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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

As paradas de Lula - Carta Maior





14/10/2015 - Copyleft 

As paradas de Lula

Lula, quase cinco anos depois de sair da presidência, está muito mais maduro politicamente, com muito mais clareza dos objetivos pelos quais é preciso lutar.

por Emir Sader em 14/10/2015 às 14:08




Emir Sader
Lula é o grande estrategista político da esquerda brasileira. É nessa qualidade que ele se movimenta com muita cautela. Sabe que é fundamental que o governo da Dilma dê certo, pelo país, e para que ele, uma vez candidato, possa defender esse governo e se colocar como sua continuidade e aprofundamento. 
 
No primeiro mandato da Dilma, ele considerou que ela tinha o direito de realizar seu governo e, inclusive, de ser candidata à reeleição. Diante dos rumos assumidos pelo segundo mandato, Lula se mostrou de acordo com o ajuste proposto, embora considerando-o unilateral nos custos a pagar pelos problemas e, principalmente, se incomodou em que o governo prolongasse tanto o tema do ajuste e so anunciasse medidas negativas durante meses.  
 
No plano político, seu tema reiterado de restabelecer alianças com o PMDB fez com que ele discordasse das posturas e planos políticos que prejudicassem essa aliança. Sua incomodidade com a coordenação política do governo veio basicamente daí e foi atendida com as mudanças recentes no ministério.
 
O outro tema central para Lula é o da politica econômica. Ele é um firme adepto das medidas anticíclicas, como as que seu governo colocou em prática no momento do início da crise internacional, em 2008, com grande sucesso. Como ele costuma dizer, “pobre não é problemas, pobre é solução”.  Colocar dinheiro na mão dos pobres mediante políticas redistributivas é acionar um circulo virtuoso de crescimento econômico. A preocupação maior de Lula, desde o inicio do segundo mandato da Dilma foi a de virar a página do ajuste e passar a uma fase de retomada da expansão econômica.
 
Sua obsessão neste ponto é o da expansão do crédito, como motor da retomada do crescimento econômico. Como ele sempre diz, por exemplo, o BNDES se especializou em emprestar muito dinheiro para poucos, agora é necessário passar a uma fase em que é preciso emprestar pouco dinheiro para muitos.  O governo precisa reativar a economia a partir da expansão do credito, sob diferentes formas, de maneira criativa.
 
Depois de fazer uma dura crítica das politicas econômicas centradas no ajuste na sua viagem à Argentina, Lula retomou, no Congresso da CUT, esse discurso. O de que nenhum país que tenha feito o ajuste saiu melhor do que quando entrou. Que o discurso do ajuste é o da oposição, que o governo não pode aparecer abandonando o discurso vitorioso nas eleições, para assumir o dos derrotados.
 
Coerente com o que tinha afirmado há algum tempo, se dispõe a concorrer de novo à presidência, para evitar o risco dos tucanos voltarem à presidência. É possível detectar sua disposição dessa disputa, da mesma forma que ele preferiria ter outro candidato, mais jovem, para a disputa de 2018. A necessidade de renovação não apenas de pessoas, mas da incorporação de novas gerações de movimentos de jovens, é outra das suas obsessões.  Ele tem a sensação premente de que é preciso abrir caminho e espaço para uma nova geração, realmente contemporânea de todas as imensas transformações – sociais, mas também tecnológicas e culturais – que o Brasil vive.
 
Entre suas preocupações está, também, evidentemente, o PT. Ele tem plena consciência da debilidade em que se encontra o partido que ele fundou e não encontra soluções mágicas que possam resgatar a imagem do PT. Mas tem sempre na sua cabeça o tema do resgate do partido da situação de enorme fraqueza em que se encontra agora.

Lula, quase cinco anos depois de sair da presidência, está muito mais maduro politicamente, com muito mais clareza dos objetivos pelos quais é preciso lutar, consciente do que seu governo não conseguiu fazer e que é necessário realizar ainda no Brasil. É um Lula que lê muito, que multiplica as reuniões para ouvir e para divulgar novas propostas. 
 
Para ele, as utopias de 2002– basicamente as de justiça social, – foram em parte realizadas e em parte incorporadas na agenda nacional. É preciso avançar para novos grandes objetivos, mobilizar os jovens, renovar os quadros da esquerda e do PT. Ele tem consciência de como o futuro depende da sua capacidade de reorganizar as forças que ele soube tão bem articular em 2002 e que agora precisam um novo ordenamento para dar continuidade no projeto iniciado por ele.
 


Tags: Política 
As paradas de Lula - Carta Maior

As paradas de Lula - Carta Maior





14/10/2015 - Copyleft 

As paradas de Lula

Lula, quase cinco anos depois de sair da presidência, está muito mais maduro politicamente, com muito mais clareza dos objetivos pelos quais é preciso lutar.

por Emir Sader em 14/10/2015 às 14:08




Emir Sader
Lula é o grande estrategista político da esquerda brasileira. É nessa qualidade que ele se movimenta com muita cautela. Sabe que é fundamental que o governo da Dilma dê certo, pelo país, e para que ele, uma vez candidato, possa defender esse governo e se colocar como sua continuidade e aprofundamento. 
 
