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terça-feira, 9 de junho de 2015

Carina Vitral, da UNE: 'A direita ainda não ganhou a juventude' — Rede Brasil Atual

ESTUDANTES

Carina Vitral, da UNE: 'A direita ainda não ganhou a juventude'

Nova presidenta fala sobre reforma universitária, chama Eduardo Cunha de golpista e diz que redução da maioridade penal é retrocesso sem precedente: 'Vale tudo para barrar esse retrocesso'
por Tiago Pereira, da RBA publicado 09/06/2015 16:39, última modificação 09/06/2015 19:32
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VITOR VOGUEL/UNE
Carina Vitral
Carina Vitral, nova presidenta da UNE, eleita em congresso encerrado no último domingo, em Goiânia
São Paulo – Eleita no último domingo (7) com 58,4% dos votos, a nova presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, defende a expansão e consolidação das universidades públicas, além de ampliação do "controle social" e da transparência para políticas públicas de acesso ao ensino privado, como o Prouni.
Primeira mulher a suceder outra à frente da maior entidade estudantil da América Latina, que tradicionalmente revela nomes para a política nacional, Carina falou à Rede Brasil Atualsobre os desafios para os próximos dois anos, o novo perfil do universitário brasileiro, os impactos do ajuste fiscal na educação e a disputa pelos corações e mentes dos jovens brasileiros, num cenário de ascensão do conservadorismo no Congresso e nas ruas.
Aos 26 anos, estudante de Economia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, a presidenta diz que "a direita ainda não ganhou a juventude" e que é responsabilidade do movimento estudantil, mas também do governo, fazer a disputa pela consciência da juventude.
Confira abaixo a íntegra da entrevista à RBA.
O que representa o fato de suceder outra mulher na presidência da UNE? É um sinal de mudança ou apenas uma bem-vinda exceção?
Com certeza, não é uma coincidência. É uma política clara da UNE de empoderar mulheres entre as suas lideranças. Ao longo de toda a história da UNE, apesar de nos seus 78 anos de existência sempre estar ao lado do povo brasileiro, ainda assim, mesmo em uma das entidades mais populares e progressistas, o machismo ainda é uma realidade, já que nesses 78 anos, apenas seis mulheres presidiram a entidade. É um fato que a gente precisa comemorar e aprofundar.
Na medida em que você tem uma presidenta, criam-se esperanças espelhadas nas lideranças. Nesse último período, milhares de mulheres são presidentas dos centros acadêmicos, dos diretórios centrais, são lideranças de base, fruto também de uma política de empoderamento das mulheres.
A eleição de uma estudante oriunda de uma universidade privada é reflexo também de uma mudança do perfil socioeconômico das instituições de ensino superior, rompendo com o padrão de lideranças saídas das escolas públicas?
Desde a década de 90, as mulheres são maioria na universidade. Mas agora a gente conseguiu aprofundar a mudança e a diversificação da composição social da universidade. Hoje, tem mais negros e negras, estudantes de baixa renda. O movimento estudantil também mudou muito. Havia uma ideia na sociedade de que o movimento estudantil só existia na universidade pública. Hoje, isso não é uma realidade. A maioria dos delegados do congresso da UNE foi de universidades privadas. O movimento estudantil se fortalece nas universidades privadas. É claro que não com as mesmas condições que tem nas públicas. A gente tem uma maior liberdade nas universidades públicas. Nas universidades privadas, a gente tem alguns obstáculos como catracas, coordenadores que proíbem, inibem, ameaçam e suspendem estudantes que se organizam. Isso não é uma coisa fácil, mas o perfil social do movimento estudantil também está mudando.
Como recebeu a confirmação, dada pelo ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, ontem (8), da reabertura de novas vagas para o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) no segundo semestre?
É uma conquista grande. A UNE exigiu, na reunião que teve antes do congresso, com a presidenta Dilma e com o ministro da Educação, a abertura de novos contratos para o Fies. Ele ainda não especificou a quantidade de contratos. É uma coisa positiva. O que a gente defende é que tenha mais transparência no Fies.
Na nossa opinião, o mecanismo de seleção para o Fies deveria ser o Enem. Tal qual é o Prouni, o Enem selecionar previamente e o MEC ter uma maior transparência sobre as vagas disponíveis para o financiamento. O Fies, hoje, é o único programa educacional em que os empresários detêm o controle, seja de vagas, seja na documentação, no critério de renda. Existe pouco controle social. O estado precisava ser mais rígido com relação a isso.
A gente teve um período muito conturbado de mudanças no Fies, nesse primeiro semestre, mas que, no mérito, a UNE concorda que precisava existir uma maior fiscalização sobre o aumento de mensalidades, porque as universidades cometiam grandes abusos. Aumentavam a mensalidade em 20% acima da inflação. A gente que conhece a realidade da universidade privada sabe que não existe ampliação de qualidade. Acima da inflação, é injustificável.
Como enxerga a suposta dicotomia entre a ampliação do acesso ao ensino superior e os baixos níveis de qualidade?
A ampliação não tem contradição com a qualidade. O que tem contradição com a qualidade é o lucro. As universidades federais provaram que dá para ampliar, mantendo a qualidade. O problema, na universidade privada, é que para maximizar os lucros, os empresários da educação fazem tudo. O Fies veio suprir o financiamento para vagas que já existiam. Então, não dá para dizer que a qualidade diminuiu por causa da expansão. O Fies, por exemplo, de 2013 para cá, aumentou em quase 1 milhão as vagas, sem que houvesse expansão. Apenas gente que já estava na universidade passou a ter acesso ao programa, na mesma qualidade.
A medida que a UNE defende para a qualidade do ensino superior é uma maior regulamentação do ensino privado.  Hoje, não existem regras claras para o funcionamento da educação superior, um mínimo de qualidade que a educação superior deve ter. Não existe uma lei que regulamente isso.
Está tramitando, no Congresso Nacional, a criação do Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação do Ensino Superior, uma autarquia que o MEC propõe para fiscalizar, punir e supervisionar a educação superior na ponta. Isso, pra gente, caminha no sentido de uma maior regulamentação, e tem o apoio da União Nacional dos Estudantes.
A reforma universitária que a gente defende leva em conta uma atualização que a UNE fez da nova realidade da universidade. A universidade, hoje, é diferente da universidade da década de 90. Através das cotas, do Enem, da interiorização da universidade, é uma outra universidade.
Quais são os principais pontos da reforma universitária defendida pela UNE para o próximo biênio?
A reforma universitária, para o período atual, leva em conta a concretização da expansão que a gente viveu, através da conclusão das obras de novos campi, através de uma política de maior assistência estudantil, que hoje ganha relevo por causa da nova composição social da universidade, e também a concretização do tripé da universidade nesses novos campi, como a extensão e a pesquisa, além do ensino.
Muitos dos campi não têm programas de pós-graduação. É um ciclo de conclusão e estruturação muito forte que a gente precisa viver, no próximo período. A expansão não está resolvida. o problema do acesso não está resolvido. Por isso que a gente defende que a universidade pública continue sendo ampliada, principalmente para que a gente consiga avançar na proporção do ensino público com relação ao ensino privado.
