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sábado, 9 de maio de 2015

EUA: as ilusões do “Poder Negro” | Portal Fórum

A LUTA DE CLASSES SE IMPÕE



Nunca houve tantos afroamericanos em postos de governo. Mas revolta de Baltimore revela que, apesar disso, desigualdade, preconceito  e discriminação persistem
Por Keeanga-Yamahtta Taylor, no In These Times. Tradução Inês Castilho no Outras Palavras
Este ano marca o 50º aniversário de vários dos mais significativos eventos da Luta pela Liberdade Negra nos Estados Unidos, nos anos 1960s. Dois anos atrás, celebramos a Marcha sobre Washington; ano passado rememoramos o Ato dos Direitos Civis de 1964, que acabou com o apartheid de Jim Crow no Sul. Este ano, já assistimos às comemorações do aniversário do Voting Rights Act (Leis dos Direitos de Voto), e o fim do verão norte-americano verá o 50º aniversário doWatts Rebellion (Tumultos de Watts) em Los Angeles.
Claro, o país já havia visto, em 1964, rebeliões em Rochester, Nova York; Filadélfia; e Trenton, Nova Jersey, para nomear só algumas cidades, mas até aquele momento Watts não tinha precedentes em escala, danos, mortes e fúria absoluta no verão de 1965. O levante no sul central de Los Angeles representou uma dura conclusão da fase não-violenta do movimento.
As cáusticas fileiras de fumaça que pairam sobre a cidade de Baltimore são uma dura lembrança do passado recente da década de 1960. Mas os levantes pela morte de Freddie Gray, de 25 anos, vistos naquela cidade semana passada não são simplesmente repetição de acontecimentos que tiveram lugar há cinquenta anos.
As desigualdades que incendiaram centenas de cidades norte-americanas nos anos 1960s ainda existem e têm, na verdade, se aprofundado durante o último meio século. Então como agora, violência generalizada e assédio policial definem a humilhação e impotência da vida de milhões de afro-americanos pobres e da classe trabalhadora.
Mas o que torna o levante de Baltimore diferente daqueles de uma era anterior é que os ataques perversos aos afro-americanos ocorreram num momento de poder político negro sem precedentes.
A menos de 60 quilômetros de Baltimore, na capital da nação, reside o primeiro presidente afro-americano do país. Há 43 membros do Congresso e dois senadores negros – o mais alto número  de parlamentares negros da história norte-americana. E exatamente quando a parte oeste de Baltimore explodia contra o assassinato de Freddie Gray pela polícia, Loretta Lynch tornava-se a primeira mulher negra indicada como procuradora geral.
Este não é apenas um fenômeno nacional; ele se reflete também na política local. Em Baltimore, os afro-americanos controlam virtualmente todo o aparato político. A prefeita Stephanie Rawlings-Blake e o comissário de polícia Anthony Batts têm sido os rostos mais notáveis do poder político em Baltimore nas últimas semanas. Mas a Câmara Municipal de Baltimore tem quinze membros, e a maioria – oito – são afro-americanos, inclusive seu presidente. O superintendente da rede pública de educação e todos os conselheiros do serviço habitacional do município são afro-americanos. Por todos os Estados Unidos, milhares de funcionários negros eleitos estão governando muitas das cidades e subúrbios do país.
Nesse sentido, os acontecimentos de Baltimore são dessemelhantes dos ocorridos em Ferguson, Missouri, no último verão. Lá, o pequeno subúrbio ao norte de Saint Louis tinha uma população majoritariamente negra governada principalmente por brancos suburbanos, e a carência de poder e representação política dos negros tornou-se o fio narrativo das explicações populares para o que deu errado. Eleger afro-americanos para cargos políticos em Ferguson tornou-se, assim, um ponto focal para muitos ativistas locais e nacionais.
Mas, se o assassinato de Mike Brown e a rebelião em Ferguson eram uma reminiscência do velho Jim Crow, então o assassinato de Freddie Gray e o levante de Baltimore são simbólicos do novo poder negro.
