Total de visualizações de página

terça-feira, 15 de setembro de 2015

o apedeuta: impeachement




terça-feira, 15 de setembro de 2015


'Crise revela colapso da Nova República'


:

A crise de 2008 foi muito grave, mas o governo brasileiro conseguiu evitar que a população sofresse suas consequências por 7 anos. Por todo esse período os salários e o emprego subiram continuamente. Isso foi especialmente difícil porque o governo não quis desobedecer aos princípios macroeconômicos básicos instituídos pelo governo FHC: a autonomia do Banco Central e a hegemonia das finanças sobre as determinações centrais da política econômica através do Tripé: câmbio flutuante, meta de inflação e de superávit primário.
Tripé: a máquina que cria e legitima os juros indecentes
Nenhuma das metas do Tripé está relacionada a emprego e crescimento. Portanto, só por acaso poderia levar a eles. Na prática isso só pode acontecer, quando o dólar está em processo de valorização nominal. Caso contrário, as metas de inflação e superávit primário são tão exigentes, para a situação econômica brasileira, que a única forma de atendê-las é com os juros muito altos e recorrentes arrochos fiscais. O Tripé é assim a justificativa, o instrumento e legitimação para os juros surrealistas brasileiros.
A inflação brasileira é naturalmente mais alta do que nos países desenvolvidos em razão da elevada indexação da economia, especialmente dos serviços públicos privatizados, da renda mal distribuída – que leva à necessidade de reajustes salariais acima da inflação – e da baixa competitividade externa da indústria levar o câmbio a recorrentes desvalorizações.
Assim, a menos que o câmbio nominal esteja em permanente valorização – como no período Lula, por causa do aumento dos preços das commodities – a inflação estará sempre próxima do limite da meta. Por isso os juros estarão sempre em elevação ou altíssimos, mesmo com a economia estagnada ou em recessão. Consequentemente, a arrecadação de impostos crescerá pouco e o governo perderá o poder de fazer política fiscal para estimular a economia.
No gráfico abaixo, as barras verdes mostram a grande diferença entre o governo Lula e Dilma, a valorização cambial no primeiro, representada pelas barras para baixo e a desvalorização na segunda, representada pelas barras para cima.
grafico1
Nesse contexto, o governo dependerá apenas dos humores do setor privado para estimular a economia. Chama-se isso de política econômica pró-cíclica, quando o governo não tem capacidade de retirar a economia da recessão ou estagnação.
Market Friendly?
O governo Lula nunca afrontou as altas finanças. Dilma chegou a afrontá-las em alguns momentos, além do conhecido esforço de reduzir as taxas de juros entre 2011 e 2012. E foi só por isso que conseguiu evitar que a crise atingisse os salários e os empregos. Ao menos até dezembro de 2014.
É preciso admitir que foi fundamental a ajuda dos chineses, nos primeiros 4 anos da crise internacional, quando sustentaram o preço das commodities com sua política de investimento em infraestrutura.
Porém, desde 2012, o preço das commodities está caindo e já atingiu os menores valores em 10 anos. Apesar disso, o governo Dilma, com políticas heterodoxas, conseguiu blindar por alguns anos o salário e o emprego das consequências desse processo e, assim, pôde vencer as eleições do ano passado.
A ajuda fundamental do BNDES
Só escapamos de uma crise econômica por causa do BNDES. Sem ele, o Tripé teria colocado a economia brasileira em depressão ainda em 2008, por limitar o governo a fazer política contra cíclica.
A resposta dos EUA, Europa, Japão, China e outros emergentes à crise foi invariavelmente déficit público muito elevado e política monetária heterodoxa radicalmente expansionista. Os EUA para manter a renda e o emprego em níveis socialmente aceitáveis, a Europa para impedir que toda a economia e Estados-membros entrassem em falência financeira. No Brasil, essas duas saídas foram vetadas pelo Tripé. Então, o BNDES cumpriu os dois papéis de política monetária e fiscal.
Para isso, o BNDES foi obrigado a crescer através de um acordo inovador com o Tesouro Nacional, chamado de acordo BNDES-Tesouro. Em pouco tempo passou de R$ 40 bilhões de empréstimos anuais para quase 200 bilhões. Esse modelo foi socialmente mais justo e mais transparente do que os programas de compras de ativos dos países desenvolvidos.
Guerra econômica dos EUA e Europa: sabotagem da recuperação global
A economia mundial não saiu ainda da crise global de 2008, porque as potências ocidentais estão se valendo da crise para justificarem políticas de guerra econômica que desestimulam suas importações e favorecem a criação de excedentes de exportação de manufaturas com o objetivo de barrar a ascensão dos BRICS, mais especificamente da China.