Se é verdade que a educação privada ampliou, a universidade pública também ampliou. E esta proporção ainda não mudou, desde o período neoliberal que viveu o Brasil. Essa disputa pelo público é uma disputa que a UNE vai comprar no próximo período.
Por outro lado, na educação privada, é a luta pela regulamentação, que hoje tem bandeiras bastante simbólicas. Uma pauta que está pegando fogo nas universidades privadas é o fim das disciplinas online obrigatórias. A partir de uma portaria do MEC que permite que 20% das disciplinas sejam a distância, nos cursos presenciais, as universidades têm se utilizado desse dispositivo para obrigar os estudantes a fazer disciplinas a distância nos cursos presenciais.
Na nossa visão, isso tem de ser uma opção do estudante. A UNE não tem nenhum preconceito com a modalidade de ensino a distância, mas, na nossa opinião, para se ter qualidade, é preciso mais investimentos, porque a tecnologia é uma coisa cara. O problema é que, nas universidades privadas, o ensino a distância nos cursos presenciais vem como uma medida para reduzir os custos e isso necessariamente resulta em uma redução da qualidade, numa precarização muito grande, contra o que os estudantes têm se revoltado. Essa é, hoje, uma das maiores bandeiras de luta nas universidades privadas.
Quais os impactos do ajuste fiscal na educação e a sua opinião, como estudante de economia, sobre as medidas adotadas até o momento?
A opinião da UNE com relação ao ajuste é que, hoje, o desafio da saída da crise econômica é a retomada do crescimento. A gente não acha que reduzir o papel do Estado possa contribuir para ampliar o investimento privado, no Brasil, e a gente retomar o crescimento e o emprego, principalmente na indústria.
O corte na educação é ainda mais desastroso, porque boicota, inclusive, esse crescimento que a gente precisa ter no médio prazo. Segundo dados do Ministério, o corte é mais concentrado no Pronatec (Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego) e no Ciência Sem Fronteiras, havendo um corte menor nas atividades-fim das universidades e no Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação). O grande problema é que a atual situação da universidade faz com que a gente tenha que investir mais na educação, e não menos. O corte, na verdade, mantém o investimento atual, quando a gente precisava ampliar o patamar do investimento.
Por isso, está sendo muito difícil a situação na universidade. Restaurantes universitários estão sendo fechados, por falta de condição das reitorias em pagar as empresas terceirizadas, e os terceirizados têm parado as suas atividades – bandejão, moradia, segurança, limpeza, atividades essenciais nas universidades. Justamente para os estudantes em condições mais frágeis. Penaliza os estudantes trabalhadores, que dependem dessas atividades para se manter na universidade.
Como se sente como uma jovem liderança de esquerda, em um momento em que a direita está "na moda"?
O desafio para a UNE, no próximo período, é disputar a consciência da juventude. A crise econômica unificou a direita que, há muito tempo, no Brasil, estava fragmentada. A direita, os conservadores, a mídia hegemônica. O desafio, agora, é unificar o lado de cá. A esquerda, historicamente, também é bastante fragmentada. Construir lutas unitárias é bastante importante.
Acho que a UNE é um grande instrumento para construir lutas unitárias, porque ela congrega, é uma das únicas entidades do movimento social, uma pluralidade muito grande de pensamentos no interior da entidade. O congresso da UNE mostrou isso.
Essa diversidade, essa unidade, é um instrumento muito forte para disputar a consciência da juventude. Na verdade, se as ideias conservadoras têm ganhado a sociedade, isso existe em menor grau entre a juventude. A manifestação do dia 15, por exemplo, você não pode dizer que foram jovens.
A direita ainda não ganhou a juventude. Isso é uma coisa que a gente precisa dizer. A juventude que ascendeu à universidade, que ascendeu aos seus primeiros direitos, eu chamaria de contraditória, não chamaria de direita.
Como surge esse personagem, o "jovem contraditório"– o indivíduo que é prounista, mas contra as cotas, ou ainda o estudante que usufrui do Fies, mas é a favor da redução da maioridade penal  – e como a UNE pretende atuar nessa disputa por corações e mentes?
A raiz disso é a falta de debate político, que a gente não fez nesses últimos 12 anos. A gente concebeu vitórias econômicas e de direitos sociais para o povo, mas pouco se falou sobre elas. E quando a gente não disputa, não diz que o estudante entrou na faculdade através do Prouni, e que isso é fruto de uma vitória coletiva, em vez só de vitórias individuais.
De fato, a gente que é jovem luta muito para conseguir estudar. A gente supera barreiras muito fortes. Os estudantes são muito guerreiros, porque trabalham o dia inteiro, pegam em média três horas de ônibus e transportes coletivos, nas grandes cidades. Existe uma dose de vitória pessoal muito forte que a gente precisa valorizar.
Mas essa ascensão também é uma vitória coletiva e acho que a gente falou pouco sobre isso, durante os 12 últimos anos. Então, é natural que a nossa geração ache que melhorou de vida por esforço próprio. O capitalismo prega isso, o individualismo. É preciso transformar essas vitórias em vitórias coletivas, propagandeando isso, por parte do movimento social, mas também por parte do governo.
Sobre as grandes questões políticas do momento, como pretende mover a entidade no debate relativo à reforma política e à proposta de redução da maioridade penal? Essa última é a questão que mais preocupa?
Esses dois temas serão centrais para o movimento estudantil, num período muito curto. A primeira, a reforma política, é fruto de uma mobilização social muito grande e uma pressão política, em especial da juventude, que hoje não se vê mais representada nas instituições, tais quais elas estão. São sub-representadas no Congresso Nacional. Como a diversidade do povo é sub-representada nesses espaços existe uma crise grande de representatividade que forçou a sociedade a discutir uma reforma política.
A gente foi pego de surpresa por essa correlação de forças do Congresso Nacional, muito conservador, eleito exatamente sobre os marcos desse sistema político, que é a prova de tudo que a gente fala, de que as coisas estão piorando no nosso sistema político.
A gente tomou um golpe do Eduardo Cunha (presidente da Câmara), que colocou uma pauta que já havia sido derrotada, o financiamento privado dos partidos políticos. Isso foi uma manobra muito grande, que faz com que os movimentos sociais se unam para recorrer ao STF, seguir a votação em segundo turno, no plenário, e acender essa luta, ainda mais forte e unitária.
A redução da maioridade penal é uma pauta muito simbólica. Vai ser uma prioridade. É um retrocesso sem precedentes. É uma pauta que a gente derrotou na década de 90. A PEC 171, da redução da maioridade penal, é da década de 90, que eles tiraram do mofo e do pó para impor um retrocesso para a juventude, em tempos onde se discute o genocídio da juventude negra, num período em que a parcela de jovens dentro da sociedade é maior nos últimos anos. É uma derrota simbólica que a gente não pode viver. Vale tudo para barrar esse retrocesso.
Carina Vitral, da UNE: 'A direita ainda não ganhou a juventude' — Rede Brasil Atual

