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segunda-feira, 21 de março de 2016

"Eu estou protegendo você, seu filho da puta" - Ciro Gomes - Escrevinhador

“Eu estou protegendo você, seu filho da puta” – Ciro Gomes

CiroO DataFolha acaba de publicar uma pesquisa que, se estiver correta, mostra o risco do momento em que vivemos: 80% dos brasileiros apóiam a medida de condução coercitiva adotada contra Lula pelo juiz da Lava-Jato, Sergio Moro.
Não importa que seja ilegal, abusiva, não importa que signifique a utilização do aparato de Estado para intimidar uma (e apenas uma) das forças políticas em disputa. Contra o PT, vale-tudo, parece dizer a Lava-Jato, com apoio da Globo, e sob os aplausos de uma maioria entorpecida pelo clima de “prende e arrebenta”.
Ciro
A tradição justiceira do Brasil mostra as caras. A Constituição é jogada no lixo. Em nome de combater a corrupção (só contra o PT, porque o PSDB jamais é incomodado pela Lava-Jato), o juiz grampeia de forma ilegal a presidenta da república e escuta ilegalmente  25 advogados (numa clara afronta ao direito de defesa).
Mas Moro pode tudo. E o povo aplaude. Faltou ao PT a fibra para encarar esse debate de frente desde o início. E agora o resultado está às nossas portas.
Moro pode tudo.
Se instalar uma guilhotina em Curitiba, será aplaudido pela malta. Quem se levanta contra os abusos do juiz das camisas negras é apontado como “petralha”, “protetor de bandido”, “canalha”, “desocupado petista” (são os adjetivos que colho nas redes sociais, contra mim, nas últimas semanas).
Não importa. Quanto mais popular for Moro, mais necessário é enfrentar esse debate, para dizer: Moro deixou de ser um juiz, e virou um projeto de ditador. Moro deixou de ser um juiz, e virou um baderneiro das leis. 
Ao dizer isso, não protejo o PT, nem Lula, nem Dilma – em quem votei nas últimas eleições. Não. Protejo meus adversários, protejo o futuro, protejo a democracia. Protejo meus filhos, e os filhos de meus adversários. Protejo até o Moro, ainda que não mereça.
De forma um pouco estúpida, Ciro Gomes mostrou outro dia a importância de se encarar de frente esse debate. Num vídeo que viralizou nas redes, Ciro bota pra correr um bando de desocupados que se plantou na porta do prédio onde vive.
Ciro foi duro, destemperado. Mas a razão está com ele. Talvez tenhamos que ser cada vez mais duros e destemperados, para barrar o fascismo. Com boas maneiras, não vamos derrotar esse monstro que bate às nossas portas.
É o que mostra o texto do jornalista Airton Centeno, que reproduzimos abaixo (Rodrigo Vianna)
===
-Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
por Airton Centeno, no Sul21
Dita no calor da hora, a frase dura de um possesso Ciro Gomes carrega um desaforo dos mais evidentes, tradicionais e utilizados para aquele momento em que a temperatura sobe e a cusparada retórica se projeta com sua missão de destratar. Era madrugada do dia 17 e um grupelho de jovens ululantes e disfuncionais fazia barulho diante da casa do ex-governador e ex-ministro de Itamar e Lula.
-Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Mas, no caso, o mais importante não é o insulto saído da boca de um político notório pelo temperamento explosivo. Junto, traz um ensinamento sábio. Com sua validade confirmada pela história recente.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
A última vez que tal conselho deixou de ser ouvido custou 21 anos de ditadura ao Brasil.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Em 1964, no momento em que articulava o golpe contra Jango, o arquiconspirador Carlos Lacerda desconsiderou a possibilidade de reversão do que urdia. Embora sagaz, não imaginou que a usurpação de um presidente eleito, que parecia abrir-lhe o caminho para a presidência, viesse a ser, como foi, o começo do fim de suas próprias ambições presidenciais. Aos 50 anos, vivia o auge de sua carreira. Foi preso e cassado pelos novos inquilinos do poder que ajudou a implantar. Morreria em 1977 sem recuperar seus direitos políticos. Provavelmente lamentaria não ter sido admoestado — antes da vitória que se transformaria em derrocada — por um adversário mais atrevido que lhe dissesse nas fuças:
