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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Capitalismo e Armas: uma história de amor - Carta Maior

26/10/2015 - Copyleft

Capitalismo e Armas: uma história de amor

A violência se tornou um princípio estruturante da sociedade norte-americana, que agora começa a revelar uma guerra contra si mesma.


Mar Harris - Counterpunch

CounterPunch
Em fevereiro de 2008, eu escrevi o editorial de um jornal de Illinois intitulado "O que faz de alguém um assassino do campus?". O comentário foi motivado pelas mortes na Northern Illinois University (NIU) de cinco pessoas e 21 feridos nas mãos de um ex-aluno armado.
 
Na época, eu me lembrei da visita que fiz ao campus de DeKalb, Illinois, nos dias após o episódio de violência. Por ter sido um estudante naquela universidade anos antes, eu conhecia muito bem Cole Hall, onde o tiroteio ocorreu. Lembro do tempestuoso e frígido inverno daquele dia, enquanto dirigia para a cidade. Senti o peso da tristeza, sensação devidamente adequada à nevasca de angústia que então varria o campus.
 
Mesmo que o incidente da NIU não tenha sido o primeiro tiroteio em escolas, havia a sensação de que algo completamente fora do comum tinha acabado de acontecer. Como poderia ser de outra forma? Por mais rotineira que seja a violência armada neste país, há algo especialmente grotesco sobre o ímpeto de um suicida que atira indiscriminadamente em pessoas inocentes, independente das queixas e aflições que motivam sua mente enferma.
 
As raizes da violência 


Desde 2008 vem ocorrendo vários outros massacres igualmente deploráveis. Infelizmente, o que mais choca talvez não seja a particularidade desses assassinatos em massa, mas a sua regularidade. O que está na raiz desses espetáculos “insanos” de violência pública? A menos que nós acreditemos que um comportamento tão abominável e destrutivo seria de alguma forma inexplicável, como alguns moralistas religiosos poderiam concluir, há sempre uma explicação.
 
Ao investigar histórias dos muitos assassinos, o neurologista Jonathan Pincus escreveu em seu livro, "Base Instincts: What Makes Killer Kill", ser previsível uma combinação de doença mental, danos neurológicos e abuso infantil. Na verdade, pobreza, perda do emprego ou outros fatores estressantes da vida não são em si aquilo que tipicamente faz de alguém um assassino. É necessário que exista uma espécie de semente psicológica corrosiva que já existe anteriormente no individuo. A psicóloga e escritora Alice Miller, assim como outros autores, fazem a discussão sobre as consequências sociais do trauma infantil, identificando as feridas emocionais que muitas vezes fermentam comportamentos patologicamente violentos em adultos.
 
Como Miller descreve em seu ensaio, "The Roots of Violence", a necessidade ou impulso de matar não é resultado de uma "natureza humana" maleável per se, mas resulta de danos infligidos sobre o cérebro em desenvolvimento. "As pessoas cuja integridade não foi danificada na infância, que foram protegidas, respeitadas e tratadas com honestidade pelos seus pais, serão, tanto em sua juventude como na vida adulta - inteligentes, sensíveis e empáticos", escreve Miller. "Eles vão ter prazer na vida e não vão sentir qualquer necessidade de matar ou mesmo de machucar os outros ou a si próprios. Eles vão usar o seu poder para se defender, não para atacar os outros".
 
Em outras palavras, os assassinos são moldados. Não nascem assim.
 
Mas assassinos também não são feitos no vácuo. Essa brutalidade armada em larga escala representa um fenômeno cujo entendimento exige contextualização. Além de um histórico de abuso infantil e comportamentos violentos também estão frequentemente relacionados ao abuso de drogas e exposição crônica a ambientes violentos, como Jeffrey Swanson, uma cientista comportamental da Universidade de Duke conclui em uma recente entrevista.
 
Swanson afirma que a taxa de criminalidade nos Estados Unidos não é muito diferente daquela de outros países da Europa Ocidental, do Reino Unido, do Japão e da Austrália. Mas a taxa de homicídios é muito superior. Uma razão óbvia é a fácil disponibilidade de armas. Considere um incidente recente em Nova York em que duas jovens ficaram feridas e uma terceira foi morta fora de uma boate de Manhattan. Uma briga de fim de noite dentro do clube levou seguranças a expulsarem um jovem que estava no local local. Irritado, esse indivíduo pegou uma arma no seu carro e tentou entrar no clube, mas foi barrado. Em seguida, cruzou a fachada do clube com seu carro e atirou em um inocente. Foi relatado que o atirador tinha como alvo os seguranças que haviam entrado em confronto com ele.
 