No primeiro mandato da Dilma, ele considerou que ela tinha o direito de realizar seu governo e, inclusive, de ser candidata à reeleição. Diante dos rumos assumidos pelo segundo mandato, Lula se mostrou de acordo com o ajuste proposto, embora considerando-o unilateral nos custos a pagar pelos problemas e, principalmente, se incomodou em que o governo prolongasse tanto o tema do ajuste e so anunciasse medidas negativas durante meses.  
 
No plano político, seu tema reiterado de restabelecer alianças com o PMDB fez com que ele discordasse das posturas e planos políticos que prejudicassem essa aliança. Sua incomodidade com a coordenação política do governo veio basicamente daí e foi atendida com as mudanças recentes no ministério.
 
O outro tema central para Lula é o da politica econômica. Ele é um firme adepto das medidas anticíclicas, como as que seu governo colocou em prática no momento do início da crise internacional, em 2008, com grande sucesso. Como ele costuma dizer, “pobre não é problemas, pobre é solução”.  Colocar dinheiro na mão dos pobres mediante políticas redistributivas é acionar um circulo virtuoso de crescimento econômico. A preocupação maior de Lula, desde o inicio do segundo mandato da Dilma foi a de virar a página do ajuste e passar a uma fase de retomada da expansão econômica.
 
Sua obsessão neste ponto é o da expansão do crédito, como motor da retomada do crescimento econômico. Como ele sempre diz, por exemplo, o BNDES se especializou em emprestar muito dinheiro para poucos, agora é necessário passar a uma fase em que é preciso emprestar pouco dinheiro para muitos.  O governo precisa reativar a economia a partir da expansão do credito, sob diferentes formas, de maneira criativa.
 
Depois de fazer uma dura crítica das politicas econômicas centradas no ajuste na sua viagem à Argentina, Lula retomou, no Congresso da CUT, esse discurso. O de que nenhum país que tenha feito o ajuste saiu melhor do que quando entrou. Que o discurso do ajuste é o da oposição, que o governo não pode aparecer abandonando o discurso vitorioso nas eleições, para assumir o dos derrotados.
 
Coerente com o que tinha afirmado há algum tempo, se dispõe a concorrer de novo à presidência, para evitar o risco dos tucanos voltarem à presidência. É possível detectar sua disposição dessa disputa, da mesma forma que ele preferiria ter outro candidato, mais jovem, para a disputa de 2018. A necessidade de renovação não apenas de pessoas, mas da incorporação de novas gerações de movimentos de jovens, é outra das suas obsessões.  Ele tem a sensação premente de que é preciso abrir caminho e espaço para uma nova geração, realmente contemporânea de todas as imensas transformações – sociais, mas também tecnológicas e culturais – que o Brasil vive.
 
Entre suas preocupações está, também, evidentemente, o PT. Ele tem plena consciência da debilidade em que se encontra o partido que ele fundou e não encontra soluções mágicas que possam resgatar a imagem do PT. Mas tem sempre na sua cabeça o tema do resgate do partido da situação de enorme fraqueza em que se encontra agora.

Lula, quase cinco anos depois de sair da presidência, está muito mais maduro politicamente, com muito mais clareza dos objetivos pelos quais é preciso lutar, consciente do que seu governo não conseguiu fazer e que é necessário realizar ainda no Brasil. É um Lula que lê muito, que multiplica as reuniões para ouvir e para divulgar novas propostas. 
 
Para ele, as utopias de 2002– basicamente as de justiça social, – foram em parte realizadas e em parte incorporadas na agenda nacional. É preciso avançar para novos grandes objetivos, mobilizar os jovens, renovar os quadros da esquerda e do PT. Ele tem consciência de como o futuro depende da sua capacidade de reorganizar as forças que ele soube tão bem articular em 2002 e que agora precisam um novo ordenamento para dar continuidade no projeto iniciado por ele.
 


Tags: Política 
As paradas de Lula - Carta Maior

O 'progressismo' é um fenômeno cíclico? - Carta Maior

14/10/2015 - Copyleft

O 'progressismo' é um fenômeno cíclico?

Alguns dizem que a chegada de dirigentes de esquerda a vários governos coincidiu com o período de alta das commodities, e fingem que não enxergam o passado


Nils Castro - alainet

reprodução
Com mais pirotecnia ideológica que com exame dos fatos, alguns assíduos articulistas se empenham em analisar a chegada de partidos e dirigentes de esquerda a vários governos latino-americanos coincidindo com o recentemente terminado período de alto preço das matérias-primas para, em seguida, definir essa conjuntura como um “ciclo” e sentenciar que este já se esgotou. Essa imaginativa suposição contém mais simplificações e erros que outras fantasias do gênero.
 
Para começar, de onde tiram a ideia de que o lapso entre a primeira eleição de Hugo Chávez e a provável reeleição do kirchnerismo este ano constitui um “ciclo”? O argumento é reiterado, mas carece de substância. Evitam dizer isso também quais foram os ciclos prévios e os prováveis ciclos seguintes, suas formas de sucessão e as conclusões práticas do caso. Devido à falta de uma melhor análise dos processos envolvidos, a palavrinha consegue adotar um verniz doutoral, enquanto o senso comum jaz através desse esquema.
 