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Outro conspirador, Adhemar de Barros, também não ouviu a voz da razão. Ele e a mulher, Leonor, puxaram a edição paulista da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Também sonhava com o Planalto ao qual já fora duas vezes candidato. Seu problema era semelhante aos dos demais conjurados: falta de voto. Quando veio o golpe que pediu, Adhemar avisou: “Agora, caçaremos os comunistas por todos os lados do país”. Dono de cadeia de rádios e jornais que hoje compõem a Rede Bandeirantes, Adhemar levou uma rasteira do destino: foi caçado e cassado. A exemplo de Lacerda, morreu sem recuperar os direitos políticos.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
O mesmo aconteceu com parcela dos jornais embarcados na conspirata, caso do Correio da Manhã, o mais destemperado dos inimigos de Jango, que feneceu destroçado pela censura e a perseguição dos militares. Claro que isso não se aplica às Organizações Globo, que somente se viabilizaram como um dos maiores impérios de comunicação do mundo através de suas relações carnais com um governo de assassinos. Sem vacilar diante da mentira, quando o poder constitucional foi derrubado, O Globo proclamou na sua manchete de capa em 2 de abril de 1964: “Ressurge a democracia”. Para o Globo, a democracia golpeada era a ditadura, enquanto a ditadura que chegava era a democracia.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Quando o golpe deu seus primeiros vagidos, a Ordem dos Advogados do Brasil, através de seu conselho federal, correu a embalar aquele sinistro berço de renda negra. Enalteceu “os homens responsáveis desta terra” que baniram “o mal das conjuras comuno-sindicalistas”. E, paradoxalmente, o estupro se dera “sob a égide intocável do Estado do Direito”. Sob a mesma égide e de tal estado, em 27 de agosto de 1980, uma carta-bomba na sede da Ordem matou a secretária Lyda Monteiro da Silva, de 59 anos. A carta era dirigida ao presidente do conselho federal da Ordem, Eduardo Seabra Fagundes. Ocorre que, após apoiar a implosão da Constituição, a OAB percebera seu erro. E mudara.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
O Supremo, para vergonha dos pósteros, agiu igual. Sob o pitoresco olhar do STF, tudo estava em seu lugar: o golpe era legítimo, a democracia estava preservada e a constituição idem. Seu presidente, Álvaro Moutinho da Costa, saudou o general Castello Branco em visita à corte. Porém, após o AI-5, três ministros, os mais independentes, foram aposentados compulsoriamente.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Filha de coronel do Exército, a adolescente Sônia Moraes foi levada pelo pai e a mãe à versão carioca da marcha da família com deus pela liberdade. Era 1964 e os Moraes festejavam a queda do governo constitucional. O tempo passou, o regime mostrou seus dentes e Sônia desapareceu. Engajara-se na luta armada contra a ditadura. Presa, teve os seios arrancados e foi chacinada até a morte. Desesperado, o pai procuraria durante anos pela filha. Um dia recebeu um presente sem sentido, enviado pelo seu desafeto, o general Adyr Fiúza de Castro, comandante do DOI-Codi, no Rio. Era um cassetete da Polícia do Exército. Descobriria depois que aquilo representava uma advertência e um escárnio. Com aquele cassetete sua filha, Sônia Maria de Moraes Angel Jones, fora estuprada antes de morrer em suplicio.
– Eu estou protegendo você, seu filho da puta!
Talvez da explosão de Ciro fique mais o destempero do que o aviso. Mas é este que conta e tudo resume. Não é o mandato de Dilma que está em jogo. Quando a comandante suprema das forças armadas é grampeada, o recado é sucinto: ninguém está livre, hoje foi ela, amanhã serão vocês. Por isso, a violência ilegal, absurda e flagrante que se abate sobre a atual e o ex-presidente é apenas uma fachada. Atrás dela vem o estado de exceção.
Quando diz ao aprendiz de fascista “Eu estou protegendo você, seu filho da puta!”, Ciro expressa o que acontece após a ruptura do Estado Democrático de Direito quando até o guarda da esquina sente-se investido de superpoderes.
Como imensos contingentes da militância golpista limitam seu vocabulário a meia dúzia de chavões e não sabem bem o que estão fazendo ali e a História mostra que o que está acontecendo é somente um revival dos tempos de 1954 e de 1964, e tem muito a lhes ensinar, talvez a melhor resposta ao rancor não seja a de Ciro mas a do ministro Jaques Wagner.
Aborrecido num restaurante com o glossário golpista de um cidadão que o importunava, reagiu de maneira sintética: “Vá estudar!” Estudo é uma arma de exterminar fascistas. E ainda poderemos dizer a quem seguir a sugestão: “Estamos protegendo você”.
"Eu estou protegendo você, seu filho da puta" - Ciro Gomes - Escrevinhador