Tais incidentes em países onde a prevalência de armas é menor do que nos Estados Unidos são apenas menos suscetíveis a terminar com sangue derramado por uma arma. Já nos Estados Unidos, incidentes mesquinhos têm mais propabilidade de se tornarem violência armada ou homicídios. Isto é completamente inesperado? De acordo com dados do governo, os Estados Unidos têm 4,4% da população do mundo, porém mais de 40% de todo armamento civil. Em 2013 havia cerca de 357 milhões de armas de fogo nesta nação de 319 milhões de pessoas.
 
Nos EUA, portar armas é um direito constitucional. No entanto, o país também é marcado por um tipo de violência desenfreada e corrosiva que se infiltra nas raízes da sociedade, aquele cujo ponto de exclamação é o acesso generalizado às armas letais. Na verdade, as manchete de assassinatos em massa são apenas a ponta do iceberg da violência armada nos Estados Unidos. Como The Washington Post relatou, cerca de 10.000 pessoas foram mortas em incidentes de violência armada nos Estados Unidos até agora só durante esse ano.
 
Algumas pessoas atribuem o agravamento dos níveis de violência armada ao crime organizado. A realidade, no entanto, é mais complexa. Na verdade, as armas têm proliferado em muitas comunidades pobres e interiores das cidades como uma consequência da política de guerra às drogas. É uma consequência de décadas de lei e de ordem a desmando dos democratas e dos republicanos.
 
Como bem explica a historiadora da Universidade de Temple, Heather Ann Thompson, em um ensaio de 2014, no The Atlantic, "Esta nova guerra às drogas criou um mercado ilegal que é perigoso e necessita que não haja uma contenção de armas e violência".
 
Em muitas comunidades urbanas vulneráveis, a Guerra às Drogas se traduz em uma realidade cotidiana de assédio racial, perseguição e matança conduzidos pela polícia. Em vez de tratar o abuso de drogas como uma questão de saúde pública, diz Thompson, fez dele um subterfúgio penal para brutalizar as comunidades urbanas.
 
O Individualismo
 
Em certo sentido, a violência armada generalizada na sociedade americana reflete o célebre individualismo da vida americana voltado contra si mesma. Em uma sociedade que oblitera os laços comunitários e o tecido de infra-estrutura social (incluindo os recursos públicos mínimos de saúde mental), devemos realmente nos surpreender quando muitas pessoas despencam dos limites dessa realidade do faz-de-conta?
 
"Quando a violência se torna um princípio estruturante da sociedade, as rachaduras da democracia norte-americana começam a revelar uma guerra contra si mesma", escreve Henry A. Giroux, da Universidade de McMaster, em um recente ensaio pro CounterPunch. Giroux está certo. Nós vivemos em uma sociedade definida e sustentada pela violência. A mesma semana em que ocorrem tiroteios em Oregon, militares dos EUA realizam ataques aéreos sobre um hospital em Kunduz, Afeganistão, que matou pelo menos 22 pessoas e feriu outras dezenas.
 
Aparentemente, nós nos acostumamos com a economia da guerra permanente e com a militarização da política externa, que podemos agora declarar o fim de guerras mesmo quando elas não acabam. Com um orçamento militar que se iguala à metade de todos os gastos militares do restante do mundo combinados, a nossa presença militar global demarca a mensagem de que a violência é a última solução para qualquer disputa. Esta é uma mensagem que, invariavelmente, se infiltra no subsolo da psique e da cultura americana.
 
Evidentemente que o direito de portar armas, previsto na Segunda Emenda, não se opõe a regulamentação razoável sobre distribuição de armamentos. Por sinal, as armas já estão sujeitas a muitos regulamentos. Ao contrário do clichê paranoico da Associação Nacional do Rifle (NRA), medidas para evitar a venda extraoficial de armas a indivíduos com histórico de violência não se resumem a um debate limitado do direito à posse de armas. Assim como inovações tecnológicas "inteligentes", que podem impedir o disparo de armas sem verificação de identidade.
 