Tais articulistas omitem o fato de que o boom das commodities também afetou o México, a Colômbia e o Peru, associando-se a governos do signo político oposto (considerando que o Peru envolve também a traição de um governo eleito graças a um programa progressista, que logo trocou de camiseta). Além disso, em outras nações, como Honduras e Paraguai, o mesmo boom foi acompanhado de golpes de Estado de direita. Não há, portanto, um vínculo entre o preço das matérias-primas e o progressismo. O que houve em realidade foi que os países onde a esquerda governa aproveitaram os benefícios desses preços para resolver os problemas sociais, em contraste com a apropriação privada que se via em outros países.
 
Outro descobrimento dos articulistas é que a queda do preço das matérias-primas antecipa graves problemas, pois afetará as políticas sociais impulsionadas pelos governos “progressistas”. Em consequência disso, sua base de apoio desertará e apoiará a direita nas próximas eleições. Por acaso, os atuais governos de direita estarão isentos das mesmas consequências? Para que onde imigrarão essas bases?
 
Eles afirmam que esta iminente crise será oportuna para aposentar o modelo econômico atual, mas não para abandonar o capitalismo, somente o modelo extrativista, de prosperar mediante a exportação de commodities. Com isso, se poderá empreender as reformas estruturais não realizadas ou iniciadas com demasiada timidez. Mas evitam falar sobre como essas reformas poderão ser realizadas e sustentadas em países onde a esquerda chegou ao poder mas carece de controle sobre os poderes legislativo e judiciário, ou onde ela é minoria dentro dos governos locais.
 
Especialmente, não falam que esse acesso da esquerda ao poder não resultou num processo revolucionário. Na verdade, ele foi fruto da rejeição dos eleitores às consequências sociais das políticas neoliberais do passado, e do repúdio aos políticos tradicionais que as implantaram, contra a vontade de uma cidadania que não estava disposta a assumir os riscos – imediato e de longo prazo – de um assalto dos movimentos populares ao poder.
 
Os governos “progressistas” latino-americanos chegaram ao governo – e não necessariamente ao poder – através de processos eleitorais que venceram apesar do sistema político vigente, dentro das regras estabelecidas pelo regime oligárquico e neocolonial. Assumiram governos que estavam em graves problemas financeiros, e nesse contexto tiveram que reforçar seus compromissos com os eleitores, de resolver as maiores urgências sociais da população.
 
Nada foi mais oportuno do que aproveitar o boom para obter recursos em favor dos necessários investimentos sociais, sabendo que, paralelamente, era preciso melhorar as regras e políticas ambientais e obter fontes de recursos para impulsar um desenvolvimento mais inclusivo e equitativo. Obviamente, os resultados diferentes em cada país, já que são realidades e processos históricos e políticos diferentes. Chamá-los de “progressistas” é apelar a uma jogada linguística que – como o “populista”, que a direita gosta de usar para rotular a esquerda – é suficientemente indefinido para incluir toda essa heterogeneidade. Mas o afã de impor uma definição comum não expressa um interesse acadêmico útil, mas sim a vontade de simplificar os termos e contrapor o “progressismo” com a “autêntica” esquerda, em vez de permitir uma visão onde eles podem ser complementares.
 
Entre essas experiências, há erros e até retrocessos. Mas ninguém pode negar os imensos progressos obtidos em matéria de luta contra a pobreza, direitos cidadãos, emprego e segurança social, etc. Tampouco se pode esquecer o que foi alcançado em termos de recuperação da soberania e criação de mecanismos de solidariedade e cooperação latino-americana. Não que tudo isso seja suficiente, mas a América Latina nunca havia sido tão independente e autodeterminada como agora. Ainda que para esses articulistas não se satisfaçam com isso, é bom lembrar que para a enorme maioria popular, essas mudanças têm sido uma experiência extraordinária. 
 
Por isso mesmo, hoje confrontamos uma poderosa contraofensiva da direita e dos mentores transnacionais para desacreditar e substituir esses governos. Esse esforço tem levado a investimentos de diferentes formas, buscando renovar os recursos políticos e as linguagens midiáticos da direita, incluindo reciclar os métodos que antes serviram para justificar o golpe contra Salvador Allende e impor a contrarrevolução neoliberal em seu país. Essa contraofensiva se sobressai entre as notícias de cada dia em toda a América Latina, mas os articulistas preferem não vê-la, ou procuram omiti-la.
 
 
Tradução: Victor Farinelli



Créditos da foto: reprodução
O 'progressismo' é um fenômeno cíclico? - Carta Maior

Paraguai: rebelião estudantil e descontentamento popular - Carta Maior



14/10/2015 - Copyleft

Paraguai: rebelião estudantil e descontentamento popular

O governo de Horacio Cartes, envolvido com narcotráfico e fraudes bancárias, eleito depois do golpe contra Fernando Lugo, enfrenta resistências populares.


Rafael Salinas, Socialismo ou Barbárie

wikimedia commons
“O Paraguai é como uma mulher fácil e bonita, com a qual poderão fazer o que queiram. Poderão repatriar quase tudo o que ganharem, os impostos que deverão pagar serão mínimos, e sobretudo, não terão que arcar com o lastro dos sindicatos”. (Horacio Cartes, presidente do Paraguai, falando com investidores estrangeiros ao assumir seu cargo, Última Hora, 20/082013). 
 