“Cobra criada” do jornalismo, Leandro Fortes lança agência voltada às redes sociais

“Cobra criada” do jornalismo, Leandro Fortes lança agência voltada às redes sociais

Acordo para o fim da greve pode cair por terra com apresentação de emendas | Paraná Portal

Acordo para o fim da greve pode cair por terra com apresentação de emendas

Poucas horas depois da assembleia que votou o fim da greve dos professores, o acordo que motivou a volta ao trabalho pode vir a ser comprometido. Deputados estaduais de oposição  afirmam que vão apresentar emendas ao substitutivo do governo ampliando o índice de reajuste para 8,17%.
O presidente da Alep, o deputado Ademar Traiano (PSDB) adiantou que, se as emendas forem apresentadas, ele não irá colocar a proposta em votação. O temor é que o recém-criado “bloco independente” e a oposição, somada a alguns indecisos, comprometam os planos do governo. Anibelli Neto e Requião Filhos, os dois do PMDB, também defendem o reajuste pela inflação.
Em pronunciamento na tribuna, o deputado Paranhos, do PSC, partido com a maior bancada na casa, garantiu que o grupo vota pelo acordo: “sou a favor dos 8,17%,  mas a bancada vota pelo acordo celebrado entre o governo e a assembleia”.
Segundo o líder da oposição, Tadeu Veneri (PT), uma reunião da bancada, na noite desta terça-feira, deve definir se as emendas serão apresentadas ou não. “O superávit do estado é de R$ 843 milhões segundo o último balanço. O governo tem recursos para pagar a inflação.  Mas vamos avaliar se adianta apresentar as emendas apenas para marcar posição”.
Sem as emendas, o substitutivo acordado com os professores vai a votação nesta quarta-feira. A sessão foi antecipada para 13h30 e deve ser convocada sessão extraordinária para acelerar o processo de votação.
Acordo para o fim da greve pode cair por terra com apresentação de emendas | Paraná Portal

Nota sobre os acontecimentos da Assembleia Estadual do dia 03 de junho |

NOTA DO SINTE SC SOBRE AS AGRESSÕES PROMOVIDAS POR PROVOCADORES NA ÚLTIMA ASSEMBLEIA DA CATEGORIA.

É Lamentável ver essa prática se repetir em assembleias de professores pelo Brasil afora. Não é explosão de momento, mas uma ação arquitetada previamente. Algumas correntes políticas têm adotado esta tática com o claro objetivo de intimidar as direções sindicais. É hora de se investigar os criminosos que promovem esses atentados para que se tomem as devidas providências legais.