"Uma arma é apenas uma ferramenta, tão boa ou tão ruim quanto o homem que a carrega", declarou o ator Alan Ladd, enquanto pistoleiro Shane, no clássico faroeste de 1950. Tal qual uma sociedade que chafurda num lamaçal de interminável violência, segregada por extremos de riqueza e pobreza e fundamentalmente concebida para enriquecer o 1% (ou menos) que detém a maior parte das indústrias e dos recursos da nação. Com efeito, essa realidade constitui uma forma de violência econômica contra a maioria da população trabalhadora do país, cuja rede incipiente de seguridade social e a deterioração das condições socioeconômicas servem como pano de fundo e favorecem uma epidemia de violência armada.
 
Pode-se notar que, mesmo na década de 1930, no auge da Grande Depressão, as ruas permaneceram relativamente a salvo de violência armada, pelo menos mais do que hoje. Mesmo na década de 1940, com o mundo sob as chamas da guerra, desajustados não entravam nas escolas para atirar indiscriminadamente em pessoas inocentes. Mas essas comparações só falam aos efeitos consumidores da alma que a ordem social capitalista arcaica instaurava sobre a condição humana. Os últimos cem anos constituem um dos séculos mais violentos da história da humanidade. Este fato não é relevante para qualquer discussão sobre a violência armada como uma questão de saúde pública?
 
Em certo sentido, o espectro da violência armada nos EUA é reflexo de uma sociedade atomizada e militarista que respira os fumos da democracia, insensível à violência e ao sofrimento humano e que agora tosse uma alienação e uma amargura por vezes mortal entre as fileiras dos cidadãos mais marginalizados.
 
Se existe um antídoto para essa realidade tóxica, ele será encontrado, a longo prazo, menos em novas leis ou regulamentos sobre as armas e mais na visão radical de um novo tipo de sociedade. Falo da perspectiva de uma democracia de massas genuína, como melhor encarna os ideais históricos do movimento socialista. O antídoto permanece, como sempre, no ar fresco da solidariedade social, em relações humanas enraizadas nos valores de cooperação e de carinho, na garantia das necessidades sociais e de desenvolvimento de cada criança, asseguradas desde o início da vida.
 
Tradução por Allan Brum


Créditos da foto: CounterPunch
Capitalismo e Armas: uma história de amor - Carta Maior

Para Stephen Hawking, não devemos temer máquinas ou robôs, e sim o capitalismo - Yahoo Notícias


HAWKING, UM SOCIALISTA!

Para Stephen Hawking, não devemos temer máquinas ou robôs, e sim o capitalismo


Por  | Yahoo Notícias – ter, 13 de out de 2015
Para Hawking, o destino está nas mãos dos donos dos meios de produção. (AP)Para Hawking, o destino está nas mãos dos donos dos meios de produção. (AP)
As máquinas não serão responsáveis pelo fim do mundo – e nem por uma guerra, como aquelas vistas nos filmes de Hollywood. A maior ameaça que a humanidade deve temer vem, na verdade, do dinheiro (e da ambição que ele desperta nas pessoas).
Quem disse isso foi ninguém menos que o físico britânico Stephen Hawking. Durante uma sessão de perguntas e respostas no fórum Reddit, na última quinta-feira (8), ele previu que a desigualdade econômica poderá disparar nas próximas decadas, ao passo que os empregos vão ficando automatizados, uma vez que os meios de produção serão cada vez mais controlados pelos mais ricos – e estes, por sua vez, tenderão a se recusar a compartilhar a sua riqueza.
“Se as máquinas produzirem tudo que a gente precisa, o resultado vai depender de como as coisas serão distribuídas”, explicou Hawking aos internautas.
“Todo mundo poderá desfrutar da tecnologia, do luxo e do lazer se o que for produzido por máquinas de fato for compartilhado com todos. Ou a maioria das pessoas poderá ficar miseravelmente pobre se os donos desses robôs conseguirem fazer ‘lobby’ contra a redistribuição de riqueza”, completou.
Isto é, os proprietários das máquinas se tornariam uma espécie de burguesia da nova era, em uma sociedade na qual os patrões não precisariam nem da mão de obra barata dos humanos reais. Essa tendência já é vista no mundo atual, no qual o fluxo do capital, cada vez mais financeirizado e volátil, acumula valor de maneira muito mais rápida do que o crescimento das economias mundiais.
“Até o momento, a tendência parece que será a segunda opção, com a tecnologia crescendo de forma desigual”, concluiu o físico, um dos principais cientistas modernos.