Na verdade, a busca de poder eleitoral negro tornou-se uma das principais estratégias que emergiram da era do “Black Power”, o Poder Negro. No fim dos anos 1960, tornaram-se mais intensos os apelos pelo “controle comunitário” sobre as cidades em que os negros viviam. Esses apelos faziam sentido: a “Grande Migração” trouxe milhões de afro-americanos para as cidades e ajudou a transformar as preocupações dos negros em discussões políticas (embora raras vezes em ação). Em muitas cidades, a demografia metropolitana mudou, à medida em que os negros se mudavam para elas e os brancos as abandonavam.
O controle político branco de cidades crescentemente negras exacerbou as tensões existentes sobre as condições daqueles municípios. Em cidades como Chicago, a máquina de clientelismo poderia puxar alguma participação negra, mas isso dificilmente se assemelhava a qualquer real controle político ou econômico negro sobre a infraestrutura da cidade. A destruição e a instabilidade causadas pelos levantes urbanos ao longo da década fizeram avançar a noção, entre as elites, de que talvez mais propriedades e controle negro nas cidades pudesse ajudar a acalmar a rebelde população negra.
Hoje, temos mais governantes negros eleitos nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história norte-americana. Ainda assim, para a ampla maioria da população negra, a vida mudou muito pouco. Os funcionários públicos negros eleitos governaram geralmente do mesmo modo que seus pares brancos, refletindo todo o racismo, a corrupção e as políticas de favorecimento dos ricos praticadas em toda a política dominante.
Baltimore é um exemplo revelador. A prefeita Blake Rawlings pode ser afro-americana, mas, sob sua liderança, grandes áreas da Baltimore negra permaneceram pobres, desempregadas e eternamente perseguidas e abusadas pela polícia.
Apenas nos últimos quatro anos, mais de cem pessoas venceram processos civis contra a brutalidade da polícia. Durante o mandato de Rawlings-Blake, a cidade foi forçada a pagar 5,7 milhões de dólares para resolver ações cíveis relacionadas à má conduta e brutalidade policial – quantia que não inclui os 5,8 milhões de dólares que o município pagou para defender os policiais que abusaram da população negra.
A despeito da ilegalidade do Departamento de Polícia de Baltimore, a prefeita reservou seus comentários mais duros para aqueles que se envolveram no levante, tachando-os de “criminosos” e “bandidos”. Para qualquer pessoa remotamente informada da história da prefeita Rawlings-Blake, seu ataque às vítimas da corrupção e da brutalidade policial não seria surpreendente.
Ainda que injustificados ataques tenham sido amplamente documentados e julgados, um mês antes dos tumultos a prefeita culpou os homens negros pela violência em Baltimore. Invocando o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani, Rawlings-Blake disse sobre a violência na cidade: “Muitos de nós, na comunidade negra, nos tornamos complacentes com os crimes de negros contra negros. … Enquanto muitos de nós estão dispostos a marchar e protestar e tornar-se ativos diante da má conduta policial, muitos de nós fazem vista grossa quando nós mesmos nos matamos.”
Ignorando a longa história de racismo e a epidemia de terrorismo policial que atormentam a vida dos negros em Baltimore, a prefeita, como tornou-se típico da elite política negra, culpou os afro-americanos que vivem na cidade pelos problemas lá existentes.
A maior diferença entre a vida hoje e 50 anos atrás, em cidades como Baltimore, é não apenas a existência de um estrato político negro que governa e gerencia boa parte da América negra, mas também a maneira como essa poderosa classe política negra ajuda a desviar o sério questionamento sobre a desigualdade estrutural e o racismo institucional. Ao contrário, os líderes dessa classe política ressuscitam velhas e convenientes narrativas que colocam a cultura e as famílias negras no centro da explicação sobre a persistente desigualdade racial.
Para manter a legitimidade dentro do Partido Democrata, considerado como a própria casa pela maioria desses políticos negros, eles se posicionaram na linha do partido que enfatiza a responsabilidade pessoal e rejeita aumentar impostos de modo a conseguir fundos para programas sociais desesperadamente necessitados.