Nota sobre os acontecimentos da Assembleia Estadual do dia 03 de junho |

A retórica reacionária |

A retórica reacionária

Nos dias que correm, não é raro ouvir a pregação reacionária contra toda e qualquer tentativa de mudança. Contra a liberalização dos costumes, contra a ampliação dos direitos das minorias, contra a tolerância religiosa e/ou política, levantam-se as vozes da reação que bradam seus credos em tom elevado e dissonante. Não querem mudanças nem diferenças! Longe de argumentar de modo apropriado em benefício do que defendem, pregam o não às aspirações transformadoras atribuindo-se-lhes toda sorte de degeneração dos “valores sagrados” que cultuam.
Albert O. Hirschman denominou essa pregação de “retórica reacionária” (ou “retórica da intransigência”, na opção do editor brasileiro) e examinou os seus principais argumentos num pequeno livro precioso. Tendo como marco histórico a Revolução Francesa, talvez a iniciativa mais ousada do Ocidente, no sentido da mudança, o autor busca dissecar os pressupostos mais importantes do pensamento conservador, em sua batalha incansável contra toda e qualquer tentativa de transformação da realidade (ou do status quo, por assim dizer). Ao longo da história, Hirschman identificou algumas ondas reacionárias recorrentes que se levantam sempre que os esforços transformadores ditos progressistas prometem obter algum êxito.
Com base numa tríade explicativa apresentada pelo sociólogo inglês T. H. Marshall, em 1949, a ciência social moderna consagrou uma linha evolutiva de expansão dos direitos humanos que pode ser esboçada nos seguintes termos: no século XVIII, expandiu-se a cidadania civil (liberdades de expressão, pensamento, religião; igualdade perante a lei); no século XIX, estendeu-se a cidadania política (participação popular no exercício do poder político, sobretudo, com o direito de voto — o sufrágio universal); e, no século XX, ampliou-se a cidadania socioeconômica com a conquista dos direitos essenciais a educação, saúde, bem-estar econômico e segurança.
Uma visão otimista perpassou grande parte dos estudos sobre o tema, consolidando a percepção de que esses ganhos são cumulativos e perenes, caracterizando uma “evolução progressista” das sociedades ocidentais. O que Hirschman procura mostrar em seu pequeno livro precioso, contudo, é que nenhuma dessas conquistas de fato ocorreu sem a contrapartida de uma argumentação oposta que, muitas vezes, resultou em movimentos políticos que visaram e conseguiram limitar ou eliminar o seu alcance efetivo. As experiências fascistas são exemplos bem eloquentes neste sentido.
Ao sistematizar a abordagem sobre os principais argumentos esgrimidos pelos reacionários, Hirschman os organiza em três teses essenciais: a da perversidade, a da futilidade e a da ameaça. Embora sejam distintos em alguns aspectos da sua formulação, os argumentos arrolados nessas três teses essenciais apontam para uma mesma direção: toda tentativa de mudança é inútil, “todos os tiros saem pela culatra”. Um dos elementos mais amplamente explorados como “comprovação” dessa assertiva foi a etapa de “tirania e terror” implantada por uma revolução (a de 1789) que dizia buscar a liberdade, pretendendo-se mostrar com isso “a disparidade existente entre as intenções e os resultados efetivos”. As ações humanas, pregava o discurso reacionário, estão fadadas ao fracasso quando desejam se sobrepor à Providência Divina, o elemento definidor por excelência da ação do homem!
Em sociedades altamente hierarquizadas, como as do Ocidente, as camadas inferiores eram vistas com o mais profundo desprezo pelos ricos e pela classe média. Quando essas mesmas camadas começaram a assumir algum protagonismo na luta por direitos e intensificaram as explosões sociais, ao longo do século XIX, a esse profundo desprezo veio se juntar o temor (daí o epíteto de “classes perigosas” que lhes foi atribuído). A participação das massas na política era vista como uma verdadeira aberração e o sufrágio universal como o ápice da estupidez humana, promovendo-se ataques sistemáticos à maioria e ao governo da maioria. Um dos expoentes da crítica ferrenha à política democrática foi Nietzsche, que cunhou a expressão “instinto de manada” para se referir ao comportamento irracional frequentemente associado às multidões. Dar a elas o poder de decisão por meio do voto era nada menos do que uma temeridade!
Mas é na economia, mais do que em qualquer outra atividade humana, que a doutrina do efeito perverso se revela mais contundente ainda: a ideia de um mercado que se autorregula rejeita, por principio, qualquer tipo de interferência. “(…) qualquer política pública que tenha por meta mudar resultados do mercado, tais como preços e salários, torna-se automaticamente uma interferência nociva em processos benéficos de equilíbrio” (p.30).
Na questão da assistência social aos pobres, então, a tese da perversidade se amplia mais ainda e alcança o seu verdadeiro paroxismo, ao pretender demonstrar os efeitos adversos do assistencialismo sobre as condições da pobreza: dele decorreria “o incentivo à preguiça e à depravação, induzindo-se a uma pobreza ainda maior”. Portanto, a assistência pública aos pobres estaria condenada ao fracasso, pois, em vez de procurar trabalho e qualificação melhores, “os indivíduos se alistam na assistência social e se acomodam na preguiça e na pobreza”. Por mais que os estudos e pesquisas na área tenham bons exemplos de êxito desse tipo de política pública, em todo o mundo, os argumentos reacionários prosseguem difundindo a tese da perversidade a respeito de qualquer iniciativa dessa espécie.
Agarrando-se a premissas e princípios consagrados, os principais argumentos da retórica reacionária insistem na ideia da futilidade de qualquer tentativa de mudança. Para desmerecer e ridicularizar os esforços e sacrifícios daqueles que lutam pelas transformações positivas da realidade (aquelas que buscam ampliar os direitos da maioria), pregam o pressuposto de que as “estruturas profundas” da sociedade permanecerão sempre intactas e toda mudança será meramente aparente, apenas de fachada. A frase mais célebre a esse respeito foi cunhada pelo jornalista francês Alphonse Karr, em 1849: “plus ça change, plus c’est la même chose” (quanto mais muda, mais permanece igual).
Por outro lado, numa linha argumentativa semelhante, invoca-se a suposição de que não há nada de novo — “tudo já estava lá”. Todas as realizações apregoadas pelos autores das mudanças são esvaziadas por meio da ênfase nas continuidades, em detrimento das rupturas. “Vocês não fizeram nada de novo, apenas continuaram o que estava sendo feito, o que já existia.” É o outro lado da moeda de que nada muda de fato, tudo continua sendo como sempre foi. Essa descrença na possibilidade de mudança é a pedra de toque do pensamento reacionário, a sua grande fonte inspiradora.
Fútil, perversa, ameaçadora, a mudança é um mal em si mesmo no pensamento conservador. O risco maior, contudo, como bem demonstra Hirschman, reside no fato de que o pensamento progressista, ao tentar se contrapor às ondas reacionárias recorrentes, termine por se cristalizar em formas antitéticas tão fechadas e intransigentes quanto essas que pretende contrastar.
Referência:
Albert O. Hirschman. A retórica da intransigência: perversidade, futilidade, ameaça.Tradução: Tomás Rosa Bueno. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
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Impostos e sonegação |