Para Stephen Hawking, não devemos temer máquinas ou robôs, e sim o capitalismo - Yahoo Notícias

A subversiva esperança no Brasil - Carta Maior

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Richa repete Alckmin e fecha escolas estaduais | Brasil 24/7

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Coletânea de textos: Lula, o melhor presidente da história do Brasil | bloglimpinhoecheiroso

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segunda-feira, 26 de outubro de 2015

“A política deve ser uma atividade pública, não pode ser financiada por dinheiro privado”, diz ativista | Plebiscito Constituinte

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Quem são os agressivos fascistas? - Carta Maior

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O dia em que vi o fascismo de perto, por Daniel Valença | GGN

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Você não entenderá o Isis se não conhecer a história do wahabismo na Arábia Saudita | Alastair Crooke

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Obrigado, direita!, por Rafael Castilho | GGN

Obrigado, direita!, por Rafael Castilho

Por Rafael Castilho*
Obrigado, direita por mostrar tão nitidamente a sua face mais destrutiva e violenta.

Obrigado, direita por tornar visíveis os seus preconceitos e o desejo de restauração das velhas hierarquias.

Obrigado por deixar a olho nu o seu autoritarismo. Por mostrar o seu desprezo pelas escolhas alheias. Por desconsiderar uma visão de mundo que não seja a de vocês.

Obrigado por nos xingar de desinformados, ignorantes, acomodados, preguiçosos, corruptos. Obrigado por não nos acolher e nos deixar de fora deste camarote VIP eleitoral onde só entra quem se supõe mais esclarecido e iluminado que os outros.

Senhores reacionários, agradeço por defenderem tão explicitamente a ditadura militar e a tortura. Ficou muito mais fácil para identificar o real projeto político de vocês e encorajou muito mais as nossas escolhas.

Damos graças aos eleitores conservadores que despejam ódio nos fóruns de internet. Vocês explicitaram tudo aquilo que fica oculto numa candidatura oficial e escancararam os desejos mais inconfessáveis.

Agradecemos até mesmo as perseguições. Os ataques de fúria. As agressões físicas em praça pública aos companheiros que usavam camiseta vermelha. Foi bom que vocês fizeram isso antes da eleição. Pensando bem, até que vocês foram honestos. Normalmente as candidaturas nos afagam e depois do pleito nos enchem de porrada. Vocês não! Já nos dão mostras grátis do tamanho da opressão que iríamos sofrer. Prometem justamente o que iriam cumprir.

Obrigado direita pela Guerra Fria requentada. Por mostrar como vocês estão atrasados. Que não superaram nem o fim da escravidão, que dirá a ameaça de "golpe comunista". Obrigado por defender tão ardorosamente o neoliberalismo. Ficou mais fácil perceber qual seria o nosso futuro olhando para as grandes economias, agora decadentes, sem potencial econômico e sem vitalidade social.

Obrigado por criticarem tanto os programas sociais. Ficou fácil perceber o egoísmo e indiferença de vocês frente à fome e a miséria.

Direitona, obrigado por revelarem ao grande público estes humoristas yuppies tão ruins. Que reivindicam o direito de fazer piada sobre qualquer barbaridade, violência e exploração. Por serem emissários, através de suas "piadas", do preconceito e do servilismo de vocês. Por não deixarem oculto o desejo de reestabelecer os velhos privilégios e colocar novamente os negros, as mulheres, os gays e os pobres em seu "devido lugar".

Obrigado por resgatarem alguns antigos "astros do rock". O problema é que eles ressurgiram meio carcomidos e caquéticos. Fazendo Cover de si mesmos. Muito bobos e imaturos, mas foi legal perceber como a mídia pode colocar as pessoas no esquecimento ou dar uma canja final, desde que os palhaços estejam dispostos a servir o rei.

