tal motivo, fechar-se em sua individualidade pode ser uma maneira de torna-se prisioneiro, não de libertar-se.
Darei outro exemplo para clarear o que estou afirmando. A Voyager, em praticamente todos os artigos que publica, recebe a visita dos famosos liberais de Facebook. Independentemente de quem seja, os argumentos se repetem de modo padronizado: “neoliberalismo não existe”, “olha os índices de liberdade econômica”, “quer dizer então que o Estado irá resolver todos os problemas”, “George Soros financia vocês”, “imposto é roubo”, “monopólio é resultado da ação estatal”, “a crise de 29 foi causada pelo FED”, “Fascismo é de esquerda”, “segundo Mises” etc. E, óbvio, sem esquecer do famoso “vai para Cuba”. “Argumentos” mais repetidos que amém na missa.
Não há nada de inventivo nessas frases. As pessoas que as repetem são apenas “papagaios” reproduzindo modelos prontos de pensamento. Esses argumentos são tão manjados que até adolescentes estão fazendo vídeos “refutando” intelectuais e políticos experientes e analfabetos políticos virando autores “Best Seller” e se arrogando o direito de “debater com qualquer um”.
A forma como atacam também chama a atenção: aparecem sempre em bando, o qual é organizado e até age de maneira sincronizada, o que daria inveja aos organizadores das passeatas militares da Coréia do Norte, cujos participantes esses mesmos liberais de Facebook chamam de “pixels”.
O que é verdadeiramente individual em pessoas que agem sempre em grupo? Em indivíduos que se comportam da mesma maneira? Que repetem os mesmos clichês? Praticamente nada. São apenas rebanhos. Os escravos do poder são os que mais se orgulham da liberdade. Esse é o melhor exemplo do poder que aprisiona pelo desejo, não pela castração. Uma pena Foucault ter morrido antes da era digital.
Por isso, seria preciso desindividualizar pela multiplicação dos deslocamentos. Esse frase inverte e reformula os conceitos. Por mais paradoxal que parece, a individualidade não é individual, mas sim a “desindividualização”, ou seja, a negação dos valores que o status quo impõe, que os liberais de facebook reproduzem muito bem ao defenderem o capitalismo, para ser possível realmente se descobrir como indivíduo. E ética, nesse caso, seria a prática permanente da invenção de novos parâmetros e da produção de novos modos de vida.
CONFIRA TAMBÉM
É neste exercício individual, de construção de si, que se encontra a liberdade. É preciso que a força criativa supere a identidade. A liberdade consiste em se diferenciar daquilo que se é.
O pensamento fascista reduz o real a explicações totalizantes. O fascista não tem dúvidas, porque para tudo há uma explicação. Por isso, ele não reflete, age. Talvez a principal característica desse tipo de personalidade seja a de colocar o voluntarismo à frente da razão. “Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir”. (Foucault).
O pensamento fascista reduz o real a explicações totalizantes. O fascista não tem dúvidas, porque para tudo há uma explicação. Por isso, ele não reflete, age. Talvez a principal característica desse tipo de personalidade seja a de colocar o voluntarismo à frente da razão. “Existem momentos na vida em que a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir”. (Foucault).
O fascismo atua no sentido oposto à liberdade. O militante fascista lida com ideias fixas da realidade. Rejeita a multiplicidade. Estereotipa e interdita qualquer modo de contestação. Quando Hitler morreu, foram encontrado milhares de livros em sua biblioteca (cerca de 16 mil). Um número impressionante. Inclusive havia obras de autores sofisticados como Schopenhauer e Nietzsche. Como explicar que uma pessoa tão obtusa fosse um leitor voraz? Simples. O fascista raciocina com um filtro altamente rígido de informações. É como se as informações tivessem que se encaixar num formato pré-definido e rígido em seu cérebro. As ideias, para serem assimiladas, precisam passar por esse molde. Caso contrário, são instantaneamente rejeitadas. Quer outro exemplo? Faça o seguinte, após esta leitura, confira os comentários que fazem os “liberais” de Facebook nos textos críticos do liberalismo econômico ou do neoliberalismo da Voyager, seja aqui no site ou em sua página do Facebook . Ou, talvez este texto se torne um alvo do ataque em bando que costumam fazer, então basta conferir a sessão de comentários logo abaixo.