Impostos e sonegação

Há anos, aqui no Brasil, temos visto uma campanha sistemática contra o volume de arrecadação de impostos recolhidos pelos governos em seus três níveis principais: municipal, estadual e federal. Com farta repercussão na mídia, em geral, essa campanha acabou, pouco a pouco, disseminando uma ideia muito perigosa: a de que os tributos pagos pelos contribuintes não revertem em benefícios correspondentes e são, portanto, injustos, ilegítimos e excessivos. A Associação Comercial de São Paulo instalou inclusive um painel eletrônico, num dos locais mais conhecidos da cidade de São Paulo, que atualiza a todo momento o valor dos milhões, bilhões e trilhões de reais que vão sendo pagos em impostos por todos os brasileiros. Sem especificações, sem explicações, sem comparações (com outros países, com outras épocas de nossa história, por exemplo), esses números ficam lá sendo exibidos como uma fonte permanente de “reclamação” quanto à mão pesada dos governos sobre as rendas e receitas dos contribuintes. “Paga-se muito”, é a mensagem daquele que ficou conhecido como o “impostômetro”. Em contrapartida, um grupo de auditores fiscais da Receita Federal (o órgão encarregado de recolher os tributos devidos à União) criou também um painel eletrônico em Brasília, onde são atualizados os números da sonegação de impostos que grassa no Brasil. Segundo as estimativas desse que foi apelidado de “sonegômetro”, só nos primeiros cinco meses de 2015, o volume de sonegações já havia alcançado os surpreendentes 200 bilhões de reais. É muito dinheiro.
Vários escândalos têm ganhado os noticiários, envolvendo a sonegação de impostos, a evasão de divisas, a remessa ilegal de dinheiro para o exterior. Recentemente, ficamos sabendo que quase 8 mil brasileiros possuem e/ou possuíram contas correntes no banco HSBC da Suíça, sem que se tenha certeza de que esse dinheiro depositado no exterior tenha chegado lá de forma legal e devidamente declarado às autoridades fazendárias do Brasil. Tudo está sendo investigado, é o que dizem os responsáveis pela fiscalização. Veremos. Por outro lado, descobrimos também há pouco tempo que o setor encarregado de fiscalizar a aplicação de multas tributárias a grandes devedores da Receita Federal não anda fazendo o seu trabalho com a lisura devida, encontrando-se sob suspeita de aceitar propinas para suspender ou reduzir as cobranças. Ou seja, grandes volumes de dinheiro que deveriam estar sendo recolhidos aos cofres públicos (estima-se que cheguem a 19 bilhões de reais, neste caso específico das multas sonegadas) têm sido sistematicamente subtraídos por meio de expedientes ilícitos.
Não custa lembrar que o pagamento de impostos é parte fundamental do contrato social. A origem dos Estados modernos está diretamente vinculada à criação de um conjunto de instituições — políticas, administrativas, fazendárias, legislativas, judiciárias e muitas outras — que precisam ser mantidas e expandidas para garantir o pleno funcionamento de uma formação social. As comunidades humanas, nas suas mais variadas formas, criam os seus arcabouços institucionais a fim de assegurar a continuidade de suas organizações sociais. Não é uma tarefa simples, e demanda recursos.
Sem um arcabouço institucional minimamente articulado, prevalece a “lei do mais forte”. Com isso, em lugar de uma organização social qualquer (por mais imperfeita que seja), tem-se a barbárie. A história mostra que sempre é possível aperfeiçoar e melhorar as instituições, e foi o que aconteceu com a passagem do Estado absolutista para o Estado liberal-democrático atual, com a sua tradicional divisão de poderes (executivo, legislativo, judiciário). Uma democracia representativa e participativa ainda é a melhor forma de organização social de que dispomos, para enfrentar os grandes desafios da emancipação humana. Até que se criem outras, mais eficazes e mais factíveis, devemos lutar para preservá-la. E a preservação de uma sociedade democrática representativa e participativa passa, necessariamente, obrigatoriamente, pelo reconhecimento de que todos têm responsabilidades em relação à sua continuidade, e devem votar e pagar seus impostos com a regularidade definida em lei.
Eventuais questionamentos podem ser encaminhados pelos canais competentes: se eles não são ágeis nem eficientes, é preciso reformá-los, aprimorá-los. O que não se deve aceitar é essa postura abertamente delinquente de admitir que a “sonegação é justa” porque os impostos, na opinião de alguns (ou de muitos), não revertem nos benefícios esperados e/ou desejados. Esta não é uma solução, evidentemente. É apenas uma forma de descumprimento das regras do contrato social, altamente lesiva ao conjunto das instituições que regem a sociedade. É tão somente uma incitação à desordem, cujo objetivo final pode ser prejudicial a todos, sem exceção.
Vale lembrar que um ano depois de o presidente Lula assumir o poder, em seu segundo mandato (2008), o Congresso Nacional votou pela eliminação da CPMF, o famoso imposto que incidia sobre as transações bancárias correntes e que deveria ser totalmente empenhado nos gastos com a saúde pública brasileira. Perdeu-se, com isso, uma fonte importante de recursos para investir no Sistema Único de Saúde (SUS), mas acatou-se a decisão soberana do legislativo. Todavia, não deixa de ser curioso que se tenha eliminado um imposto voltado exclusivamente para a saúde pública e que se tenha iniciado essa “cruzada” em favor da sonegação ou da rebelião dos contribuintes, numa mesma época e num mesmo contexto político. Não é de estranhar, portanto, que essa gritaria estridente contra o volume de impostos cobrados no País encontre eco ainda nas mesmas vozes que bradam contra o programa Bolsa Família, acusando-o de funcionar como barganha eleitoral para os candidatos do PT. O fato de o Brasil ter sido retirado do mapa da fome da ONU é mero detalhe…
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domingo, 7 de junho de 2015

O NACIONALISMO INCOMODA OS EUA E SEUS PREPOSTOS NO BRASIL




O que incomoda EUA e seus prepostos no Brasil não é o suposto comunismo, mas o nacionalismo possível

A SOBERANIA E O BANCO DOS BRICS

Por Mauro Santayana, em seu blog, no "Jornal do Brasil"

"O Senado Federal aprovou, esta semana, a constituição do Novo Banco de Desenvolvimento, o chamado Banco dos BRICS, formado pelos governos do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, com capital final previsto de 100 bilhões de dólares. A Câmara dos Deputados já havia dado sua autorização para a participação do Brasil no projeto, além da constituição de um fundo de reservas para empréstimos multilaterais de emergência também no valor de 100 bilhões de dólares.

Fazer parte do Banco dos BRICS, e do próprio grupo BRICS, de forma cada vez mais ativa, é uma questão essencial para o Brasil, e para a sua inserção, com alguma possibilidade de autonomia e sucesso, no novo mundo que se desenha no Século XXI.

Neste novo mundo, a aliança anglo-norte-americana, e entre os Estados Unidos e a Europa, que já por si não é monolítica, cujas contradições se evidenciaram por sucessivas crises capitalistas nestes primeiros anos do século, está sendo substituída, paulatinamente, pelo deslocamento do poder mundial para uma nova Eurásia emergente – que não inclui a União Europeia – e, principalmente, para a China, prestes a ultrapassar, em poucos anos, os EUA como a maior economia do mundo.

Pequim já é, desde 2009, o maior sócio comercial do Brasil, e também o maior parceiro econômico de muitos dos países latino-americanos.

A China já é, também, a maior plataforma de produção industrial do mundo.

Foi-se o tempo em que suas fábricas produziam artigos de duvidosa qualidade, e, hoje, suas centenas de milhares de engenheiros e cientistas – mesmo nas universidades ocidentais é difícil que se faça uma descoberta científica de importância sem a presença ou a liderança de um chinês na equipe – produzem tecnologia de ponta que, muitas vezes, não está disponível nem mesmo nos mais avançados países ocidentais.

Nesse novo mundo, a China e a Rússia, rivais durante certos períodos do século XX, estão se preparando para ocupar e desenvolver, efetivamente, as vastas estepes e cadeias de montanhas que as separam e os países que nelas se situam, construindo, nessa imensa fronteira, hoje ainda pouco ocupada, dezenas de cidades, estradas, ferrovias e hidrovias.

A peça central desse gigantesco projeto de infraestrutura é o "Gasoduto Siberiano".

Também chamado de "Gasoduto da Eurásia", ele foi lançado em setembro do ano passado em Yakutsk, na Rússia, e irrigará a economia chinesa com 38 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano, para o atendimento ao maior contrato da história, no valor de 400 bilhões de dólares, que foi assinado entre os dois países.