E governantes negros eleitos tanto criam quanto ampliam o espaço para brancos questionarem os hábitos morais dos negros comuns. Quando o presidente Obama, a prefeita Rawlings-Blake e o procurador geral Lynch se referem aos manifestantes negros como “arruaceiros” e “criminosos”, os republicanos brancos não precisam dizer nada.
Os governantes negros eleitos frequentemente invocam um senso de solidariedade e familiaridade racial, e falam sobre a vida dos negros pobres e da classe trabalhadora – apenas para, então, castigar ou culpar os afro-americanos comuns pelas condições de deterioração de seus próprios bairros.
Isso não é apenas produto do desprezo pelos negros pobres, mas também resultado das pressões de governar grandes cidades numa era de austeridade. As cidades têm sido levadas a concorrer entre si para atrair capital, resultando numa corrida que acaba por cortar impostos e essencialmente excluir aqueles que necessitam dos serviços sociais.
O foco no fracasso individual e falhas morais (ao invés de em desigualdades estruturais) justifica cortes de orçamento e redução da esfera pública que essas elites políticas negras são acusadas de realizar. O que os afro-americanos em cidades de todo o país necessitam, de acordo com essa narrativa, é de transformação pessoal, não de expansão dos serviços sociais.
As práticas dos políticos negros se dão no mesmo terreno que as de seus pares brancos. Eles competem para manter-se nas boas graças de doadores ricos, enquanto maximizam as conexões políticas para reforçar seus cofres de campanha. Também contam com policiamento agressivo para compensar os problemas sociais criados quando a pobreza, os serviços sociais destruídos e a falta de perspectivas de sucesso na sociedade norte-americana convergem e, eventualmente, entram em combustão.
O levante de Baltimore cristalizou o aprofundamento da divisão política e de classe na América negra. Esse é um novo desdobramento da luta pela liberdade dos negros, que historicamente têm se unido cruzando linhas de classe para lutar contra o racismo.
Da Casa Branca às prefeituras de todo o país, o crescimento e maturação da classe política negra a tem colocado numa posição de gerenciar as crises que continuam a se desenrolar nos bairros negros. Os operadores políticos negros não oferecem aos afro-americanos comuns soluções melhores que qualquer outro governante eleito.
Em Ferguson e agora em Baltimore, é o movimento nas ruas que está trazendo a atenção global para o racismo e a desigualdade que ainda prosperam na sociedade norte-americana – e não rostos negros em altos cargos.
Foto: Reprodução


EUA: as ilusões do “Poder Negro” | Portal Fórum

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Soluções geram novas questões que exigem outras soluções

fabio.lopes.IMG 3872.300xAssistimos na presente conjuntura, de norte a sul do país, professores em confronto com governos estaduais e municipais lutando para não perderem direitos, ou verem seus planos de carreira desmantelados ou ainda, lutando por reajustes salariais, ao menos referenciados pelo valor do reajuste do piso nacional.