Foucault aponta que um dos adversários do “antiédipo” são os ascetas da política: “os militantes morosos, os terroristas da teoria, aqueles que gostariam de preservar a ordem pura da política e do discurso político. Os burocratas da revolução e os funcionários da Verdade”. Poderíamos complementar dizendo que o ceticismo e o relativismo são remédios contra essa tendência sedutora de dar ares de verdade aos discursos. Perceber a fraqueza e das suas próprias crenças é uma maneira de não dar a elas um fim messiânico. “É impossível expandir o pensar quando a mente está ancorada em opiniões intocáveis”. (Nietzsche).
Os liberais, que agem de forma raivosa, olham a si mesmos como agente da verdade. Adotam um conjunto de premissas tomadas a priori e, munidos dela, saem propagando aos quatro ventos essas “verdades reveladas”. Mas, no momento que precisam encarar o mundo real, mostram sua incapacidade e impotência diante da pluralidade, restando-lhes empacotá-la dentro de suas noções fixas, limitadas a estereotipadas. Não concorda? É comunista, petista ou qualquer outro ista. A verdade, dizem, é evidente. Países que adotam o livre comércio são mais desenvolvidos. Basta olhar os índices de liberdade econômica. Negá-lo é não querer ver a verdade, culpa do marxismo cultural, da ideologia, da doutrinação das universidades etc. A ironia é tão grande que, essa definição de ideologia, como uma barreira que impede o sujeito de ver o real, foi proposta por algumas correntes marxistas.
Essa lógica binária é fascista. Hitler negava a ciência por ser judaica. O comunismo era judaico. O sistema financeiro idem. “A arte de todo grande líder popular consistiu em todos os tempos em concentrar a atenção das massas num único inimigo” (Hitler).
A personalidade autoritária
Outro importante autor, que buscou os mecanismos psicológicos do fascismo, foi o filósofo alemão Theodor Adorno. Adorno propôs o conceito de “personalidade autoritária” para se referir a esta predisposição de alguns para aderirem ao discurso fundamentalista.
Apesar da “palavra” personalidade, tais características não são inatas. E, obviamente, podem ser desconstruídas. Mas essa tarefa não é simples. O preconceito é mais que ideias “pré-concebidas”. Pois, caso fossem apenas isso, seria simples combatê-lo pelo esclarecimento.
A vociferação racista apela para a irracionalidade, para as emoções e constrói afetados extremamente potentes, para os quais, muitas vezes, o discurso racional se trona ineficaz. O indivíduo preconceituoso constrói sua personalidade ancorado nessas ideias. Negá-las é colocá-lo em conflito com a sua identidade e, por isso, ele está disposto a defender seus castelos de areia com unha e dentes, em alguns casos de modo literal.
O fascismo não aceita reflexão. Uma pessoa que não reflete não pode argumentar. Os ataques pessoais e físicos são, com efeito, a única resposta possível de um indivíduo que se vê impotente, incapaz de levar adiante um diálogo racional, mas que se recusa a questionar as categorias mentais que balizam a sua realidade.
Segundo o Adorno estes seriam as características dos sujeitos que possuem tal personalidade:
1. Convencionalismo. Adesão rígida a valores convencionais, de classe média.
2. Submissão autoritária. Atitude submissa, acrítica diante de autoridades morais idealizadas do próprio grupo.
3. Agressão autoritária. Tendência para procurar e condenar, rejeitar e punir pessoas que violam os valores convencionais.
4. Anti-intracepção. Oposição ao subjetivo, ao imaginativo, ao compassivo e ao sensível-terno.
5. Superstição e estereotipia. A crença em determinantes místicas do destino do indivíduo; a disposição para pensar em categorias rígidas.