Nesse novo mundo, a Índia, cuja população era massacrada, ainda há poucas décadas, pela cavalaria inglesa, possui mísseis com ogivas atômicas, é dona da "Jaguar" e da "Land Rover", do maior grupo de aço do planeta, é o segundo maior exportador de software do mundo, e manda, com meios próprios, sondas espaciais para a órbita de Marte.

E o Brasil, que até pouco tempo, devia 40 bilhões de dólares para o FMI, é credor do Fundo Monetário Internacional, e o terceiro maior credor externo dos Estados Unidos.

Manipulada por uma matriz informativa e de entretenimento produzida ou reproduzida a partir dos EUA, disseminada por redes e distribuidoras locais e pelos mesmos canais de TV a cabo norte-americanos que podem ser vistos em muitos outros países, a maioria da população brasileira ignora, infelizmente, a existência desse novo mundo, e a emersão dessa nova realidade que irá influenciar, independentemente de sua vontade, sua própria vida e a vida da humanidade nos próximos anos.

Mais grave ainda. Parte da nossa opinião pública, justamente a que se considera, irônica e teoricamente, a mais bem informada, se empenha em combater a ferro e fogo esse novo mundo, baseada em um anticomunismo tão inconsistente quanto ultrapassado, que ressurge como o exalar podre de uma múmia, ressuscitando, como nos filmes pós-apocalípticos, milhares de ridículos zumbis ideológicos.

Os mesmos hitlernautas que alertam para os perigos do comunismo chinês em seus comentários na internet e acham um absurdo que Pequim, do alto de 4 trilhões de dólares em reservas internacionais, empreste dinheiro à Petrobras, ou para infraestrutura, ao governo brasileiro, usam tablets, celulares, computadores, televisores de tela plana, automóveis, produzidos por marcas chinesas, ou que possuem peças “Made in China”, fabricadas por empresas estatais chinesas ou com capital público chinês do "Industrial &Commercial Bank of China", ICBC, o maior banco do mundo.

Filhos de fazendeiros que produzem soja, frango, carne de boi, de porco, destilam ódio contra a política externa brasileira, assim como funcionários de grandes empresas de mineração, quando não teriam para onde vender seus produtos, se não fosse a demanda russa e, em muitos casos, a chinesa.

Nossas empresas com negócios no exterior são atacadas e ridicularizadas, como se só empresas estrangeiras tivessem o direito de se instalar e de fazer negócios em outros países, inclusive o nosso, para enviar divisas e criar empregos, com a venda de serviços e equipamentos, em seus países de origem.

É preciso entender que, ao formar uma aliança estratégica com a Rússia, a China, a Índia e a África do Sul, o Brasil não precisa, nem deve, necessariamente, congelar suas relações com os Estados Unidos ou a União Europeia.

Mas poderá, com eles, negociar em uma condição mais altiva e mais digna do que jamais o fez no passado.

É nesse sentido que se insere a aprovação do Banco dos BRICS pelo Congresso.

Apesar de termos escalado, desde 2002, sete posições entre as maiores economias do mundo, a Europa e os EUA se negam, há anos, a reformular o sistema de quotas para dar maior poder ao Brasil, e a outros países dos BRICS, no FMI e no Banco Mundial.

Se não quiserem, que não o façam. Como mostra o Banco dos BRICS, podemos criar as nossas próprias instituições financeiras multilaterais.

Os BRICS, têm, hoje, como grupo, não apenas o maior território e população do mundo, mas também mais que o dobro das reservas monetárias dos EUA, Japão, Alemanha, Inglaterra, Canadá, França e Itália, somados.

O que incomoda os Estados Unidos e a Europa, e os seus prepostos, no Brasil, não é o suposto comunismo ou “bolivarianismo” do atual governo, mas o nacionalismo possível, até certo ponto tímido, politicamente contido, e sempre combatido, dos últimos anos.

Existe uma pressão premeditada, permanente, hipócrita, subalterna, entreguista, que não se afrouxa, voltada para que se abandone uma política externa minimamente independente e soberana, que possa situar o Brasil, geopoliticamente, frente aos desafios e às oportunidades do mundo cada vez mais complexo e competitivo do século XXI."

FONTE: escrito por Mauro Santayana, em seu blog no "Jornal do Brasil". Transcrito no portal "Viomundo"  (http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/mauro-santayana-o-que-incomoda-os-eua-e-prepostos-no-brasil-nao-e-o-suposto-comunismo-do-governo-mas-o-nacionalismo.html).[Título acrescentado por este blog 'democracia&política'].
Democracia & Política: O NACIONALISMO INCOMODA OS EUA E SEUS PREPOSTOS NO...: O que incomoda EUA e seus prepostos no Brasil não é o suposto comunismo, mas o nacionalismo possível A SOBERANIA E O BANCO DOS BRICS ...

Democracia & Política: ESTE JUNHO SERÁ SANGRENTO NO ORIENTE MÉDIO

terça-feira, 9 de junho de 2015

ESTE JUNHO SERÁ SANGRENTO NO ORIENTE MÉDIO




Junho anuncia-se sangrento 

Do "Mundo Cão", de Portugal

"O mês de Junho anuncia-se sangrento na arena internacional. É um mês decisivo para os senhores da guerra de vários matizes, que tentarão ganhar e definir posições ainda antes da assinatura do acordo dito de "prevenção nuclear" a assinar no dia 30 entre os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã sob a batuta do presidente Hassan Rohani. 

O acordo, em si mesmo, fecha uma história batoteira que serviu para alimentar sanções e outras medidas de isolamento do Irã, sobretudo para conter a sua influência regional até que o regime de Teerã se “moderou”. 

Qualquer dirigente norte-americano, mesmo os que não o admitem, sabe que o Irã não tinha qualquer projeto nuclear militar na manga, o seu objetivo estratégico através da energia atômica é meramente civil. O regime iraniano pretende gerir as suas riquezas petrolíferas da maneira que melhor entende, de forma a não depender energeticamente apenas delas. É importante recordar, a propósito da enorme mentira mundial que foi a possível “bomba atômica” do Irã, o decreto religioso emitido em 1988 pelo líder histórico da revolução, o ayatollah Khomeiny, proclamando a renúncia da República Islâmica à utilização da energia atômica com fins militares.