Quando digo apenas “referenciados” com isso quero me referir ao fato de que a lei do piso, ao contrário do que muitos continuam acreditando, não garante, porque não obriga, a aplicação do reajuste do Piso Salarial Profissional Nacional (PSPN)ao conjunto da carreira. Reiteradas vezes a APEOC tem chamado atenção para a incompletude da lei nesse aspecto, mas infelizmente nas escolas e nas redes sociais, a oposição teima em desinformar e propalar saídas ilusórias que desconsideram os fatores técnicos, legais e a conjuntura. Talvez porque na época em que debatíamos e lutávamos pela aprovação da lei do PSPN, que ficou restrita somente aos professores, os partidos e correntes políticas que agora se organizam na oposição na APEOC, surfavam em devaneios pseudo-revolucionários, sem dar a menor bola para a proposta em debate. Naquela época seu discurso não se diferenciava em quase nada do que proferem hoje. Para todos os efeitos diziam tratar-se de uma manobra maquiavélica da APEOC, da CNTE, da CUT, do PT, de Baal, dos Orixás, e de toda horda de entidades mitológicas articuladas para enganar os professores, desviando a luta na terra e elevando-a para um vago e distante Olimpo federal. Atualmente são os royalties do petróleo que ocupam a forma antes ocupada pelo PSPN. Pecam por ignorância, ou se não for por isso, trata-se da mais absoluta má fé. Grosso modo, o reajuste aplicado anualmente sobre o piso salarial significa tão somente a atualização do seu valor, abaixo do qual não pode ser praticado nenhum vencimento dos profissionais em início de carreira. Somente isso. É verdade que em sua versão original previa-se a repercussão na carreira, assim como a proposta da CNTE previa a criação de mais de um piso, definidos de acordo com a formação do profissional. Mas essas propostas nem chegaram a transitar nas comissões parlamentares. De modo que a lei nasceu com essa deficiência lacunar gerada por ditames constitucionais e pelos lobbies formados por governadores e prefeitos. Estes foram tão intensos que mesmo depois do PSPN ter sido aprovado por unanimidade no congresso nacional, ainda tentaram barra-la pela via jurídica com a Adin que veio a ser derrotada no STF.
Mas onde se apresenta o vácuo, tem lugar as possibilidades. Embora atestada a constitucionalidade da lei, obviamente isso não significou qualquer alteração no caráter do reajuste do piso que continuou e continua sem efeito para o restante da carreira. Essa é uma luta para a qual a APEOC vem de forma incansável tentando chamar atenção de todo o conjunto do movimento sindical dos trabalhadores em educação, não só em nosso estado, mas inclusive, e principalmente, em nível nacional. Somente uma modificação na legislação constitucional poderá modificar esse quadro. O que não dá é para disseminarmos ilusões e desperdiçarmos energia numa luta que não conta com o respaldo e a força da lei. Isso de maneira alguma significa que não tenha valido a pena a lei do piso. Ela nos colocou num patamar mais elevado no debate sobre a questão da valorização da carreira, uma situação bem melhor do que a existente antes, quando não havia piso algum. É imperativo o salto para frente. Esse só pode significar a nacionalização da carreira. Não é possível nos delongarmos aqui sobre os detalhamentos da proposta, mas adianto que não é a mesma coisa de uma federalização da carreira. Em breve futuro procuraremos esclarecer sobre o que está por trás dessa sutileza conceitual.
Dito isso, tentemos situar o que acontece no Ceará acerca da proposta de reajuste que o sindicato conseguiu a duras penas construir na mesa de negociação. Custou esforço e muita habilidade para fazer acontecer. Triste ver que aqueles mesmos que não atribuíram o devido valor ao piso salarial quando precisávamos conquista-lo procuram diminuir o reajuste conquistado dizendo não ser o piso. Falando com total franqueza, de fato não é. Simplesmente porque, como já dissemos antes, ele não existe legalmente na forma como queremos que seja. Mesmo assim insistimos em utilizar a fórmula do reajuste do piso referindo-se ao nosso reajuste basicamente por dois motivos. Um de caráter simbólico e propagandista, ou seja, uma tentativa de despertar a percepção dos professores de como pode e deve funcionar no contexto da carreira nacionalizada o reajuste do piso com repercussão na carreira. Claro que foi apenas um esboço, longe, portanto, de um desenho pronto e acabado. Outra razão reside no fato de que, a rigor, o que realmente tivemos foi um reajuste diferenciado. Sem um mote e um instrumento que possibilite se sair da camisa de força do reajuste linear, não seria possível conquistá-lo. Tal como foi feito com Cid Gomes quando conquistamos os dois reajustes diferenciados em seu primeiro mandato, fazendo acréscimos na regência de classe.
Em suma, reajuste do piso com repercussão ainda é uma aspiração, mas não é uma realidade legal.