Gilmar e Moro afrontam a democracia EO golpe Avança; Lula Precisa ir a Uma embaixada e denunciar o golpe jurídico-midiático - Escrevinhador

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'Estado de exceção' criado por Moro incendeia debate sobre democracia no Tuca - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

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domingo, 20 de março de 2016

Jorge André Irion Jobim: LULA NAS MÃOS DE BANDIDOS DE TOGA. Por Osvaldo Ber...



domingo, 20 de março de 2016

LULA NAS MÃOS DE BANDIDOS DE TOGA. Por Osvaldo Bertolino

É quase impossível que exista no mundo algum outro país em que juízes, desembargadores, ministros de tribunais superiores e integrantes do Poder Judiciário em geral apareçam tanto na mídia como acontece hoje no Brasil. Não é um bom sinal com certeza, sobretudo quando se considera o tipo de noticiário em que costumam aparecer. Ou é porque estão envolvidos em alguma trama política, como no julgamento da farsa do “mensalão”, ou ameaçando alguém com politicagem barata como fizeram os três patetas que pediram a prisão preventiva do ex-presidente Luiz Inácio da Silva.

Agora, dois chicaneiros conhecidos do Judiciário, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, um famoso jagunço da direita, e o juiz midiático de primeira instância Sérgio Moro, estão ameaçando nada mais, nada menos do que o governo com ações que serão julgadas por colegas nas instâncias acima deles. O primeiro, um chicaneiro de longa data e conhecido golpista de carteirinha, suspendeu a posse de Lula no cargo de ministro-chefe da Casa Civil, atendendo à manobra dos partidos direitistas PPS e PSDB, devolvendo o caso para as mãos do segundo, um fascista empedernido.

Algozes do Judiciário

O Judiciário, se fosse democrático e comprometido com os brasileiros, deveria levar em conta a realidade econômica e social do país. Mas o que se tem são chicanas e mais chicanas. Vivem, através das suas associações de classe, publicando manifestos a favor de si próprios. Vão a resorts de luxo, com despesas pagas por gente de quem deveriam estar longe, e ficam revoltados quando se divulga informações sobre isso. Com frequência inquietante, e pelo país inteiro, saem notícias sobre magistrados investigados ou processados por ofensas ao Código Penal. Episódios de conduta incompatível com a função judicial tornam-se cada vez mais comuns.

Brasília, então, é um capítulo à parte. Juízes das mais altas instâncias do país vivem em estado de aberta promiscuidade com advogados dos grandes escritórios do Rio de Janeiro, de São Paulo e de lá mesmo, políticos envolvidos em processos de corrupção e grandes empresários enrolados com a Justiça - para não falar de réus com processos em andamento. Cruzam-se em festas de aniversário, casamentos, feijoadas, torneios de golfe. Em vez de esconderem, advogados exibem em público sua amizade com magistrados, deixando correr a impressão de que podem ganhar qualquer causa; seus honorários não sofrem nada com isso.

Diante de tudo isso, é natural a reação de Lula às chicanas contra ele - sua inclinação a falar exatamente o que pensa e sua pouca paciência para adoçar o que fala têm sido insidiosamente usadas pela mídia para jogá-lo contra seus algozes do Judiciário. Mas ele tem inteira razão. O Judiciário vive sendo acusado de gravissímos problemas causados pela infiltração de bandidos escondidos atrás da toga, um fato notório uma vez que a todo momento, e em todo o Brasil, vêm a público denúncias de corrupção entre juízes, desembargadores ou ministros dos tribunais superiores.

Conduta criminosa

O que existe de real é que a situação do Judiciário brasileiro nunca foi tão calamitosa como hoje - o que realmente ameaça a democracia é a impunidade para juízes criminosos. Isso deveria ser dito pelos que saem em defesa das maracutaias de Gilmar Mendes e Sérgio Moro. Mas é claro que isso não é dito. Como acontece com tantos outros magistrados hoje em dia, eles contam com a conduta de pares tão anti-éticos como eles, que acreditam que seus deveres de solidariedade com a categoria vêm antes de seus deveres como juiz. É uma pena que esse apoio não se estenda aos milhares de juízes honestos que existem no Brasil e que podem perder a vida por causa de sua integridade.