6. Poder e “Dureza”. Preocupação com a dimensão submissão-dominação, forte-fraco, líder-seguidores; identificação com figuras do poder; sobrevalorização dos atributos convencionalizados do eu; asserção exagerada da força e da dureza.
7. Destrutividade e cinismo. Hostilidade generalizada, aviltamento do humano.
8. Projetividade. A disposição para acreditar que as coisas rudes e perigosas continuam no mundo; a projeção exterior de impulsos emocionais inconscientes.
9. Sexo. Preocupação exagerada com “comportamentos” sexuais.
2. Submissão autoritária. Atitude submissa, acrítica diante de autoridades morais idealizadas do próprio grupo.
3. Agressão autoritária. Tendência para procurar e condenar, rejeitar e punir pessoas que violam os valores convencionais.
4. Anti-intracepção. Oposição ao subjetivo, ao imaginativo, ao compassivo e ao sensível-terno.
5. Superstição e estereotipia. A crença em determinantes místicas do destino do indivíduo; a disposição para pensar em categorias rígidas.
6. Poder e “Dureza”. Preocupação com a dimensão submissão-dominação, forte-fraco, líder-seguidores; identificação com figuras do poder; sobrevalorização dos atributos convencionalizados do eu; asserção exagerada da força e da dureza.
7. Destrutividade e cinismo. Hostilidade generalizada, aviltamento do humano.
8. Projetividade. A disposição para acreditar que as coisas rudes e perigosas continuam no mundo; a projeção exterior de impulsos emocionais inconscientes.
9. Sexo. Preocupação exagerada com “comportamentos” sexuais.
Como podemos observar, pessoas intolerantes com a diversidade (convencionalismo). Que chamam Bolsonaro de mito (submissão autoritária). Que gritam que “bandido bom é bandido morto” ou que sindicalista precisa apanhar em manifestações por ser vagabundo (anti-intrecepção). Que se autoafirmam como anarcocapitalista e interditam qualquer forma de abertura ao novo, estereotipando a pluralidade das ideias como sendo “coisa de comunista” (supertição estereotipada). Que vão às ruas em grupo atacar ou intimidar aquilo que eles identificam como “inimigos” (poder e “dureza”), etc. Estão apresentando comportamento protofascistas, típicos dessa “personalidade autoritária” que legitima os regimes de exceção.
Conclusão
Em 2015 foi lançado um filme chamado “Ele está de volta”, uma ficção que imaginava o retorno de Hitler 70 anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Na cena final, há um interessante diálogo:
– “Você é um monstro”, diz o protagonista, apontando uma arma para o Hitler, ao que ele responde:
– “Então é melhor você culpar aqueles que elegeram um monstro. Eram todos monstros? Não, eram pessoas normais. Que escolheram alguém diferente para o destino do país. (…). Nunca se perguntou por que as pessoas me seguem? Porque, no fundo, elas são como eu. Têm os mesmos princípios.”
– “Então é melhor você culpar aqueles que elegeram um monstro. Eram todos monstros? Não, eram pessoas normais. Que escolheram alguém diferente para o destino do país. (…). Nunca se perguntou por que as pessoas me seguem? Porque, no fundo, elas são como eu. Têm os mesmos princípios.”
Esse rápido diálogo é um resumo das ideias defendidas ao longo desse texto. O protagonista apontava uma arma para Hitler, ou seja, para a maior representação do fascismo político, na ilusão de que, se atirasse, o fascismo iria desaparecer junto. Porém, Hitler o lembra que o fascismo é mais que um movimento político e matá-lo não iria destruir as ideias que permitiram sua existência. É essa confrontação que devemos fazer.
Em 1961, a filosofa judia Hannah Arendt foi enviada para acompanhar o julgamento de um membro das SS, Adolf Eichmann, em Israel. Para a sua surpresa, o nazista era uma pessoa calma, “assustadoramente normal”. Inspirada nesse choque entre representação e realidade, a pensadora pronunciou a polemica frase: “se Eichmann fosse um monstro a humanidade estaria salva”.