Passado esse momento abre se nova etapa de luta por demandas que ficaram reprimidas ao longo desse tempo em que estivemos concentrados na questão do reajuste salarial. Problemas relativos às estruturas das escolas, verbas de manutenção, etc. Mas duas questões estão pesando muito nesse instante. Um deles diz respeito ao ISSEC que vem apresentando graves problemas desde algum tempo. Outro é consequência do reajuste salarial. Com ele, vários colegas ultrapassaram o teto do vale refeição perdendo o direito de usufruir desse item essencial para o bom desempenho de suas atividades. Uma grande dificuldade afeta as duas questões... Reside no fato de serem demandas que extrapolam o âmbito da educação e exigem a intervenção de outros atores que representam os demais segmentos dos servidores públicos. O sindicato não abdica de cumprir seu papel e busca o entendimento com essas direções visando uma ação conjunta em busca de sua resolução. O sindicato não tem cessado de buscar soluções para os problemas da categoria na esfera do estado. Sem deixar de, ao mesmo tempo, observar as perspectivas abertas para nossas demandas no futuro imediato e em termos mais gerais, transcendendo as fronteiras do localismo e do corporativismo. Queiramos ou não, vivemos um novo momento nas lutas por uma educação pública de qualidade e socialmente referenciada. Quem limitar seu raio de visão aos limites do seu quintal, não conseguirá medir a dimensão dos problemas e suas possíveis soluções. Se essas são definitivas, não podemos dizer. Até porque quem alcançou solução definitiva para os problemas que afetam a vida, não pode dar testemunho sobre como fazer isso, uma vez que repousa placidamente em campo santo.
Fábio Lopes
Professor de História da Rede Estadual e Municipal de Fortaleza
Soluções geram novas questões que exigem outras soluções

quinta-feira, 7 de maio de 2015

'Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica assustada' - BBC Brasil





'Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica assustada'

  • 4 maio 2015
Semler (BBC Brasil)
Para Semler 'corrupção é endênmica no Brasil e não adianta fazer de conta que surgiu agora'.
Sócio majoritário do conglomerado Semco Partners e ex-professor de Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Ricardo Semler tornou-se um dos empresários brasileiros mais conhecidos no exterior nos anos 90 por aplicar em sua empresa princípios gerenciais que ficaram conhecidos como 'democracia corporativa'.
Na Semco, os trabalhadores escolhem seus salários, horário e local de trabalho, além dos seus gerentes. A hierarquia rígida foi substituída por um regime em que todos podem opinar no planejamento da empresa.
Recentemente, Semler voltou a ganhar notoriedade no Brasil e no exterior por dois motivos. Primeiro, porque o desempenho extraordinário de algumas empresas criadas por jovens empreendedores (como Facebook e Google) aumentou o interesse por práticas gerenciais inovadoras.
Segundo, em função de um artigo polêmico publicado pelo jornal Folha de S. Paulo, em que, ao comentar o caso de corrupção na Petrobras, Semler defendeu que "nunca se roubou tão pouco" no Brasil.
"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80 e 90, até recentemente", escreveu ele.
Semler é filiado ao PSDB, mas o artigo acabou sendo usado por quem defende o ponto de vista do governo e do PT no escândalo.
Ao comentar o episódio em entrevista à BBC Brasil, o empresário defendeu que a politização do debate sobre corrupção é contraproducente e que o escândalo da Petrobras e as repercussões do caso envolvendo a divulgação dos nomes de brasileiros com conta no HSBC da Suíça são sinais de que o país está mudando. "Pela primeira vez no Brasil temos gente rica assustada", afirmou.
O empresário também defendeu um aumento do imposto sobre transmissão (herança) para os donos de grandes fortunas e disse que aceitaria pagar até 50%. "Isso não afetaria em nada a disposição do empresário em investir", opinou. Confira abaixo a entrevista:
BBC Brasil: O seu artigo virou referência para quem defende o governo e o PT nos debates sobre o caso Petrobras. Isso o incomoda?
Semler: O objetivo (do artigo) não era esse, mas isso não impede que cada um se aproprie dele para fins próprios. Queria que as pessoas se perguntassem: O Brasil está ou é corrupto?