“Usem e abusem do Paraguai porque este é um momento importante de oportunidades”. (Horacio Cartes falando com uma centena de empresários brasileiros, Última Hora, 18/02/2014)
 
“Uma vaca ou um cachorro são iguais a qualquer estudante”. (Froilán Peralta, reitor da Universidade Nacional de Assunção, Paraguay.com, 21/09/2015)
 
O Paraguai vive atualmente uma situação política que desperta sinais de interrogação sobre o futuro de seu narco-presidente, Horacio Cartes, e também do regime autoritário-policial que ele encabeça. Um regime que sua base política já não consegue dissimular nem a brutalidade, nem a corrupção. 
 
Isto começou há uns dois meses com um feito que nenhum meio de comunicação noticiou. Os estudantes do colégio de Salesianos, em Assunção, fizeram um enorme protesto. Normalmente algo assim não transcendia as paredes de um colégio ou uma faculdade. Mas agora esta faísca encontrou a quantidade necessária de pólvora que estava acumulada. 
 
O protesto foi crescendo cada vez mais, com ocupações e manifestações massivas nas ruas. Dos colégios de ensino fundamental públicos e privados, o incêndio passou para a Universidade Nacional de Assunção (UNA), a principal e mais atinga do país. 
 
Na UNA, em 22 de setembro, milhares de estudantes tomaram as 12 faculdades e os reitores ficaram presos até a noite, fechados em uma sala sem ar condicionado sob um calor de 40ºC. Antes que passassem mal, os estudantes deixaram que saíssem da universidade. Mas, ao sair, a situação piorou para eles, tamanha era a multidão hostil que os esperava com gritos de “delinquentes”, “canalhas”, “crápulas”, “ladrões”, “ignorantes”. Só uma intervenção de estudantes foi capaz de salvá-los de um linchamento durante a fuga. 
 
Froilán Peralta – veterinário, reitor da UNA e famoso por sua inspirada frase: “uma vaca ou um cachorro são iguais a qualquer estudante” - se salvou de ser capturado por não ter ido neste dia à universidade. Passou imediatamente à clandestinidade e logo abandonou o cargo, enquanto um juiz investiga seus roubos. 
 
Mais setores se unem aos protestos, o que demonstra um descontentamento geral 
 
O notável é que o movimento tende a prolongar-se depois do impulso dos secundaristas e da UNA e agora abarca também outros setores. 
 
Na segunda-feira 5 de outubro, houve grandes mobilizações de estudantes e trabalhadores da educação em Assunção em outras cidades, com manifestações, fechamentos de avenidas e ocupação do prédio do Ministério da Educação e Cultura (MEC). As principais reivindicações são aumento do investimento em educação para 7% do PIB e fim do autoritarismo e da corrupção educacional e estatal. 
 
Mas a história vai muito além. Uma pesquisa do Ibope-Paraguai de agosto deste ano revela que 64% da população desaprova o governo Cartes. Passados dois anos, o descontentamento crescente e generalizado com a quadrilha do Partido Colorado é arrasador... mas também afeta a falsa “oposição” do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), que tenta fazer o jogo. A questão é que em muitos casos, por exemplo na Universidade, há uma divisão negociada de cargos, privilégios... e oportunidades de roubar a quatro mãos, e aos liberais também toca uma parte. 
 
Este descontentamento generalizado – como dizíamos – tem um conteúdo político que objetivamente vai além dos “educadores” que consideram seus alunos vacas ou cachorros, e do escândalo de “professores” que cobram salários exorbitantes por sete cátedras que nunca cumprem. O movimento questiona potencialmente todo o cenário político, incluindo o presidente Cartes. 
 
As consequências de uma derrota
 
O atual governo é produto de uma derrota popular, o golpe “brando” que derrubou sem grande resistência o governo de Fernando Lugo, em 2012. Esta derrota se combina com os recursos de autoritarismo brutais dos aparatos políticos e estatais, herdados de décadas de ditaduras. 
 
Esta séria derrota política (agravada pela vergonhosa atitude de Lugo) e as ilusões semeadas em Cartes (que assume a presidência em agosto de 2013) abriram expectativas em setores da classe média urbana (cujos filhos iniciaram agora este movimento de protestos), mas também nos meios mais populares. 
 
Porém, o neoliberalismo selvagem e entreguista, encarnado por Cartes, burlou suas ilusões. Não trouxe nenhum benefício a estes setores, tampouco à classe trabalhadora. Cartes se orgulha em afirmar que o PIB do Paraguai, segundo estatística oficiais, havia crescido em 2014 a notável cifra de 4,4%. Mas isso – e muito mais – foi para os bolsos dos empresários, em grande parte estrangeiros, que aplicam ao pé da letra sua consigna: “usem e abusem do Paraguai”! A maioria da população não notou melhoras e está em uma situação pior. 
 
Os festejos pelos “êxitos” da economia na verdade provocaram raiva nos que não foram afetados com nenhuma fatia. Como acontece em boa parte do mundo, o “crescimento” econômico neoliberal arrecada uma distribuição cada vez mais desigual e polarizada. 
 