Nos países desenvolvidos, a medida mais imediata contra a crise de 2008 foram políticas monetárias altamente expansionistas para desvalorizar o câmbio e o custo do investimento. O Ministro Guido Mantega, desde o início acusou essas políticas de serem formas deBeggar thy neighbour, empobrecer seu vizinho ou exportar desemprego. Por ser verdade, ele foi muito criticado pela nossa imprensa por essas revelações incômodas às potências ocidentais.
Os EUA iniciaram essa política ao reduzirem a taxa de juros a zero. Foram copiados, por Europa e Japão. Mas a guerra econômica não se restringiu à política monetária. As velhas potências industriais em crise também cortaram direitos trabalhistas e contribuições sociais em folha para baratear o custo do trabalho e aumentaram o cipoal de regras protecionistas para afastar manufaturas vindas dos países emergentes.
Os EUA utilizaram ainda de forma muito eficiente a proibição da exportação de petróleo e gás natural ao mesmo tempo em que ofereceram generosos incentivos financeiros e fiscais para a produção de hidrocarbonetos não-convencionais, a criando a revolução do xisto (folhelho betuminoso). Com isso os preços do petróleo e, especialmente, do gás natural se tornaram substancialmente mais baratos nos EUA do que no resto do mundo, gerando assim um significativo diferencial de custo em favor da indústria americana.
Saída chinesa e dos Brics: cooperação para recuperação global
No auge da crise global, o Ocidente pede ajuda no G20 para que os emergentes estimulem sua demanda e assim ajudem o Mundo a se recuperar. Liderados pela China, os BRICS cumprem seu papel solidário às velhas potências, e são fundamentais para recuperação que se seguiu. Porém as potências ocidentais fizeram o contrário, guerra econômica, sabotando a saída da crise global.
Mantega reage à guerra econômica e à desindustrialização com ganhos para trabalhadores
Em 2011 o mundo ainda estava em crise. A partir de 2012, o preço das commodities começou a cair. Dilma, não é “pé quente” como o Lula. Não pôde contar nem com o câmbio competitivo, como em 2003 a 2006, e nem com preços das commodities crescentes como em 2006 a 2010. Para manter os salários e empregos em crescimento precisou trabalhar no limite das metas. Conteve as tarifas de serviços públicos e reduziu os impostos da cesta básica e outros produtos para barateá-los.
A política de contenção de tarifas e preços foi correta e essencial para que a Dilma pudesse dar continuidade às conquistas do governo Lula. Mas não apenas isso. Essa política permitiu que fosse parcialmente corrigido o maior erro da era Lula, a valorização cambial. Dilma foi o primeiro presidente da Nova República a ter uma política focada em combater a desindustrialização. Isso ocorreu direta e indiretamente, por via da contenção de preços. Ao reduzir a inflação, permitiu-se que o câmbio fosse desvalorizado sem que isso implicasse em rompimento da meta de inflação.
Com isso o governo fez a proeza de desvalorizar o câmbio ao mesmo tempo em que melhorava salários, emprego e serviços públicos e sem romper as metas do Tripé. Graças a isso, Dilma conseguiu estancar o processo de desindustrialização, como se pode ver no gráfico abaixo, sem romper com os compromissos sociais, como muitos sugeriram.
grafico2
Uma das políticas mais inovadoras e mal compreendidas do governo foi a desoneração da folha de pagamentos. Ela tem um efeito similar à desvalorização cambial em termos do custo em dólar da geração de empregos industriais, mas sem impacto negativo sobre a inflação. Ao contrário, é positivo. Muitos economistas temem que ela prejudique o financiamento da previdência, apesar de sabermos que, no mundo inteiro, o déficit na previdência é sempre financiado parcialmente pelo Tesouro, e que essa é uma forma de financiamento socialmente mais justo do que a tributação sobre a folha de pagamento, porque a previdência seria, assim, financiada parcialmente por impostos sobre a renda, o patrimônio ou o consumo e, portanto, atinge relativamente menos os trabalhadores do que se fosse sobre a folha de pagamentos. Devemos citar também nessa linha o Reintegra, o Inovar-auto e diversas outras políticas dentro do guarda-chuva do Plano Brasil Maior, que tiveram um impacto importante sobre a competitividade da indústria brasileira. Dilma empreendeu a política industrial mais ativa entre os presidentes eleitos desde JK. Mas ainda foi insuficiente perto do que fazem nossos concorrentes.
Impedindo a recessão
As políticas de reação à guerra econômica foram importantes para combater a desindustrialização e o déficit no balanço de pagamento, porém têm impacto relativamente baixo em estimular a demanda, que estava se desacelerando desde 2011.
O maior erro da política econômica da Dilma foi o exagero no corte de gastos e aumento dos juros nos 1º semestre de 2011. Isso comprometeu todo o mandato, porque não pudemos contar com um cenário externo favorável. Uma vez colocado o crescimento no chão, o Tripé passa a ser uma camisa de força que obriga o governo a ter uma política econômica “pró-cíclica”, e, no caso, estagnacionista, a menos que adote instrumentos considerados “heterodoxos”.