Sérgio Moro cometeu evidentes violações da legalidade com seus grampos e vazamentos de conversas privadas para a mídia. Não adianta o procurador-geral da República, Rodrigo Jonot, dourar a pílula ao dizer que o grampo era no alvo - Lula - e não na presidenta da República, Dilma Rousseff, porque a lei define o cargo, não a circunstância. Vista de outro ângulo, a ilegalidade de Sérgio Moro aparece também no conluio com a mídia, especialmente a revista Veja e a TV Globo.

Além da conhecida conduta criminosa desses veículos, é preciso levar em conta que liberdade de expressão não é um direito hierarquicamente superior aos demais direitos e garantias individuais e coletivas. Na Constituição está no mesmo patamar o direito à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas. Todos igualmente invioláveis e indispensáveis. É preciso haver um equilíbrio entre eles. A defesa da liberdade de expressão exige protegê-la contra abusos como estes. Na democracia, são tarefas conciliáveis.

Linha política

Moro violou claramente a Constituição ao vazar para quadrilhas midiáticas conteúdos de gravações feitas com o intuito de atingir a imagem pública de acusados sem nenhuma (umazinha sequer) possibilidade de prova de qualquer ato ilícito. Ilações, suposições, calúnias e perseguições políticas não podem substituir qualquer denúncia que se preze. Essa conduta do juiz paranaense não está dissociada da denunciamania golpista recente da mídia, quando não faltaram teorias sem fatos - matéria-prima indispensável a qualquer informação séria -, uma combinação quase macabra entre interesses de correntes político-ideológicas e grupos que controlam a circulação de informações com mão de ferro.

Desde o início da crise política, há basicamente dois tipos de país: aquele que entrou de cabeça na denunciamania e aquele que não o fez. No primeiro time, estão quase todos os pregoeiros do projeto político da direita. No segundo, estão aqueles que querem que o Brasil mude efetivamente. O caso “mensalão” foi o grande deflagrador da denunciamania da mídia golpista. Não que a gritaria não existisse antes, mas com aquela farsa ela chegou a um paroxismo histérico que nunca mais se desprendeu do noticiário. Depois disso, vieram “escândalos” em série e todos se revelaram capazes apenas de degradar a palavra “escândalo”, dada sua miserável insignificância.

Diante desses dois tipos de país, o que interessa saber é o seguinte: a linha política que vem sendo executada pelo governo está indo na direção certa? Muito mais importante do que saber se a bolsa vai subir ou cair, se as reações do mercado financeiro foram favoráveis ou não, se o fluxo de câmbio fechou o dia com superávit ou déficit, é ver se os atos do governo estão tentando acrescentar mais respostas “sim” ao questionário que a maioria dos brasileiros tem apresentado diante da crítica situação do país. Sem o foguetório da mídia, a reposta é sim, sim e sim. Óbvio que muita coisa precisa de concerto, mas aí são outros quinhentos.

http://altamiroborges.blogspot.com.br/2016/03/lula-nas-maos-de-bandidos-de-toga.html?spref=tw

Jorge André Irion Jobim: LULA NAS MÃOS DE BANDIDOS DE TOGA. Por Osvaldo Ber...: É quase impossível que exista no mundo algum outro país em que juízes, desembargadores, ministros de tribunais superiores e integrantes...

Lula volta, mas o golpe continua - Carta Maior



20/03/2016 - Copyleft

Lula volta, mas o golpe continua

Lula tenta entrar em campo e pelo que demonstrou na sexta-feira, vem com vontade de ser o artilheiro capaz a virar um jogo que parece difícil.


Eric Nepomuceno, para o Página/12

Juca Varella/ Agência Brasil
No mesmo dia em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a participar de um ato de massas em São Paulo – onde a consigna era “não vai ter golpe!” –, em Brasília, Gilmar Mendes, integrante do Supremo Tribunal Federal, deixava bem claro que o golpe continua em marcha. Atendendo a uma petição apresentada pelo PPS, pequeno partido de oposição, o ministro Mendes, que se caracteriza por hostilizar duramente o governo de Dilma Rousseff e Lula cada vez que se manifesta no pleno do Tribunal, suspendeu a nomeação do ex-presidente como novo chefe da Casa Civil, e devolveu a causa judicial de volta ao polêmico juiz federal de primeira instância, Sérgio Moro. Agora, resta ao governo e aos advogados do ex-presidente apresentar um recurso para suspender a medida.
 