No caso do Paraguai – como temos visto recentemente também em Honduras – a raiva surge também contra a corrupção exacerbada de políticos e funcionários 
 
Uma alternativa política dos trabalhadores, da juventude e dos setores populares contra Cartes
 
As manifestações e protestos têm levantado exigências democráticas e econômicas, desde o rechaço ao autoritarismo, até a questão do investimento na educação (e seu saqueamento pelos colorados ou liberais). Isto é um grande avanço desde a situação de retrocesso e derrota provocada pelo ex-bispo!
 
Mas só isso não basta. Este primeiro passo exige seguir adiante... sob pena de retroceder. Há algo que poderão mudar em Cartes, que governaria até 2018 com a linha de que o “Paraguai é como uma mulher fácil e bonita com a qual poderão fazer o queiram”?
 
Hoje este governo desfruta de forte rechaço de dois terços do povo paraguaio. Há que lutar para que este repúdio generalizado, esse amplo descontentamento, se materialize em um movimento que dê uma alternativa política democrática. Isto tem dois aspectos principais: o primeiro é que Cartes se vá agora; o segundo é que o povo paraguaio decida democraticamente – por exemplo em uma Assembleia Constituinte imposta com mobilizações – se quer que o Paraguai siga submetido aos exploradores nacionais e estrangeiros, ou se é necessária uma mudança revolucionária.  
 
Neste panorama seria decisivo que a juventude e os educadores que estão se mobilizando se relacionem com outros setores da classe trabalhadora, que podem estar dispostos a lutar, como por exemplo os motoristas de ônibus. 
 
Transformar o descontentamento geral em mobilização da juventude e dos trabalhadores é o meio de acabar com Cartes e abrir uma nova perspectiva. 
 
Sem “o lastro dos sindicatos” nem sua “chantagem social” 
 
“A crucificação dos motoristas é uma chantagem social, pois apelam à compaixão para recuperar seus empregos... As empresas têm todo o direito de demitir seus trabalhadores”. (Guillermo Sosa, ministro do Trabalho. Jornal Hoy, 22/07/2015)
 
Já vimos como o presidente Cartes, ao assumir, prometeu aos capitalistas que no Paraguai “não terão que arcar com o lastro dos sindicatos”. Através, principalmente, do Ministério do Trabalho se aplica uma política de “terra arrasada”, na qual sequer são tolerados os sindicatos burocráticos. Cartes quer impor à força o modelo ianque de “open shop”; ou seja, fábricas e empresas sem nenhuma organização dos trabalhadores. 
 
Mas esta política também começa a ser contestada. Ainda que não seja de forma massiva, alguns casos já estão causando impacto. 
 
Em junho deste ano começou um conflito na empresa de ônibus La Limpeña, propriedade do deputado Celso Maldonado do Partido Liberal, que é “a leal oposição de sua majestade” ao presidente Cartes. 
 
As condições de trabalho são horrorosas. A jornada “normal”, sem pagamento de horas extras, é de 18 horas, os trabalhadores devem pagar os reparos dos ônibus que dirigem, a empresa sonega a contribuição para as aposentadorias, entre outros abusos. Finalmente fartos, os motoristas começaram a organizar um sindicato. A resposta do deputado foi despedir 57 funcionários. O Ministério do Trabalho se aliou, obviamente, ao setor patronal. 
 
Em meio a este retrocesso, e ainda sem as manifestações estudantis consolidadas, os trabalhadores despedidos resolveram chamar a atenção: se instalaram em barracas em frente à empresa e ao Ministério e seus dirigentes começaram a se crucificar (literalmente) semanalmente. 
 
Isto começou a ter certo impacto, inclusive internacionalmente. No final de agosto foi realizada uma marcha de solidariedade de diversos sindicatos até o Ministério do Trabalho. Ao se aproximar do prédio foram brutalmente reprimidos com cassetetes e balas de borracha. Como disse o ministro, ele não vai tolerar “chantagens”. 
 
Breve resumo sobre Cartes & Family Corp. 
 
A calamidade que foi o golpe contra Lugo deixou uma desmoralização e confusão política bem aproveitadas pela direita. Horacio Cartes foi “vendido” no “mercado eleitoral” como um “homem jovem” na política (ele se filiou ao partido em 2009). Era a “renovação” necessária que teria um “jovem empresário exitoso”. 
 
Igual a Mauricio Macri – com quem se parece em alguns aspectos, em primeiro lugar no neoliberalismo raivoso – Cartes deu o salto à política desde o futebol. Isso porque era presidente do clube Libertad, um dos principais do Paraguai. Isto lhe rendeu uma “popularidade” convenientemente vazia de definições políticas. 
 
Mas Cartes também tem uma trajetória “empresarial” peculiar. Ele e sua família pertencem a essa burguesia que tem peso relevante no Paraguai e em outros países latino-americanos. 
 