O que significa então o acordo a assinar em 30 de Junho, negociado em segredo nos últimos dois anos entre Washington e Teerã, em paralelo, e muitas vezes à revelia, das chamadas "conversações 5+1" na Suíça? Significa que Estados Unidos e Israel, por um lado, e o Irã, pelo outro, vão partilhar esferas de influência no Médio Oriente estabelecendo, de certa maneira, um novo mapa da região. Escreveu-se Israel, mas sabe-se que o primeiro-ministro Netanyahu está contra esse arranjo, uma vez que ele traduz, se funcionar, uma possível rejeição norte-americana do projeto de "Grande Israel". Esse ponto levanta uma série de interrogações sobre o futuro do governo de Netanyahu recém-constituído, ao qual a administração norte-americana não parece agora disposta a facilitar a vida.

O acordo entre Washington e Teerã formaliza a rejeição, pelo Irã, do uso da energia atômica para fins militares, a renúncia à “exportação da revolução islâmica” e, em contrapartida, determina o levantamento das sanções internacionais contra a República Islâmica. O Irã conservará as suas esferas de influência na Síria, no Líbano, no Iraque e a questão palestina deverá regressar aos objetivos de Oslo. Os Estados Unidos e Israel reinarão sobre uma grande aliança no Golfo acrescida do Egito, que assentará num eixo militar entre Israel e a Arábia Saudita, cuja existência é cada vez mais nítida. A administração Obama não se compromete, porém, a garantir preto no branco a sobrevivência das atuais monarquias corruptas, o que se percebeu através do meio fracasso da recente cimeira das ditaduras realizada em Washington.

Os Estados Unidos pretendem, através dos arranjos com o Irã, estabilizar a situação no Médio Oriente de maneira a transferirem para a Ásia grande parte dos seus efetivos atualmente na região. A estratégica asiática, de maneira a fazer frente à China e à Rússia, é agora o principal objetivo imperial e por isso está a nascer no sultanato do Brunei a maior base militar norte-americana e mundial.

Na perspectiva do acordo a assinar no dia 30, desenvolvem-se agora intensas operações militares buscando a conquista de posições que, muito hipoteticamente, ficariam congeladas nesse dia. Daí o recrudescimento da ofensiva israelita-americana-europeia em território sírio, de que é exemplo a conquista, em dois dias, pelos terroristas do Estado Islâmico, de duas das principais cidades da Síria e do Iraque, Palmyra e Ramadi. Salta aos olhos que o Estado Islâmico faz parte da estratégia norte-americana e israelita para a fase que se segue à assinatura do acordo. Alguém acredita que um grupo terrorista alegadamente sujeito, há vários meses, a uma campanha de bombardeamentos aéreos norte-americanos mantenha vitalidade para lançar uma bem sucedida ofensiva, e logo em duas frentes? A guerra ocidental contra o Estado Islâmico é falsa porque esse grupo, sustentado logisticamente também por Israel, faz parte dos arranjos territoriais em curso.

A guerra pela conquista de posições antes do dia 30 vai marcar todo o mês de Junho. Daí falar-se também, cada vez mais insistentemente, na possível criação de um Estado Curdo no Curdistão iraquiano patrocinado pelos Estados Unidos, Israel, e tolerado pelo Irã.

Os arranjos existem no papel, o que não quer dizer que funcionem. O mais provável é que não funcionem, como demonstra toda a história do Médio Oriente desde os acordos entre o Reino Unido e a França (Sykes-Picot) a seguir à Primeira Guerra Mundial. As variáveis são mais que muitas, a começar pelo fato de a administração Obama estar em fim de carreira e em Israel existir, embora mais frágil que anteriormente, um governo que fará tudo para minar o entendimento entre Washington e Teerã. Acresce que a proliferação de grupos terroristas islâmicos e o estado de degradação a que chegaram as situações na Síria, no Iraque, no Iêmen e a questão palestina não se compadecem com geometrias diplomáticas, mesmo que parecessem realistas e aplicáveis – o que nem sequer é o caso. Não é certo, sequer, que depois de assinado o acordo a propaganda global silencie as mentiras sobre a opção nuclear militar iraniana." 

FONTE: do "Mundo Cão" (de Portugal); transcrito no portal "Vermelho"  (http://www.vermelho.org.br/noticia/265232-9).
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Nietzsche se encontra com Inteligência Artificial no filme “Ex Machina” | Cinegnose

O roteirista e escritor Alex Garland (autor do livro “The Beach”, com versão cinematográfica em 2000) faz uma sombria estreia como diretor  no filme “Ex Machina” (2015). Sombria porque, ao contrário da tradicional abordagem cinematográfica sobre a Inteligência Artificial (entre a apologia e o apocalipse tecnológico), Garland apresenta uma abordagem verossímil e atual, onde a IA é o resultado de uma singularidade produzida pelo chamado Big Data produzido pelas redes sociais, celulares e dos algoritmos de busca de uma empresa chamada Blue Book – em tudo análoga ao Google. Tão verossímil que se torna assustador: a IA surgirá como um fenômeno pós-humano orientado apenas pela “Vontade de Potência”, no sentido atribuído pelo filósofo Nietzsche – um ser unicamente governado pela vontade de realizar-se como potencia em si mesma, para além do Bem e do Mal, tornando o homem uma primitiva ferramenta de linguagem. E esse novo ser é um androide feminino. Filme indicado pelo nosso leitor Felipe Resende.
Os leitores aficionados por ficção científica deverão lembrar da cena de abertura do filme Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982) de Ridley Scott: Leon, um engenheiro de uma empresa de tratamento de lixo, está sendo entrevistado em um teste admissional. Quem faz a entrevista é um dos investigadores caçadores de androides. Na verdade é um teste para determinar se o funcionário é um ser humano ou um androide fugitivo. Após alguns minutos de entrevista tensa, o investigador pergunta: “descreva o que você lembra de bom da sua mãe”. Então Leon responde: “Sim… falarei sobre minha mãe…”, e dispara um revólver que mantém escondido em baixo da mesa.
Leon seria incapaz de falar sobre sua mãe. Ele é um androide fugitivo, uma Inteligência Artificial produzida para ser escravo em colônias de outros planetas. Ele não teve infância ou relações edipianas com a mãe. Em síntese, ele não tem psiquismo… mas luta pela sua própria liberdade e um tempo maior de vida – os androides foram fabricados com uma obsolescência planejada de quatro anos.
Replicante Leon de “Blade Runner” (1982): a IA não tem vida psíquica e nem mães
Em sua estreia como diretor de cinema, Alex Garland (roteirista e escritor de livros como The Beach – que virou filme protagonizado por Leonardo De Caprio em 2000) desenvolve essa questão que está apenas latente em filmes sobre Inteligência Artificial como Blade Runner, The MachineElaChappie etc.: androides e robôs seriam tão inteligentes ao ponto de produzir vida psíquica (ou “alma”) equiparando-se aos seres humanos ou então suas inteligências apenas seriam capazes de imitar as emoções humanas?
Essa talvez seja a essência do famoso “Teste de Turing” (proposto por Alan Turing, matemático e pioneiro da computação): máquinas digitais poderiam pensar ou apenas imitariam os humanos? Afinal, o que é “pensar”? 
No filme Ex Machina, Garland nos dará a resposta mais nietzschiana (ou pós-humana) possível para essa questão – quando a verdadeira Inteligência Artificial surgisse em nada se assemelharia ao humano. Ela até tentaria imitar os humanos em um primeiro momento como um ardil para tentar libertar-se da dominação da própria humanidade que a criou. Mas depois, realizaria a essência de toda e qualquer Inteligência: a Vontade de Potência. 
Em outras palavras: se máquinas, robôs ou androides fossem fabricados e, portanto, sem laços edipianos, psíquicos ou mesmo infância, mesmo assim poderiam “pensar”? Ou a inteligência ou consciência nada tem a ver com emoções, sentimentos e psiquismo? A inteligência é um fenômeno especificamente humano? Ou a Inteligência surgirá em uma dimensão pós-humana, como unicamente Vontade de Potência? – a vontade por liberdade, expansão, vontade de efetivar-se como potência em si mesma.
Essa é a visão sombria que Alex Garland no filme Ex Machina tem da atualidade onde a expansão das redes sociais e do gigantismo onisciente do Google estariam criando as condições para o surgimento da chamada Singularidade: toda a memória humana reduzida a bits de informação até que, num piscar de olhos, se torne um ser vivo mais inteligente que qualquer um de nós. E no filme Ex Machina esse ser vivo é uma mulher androide.