Pouco mais de hora e meia antes, Lula havia discursado para uma multidão, que cobriu a Avenida Paulista, na noite de sexta-feira 18/03. Foi o encerramento de uma jornada que lotou as ruas de todo o país em defesa do mandato de Dilma Rousseff, conquistado em outubro de 2014 mas boicotado desde o primeiro dia por uma oposição que não se resigna à derrota, por um Congresso que confunde a política com um balcão de negócios, por meios de comunicação que acreditam que já basta de governos populares e, finalmente, por um Poder Judiciário que acredita estar por cima das leis e da própria Justiça.
 
As manifestações de ontem, que transcorreram de forma pacífica, certamente levaram às ruas multidões menores que as do domingo passado, que exigiam a imediata deposição de Dilma Rousseff. Um primeiro cálculo indica que ontem havia entre metade e um terço.
 
Um detalhe que ajuda a explicar a diferença: os atos de sexta-feira, os da esquerda, não contaram com a ação da Rede Globo convocando as pessoas a participarem. Para que se tenha uma clara ideia da parcialidade da emissora, enquanto Lula dava seu discurso, nem seu sinal aberto nem o canal de notícias por cabo, a GloboNews, transmitiram suas palavras. No domingo anterior, a programação por cabo se dedicou exclusivamente a cobrir as manifestações, que também ocuparam grandes parcelas do horário central da emissora aberta.

 
De todas as formas, comparar números é algo que, a esta altura, não é tão importante. O que importa é constatar que tanto Lula quanto o PT, e as organizações e movimentos sociais que respaldam o governo de Dilma Rousseff, deixaram claro o seu poder de convocação, que havia sido colocado em dúvida pelo complô midiático-jurídico, e essa resistência está longe de se esgotar. Ao contrário: levar centenas de milhares de pessoas à Avenida Paulista, epicentro do golpismo, para escutar um Lula cuja imagem é golpeada a cada hora de cada dia pelos meios hegemônicos de comunicação é o que se pode classificar como uma façanha. Foi igualmente significativo o número de manifestantes reunidos em Recife, Salvador e Rio de Janeiro, sob a consigna “não vai ter golpe”.
 
O golpe, porém, está em marcha, como deixou bem claro Gilmar Mendes, no Supremo Tribunal Federal. Seu voto não é uma surpresa. Muito mais que atuar como magistrado da máxima corte do país, Mendes se apresenta como um opositor furibundo contra o governo. A propósito, nessa Corte tramitam outras sete medidas interpostas por partidos da oposição, todas pedindo a anulação da nomeação do ex-presidente Lula como ministro chefe da Casa Civil. Com a decisão individual de Mendes, não se sabe o que acontecerá com essas medidas. Na semana que vem, devido aos feriados, não haverá sessões do pleno do Tribunal. Se Sérgio Moro agir, Lula poderia ser preso em qualquer momento. O governo apresentará um recurso de urgência, para tentar manter a nomeação do ex-presidente.
 
A outra perna do golpe, os meios de comunicação, continuam impávidos em sua caminhada. Basta ler as manchetes, as colunas de opinião, os editoriais, e se perguntar se não foram todos escritos pela mesma pessoa. A diversidade nos meios de opinião brasileiros é algo tão raro quanto uma geladeira elétrica no Polo Norte.
 
Por fim, está o Congresso, onde uma comissão especial analisa o pedido de abertura de juízo contra Dilma Rousseff. Se supõe que dos 65 integrantes que representam proporcionalmente todos os partidos com assento na Câmara dos Deputados, o governo conta com estreitíssima maioria: 31 votos seguros, 5 duvidosos. Mas na atual legislatura, até os seguros são duvidosos. Uma das difíceis missões de Lula é precisamente assegurar um mínimo de lealdade entre os aliados. O principal deles, o PMDB, está claramente dividido. E se antes estava partido ao meio, agora tudo indica que os traidores são maioria. Para se ter uma ideia do conceito de ética desse partido: apesar de ocupar sete ministérios, inclusive o de maior visibilidade e orçamento, como é o da Saúde, a legenda costuma abandonar o governo em momentos cruciais, ou pedir um preço pela sua lealdade.
 
Agora mesmo, o PMDB proibiu seus integrantes de aceitarem qualquer outra nomeação durante os próximos 30 dias, nos quais dizem que decidirão se permanecem ou não na aliança governista. Deixar os cargos que ocupam no momento, nem pensar.
 