O que ela quis dizer com essa afirmação? Monstros são pessoas que fogem à regra. Basta eliminá-los, como nos filmes de super-herói, e pronto. Temos um final feliz. Mas o Holocausto não foi perpetrado por monstros, mas por pessoas normais. Iguais a mim e a você. Esse fato é infinitamente mais assustador. Ele nos lembra que indivíduos “do bem” são capazes das maiores barbaridades.
Acusar-nos uns aos outros, não nos torna melhores que Eichmann e companhia, mas nos aproxima ainda dessas pessoas. Segundo Arendt, Eichmann tornou-se o carrasco nazista justamente por ser incapaz de raciocinar criticamente. Era um funcionário padrão e eficiente. Seguia ordens. Ele era o responsável por alocar os prisioneiros nos campos de contração. Cumpria sua tarefa sem refletir sobre os motivos e os fins dos seus atos. E supria sua carência reflexiva com preconceitos, seja lá o que esteja acontecendo, não importa, afinal, são todos judeus. Assim, ele se confortava e evitava o confronto consigo mesmo.
O psicólogo social Philip Zimbardo fez uma experiência muita esclarecedora. Ele selecionou algumas pessoas, todas sem nenhum histórico de “anormalidade”. Eram cordiais com os vizinhos, trabalhadoras e sem histórico criminal. O psicólogo colocou esses homens e mulheres numa sala fechada, diante de uma pessoa amarrada numa cadeira por fios elétricos. A cada pergunta errada do prisioneiro, os voluntários deveriam aplicar um choque elétrico, que começava com 15 volts e iria ficando cada vez mais forte, até atingir 450 volts. Era tudo simulação, o homem acorrentado era um ator que fingia estar sendo eletrocutado. Porém, os voluntários não sabiam. Zimbardo queria ver até que ponto essas pessoas aceitariam eletrocutar outra “em nome da ciência”. Enquanto o ator urrava de dor, dizendo que tinha problemas no coração e implorava clemência, alguns voluntários se sentiam incomodados, mas uma voz os dizia: “não se preocupe, eu sou o responsável, continue por favor”. E os choques prosseguiam. No final, 90% das pessoas testadas foram até o fim, apertando o botão dos 450% volts.
Zimbardo concluiu que essa marca foi possível porque estes homens foram colocados numa situação em que a sua responsabilidade havia sido delegada para terceiros. Eles eram apenas cobaias agindo em nome da ciência, do bem maior. Nesse contexto, eles operavam de modo mecânico, sem refletir sobre seus atos. É exatamente a mesma lógica que levou Eichmman a se tornar um genocida. “Pessoas que se enquadram cegamente em coletivos convertem a si próprios em algo como um material, dissolvendo-se como seres autodeterminados. Isto combina com a disposição de tratar outros como sendo uma massa amorfa”. (Adorno).
Comparar-se a Hitler virou a tábua de salvação de muitos. Os integralistas dizem, não somos fascistas porque aceitamos negros e judeus no movimento. Os liberais dizem, não somos fascistas, pois queremos o Estado-mínimo. Os “anarcocapitalistas” também retrucam afirmando defender a liberdade individual. Os conservadores seguem o mesmo caminho. O fascista é sempre o outro. “No meu caso é diferente”. “Minha ideologia é pura”. “É apartidária”. “Defende valores superiores”. Repetem todos, esquecendo-se apenas que essas frases também foram pronunciadas por Hitler.
Enfim, o fascismo não está na sua ideologia. Mas na sua capacidade ou não de contestá-la e relativizá-la. Na indisposição de usar o pensamento contra si mesmo ou utilizá-lo como uma arma política para exercer poder.
A crítica do sujeito é dolorosa porque não admite bode expiatório. Porque lembra ao indivíduo que sua responsabilidade não pode ser delegada. Por este motivo, ela é tão difícil e incomoda. Mas é um exercício ético que precisa ser praticado. Pois, enquanto isso não for feito, Hitler estará andando ao seu lado.