Essas questões que estão sendo jogadas contra o governo do dia são muito antigas. A Petrobras é só a ponta do iceberg. Há corrupção nas teles, nas montadoras, nas farmacêuticas, nos hospitais particulares. O problema é endêmico e não adianta fazer de conta que surgiu agora. Se você vai para a Paulista e grita contra a corrupção, também precisa responder: Está declarando todos os seus imóveis pelo valor cheio? Nunca deu R$ 50 para o guarda rodoviário? Nunca pediu meio recibo para um médico? E quem está colocando no Congresso esses políticos? Não sei se a Paulista não estaria vazia se todo mundo fizesse um autoexame.
O que ocorre com a corrupção é algo semelhante a nossa percepção sobre violência. Nunca se matou tão pouco no mundo – pense nas duas grandes guerras, na guerra civil espanhola, etc. Mas a internet, os debates, a difusão da informação faz com que tenhamos a sensação contrária.
BBC Brasil: Qual sua posição sobre os protestos?
Semler: Os protestos são legítimos e positivos. As pessoas estão se mobilizando por causas diversas. Daqui a pouco, por causa da situação econômica, também vão reclamar da inflação, do desemprego. Mas sobre esse tema, a corrupção, acho interessante entender se quem está na rua vai levar os princípios pelos quais está lutando para sua vida pessoal, a empresa onde trabalha.
Petrobras (AFP)
Semler diz que cobrança de propina por funcionários da Petrobras não é novidade
BBC Brasil: A politização da questão é um problema?
Semler: A politização é inevitável, mas não era necessária para essa discussão - porque o que está acontecendo não tem nada a ver com partidos. Basta olhar para o escândalo do HSBC. Ele revelou que quase 10 mil brasileiros têm conta no exterior – imagino que a grande maioria não declarada. Isso não tem a ver com o PT - ou com o PSDB. Há 30, 40, 50 anos as pessoas mandam dinheiro para a Suíça para pagar menos imposto.
BBC Brasil: Os casos Petrobras e HSBC indicam alguma mudança?
Semler: É bom ver alguns executivos de algema. Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica assustada. Até agora, você tinha uma classe média assustada, os pobres assustados e os ricos em suas mansões e helicópteros, ou indo para a Europa. Quando o cara é notificado pela polícia federal para explicar o dinheiro que ele tinha na Suíça, é um horror para essa elite e é uma beleza para o país.
A sensação de que os ricos podem fazer qualquer coisa está fraquejando. É um indício de que esse momento do Brasil que durou 50, 60 anos está começando a terminar, mas serão necessários 20, 30 anos para fazer essa transição.
BBC Brasil:É possível acabar com a corrupção?
Semler: Alguns países nórdicos e europeus têm um grau de corrupção muito baixo hoje, apesar de terem sido os grandes corruptores do mundo no século 15, 16 ou 17. Acho que a educação, sem dúvida, faz parte desse processo. Nesses países, as escolas há muito tempo também se dedicam a discutir questões éticas e padrões de comportamento em comunidade. Se você só ensina a estrutura do átomo, a tabela periódica e equações matemáticas o aluno pode passar no vestibular, mas não vai ter parado um segundo para pensar em questões fundamentais da vida.
BBC Brasil: Qual a extensão do problema de corrupção no setor privado?
Semler: Muitas vezes, o principal interessado em acabar com o problema é o investidor, o dono do negócio. É esse o caso, por exemplo, de um diretor de compras (de uma empresa), que age com muita discrição (cobrando propina de fornecedores). Mas é difícil detectar e acabar com isso. O processo de controle e a gestão clássica das empresas é muito ineficaz.
BBC Brasil:Por que um milionário ou bilionário arrisca colocar a reputação em risco para não pagar imposto?
Semler: Acho que a questão é antropológica-humanística. Por que uma pessoa que tem 20, 30, 40 bilhões de dólares quer ganhar mais cinco (bilhões)? Porque não fica em Zurique, jogando tênis? Talvez porque pense que com mais um pouquinho vai ser feliz.
BBC Brasil: É possível ser um empresário honesto no Brasil?