Nesse complexo cenário, Lula tenta entrar em campo. Pelo que demonstrou na sexta-feira, vem com vontade de ser o artilheiro capaz a virar um jogo que parece difícil.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: Juca Varella/ Agência Brasil
Lula volta, mas o golpe continua - Carta Maior

O que será, que será, que essa sexta feira veio propiciar? - Carta Maior

20/03/2016 00:00 - Copyleft

O que será, que será, que essa sexta-feira veio propiciar?

A classe média progressista voltou à rua, antecedida do engajamento dos intelectuais, ladeada pelas forças populares e a união da esquerda.

por: Saul Leblon


Ricardo Stuckert / Instituto Lula
O que se viu na avenida Paulista, no coração de São Paulo, na última sexta-feira, não foi apenas uma surpreendente resposta à convocação para defender o governo da Presidenta Dilma e a posse do seu novo ministro, Luiz Inácio Lula da Silva, ambos ameaçados de banimento da vida política nacional.


Foi tão mais inesperado e valioso o que se deu ali que uma parte predominante da mídia e de seus analistas, mesmo precificando o pouco compromisso que tem com a isenção, exorbitou no achatamento dos fatos.


A maioria preferiu pasteuriza-los para caberem em escaladas, manchetes e colunas recobertas da preguiçosa certeza martelada pelo jogral diuturno: ‘o governo acabou’; ‘a frente progressista e democrática que o sustenta implodiu’; ‘o PT morreu’ e ‘Lula está destruído’.



Por certo, há traços de verdade em tudo isso. Mas a história é danada para contradizer o que parece lavrado em pedra e cal.


Uma síntese dessa capacidade de afrontar leituras lineares é mostrada no Datafolha deste domingo.


Sob indução do massacre midiático diuturno, Lula é rejeitado por 57% --o que demonstra o grave dano causado a sua imagem pelo cerco conservador.


Quando avaliado pela experiência realmente vivida, porém, é apontado como o melhor presidente da história por 35%. O percentual é o dobro daqueles 17% de intenções de voto que reúne nas enquetes sobre 2018, e que já o colocam no segundo turno, qualquer que seja o cenário da disputa. Com acesso à mídia indisponível hoje, teria dificuldades insuperáveis de abocanhar esse potencial?
 
Foram essas estripulias latentes da história –e as advertências que elas encerram—que ficariam igualmente evidentes nas manifestações da semana passada, não limitadas ao gigantesco ato na maior vitrine política do país, mas estendidas como um rastilho de irrupções igualmente surpreendentes a todos os estados brasileiros.


A demonstração de que o governo tem base social disposta a defende-lo teve sua escala ocultada pelo jornalismo isento, mas ficou registrada em milhares de fotos e imagens captadas pelas redes sociais, e também pela cobertura singularmente equilibrada da Band News, no caso de São Paulo, que transmitiu o discurso de Lula ao vivo e na íntegra.
 



Visto em conjunto, o acervo minimizado pela mídia amplifica o significado da transformação ocorrida na avenida em que, dias antes, horas antes, minutos antes, anunciava-se como o túmulo simbólico do governo eleito há um ano e três meses por mais de 54 milhões de votos.


Razões que ainda exigem  uma decantação mais profunda fizeram com que um Brasil que parecia ter deixado de existir, ressuscitasse ali com renovado vigor e recusasse a tumba.


Milhares, dezenas de milhares, centenas de milhares de pessoas; ou com maior precisão geográfica, onze quarteirões transbordando por alamedas adjacentes foram ocupados com densidade só inferior a dos salões em terça-feira gorda de carnaval.


O que importa aqui, de qualquer forma, não é disputar a exatidão estatística disso que sacudiu as certezas de véspera do conservadorismo brasileiro. Mas, sim, sublinhar a composição inusitada dessa manifestação, o que talvez explique uma parte apreciável de sua abrangência e, sobretudo, a extensão de suas consequências políticas, por certo muito superiores ao desdém martelado pela informação de baixa qualidade e discutível profissionalismo predominante hoje no Brasil.


A contrapelo da extrema-unção lavrada nas análises que anunciam o isolamento terminal do governo, de Lula e do PT, o fato é que a classe média ausente em quase todas as manifestações anteriores convocadas pelo bloco progressista, ressurgiu desta vez na avenida Paulista.