Obrigado, direita pelas machetes, noticias e capas escandalosas. Por não deixar nenhuma dúvida que não há nada na velha imprensa que não seja entreguismo e interesses corporativos.

Aliás, obrigado por divulgarem em capa aquela foto da Dilma presa, encaminhada para a tortura nos porões da ditadura. Eu sei que a intenção de vocês era escandalizar a sociedade e causar pânico. Mas vocês humanizaram ainda mais a figura da presidenta. Mostraram ao grande público uma Dilma jovem, corajosa e combativa, que inspira milhões de pessoas que não se conformam diante da injustiça. Agora, aquela imagem ficou eternizada e se tornou uma grande bandeira.

Por tudo isso que foi dito, agradecemos muito a direita!

Seremos eternamente gratos por não nos roubar ilusões e fazer com que a gente entenda de uma vez por todas que não se pode confiar em vocês nem um tantinho assim, nada!

Porque nunca estivemos tão unidos e tão fortes. Porque a truculência de vocês nos mobilizou e nos fez agir.

Vocês aproximaram todos aqueles que não fecham com este discurso violento, rancoroso, preconceituoso, homofóbico e cruel.

Nos unimos num fraterno abraço. Um abraço tão gostoso que promete durar décadas.

Dessa vez, o crédito pela vitória não será de nenhuma aliança espúria com vocês. Pois vocês tiveram que arrancar a máscara, sujar a mão de graxa para no final das contas engolir mais uma derrota.
*Rafael Castilho é sociólogo da FESPSP, Pós-Graduado em Política e Relações Internacionais e em Gestão Pública pela FESPSP. É Consultor e Coordenador de Projetos da FESPSP.
Obrigado, direita!, por Rafael Castilho | GGN

A polícia brasileira, a mais violenta do mundo, mata em nosso nome - Carta Maior





26/10/2015 - Copyleft 

A polícia brasileira, a mais violenta do mundo, mata em nosso nome

O Brasil possui o triste recorde de ter a polícia mais violenta do mundo, a que mais mata. Deveria ser razão para se tornar o maior escândalo do pais.

por Emir Sader em 26/10/2015 às 10:58




Emir Sader
O Brasil possui o triste recorde de ter a polícia mais violenta do mundo, a que mais mata. Deveria ser razão para se tornar o maior escândalo do pais.
 
 Mas não é, porque é uma polícia que mata a jovens pobres e negros, com a delegação e a aprovação implícita de grandes setores da opinião publica. Carne barata, sangue que jorra das famílias pobres, funerais nas periferias anônimas.
 
 O Brasil passa, desde 2003, pelo maior processo de democratização social da sua historia. Os direitos das grandes maiorias são reconhecidos, nao há praticamente ninguém mais abandonado, excluído das políticas do Estado. 
 
 Como é possível que, nesse mesmo momento, essas mesmas famílias incorporadas a direitos sociais básicos, reconhecidas como cidadãos pelo governo, sejam vítimas do maior genocídio do Brasil contemporâneo – o dos jovens negros? Como é possível que isso exista em governos progressistas e como é possível que nós aceitemos passivamente esse genocídios, que diariamente ceifam a vida de dezenas de jovens negros?
 
 Uma parte pode ser atribuída à invisibilização do fenômeno promovida pela mídia, assim como pela criminalização dos jovens negros e pobres. Um procedimento como o controle e detenção de jovens negros e pobres que vão para as praias da zona sul do Rio é uma confirmação evidente dessa criminalização. Mas outras tantas manipulações se dão cotidianamente nos programas que comercializam o crime nas TVs e nos rádios, consolidados pelos jornais e revistas.
 
 Outra parte tem que ser entendida como o “medo dos pobres”, especialmente dos jovens negros, disseminado há décadas na nossa sociedade. O jovem negro e pobre virou fator de “risco” para a segurança da classe média e da burguesia, que prefere que eles sejam reprimidos, presos, mortos.
 
 Fundamentalmente, é a polícia matando jovens pobres e negros, todos os dias, pagos com os salários financiados pelos nossos impostos, usando uniformes que nós colocamos neles como autoridades que reconhecemos, com armas e munição compradas com os impostos de todos – para que os jovens pobres e negros sejam executados em nosso nome.
 