Para Saber Mais
• Theodor Adorno – Educação Após Auschwitz
• Theodor Adorno – Personalidade Autoritária
• Michel Foucault – Introdução à Vida Não Fascista
• Philip Zimbardo – Efeito Lúcifer
• Theodor Adorno – Personalidade Autoritária
• Michel Foucault – Introdução à Vida Não Fascista
• Philip Zimbardo – Efeito Lúcifer
quarta-feira, 12 de julho de 2017
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terça-feira, 11 de julho de 2017
Efeito Lava Jato: EUA assumem controle da Embraer sem pagar nada | Luíz Müller Blog
Mais um legado que a lava jato vai deixar. Que é o mesmo que nada para o Brasil.
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segunda-feira, 10 de julho de 2017
In dubio pro societate é realmente um princípio?
O voto de Zvelter foi uma bola chutada de bandeja para Moro. As provas contra Temer são contundentes, não deixando, portanto, larga margem para dúvidas ao ponto de se apelar para um argumento que, em tempos de normalidade do estado democrático de direito, certamente seria tomado por zombaria.
Depois da literatura jurídica esotérica condenatória, do"domínio do fato", das convicções do power point, agora aparece o In dubio pro societate.
Significa basicamente que, diante de provas duvidosas ou inconsistentes, e talvez, por ausência de provas, na dúvida, o juiz joga pra plateia.
Alguma dúvida sobre contra quem a nova arma vai ser realmente utilizada?
In dubio pro societate é realmente um princípio?
Depois da literatura jurídica esotérica condenatória, do"domínio do fato", das convicções do power point, agora aparece o In dubio pro societate.
Significa basicamente que, diante de provas duvidosas ou inconsistentes, e talvez, por ausência de provas, na dúvida, o juiz joga pra plateia.
Alguma dúvida sobre contra quem a nova arma vai ser realmente utilizada?
In dubio pro societate é realmente um princípio?
Altamiro Borges: O terrorismo midiático contra a Venezuela
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domingo, 9 de julho de 2017
Em meio à articulação pró-Maia, Aldo Rebelo (PCdoB) lança manifesto pela união | GGN
Na presente conjuntura, os rachas no PT e seus aliado de esquerda, apontam para a direita.
Em meio à articulação pró-Maia, Aldo Rebelo (PCdoB) lança manifesto pela união | GGN
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Folha Diferenciada: Mauro Santayana: MULTAS DA LAVA JATO NÃO SÃO DINHEIRO 'RECUPERADO', MAS APENAS MAIS UMA FACETA DA DESTRUIÇÃO DE EMPRESAS, NEGÓCIOS, PROJETOS E OBRAS NO BRASIL.
Deputado da oposição fala em provocar violência para forçar intervenção estrangeira na Venezuela | Brasil 24/7
Finalmente se esboça reação ao olhar parcial e ideológico do PIG sobre os acontecimentos na Venezuela. A oposição promove a violência e o caos para corrigi-los em seguida à implantação da sua ditadura, se conseguem derrotar o governo bolivariano..
Deputado da oposição fala em provocar violência para forçar intervenção estrangeira na Venezuela | Brasil 24/7
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sábado, 8 de julho de 2017
Comitê de Luta Contra o Neoliberalismo: No Brasil foram assassinados 66 defensores de dire...
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África aberta. Por um continente sem fronteiras | Brasil 24/7
ÁFRICA ABERTA. POR UM CONTINENTE SEM FRONTEIRAS

Na África pré-colonial, a hospitalidade podia ser concedida a todas as pessoas, inclusive inimigos. Quando chegavam à terra de outros e desde que fossem em paz, os estrangeiros não eram tratados como inimigos. Tinham amplas possibilidades de se tornarem habitantes e vizinhos, e o direito de permanência temporária era quase universal. Dividir territórios usando fronteiras políticas é uma invenção colonial, um conceito trazido pelos colonizadores europeus. Para o pensador camaronês Achille Mbembe, a próxima fase da descolonização de África será a abolição das fronteiras entre povos herdadas da colonização.