Assim, depois de estudar nos Estados Unidos, enviado por sua família – a concessionária  de aviões Cessna – o “jovem empreendedor” Horacio Cartes fundou, em 1989, a casa de câmbios Amanbay (logo Banco Amanbay)... que em meados dos anos 90 protagonizou uma fraude de US$ 34 milhões para o Banco Central. Por este primeiro “empreendimento”, Cartes esteve foragido por quatro anos, até que a Corte Suprema, bastante cúmplice, o ajudou. 
 
O negócio familiar dos aviões teve também seus rentáveis desenvolvimentos. Segundo documentos da DEA revelados pelo Wikileaks, os Cartes estão envolvidos em operações e lavagem de dinheiro provenientes de contrabando de cigarros e drogas nas aeronaves. Em 2000 foi capturado um dos aviões na fazenda Esperança, pertencente a Horacio Cartes, com 343 quilos de maconha e 20 de cocaína. Seu tio, Juan Domingo Vivero Cartes, passou seis anos detido no Brasil por narcotráfico. O sobrinho teve mais sorte: pousou na presidência do Paraguai. 
 
Tradução de Mariana Serafini
Créditos da foto: wikimedia commons
Paraguai: rebelião estudantil e descontentamento popular - Carta Maior

O Verdadeiro Colombo

08878.0001.det América Latina - Jacobin- [Howard Zinn; tradução de Alejandro Garcia para o DL] Não houve aventura heróica apenas carnificina. O Dia de Colombo não deve ser uma celebração.

Homens e mulheres aruaques, desnudos. leonados e cheios de curiosidade, emergiram das suas vilas em direcção às praias e nadaram para observar melhor o grande e estranho barco. Quando Colombo e seus marinheiros alcançaram a costa, com as suas espadas, os aruaques correram para os saudar, trouxeram-lhes comida, água, e regalos. Mais tarde registou no seu diário:

Trouxeram-nos papagaios e bolas de algodão e lanças e muitas outras coisas, que trocaram por esferas de vidro e cascavéis. Com boa vontade trocavam tudo o que tinham... Não usam armas e não as conhecem, pois mostrei-lhes uma espada e empunharam-na pela lâmina e por ignorância cortaram-se. Seriam bons servos... com cinquenta homens poderíamos subjugá-los a todos e fazer com eles o que quer que queiramos.
Estes aruaques das ilhas Bahamas eram muito parecidos com os índios do continente, que eram distinguidos (diriam observadores europeus vezes sem conta) pela sua hospitalidade e a sua crença na partilha. Estes tratos não estavam em grande conta na Europa da Renascença, dominada como estava pela religião dos papas, dos governos dos reis, o frenesim por dinheiro que marcava a civilização Ocidental e o seu primeiro mensageiro nas Americas, Cristóvão Colombo.

A informação que Colombo mais queria era: Onde está o ouro? Tinha persuadido o rei e rainha de Espanha a financiar uma expedição para as terras e riqueza, que esperava que estivessem no outro lado do Atlântico — as Índias e Ásia, ouro e especiarias. Pois, tal como outras pessoas informadas do seu tempo, sabia que o mundo era redondo e que podia navegar em direcção a Ocidente de maneira a alcançar o Extremo Oriente.

Espanha tinha sido há pouco tempo unificada, um dos estados-nação modernos, como França, Inglaterra e Portugal. A sua população, a maioria campesinos pobres, trabalhava para a nobreza, que eram 2 por cento da população e eram donos de 95% da terra. Como outros estados do mundo moderno, Espanha buscava ouro, que se estava a tornar a nova marca de riqueza, mais prático que a terra porque podia comprar qualquer coisa.

Havia ouro na Ásia, pensava-se, e certamente sedas e especiarias, pois Marco Polo e outros haviam trazido coisas maravilhosas das suas expedições por terra séculos antes. Agora que os turcos haviam conquistado Constantinopla, o Mediterrâneo oriental e controlavam as rotas terrestres para a Ásia, uma rota marítima era necessária. Os marinheiros portugueses estavam a trabalhar no seu caminho à volta da ponta sul de África e Espanha decidiu apostar numa longa viagem através de um mar desconhecido.

Como recompensa por trazer de volta ouro e especiarias, prometeram a Colombo 10 porcento dos lucros, governação sobre as novas terras descobertas e a fama que adviria do seu novo título: Almirante de la Mar Océana. Era empregado de um comerciante da cidade italiana de Génova. Tecelão em “part-time” (filho de um tecelão habilidoso) e um marinheiro excelente. Iniciou a expedição com três navios, o maior era o Santa Maria, talvez com 100 pés de comprimento e trinta e nove tripulantes.

Colombo nunca chegaria à Ásia, que estava a milhares de milhas para lá do que ele tinha calculado, imaginando um mundo mais pequeno. Ele estaria condenado por aquela imensidão de mar. Mas teve sorte. A apenas um quarto do caminho percorrido deparou-se com terras desconhecidas e inexploradas que surgem entre a Europa e a Ásia — As Américas. Era o princípio de Outubro de 1492, e trinta e três dias desde que ele e a sua tripulação tinha zarpado das Canárias, na costa atlântica africana. Agora viam ramos e paus a flutuar na água. Viam bandos de pássaros.