 Como não nos dispomos a ir nós mesmos matá-los, porque seria insuportável, contratamos policiais para fazer esse trabalho sujo por nós. Os corpos desaparecem ou são entregues na calada da noite para suas mães. Não vamos a seus funerais, nem sequer divulgamos seus nomes, suas fisionomias, os nomes e os rostos das suas mães, do seus irmãos, dos seus amigos. 
 
 E se, um dia não aguentarmos mais e passarmos a dizer: “Não em nosso nome.” ”Basta, não aguentamos mais. Chega!”? E se dissermos:  “Não pago mais impostos para financiar uma polícia que mata jovens negros e pobres todos os dias”? 



Tags: Direitos Humanos 
A polícia brasileira, a mais violenta do mundo, mata em nosso nome - Carta Maior

Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro' - Carta Maior

26/10/2015 - Copyleft

Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro'

O mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa 'ausência' da esquerda.


Marcelo Justo

Wikimedia Commons
Autor de uma dúzia de livros essenciais, entre eles “A esquerda ausente – crise, sociedade do espetáculo, guerra”, recém apresentado em Barcelona, Domenico Losurdo é uma referência da esquerda italiana e europeia, capaz de questionar não só as limitações analíticas de um marxismo vulgar como também o eurocentrismo que domina com frequência a reflexão europeia. Em diálogo com a Carta Maior, o filósofo italiano vinculou seu último livro com um dos grandes mistérios da história dos nossos dias: o impacto político do colapso financeiro de 2007-2008.
 
A quebra do banco Lehman Brothers e a crise do sistema financeiro internacional gerou um debate sobre o capitalismo como não se via desde a queda do muro de Berlim e o fim da União Soviética. Na cúpula do G20 de abril de 2009, em Londres, o então presidente estadunidense Barack Obama criticou os excessos de Wall Street, enquanto seu colega francês Nicolas Sarkozy falou da necessidade de refundar o capitalismo e acabar com a era dos paraísos fiscais.
 
Hoje, esse discurso parece uma alucinação de uma memória com febre. A recuperação liderada pela China, com o gigantesco investimento estatal que ativou sua economia e insuflou a demanda mundial, criou a ilusão de um capitalismo capaz de ressurgir eternamente das cinzas. A esquerda, que ainda não havia se recuperado da desorientação deixada pela queda do muro de Berlim, não pode ou não soube aproveitar aquele momento. “Mas a crise não acabou. Não é questão de pensar em paralelos simples, mas recordemos que a de 29 só terminou com a segunda guerra mundial. Hoje, vemos também que a crise não é só econômica, mas também política, como se vê com a União Europeia. Além disso, há um estado de guerra, como vemos na Síria e na Líbia, que tem levado muitos observadores a pensar que existe um grande perigo bélico. A esquerda tem que lidar com todas essas situações ao mesmo tempo: a econômica e social, a política e a bélica”, comentou Losurdo à Carta Maior.


Por quê a esquerda está “ausente”?


O grande problema é que, como diz Losurdo já no título do seu último livro, a esquerda está “ausente”, ou seja, que fugiu do debate público, deixando em seu lugar “o pensamento único neoliberal e neocolonialista”. Em outras palavras, o mesmo sistema de pensamento e práxis que gerou a crise está encarregado de explicá-la, graças a essa “ausência” da esquerda.
 
Losurdo reconhece que, nos últimos anos, essa esquerda “ausente” começou a despertar na Europa. O Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e Jeremy Corbyn no Reino Unido são expressões desse primeiro despertar. “Mas acho que, em todos os casos, ainda não compreenderam a fortaleza do ataque contra o Estado de bem-estar. É um ataque furibundo, que requer uma resposta coordenada”, afirmou ele.
 
Em sua análise, o bem-estar se tornou o equivalente a um bastão essencial numa guerra, a praça que não pode se render, porque levaria à queda de todas as outras. “É paradoxal, porque o bem-estar surgiu como resultado de uma situação nacional e internacional, como uma tentativa de frear as forças de esquerda. No final da Segunda Guerra Mundial, tínhamos uma União Soviética muito prestigiada e forças de esquerda com muito poder em diversos países europeus. O Estado de bem-estar foi a resposta capitalista a esses dois fenômenos. A situação atual é outra. Não existe União Soviética, a esquerda está ausente e a burguesia não tem nenhuma razão para manter esta instituição, por isso a está desmantelando”.
 