8 DE JULHO DE 2017 ÀS 14:21 // 247 NO TELEGRAM
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Por: Achille Mbembe (*)
Fonte: Jornal Mail The Guardian – Johannesburgo
O drama da mobilidade humana pode bem ser o problema mais importante que o mundo enfrenta na primeira metade do século 21. A combinação de um capitalismo cada vez mais voraz com a saturação das comunicações pelas tecnologias digitais levou à aceleração e intensificação das interconexões. Vivemos numa época de interdependência planetária mas, para onde quer que olhemos, o impulso é no sentido do isolacionismo.
Se esta tendência persistir, o mundo de amanhã – e não apenas o mundo africano – será cada vez mais fechado, com toda a espécie de enclaves, becos sem saída e fronteiras inconstantes, movediças e difusas.
O poder de decidir quem pode se deslocar ou se fixar – onde e como – em breve estará no centro das lutas políticas sobre soberania. É certo que o direito dos cidadãos de outros países atravessarem as fronteiras de um país de acolhimento ainda não foi abolido. Mas, como mostram numerosos acontecimentos, isso se torna cada vez mais dependente de práticas aleatórias e pode ser suspenso ou revogado a qualquer momento e sob qualquer pretexto.
Se as coisas estão atingindo este ponto é porque está tomando forma um novo regime de segurança global. Um regime caracterizado pela externalização, a militarização e a miniaturização das fronteiras. Isso significa uma infinita segmentação e restrição dos direitos e uma expansão quase generalizada das técnicas de localização e vigilância como método privilegiado de prevenção. A sua função será facilitar a mobilidade de determinadas pessoas, proibindo ou recusando a (mobilidade a outras pessoas.
Um tal regime abre caminho a formas inéditas de violência racial dirigida principalmente contra as minorias, os mais desfavorecidos e os já vulneráveis. Uma violência sustentada por novas lógicas de retenção e prisão, de expulsão e deportação.
Além disso, a mobilidade é cada vez mais definida em termos geopolíticos, militares e de segurança. Em teoria, só aqueles que apresentem o menor perfil de risco podem deslocar-se. Na prática, o cálculo do risco serve principalmente para justificar um tratamento desigual e discriminatório conforme a cor da pele.
Balcanização e isolamento
À medida que a tendência a favor da balcanização e do isolacionismo se intensifica, a desigual distribuição de poderes para negociar fronteiras em escala global torna se uma característica-chave dos nossos tempos.
No Norte, o racismo anti-imigrantes continua crescendo. Os considerados “não-europeus” ou “não brancos” estão sujeitos a formas abertas ou veladas de violência e discriminação. O próprio racismo foi reformulado a nível de discurso. Diferença e estrangeirismo são agora preconceitos abertamente interpretados como culturais ou como religiosos.
Globalmente, a tendência é retirar o direito de deslocação ao maior número possível de pessoas, ou sujeitar esse direito a condições draconianas que objetivamente impossibilitem a mobilidade.
Nos casos em que o direito de deslocação tenha sido concedido, esforços similares são desenvolvidos para tornar o direito de permanência o mais precário possível. Neste regime de mobilidade global que lembra o do Apartheid, a África é duplamente penalizada, do exterior e do interior. É difícil encontrar no mundo um país que não considere indesejáveis os migrantes africanos.
Ao mesmo tempo, limitada por centenas de fronteiras internas que tornam os custos da mobilidade altamente proibitivos, a África está encurralada na faixa de tráfego lento da estrada e cada vez se assemelha mais a uma enorme prisão ao ar livre.
Na sua tentativa de conter os fluxos migratórios da África subsaariana, a Europa está financiando os países de origem e de trânsito para que as pessoas que procuram mudar de país não possam partir ou, caso o façam, não consigam atravessar o Mediterrâneo. O objetivo último do Fundo de Emergência da União Europeia para a África, recentemente criado, é cortar qualquer via legal às migrações africanas em direção à Europa.