Estes eram sinais de terra. Depois, no dia 12 de Outubro, um marinheiro chamado Rodrigo viu a lua das primeiras horas da manhã brilhar nas areias brancas e gritou. Era uma ilha das Bahamas no Mar das Caraíbas. O primeiro homem a avistar terra teria uma pensão anual de 10,000 maravedis para toda a vida, mas Rodrigo nunca a teve. Colombo alegou que tinha visto uma luz na noite anterior. Ficou com a recompensa.

Então, aproximando-se da terra, foram recebidos por índios aruaques, que nadavam para os saudar. Os Aruaques viviam em aldeias comunitárias, tinha desenvolvido a agricultura do milho, inhame e mandioca. Sabiam fiar e dominavam a arte da tecelagem, mas não tinham cavalos ou animais de carga. Não tinham ferro mas usavam pequeno ornamentos de ouro nas suas orelhas.

Isto veio a ter enormes consequências: levou Colombo a trazer a bordo prisioneiros porque insistia que o guiassem à fonte do ouro. Depois navegou em direcção ao que hoje é Cuba e depois à Hispaniola (a ilha que hoje consiste em Haiti e República Dominicana). Aí, pedacitos de ouro visíveis nos rios, e uma máscara de ouro apresentada a Colombo por um chefe índio local, levou a visões de minas de ouro. O relato para a Corte em Madrid de Colombo foi extravagante. Insistia que tinha chegado à Ásia (era Cuba) e a uma ilha da costa de China (Hispaniola). As suas descrições eram parte factos, parte ficção.

A Hispaniola é um milagre. Montanhas e montes, planícies e prados, são ambos férteis e lindos... há imensas especiarias e grandes minas de ouro e outros metais...
Os Índios, reportava Colombo, “são tão inocentes e tão livres das suas possessões que ninguém, que não tivesse testemunhado, acreditaria. Quando lhes pedes algo que eles tenham, nunca dizem não. Pelo contrário, oferecem-se para compartir com qualquer um...” Concluía o seu relato pedindo uma pequena ajuda de suas Majestades, e em compensação traria de sua próxima viagem “tanto ouro quanto precisassem... e tantos escravos quantos pedissem.”

Por causa do relato exagerado e das promessas de Colombo, foi dada à sua segunda expedição dezassete navios e mais de duzentos homens. O objectivo era claro: escravos e ouro. Da sua base em Haiti, Colombo enviou expedição após expedição para o interior. Não encontraram minas de ouro, mas tinha que encher os navios de regresso a Espanha com algum tipo de dividendo.

No ano de 1495, fizeram uma incursão por escravos, reuniram uns 1500 homens, mulheres e crianças aruaques, juntando-os em currais guardados por espanhóis e cães e depois escolheram os melhores espécimes para carregar os navios. De esses 500, 200 morreram na travessia. Muitos dos escravos morreram em cativeiro. Então Colombo, desesperado por pagar de volta os dividendos àqueles que investiram teve que tornar válida a sua promessa de encher os navios com ouro. Na província de Cicao em Haiti, onde ele e os seus homens imaginaram que existiam grandes minas de ouro, ordenaram que todas as pessoas maiores de catorze anos obtivessem uma certa quantidade de ouro cada três meses. Quando a traziam, davam-se-lhes umas placas de cobre para as usarem em volta do pescoço. Índios encontrados sem estas placas veriam as suas mãos cortadas e seriam sangrados até à morte.

Tinha sido dada aos índios uma tarefa impossível. O único ouro nas proximidades eram pequenas quantidades de ouro em pó arrecadada das correntes. Então fugiram, foram perseguidos com cães e foram mortos. Quando se tornou claro de que já não havia mais ouro, os índios foram levados como escravos para grandes propriedades, conhecidas posteriormente como encomiendas. Eram trabalhadas a um ritmo feroz e morriam aos milhares. No ano 1515, só havia talvez 50,000 índios. No ano de 1550 só havia 500. Um relato do ano 1650 evidencia que nenhum dos originais aruaques ou dos seus descendentes restava na ilha.

A fonte principal — e em muitas matérias a única fonte — de informação sobre o que aconteceu nas ilhas após a chegada de Colombo é Bartolomé de las Casas, que, como jovem padre, participou na conquista de Cuba. Por um período de tempo foi proprietário de uma plantação na qual os índios escravos trabalhavam, mas desistiu dela e tornou-se um crítico impetuoso da crueldade espanhola. Las Casas transcreveu o diário de Colombo e, nos seus cinquentas, começou o multi-volume Historia de las Indias.

No livro dois da sua Historia de las Indias, Las casas (que inicialmente pressionou a que substituíssem índios por escravos negros, pensando que estes seriam mais fortes e sobreviveriam, mas depois cedeu quando viu os efeitos nos negros) conta sobre o tratamento que era dado aos índios pelos espanhóis. Após pouco tempo os espanhóis recusavam-se a caminhar qualquer distância. “Montavam as costas dos índios se estivessem com pressa” ou eram carregados em macas pelos índios em turnos. “Neste caso também tinham índios carregando grandes folhas para lhes tapar o sol e outros para fazer-lhes vento com asas de ganso.”