Diferente de outros pensadores da esquerda europeia, Losurdo é muito consciente do problema neocolonial. Em seus textos, qualificou a luta anticolonial como uma “luta de classes” e reclamou do fato de a própria esquerda não prestar a devida atenção ao tema. “Necessitamos um novo bloco histórico que lute contra o neocolonialismo que vemos nas guerras que estão acontecendo no Oriente Médio. Uma união de forças, da classe trabalhadora e de países emergentes como China, Brasil, Rússia e outras nações que devem se unir para combater o projeto capitalista-imperialista”, analisou Losurdo.


América Latina e a sociedade do espetáculo


Com relação à América Latina, que tem estado na vanguarda deste questionamento do pensamento único neoliberal no Século XXI, Losurdo vê luzes e sombras. “Há uma ofensiva imperialista na América Latina. Os Estados Unidos não quer abandonar a Doutrina Monroe, da América para os americanos. O golpe na Venezuela, em 2002, é um exemplo. Mas a esquerda latina também cometeu erros. O caso que conheço melhor é o mesmo caso venezuelano. Creio que Chávez fez algo muito importante, ao acreditar num Estado de bem-estar com o dinheiro do petróleo que antes era administrado pela oligarquia venezuelana, mas o seu limite foi ter se centrado na redistribuição, sem mudar o modelo de produção de riqueza. Nisso, a América Latina deveria olhar melhor o exemplo chinês”, afirma.
 
O livro de Losurdo tem como subtítulo “crise, sociedade do espetáculo, guerra”. O conceito de “sociedade do espetáculo” vem de um pensador francês, Guy Debord – que, em 1967, captou o surgimento de um fenômeno que nasceu com a televisão e o consumo, que começava a transformar a realidade na representação-espetáculo. Debord não sabia da internet e mal podia suspeitar do predomínio brutal que o mundo da imagem alcançaria sobre o da palavra décadas mais tarde. “É um obstáculo que a esquerda tem que superar para manter a solidariedade e o Estado de bem-estar. É algo que analiso em meu livro. A classe dominante conquistou não só o monopólio da riqueza e das ideias, mas também o das emoções. Nesse aspecto, creio que esta sociedade do espetáculo é ao mesmo tempo a sociedade da guerra em que se manipula a opinião pública. A situação do Oriente Médio deve ser entendida neste sentido”.
 
Na longa conversa telefônica com a Carta Maior, fica claro, porém, que o centro da reflexão de Losurdo é esta misteriosa “ausência” da esquerda, capaz de convertê-la num “fantasma” que, longe de percorrer a Europa para mudá-la como na frase inicial do “Manifesto Comunista” de Marx e Engels, busca se acomodar no interior da União Europeia neoliberal para não ficar de fora. Segundo o intelectual italiano, esse é o grande desafio. “Um dos problemas do Podemos na Espanha é quando se colocam como algo além da esquerda e da direita. Não dizem algo novo. Mas dizem algo perigoso. Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro. Quando o pensamento dominante busca que a esquerda tenha a mesma visão do Século XX que eles, essa esquerda deve perceber que isso se trata de uma grave capitulação histórica e ideológica, que prepara uma capitulação política para a transformação do presente”, disse ele à Carta Maior.
 
Tradução: Victor Farinelli


Créditos da foto: Wikimedia Commons
Domenico Losurdo: 'Se repudiamos nosso passado de esquerda, desistimos do nosso futuro' - Carta Maior

O Enem e a falácia da “doutrinação”. | Gazeta do Povo

Enviado por danielmedeiros, 25/10/15 12:47:25 PM

O Enem e a falácia da “doutrinação”.