Em troca de dinheiro, regimes africanos brutais e corruptos estão encarregados de bloquear a saída de potenciais migrantes africanos e de reter os que possam ir à procura de asilo. Muitos foram recrutados como elementos-chaves do sistema de deportação e de regressos forçados, que se tornou um marco da política europeia anti-imigração africana.
Controles discriminatórios
De fato, nenhum viajante com um passaporte africano ou pessoa de ascendência africana está hoje livre de buscas e detenções humilhantes na Europa. Muito poucos estão isentos de verificações invasivas e demoradas de identidade nos trens, ônibus e qualquer mio de transporte coletivo, bem como nas autoestradas ou nos postos de controle rodoviário. Muito poucos gozam do direito a uma audiência antes do confinamento no local de verificação ou antes da deportação para seus países de origem. Nas fronteiras e outros postos de controle, estão quase automaticamente entre aqueles que serão sujeitos a um exame detalhado ou cuidadosamente inspecionados. Permanentemente, sob o prisma do perfil racial, estão quase sempre entre aqueles que têm um estatuto proibido ou penalizado.
No próprio continente africano, os governantes africanos pós-coloniais não conseguiram articular um quadro legislativo comum e iniciativas políticas relacionadas com a gestão das fronteiras, a modernização dos registros civis, a liberalização dos vistos ou o tratamento dos cidadãos de outros países e continentes que residem legalmente nos Estados africanos membros.
O fim do domínio colonial não deu início a uma nova era caracterizada pela extensão do direito à liberdade de movimento para todos. Em vez disso, as fronteiras coloniais tornaram-se blindadas e não se verificou qualquer impulso decisivo para a integração regional. Com exceção da Comunidade Econômica da África Ocidental, o direito à mobilidade dentro e fora das fronteiras nacionais e regionais continua a ser um sonho.
Nesta era de alta velocidade, a mobilidade lenta corresponde de forma sistemática à cor da pele e o continente africano está paradoxalmente encurralado numa via de andamento lento.
Mas nem sempre foi este o caso.
Na nossa tentativa de elaborar uma política de migração centrada na África, podem ser contraproducentes as categorias e conceitos importados do léxico ocidental, tais como “interesse nacional”, “riscos”, “ameaças” ou “segurança nacional”. Referem-se a uma filosofia de movimento e a uma filosofia de espaço inteiramente baseada na existência de um inimigo num mundo dominado pela hostilidade. Esta é a razão pela qual, hoje, tradições profundamente arraigadas do anti-humanismo ocidental encontraram a sua expressão mais evidente nas atuais políticas anti-imigração. Estas últimas são usadas como meios para travar uma guerra social em escala global.
A África pré-colonial pode não ter sido um mundo sem fronteiras. Mas onde barreiras existiam, eram sempre porosas e permeáveis. Como mostram as tradições de comércio de longa distância, a circulação era fundamental na produção de formas culturais, políticas, econômicas e sociais. Sendo o veículo mais importante de transformação e mudança, a mobilidade era o princípio condutor da delimitação e organização do espaço e dos territórios.
Redes de comunicação, caravanas e encruzilhadas eram mais importantes do que fronteiras. 0 que mais importava era o quanto as correntes se cruzavam com outras correntes. Neste regime de interseção flexível e generalizada, um alto grau de mobilidade em todos os estratos da sociedade era também um meio de lidar com a vulnerabilidade e a incerteza.
Antigas tradições de mobilidade
Certamente, as fronteiras políticas definiam alguns indivíduos como membros ou como primeiros a chegar e outros como estranhos ou últimos a chegar. Mas a riqueza nas pessoas sempre venceu a riqueza em coisas e havia sempre outras formas de associação. A norma era construir alianças através do comércio, do casamento ou da religião e incorporar recém chegados, refugiados e requerentes de asilo nas políticas existentes.