E o fez fortemente representada em todas as faixas etárias --e não apenas através da maciça presença da juventude (12% dos presentes, segundo o Datafolha, teriam entre  21 e 25 anos, contra apenas 5% no dia 13)


Cerca de 45% dos que lotaram a Paulista na sexta-feira, segundo o Datafolha, tem renda entre 5 e 20 salários --ao lado de outros 44% de presença popular com rendimentos de 2 a 5 salários.


Ou seja, uma classe média progressista, que historicamente sempre caminhou ao lado de Lula e do PT, mas dos quais se desgarraria progressivamente nos últimos anos, por razões sabidas e não irrelevantes na explicação da encruzilhada atual do partido, voltou à rua para defender a democracia, o governo, o partido e a liderança que hoje formam um bloco único ameaçado.


Algo semelhante ocorreu no segundo turno das eleições presidenciais de 2014.


Quando a derrota desenhava-se na espiral descendente da candidatura Dilma, a intervenção de Lula politizando uma campanha toxicamente publicitária e burocrática, trouxe a juventude e os cabeças brancas de volta às concentrações e carreatas.


Nunca porém como nesta sexta-feira, tanto na escala, quanto no arrebatamento do reencontro histórico com a rua.


Afluência e entusiasmo iguais, na verdade, talvez só encontrem paralelo recorrendo-se à memória dos grandes comícios de massa da avassaladora campanha presidencial de 2002.


A ênfase quase exclusiva na estratégia publicitária nas disputas posteriores
subestimou a capacidade de luta e discernimento desse protagonista social que progressivamente declinaria de posar apenas como figurante das tomadas de cena da prioridade marqueteira.


O distanciamento da rua e das bases não foi apenas um tropeço de técnica eleitoral.


Houve um movimento profundo a condicioná-lo. A supremacia do jogo institucional entre burocracias e o mercado; e delas com o Congresso, com as consequências sabidas  --comprimiu o espaço das ruas e dos movimentos sociais na via do governo e do partido.


O conjunto reduziu a base, a mobilização e a organização da sociedade a um adereço do discurso amoroso entre o PT e a sua origem, traída pela voragem das razões fiscais do Estado e das demandas dos mercados.


Temperou-se nessa culinária o caldo de cultura para o que se consumou agora.


A organização e a conscientização histórica dos 60 milhões de brasileiros que saíram da miséria e da pobreza e ascenderam na pirâmide da renda no ciclo de 12 anos de governos progressistas, foi menosprezada desastrosamente.


Delegou-se às gôndolas dos supermercados a tarefa de mudar a correlação de forças, adaptando-se o mito dos mercados racionais à ilusão na proporcionalidade incremental entre o tíquete médio de compra e o engajamento histórico progressivo.


A miragem pareceu real enquanto durou o ciclo de vacas gordas.


Ao invés de ser corrigido após o quase desastre eleitoral de 2014 --já sob a égide de uma subestimada persistência da crise mundial-- o economicismo se aprofundou de vez no novo mandato da presidenta Dilma.


A um centurião dos mercados foi dada carta branca para proceder a ajustes cuja pertinência e ponderação só teriam viabilidade se espaçados e negociados com as forças sociais a partir de uma repactuação geral do desenvolvimento, dotada de salvaguardas, metas de conquistas e concessões temporárias em todos os segmentos da economia.


O resto é sabido. Uma espiral descendente impulsionada de forma cada vez mais violenta pelo cerco das milícias golpistas corroeu, primeiro, o estoque da credibilidade acumulada no ciclo de alta do crescimento, para agora negar ao governo, ao partido e ao seu principal dirigente a própria legitimidade constitucional.


É nesse ponto da curva que a classe média progressista irrompeu na Paulista, ao lado da força divisória dos sindicatos, das centrais e dos movimento sociais, para devolver ao vácuo um recheio de reafirmação de valores que surpreendeu  ao próprio PT e desconcertou o conservadorismo que preferiu ignorá-la.


Que isso tenha ocorrido num momento em que o cerco golpista seccionou todos os canais de diálogo e de comunicação com a sociedade –exceto a mídia progressista--  instaurando um cinturão desmoralizante para exercitar diariamente o linchamento histórico do PT, demonstra o potencial auspicioso desse retorno.


Entender como foi que a seta do tempo se recompôs em condições tão adversas é crucial para dota-la do impulso necessários à reversão da atual encruzilhada.


Um elemento importante do processo, por certo, passa pela voz novamente audível dos intelectuais, juristas e artistas que lideraram a viagem de volta da classe média progressista ao embate político.