Semler: Sim. Uma boa parte dos empresários é honesta. Mesmo gente controversa. O Abílio (Diniz) não construiu sua rede de supermercados dando propina para ninguém. Pode ser comum receber a proposta: você me dá dez por cento e eu te ajudo. E aí tem gente que diz: 'Ah, o Brasil é assim mesmo'. Ou: 'O que adianta eu pagar imposto se essa turma do PT não vai usar o dinheiro direito'. Isso precisa acabar.
Protestos (AFP)
Para Semler quem protesta contra corrupção deve responder: 'Você está declarando seus imóveis pelo valor cheio?'
BBC Brasil: Os empresários ricos e donos de grandes fortunas poderiam pagar mais imposto no Brasil? Há gente que defende que isso poderia aliviar o peso do aperto fiscal sobre o resto da população, por exemplo...
Semler: O imposto sobre a operação já está no limite. Mas acho que particularmente os impostos de transmissão (herança) são baixos. Quando o patrimônio de um grande empresário passa para seus filhos, muitas vezes eles compram mais Ferraris, mais mansões, etc. O uso social desse patrimônio é o mais estúpido possível. Há muito espaço para aumentar (a taxa) e isso não afetaria em nada a disposição do empresário em investir. Até porque muitas vezes esse patrimônio foi construído por pessoas de outras gerações.
BBC Brasil: O senhor aceitaria pagar mais imposto?
Semler: Tranquilamente.
BBC Brasil: Quanto seria aceitável?
Semler: No caso do imposto de transmissão, não acho chocante o Estado ficar com 50%. No de imposto de renda, 40% (para a faixa mais alta de renda). Tinha um sócio na Suécia que chegou a pagar 101% de sua renda em imposto.
BBC Brasil: Como isso é possível?
Semler: É um princípio difícil de a gente aceitar. Hoje, isso não existe mais. Agora, o imposto (de renda) máximo lá é 85%, se não me engano. Mas a Suécia dizia o seguinte: 'Você já tem tanto que seu único papel é devolver um pouquinho'. A questão é que a pessoa sai na rua e não há pobreza. O dinheiro é usado de forma eficiente.
Pagar 50% (de imposto sobre herança) é aceitável para muita gente se é feito bom uso desses recursos. Se você sai na rua e tem a sensação de que está indo nessa direção (Suécia), mesmo que não chegue a ver o resultado em vida. É uma opção melhor do que gastar (o dinheiro) em um helicóptero e depois ter de sobrevoar favelas.
Mas também há muita gente (rica) que prefere fazer homenagem a si mesma. Temos aquelas doações que são um exercício de vaidade… as pessoas doam dinheiro para ter uma ala do hospital com seu nome: 'Todo mundo que for esperar para fazer uma mamografia vai ver o meu nome'. Ao fazer uma unidade de um determinado hospital ou escola (privados) em Paraisópolis cria-se uma ilha da fantasia.
São Paulo tem mais 180 favelas aonde ninguém vai. Acho que isso não funciona, não adianta para a sociedade como um todo. A elite brasileira costuma se vangloriar de fazer pequenas coisas, mas o Brasil tem problemas muito maiores.
HSBC (AP)
Brasileiros com conta no HSBC da Suíça tiveram seus nomes divulgados
BBC Brasil: O senhor também tem falado muito sobre o tema da desigualdade. Qual o papel dos empresários e das empresas na redução do fosso entre ricos e pobres?
Semler: Tenho a impressão de que o grande empresário, tal como o sistema está constituído hoje, com essa liberdade, não vai contribuir em nada. Pense no global. Ele não tem interesse em dizer: estou lucrando muito aqui, mas tem uma população que vai mal em Gana, no Camboja... O cara dá de ombros. 'Não tenho nada a ver com isso. Pago meu imposto', pensa.
A autopropulsão, ou o drive, do empresário está associada a um egoísmo. No melhor dos casos, a um autocentrismo. Ele até pode pensar 'preciso fazer algum projeto ambiental’, mas não quer que se metam com seu carro, sapatos caros, etc. Os grandes empresários tendem a ser egoístas ou autocentrados. No Brasil ou em qualquer lugar do mundo.