A forma Estado era apenas uma das inúmeras formas de governo que as pessoas adotavam. A figura do indivíduo incluía não apenas os vivos mas também os mortos e os não nascidos, humanos e não humanos.
A hospitalidade podia ser concedida a todas as pessoas, inclusive inimigos. Quando chegavam à terra de outros e desde que fossem em paz, os estrangeiros não eram tratados como inimigos. Tinham amplas possibilidades de se tornarem habitantes e vizinhos, e o direito de permanência temporária era quase universal.
Dividir territórios usando fronteiras políticas é uma invenção colonial. Ao instituir uma relação hostil entre a circulação de pessoas e a organização política do espaço, o colonialismo inaugurou uma nova fase na história da mobilidade no continente.
Ao aderir ao modelo “estatocêntrico” de nações territorialmente delimitadas, com fronteiras fechadas e bem guardadas, os Estados africanos pós-coloniais rejeitaram longas tradições de circulação que sempre tinham sido o motor dinâmico de mudança no continente. Ao fazer isso, aderiram ao impulso anti-humanista inerente às filosofias ocidentais de movimento e espaço e voltaram-no contra o seu próprio povo.
Desde então, a entronização do Estado-nação causou danos incalculáveis ao destino de África no mundo. Os custos humanos, econômicos, culturais e intelectuais do regime de fronteiras existente no continente foram enormes. Chegou o momento de suprimi-lo.
África, novo espaço de liberdade
Tornar-se uma vasta área de liberdade de movimentos é sem dúvida o maior desafio que a África enfrenta no século 21. O futuro da África não depende de políticas de imigração restritivas e da militarização de fronteiras.
0 continente deve abrir-se a si próprio. Deve transformar-se num vasto espaço de livre circulação. Esta é a única maneira de se tornar o seu próprio centro num mundo multipolar.
Para que a mobilidade se torne a pedra angular de uma nova agenda pan-africana, precisamos deixar para trás modelos migratórios baseados em conceitos anti-humanistas como o “interesse nacional” e abraçar as nossas velhas tradições de flexibilidade, soberania interligada e segurança coletiva.
Num continente onde, como resultado da engenharia colonial, as fronteiras do Estado-nação estão fraturadas, e ainda assim os Estados nacionais têm uma capacidade limitada para inspecionar, registrar e localizar pessoas, chegou o momento de os Estados africanos desenvolverem uma genuína política comum de mobilidade, com instrumentos legalmente vinculatórios.
Para alcançar a meta de um continente sem fronteiras, a identificação biométrica e as bases de dados interligadas podem ser inevitáveis. Devemos utilizar métodos de identificação e tecnologias de segurança para gerar uma maior mobilidade no continente, em vez de consolidar o regime de duplo confinamento a que a África se viu reduzida.
Nova fase da descolonização da África
Estamos chegando a um ponto em que, devido à geopolítica dos nossos tempos, potências externas poderão estar em condições de ditar a cada um dos nossos frágeis Estados nacionais os termos e condições em que o nosso povo pode se deslocar, inclusivamente dentro da própria África.
A próxima fase da descolonização da África terá que ver com a concessão da mobilidade a todo s os povos e a reformulação dos termos de adesão num conjunto político e cultural que não se confina ao Estado-nação. No continente, não há nenhum país mais bem colocado para assumir a liderança desta questão do que a África do Sul.
Se isso não for feito, limitar-nos-emos a reforçar as classificações raciais já em vigor no imaginário global e em nome das quais somos constantemente humilhados e despojados de dignidade em quase todas as fronteiras existentes no mundo contemporâneo.
(*) Achille Mbembe, nascido na República de Camarões, é professor e investigador em História e Política no Hits Institute for Social and Economic Research (NISERJ. Professor de História na Universidade de Nitwatersrand, na África do Sul, Achille Mbembe é um dos maiores teóricos do pós-colonialismo na África. Graças aos seus trabalhos sobre a descolonização, Mbembe tornou-se uma das principais vozes do continente africano.
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