Controlo total levou à crueldade total. Os espanhóis “não pensavam nada ao apunhalar índios às dezenas e vintenas ou cortar fatias destes para testar a condição das suas espadas.” As tentativas dos índios para se defenderem falharam. Las Casas relata, “sofreram e morreram nas minas e em outros trabalhos em silêncio desesperado, não conhecendo sequer uma alma no mundo a quem pudessem pedir ajuda.” E descreve o seu trabalho nas minas:

...as montanhas são taladas do topo à base e da base ao topo mil vezes; eles cavam, quebram rochas, movem pedras e carregam os detritos nas suas costas para lavar nos rios, onde aqueles que lavam o ouro estão na água o tempo todo com as suas costas tão constantemente curvadas que se lhes quebram.
Após cada seis ou oito meses de trabalho nas minas, que era o tempo requerido para cada grupo recolher o ouro necessário para derreter, um terço dos homens morria. Enquanto que os homens eram enviados a muitas milhas de distância para as minas, as mulheres ficavam para trabalhar a terra, forçadas ao atroz trabalho de cavar e fazer milhares de montes para a planta mandioca.

Assim maridos e mulheres estavam juntos apenas uma vez cada oito ou dez meses e quando se encontravam estavam ambos tão exaustos e deprimidos... que deixaram de procriar. E quanto aos recém-nascidos, morriam cedo porque as suas mães, esgotadas e famintas, não tinham leite para os amamentar... algumas mães chegavam mesmo a afogar os seus filhos por completo desespero... desta maneira, maridos morriam nas minas, mulheres no trabalho e os filhos por falta de leite... e em pouco tempo esta terra que era tão extraordinária, tão poderosa e fértil... estava despovoada,

Quando chegou à Hispaniola em 1508, Las casas afirma, “havia 60,000 pessoas a viver nesta ilha, incluindo os índios; portanto de 1494 até 1508, mais de três milhões de pessoas tinham morrido da guerra, escravatura e das minas. Quem nas futuras gerações irá acreditar em isto? Mesmo eu escrevendo-o como uma testemunha ocular conhecedora mal o posso crer...”

O que Colombo fez aos aruaques das Bahamas, Cortez fez aos Astecas de México, Pizarro aos Incas de Peru, e os colonos ingleses de Virginia e Massachusetts aos powhatan e pequots. Usaram as mesmas tácticas e pelas mesmas razões — o frenesim nos pioneiros estados capitalistas da Europa por ouro, escravos, por produtos da terra, por pagar aos obrigacionistas e accionistas das expedições, financiar as monarquias burocráticas que ascendiam na Europa Ocidental, estimular o crescimento da economia do novo dinheiro a emergir do feudalismo, por participar no que Karl Marx mais tarde viria a chamar “acumulação primitiva de capital.” Estes foram os começos violentos de um sistema intrincado de tecnologia, negócio, política e cultura que iria dominar o mundo nos próximos cinco séculos.

Quão certos estamos de que o que destruímos era inferior? Quem era esta gente que foi à praia e nadou para trazer regalos a Colombo e à sua tripulação, quem viu Cortez e Pizarro cavalgar pelos seus campos? Que conseguiu as pessoas de Espanha de todas aquelas mortes e brutalidade sobre os índios das Américas? Assim o sumariza Hans Koning no seu livro Columbus: His Enterprise:

Por todo o ouro e prata roubado e enviado para Espanha não fez o povo espanhol mais rico. Deu aos seus reis um avanço no equilíbrio de poder por um tempo, uma oportunidade de contratar mais mercenários para as suas guerras. Sem embargo Acabaram por perder essas guerras e tudo o que restou foi uma inflação mortal, uma população faminta, os ricos mais ricos, os pobres mais pobres e uma arruinada classe campesina.
Assim começou a história da invasão europeia das povoações índias nas Américas. Esse início é conquista, escravatura, morte. Quando lemos os livros de história dados às crianças nos Estados Unidos, tudo começa com uma aventura heróica — não há derramamento de sangue — e o Dia de Colombo é uma festa.

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O Verdadeiro Colombo

Atentados na Turquia: a serviço de quem?

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Prefeituras do PT e os conselhos municipais — Brasil Debate

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Desconstruindo as “pedaladas fiscais” — Brasil Debate

Dada a virtual missão que se atribuiu, de julgar e rejeitar (por manipulação) as contas do governo de 2014, o TCU tem tido um comportamento errático, burlando em muito o seu papel legal e constitucional.
Como ele já vem exorbitando claramente em suas funções constitucionais, investigando e fiscalizando eventos que estão fora da alçada que o Congresso atribuiu-lhe, o TCU veio, através do relator das contas de 2014, Sr. Augusto Nardes, dar ordens ao Congresso, solicitando que esse analise agora as contas de 2014, deixando para depois as contas dos 13 anos anteriores!
E a razão principal para essa falta grosseira não é questão de timing para a conclusão da missão que o TCU se atribuiu, mas sim que, ao evitar que as contas anteriores sejam analisadas agora, impede-se a comparação dos critérios utilizados nas contas de 2014 e todas as demais. Vai saltar aos olhos a aberração legal e jurídica dos procedimentos de 2014, ficando claro o intuito de utilização do TCU para inconfessáveis fins políticos.
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Desconstruindo as “pedaladas fiscais” — Brasil Debate