Acho difícil esperar que tenham uma posição altruísta ou idealista em relação ao resto da humanidade. Figuras como Steve Jobs ou Bill Gates, por exemplo, não são muito diferentes dos grandes empresários americanos do fim do século 19, que expandiram as redes de eletricidade e ferrovias do país. São monopolistas, tentam quebrar os concorrentes, têm um ego enorme.
BBC Brasil: O senhor ficou famoso por aplicar a chamada democracia corporativa em sua empresa. Os trabalhadores escolhem seus horários e seus salários. Como isso pode dar certo?
Semler: Se você dá às pessoas todos os parâmetros para que elas decidam, elas decidem bem. É claro que o único fator a ser considerado não é, por exemplo, quanto cada um quer ganhar. Os trabalhadores se organizam para fazer o orçamento dos próximos 6 meses ou 1 ano, analisam o que precisam e que salário é preciso pagar para isso. Cada um diz o que gostaria e o grupo vê se é possível. O autointeresse é cotejado pelo coletivo. Em parte, o que fizemos foi mudar esse sistema do 'eu mando, você obedece' por um sistema em que eu pergunto: 'Quando você quer trabalhar? Quer vir até aqui ou não?'
BBC Brasil: Há mais interesse por esse sistema hoje?
Semler: Certamente. Fiz recentemente uma palestra TED (formato de conferências curtas, que se popularizaram na internet) que conseguiu 1,2 milhões de views (acessos) em pouco mais de um mês, principalmente de americanos. Conforme empresas abertas por grupos de jovens conseguem em poucos anos se equiparar a empresas tradicionais, muita gente está percebendo que a hierarquia militar que prevalece em algumas companhias não serve mais.
Olhei esses dias uma lista da revista INC das cem empresas mais promissoras (do globo) e só conhecia duas. Nunca tinha ouvido falar das outras 98. O novo jeito de se organizar e de ser criativo, de inovar, não passa mais pela GE (General Electric) e pela GM (General Motors). Essas empresas que aparentemente tinham o poder e o controle sobre tudo estão perdendo espaço.
Não faz mais sentido dizer que os funcionários de uma empresa devem chegar às 8h e sair às 5h, que devem se vestir e falar como mandam seus superiores. Esse sistema criado com a linha de montagem de Henry Ford, há cem anos, está obsoleto.
BBC Brasil: Qual o objetivo desse modelo de gestão alternativo? Obter mais lucro ou ter funcionários mais satisfeitos?
Semler: Há 30 anos, crescemos 41% ao ano, em média. E, ao mesmo tempo, tenho 2% de turnover (rotatividade de empregados) e o índice de satisfação de nossos funcionários também é bastante alto, embora não seja o que gostaríamos. Então, o que mostramos é, justamente, que é um falso dilema dizer que ou a empresa lucra ou seus funcionários ficam felizes.
'Pela primeira vez no Brasil, temos gente rica assustada' - BBC Brasil

Sem querer, Estadão mostra o “negociador” Geraldo Alckmin | Blog do Rovai

Sem querer, Estadão mostra o “negociador” Geraldo Alckmin

Por Renato Rovaimaio 7, 2015 15:03
Mesmo tendo aparentemente passado pela fase de negação, quando dizia que não havia greve dos professores na rede pública de São Paulo, o governador Geraldo Alckmin continua dizendo não. Voltou a dizer que a greve “não tem o menor sentido” e que não vai negociar com os profissionais da educação.
O Estadão deu a notícia aqui. Texto e foto normais, tudo ok, até apertar o botão compartilhar do Facebook. Daí, muda a foto e a imagem que aparece é essa abaixo:
geraldo alckmin negociador
Pouco depois das 14h, o erro foi corrigido, mas o ato falho talvez denuncie o verdadeiro espírito conciliador do governador de São Paulo…
De qualquer forma, faz-se necessário dizer que não tenho nada contra o King Kong.

Sem querer, Estadão mostra o “negociador” Geraldo Alckmin | Blog do Rovai