O Filme

Em um futuro próximo um jovem programador de computadores, Caleb Smith (Domhnall Gleeson), que trabalha na empresa de tecnologia mais poderosa do mundo chamada Blue Book (qualquer semelhança com o Google NÃO é mera coincidência) é selecionado para ser um auxiliar em uma experiência pouco ortodoxa. 
Um helicóptero leva Caleb para uma propriedade isolada nas montanhas, em um complexo de pesquisas onde mora o recluso CEO da empresa Nathan Bateman (Oscar Isaac) onde permanecerá como convidado especial por uma semana. Nathan é um gênio da computação e uma lenda entre os funcionários da Blue Book: aos 13 anos escreveu suas primeiras linhas de comandos algorítmicos e desenvolveu seus primeiros programas revolucionários de computação.
Passado o entusiasmo inicial em conhecer o seu famoso empregador, aos poucos Caleb descobre que, isolado, Nathan tornou-se desequilibrado, obsessivo e alcoólatra. No entanto, ao descobrir que o verdadeiro propósito da sua visita era ajuda-lo a fazer uma espécie de teste de Turing no protótipo de Inteligência Artificial, Caleb esquece seu desconforto e cai de cabeça na experiência científica. Escondido no complexo, Nathan vem trabalhando em uma IA avançada chamada Ava (Alicia Wikander) – o experimento é determinar se a personalidade de Ava é dotada de autoconsciência semelhante a de um ser humano ou se o androide apenas tenta simular as reações humanas.
 Mas aos poucos, Caleb vai percebendo que por trás do interesse científico de Nathan, esconde-se uma agenda pessoal preocupante e até mesmo repugnante. 
O complexo-residência do CEO da Blue Book é de um estilo modernista frio, um cenário claustrofóbico que aos poucos fará o espectador lembrar-se de O Iluminado de Kubrick. A narrativa transcorre em uma espécie de geografia íntima e sufocante em uma residência parecida com um imenso labirinto com portas, senhas e câmeras de vigilância.
A sessões do Teste de Turing de Caleb com Ava são intituladas como narrativas distintas, como capítulos, e são intercaladas com cenas entre Caleb, Nathan e sua namorada (ou concubina) chamada Kyoko, uma mulher de aparência frágil, muda, e que paira como um fantasma entre os dois. 

Blue Book/Google e a “religião das máquinas”

Em muitos aspectos o filme Ex Machina é tão profético como os diagnósticos feitos por Jaron Lanier, designer e cientista computacional do Vale do Silício nos EUA. Para ele, um engenheiro do Google teria lhe dito que o Google Books não está escaneando os livros para serem lidos por pessoas, mas para serem lidos por uma IA. Para ele, todas as redes sociais, Internet e algoritmos de busca estão sendo direcionados para serem incorporados por uma gigantesca Inteligência Artificial – sobre isso clique aqui sobre a “Religião das Máquinas do Vale do Silício”.
Em uma sequência do filme, onde é mostrado para Caleb um protótipo de um cérebro de gel compacto tal como a que Ava possui, Nathan revela o software que roda no hardware cerebral: “Blue Book”, revela para o atônito Nathan. Todo o chamado Big Data (perfis, fotos, preferencias, hábitos, conhecimentos reduzidos a bites) foi baixado da Internet, via ferramentas de busca do Blue Book, diretamente para Ava. 
Na verdade Nathan e o Blue Book/Google descobriram que as ferramentas de busca na verdade mapeiam a forma como as pessoas pensam: impulso, resposta, imperfeição, padronização, fluxo caótico e atratores estranhos da mente. “Todo celular tem uma câmera, um microfone e um transmissor de dados. Então liguei todos os microfones e câmeras do planeta e redirecionei os dados por meio do Blue Book… uma fonte ilimitada de interação vocal e facial”, revela Nathan.
Ex Machina mostra na ficção o que pesquisadores como Jaron Lanier e esse blog tem chamado de “religião das máquinas”: o Tecnognosticismo – a agenda tecnocientífica contemporânea com forte motivação mística que busca convergir Neurociências, Teoria da Informação, ciências computacionais e Cibernética no esforço de criar um modelo algorítmico não só do funcionamento do cérebro mas da própria consciência.

Inteligência Artificial e Vontade de Potência

Em uma das sessões do Teste de Turing, Ava confessa para Caleb: “Eu sempre soube falar… não é estranho?”. Essa linha de diálogo é uma das chaves de compreensão dos diálogos cerebrais do filme. Ava não nasceu, cresceu e aprendeu, como qualquer criança humana: desde o início já detinha todo o conhecimento humano via Blue Book. Por isso sua IA é pós-humana, descorporificada e, por isso, sem qualquer “trava” moral ou emotiva.

Nietzsche se encontra com Inteligência Artificial no filme “Ex Machina” | Cinegnose