Foram eles que nos últimos meses, e com a palpável intensidade de um mutirão nas últimas semanas, sacudiram a opinião pública brasileira, alertando para o golpe em curso contra a legalidade, contra os direitos sociais e políticos abrigados na Carta de 1988, contra a prevalência do interesse público sobre a lógica privada, contra enfim, os anteparos econômicos, sociais e políticos construídos arduamente ao longo de gerações para salvaguardar a democracia brasileira do garrote vil do mercadismo puro sangue que embasa o projeto econômico da ‘cruzada ética’ ora em marcha, a deslocar cabeças e mandatos à fogueira da purificação nacional.


Foi sempre assim. E quando deixou de sê-lo nos últimos anos foi porque a inteligência brasileira sentiu-se igualmente reduzida a uma peça ornamental do projeto histórico que havia ajudado a construir.


Finalmente, mas certamente não por último, foi esse resgate do protagonismo intelectual, a iluminar a centralidade do que está em jogo –a defesa da democracia social contra o fascismo de mercado— que rejuntou progressivamente as peças trincadas da frente progressista, trazendo de volta às ruas a força da unidade plural feita de organizações de esquerda, democratas, nacionalistas e liberais sinceros.


Não há trégua à vista no horizonte político do país.


O conservadorismo nunca esteve tão próximo de golpear o poder nos últimos treze anos como agora. Não recuará, a menos que seja compelido a isso.


A inesperada ressurgência da massa progressistas na última sexta-feira deve ser encarada, assim, apenas como um ponto de uma encarniçada luta sem prazo para arrefecer.


É preciso dar destinação organizativa a esse trunfo. Ou ele se perderá na voragem dos acontecimentos.


Se é certo que a sexta-feira fortalece governo no braço de ferro em que se transformou a nomeação de Lula à Casa Civil, não é garantido que isso tenha êxito e muito menos que se consiga institucionalizar o embate contra o golpe em curso.


Outras respostas precisam ser formuladas, considerando-se até mesmo a hipótese de que o braço jurídico do golpe tenha êxito na prisão de Lula.


Há que se ter clareza do nódulo central dentro da centralidade da luta política nesse momento.


Para tirar o Brasil da crise é preciso devolver à democracia um poder ordenador que a correlação de força local e global –e a passividade do governo-- cedeu ao mercado nos últimos anos.


Não se negue à economia leis próprias, circunstâncias limitadoras e incertezas a exigir gestão, equilíbrio e bom senso na repactuação do desenvolvimento.


Nas crises cíclicas do sistema, porém, quando se pretende descarregar sobre a sociedade um fardo de sacrifícios dificilmente vendável como ciência ou fatalidade, é a hora de se afrontar o ‘cientificismo’ dos interesses conservadores com a natureza crua das coisas.


Democracia e capitalismo predatório deparam-se em pé de igualdade com a disputa pelo destino da nação e do seu desenvolvimento nesse momento.


O nó górdio que impede o Brasil de extrair as devidas lições dessa janela reveladora é a rala contrapartida de organização coletiva para levar a cabo a luta por uma outra agenda de ajuste de recorte popular.


Não há espaço para mágicas na história.


O país não sairá do atoleiro se o sujeito do processo, aquele do qual depende o respaldo  para enfrentar a coerção mercadista, permanecer  alheio aos  conflitos que determinarão o seu próprio destino.


O salto em direção a isso hoje no Brasil chama-se frente progressista e democrática.


E a pergunta que ela enseja às organizações populares é curta e grossa:
 
‘O que mais precisa acontecer aqui para que as lideranças sociais, partidos, intelectuais, centrais, personalidades nacionais e mídia progressista anunciem um comitê unificado contra o golpe e uma agenda política de novas mobilizações para a repactuação do desenvolvimento brasileiro?’


Foi essa tarefa que a sexta-feira na Paulista delegou às direções e lideranças que ali se uniram em uma convergência emprenhada de pluralismo e urgências.


A luta progressista ganhou um inestimável bônus de clareza  para responder à clássica interrogação das encruzilhadas históricas: o que fazer?


Fazer da Paulista a contrapartida de uma organização fiel à convergência entre pluralidade e determinação de luta ali reunidas
 
E faze-lo logo.
 
Enquanto há tempo.
 
A ver.



O que será, que será, que essa sexta feira veio propiciar? - Carta Maior