Lembrou na edição desse domingo, 25 de outubro, a insuspeita jornalista econômica Miriam Leitão, que nesses 30 anos, avançamos em três áreas importantes: democracia, estabilidade e inclusão. E que voltar atrás é inaceitável.
No sábado, dia 24, a prova de Ciências Humanas do Enem, cujas questões são formuladas por um pool de professores das 57 universidades públicas do país, deu um banho de democracia, estabilidade e inclusão, elencando para os jovens postulantes a uma vaga no ensino superior, questões sobre a terceira revolução industrial e a desterritorialização da produção ( o que lembra o quanto é bem vinda a multietnicidade dos produtos ao mesmo tempo em que renascem os discursos racistas quanto a pessoas), sobre a moda dos selfies e o narcisismo epidêmico das sociedades urbanas contemporâneas, sobre o desencantamento e a racionalização em Max Weber, sobre a precaução necessária com o transgênicos, sobre a luta histórica pela igualdade de gêneros, sobre os condicionamentos sociais em Mannheim, sobre as guerras e os riscos aos patrimônio material, sobre a proteção ao meio ambiente, sobre a crise da água, sobre a superação da visão mítica do mundo nos pré-socráticos, sobre a alteridade ( em uma bela questão lembrando a importância de se colocar no lugar do outro para avaliar nossas convicções), sobre os excessos do Estado nos regimes ditatoriais, sobre os riscos da espionagem via internet, sobre a multiperspectividade do passado ( ao apresentar dois textos sobre o mesmo fato, a Guerra de Canudos, mostrando a importância do cotejamento das fontes), sobre o papel simbólico e a extensão social da Abolição, sobre o papel de apoio ( aparentemente controverso) das colônias africanas às suas metrópoles na segunda guerra mundial, sobre o papel dos movimentos sociais no aprofundamento da democracia brasileira, levando-a para além da mera participação eleitoral, sobre o conceito de Estado em Hobbes, sobre a importância das imagens no cenário político brasileiro, sobre o papel dos intelectuais na formação do mundo ocidental, sobre a ágora ateniense, sobre a globalização e sua crítica, sobre o problema da erosão nos rios, sobre a concentração urbana no Brasil, sobre o Código eleitoral brasileiro de 1932 e seus avanços, sobre o endividamento brasileiro no regime militar que fundamentou o chamado “milagre brasileiro”, sobre o pan-africanismo, sobre a construção da memória por meio da arte ( e como ela pode servir a propósitos que não são a verdade dos fatos), sobre os sofistas gregos, sobre o conceito de “homem cordial” em Sérgio Buarque de Holanda, sobre as novas formas sustentáveis de explorar a Amazônia, sobre os biomas brasileiros e os problemas que apresentam, sobre as relações entre trabalho e avanço tecnológico, sobre o conceito de Maioridade em Kant ( por meio de uma bela citação de Paulo Freire), sobre os riscos dos agrotóxicos nos alimentos, sobre a dificuldade de os europeus aceitarem a cultura ameríndia ao longo da colonização, sobre o confronto do conceito de socialismo e o capitalismo de Estado da China contemporânea e, finalmente, sobre a crise financeira mundial.
Como se pode ver, a prova de Ciências Humanas do Enem abordou, com largo espectro, temas políticos, econômicos, sociais, culturais, tecnológicos, filosóficos, educacionais, regionais, nacionais e globais, com competência e precisão, utilizando textos e imagens de autoridades e/ou personalidades conhecidas e respeitadas em suas áreas de atuação.
A opção da prova do Enem é claramente a de uma prova cidadã, preocupada com a seleção de jovens capazes de ler, interpretar e se posicionar sobre temas fundamentais, relevantes e urgentes da contemporaneidade.
E a pergunta que resta é: onde está a “doutrinação?” Onde está o viés de “esquerda”? Por acaso os temas tratados na prova não se coadunam com as importantes questões da nossa democracia? Por acaso não é importante que jovens conheçam e debatam essas questões?
O que fica cada vez mais claro é que a falácia da “doutrinação” esconde o desejo da censura e do autoritarismo, travestido de peroração voltado para os que não cuidam de ver com seus próprios olhos e escutar com seus próprios ouvidos.
Que este artigo funcione como um convite para que os leitores e leitoras leiam a prova, analisem suas questões, avaliem as alternativas e só depois formulem seus julgamentos. Não ver e não gostar, não ler e condenar é o caminho mais rápido e fácil para o retrocesso. E quem REALMENTE quer o retrocesso?
O Enem e a falácia da “doutrinação”. | Gazeta do Povo