A queda da demanda e a política tributária de estímulo à industrialização reduziram a taxa de crescimento da arrecadação. Porém, ao invés de cortar investimentos e gastos sociais como foi exigido pelo setor financeiro, Mantega e Arno Augustin optaram, sabiamente, por buscar receitas extraordinárias, adiantamentos de receitas e reduções efetivas na meta de superávit. Essas políticas foram indevidamente chamadas de “contabilidade criativa”.
Graças a elas, pudemos continuar avançando nos investimentos sociais e infraestrutura, na geração de empregos, nos salários, nos investimentos e estimular a indústria, resistindo à guerra econômica e à desindustrialização, sem romper com o Tripé.
A aposta do futuro: Pré-Sal + BNDES financiando infraestrutura
A aposta da Dilma até 2012 foi a redução das taxas de juros. Quando percebeu que Tripé inviabilizaria essa aposta, Dilma concentrou suas esperanças de crescimento na maturação dos investimentos da Petrobras e dos programas de concessão de infraestrutura com financiamentos do BNDES. Esses investimentos não sofriam com as limitações do Tripé.
Essas iniciativas, além de gerar demanda para sustentar a economia, tinham outras funções. As concessões melhorariam as condições de custo e qualidade da infraestrutura. A Petrobras pelo volume de investimento, era o principal instrumento público de geração de demanda e, portanto, de emprego. Era também o principal instrumento de política industrial, em razão da política de conteúdo local. O essencial, porém, era a meta de produção de petróleo, que atingiria 5,5 milhões de barris até o final da década. o que seria uma redenção nacional mais significativa do que foi a ascensão da China e das commodities entre 2006 e 2012.
Levy e Lava-Jato
Essas grandes apostas para escapar do Tripé foram desmontadas pela Lava-Jato e pelas limitações aos bancos públicos inventadas pelo Levy. Elas comprometeram o financeiro da Petrobras, das construtoras e dos projetos.
Levy investiu contra os instrumentos que permitiam contornar as limitações do Tripé. Isso – junto ao ajuste fiscal, o aumento dos preços administrados e o grande aumento dos juros – produziu uma recessão muito maior do que o colapso financeiro de 2008 e que está prometendo ser a maior da nossa história.
Tripé e as saídas
Tripé impede o governo de fazer política fiscal e monetária, a menos que o câmbio se valorize. Se não for rompido, ele gerará mais 3 anos de recessão. A alternativa é refazer o acordo BNDES-Tesouro para reerguer as finanças da Petrobras. Sou autor de um projeto de lei com esse objetivo.
Colapso da Nova República
Se Dilma insistir em manter o Tripé e em barrar as alternativas através dos bancos públicos e a Petrobras, em breve a recessão será tão profunda, que só será possível sair da crise da forma óbvia, com um grande déficit público primário, porque a saída pela redução dos juros e pelo financiamento público às estatais tem uma maturação lenta em termos de efeitos sobre o emprego. O problema é saber se a Dilma terá a legitimidade para fazê-lo, depois de muito tempo em recessão e fiando o resto de sua governabilidade no apoio do setor financeiro.
Se Dilma não tiver disposição e nem legitimidade para enfrentar o dogmatismo financista do Tripé, a atual oposição, uma vez no governo enfrentará? Depois de tecer tantas loas ao Tripé, o PSDB vai acabar com ele, uma vez no governo? Se não enfrentarem isso, sofrerão a mesma crise de legitimidade que hoje a Dilma enfrenta.
Depois que o povo sentiu o gosto da prosperidade, nos últimos anos, não vai acreditar que o desemprego e o arrocho salarial sejam inevitáveis. Difícil acreditar que, uma vez no governo, a oposição terá sabedoria ou interesse de manter essa prosperidade.
Além disso, a própria ascensão do PSDB ou do PMDB ao poder por meio da quebra do mandato de Dilma seria um quase insuperável obstáculo à legitimidade. Afinal, esses partidos também são conhecidos pelos graves casos de corrupção. Além disso, está sendo difícil esconder que o processo de tentativa de derrubada da Presidenta tem sido maculado por parcialidade e hipocrisia, não só por parte da imprensa, mas até também por instituições que deveriam zelar pela imparcialidade. Elas próprias tem perdido a legitimidade em razão de terem se tornado órgãos superpoderosos com remunerações que superam a legalidade e não fazem questão de mostrar coerência e prestar contas. PMDB ou PSDB no poder, vão conviver harmoniosamente com essas instituições ou entrarão em conflito com elas?
A direita está claramente questionando a legitimidade das instituições, da democracia e do modelo político da Nova República e para isso estão usando as próprias super entidades de controle, investigação e punição criadas por essa mesma Nova República. Com isso estão finalmente destruindo a legitimidade dessa mesma Nova República frente à esquerda. O povo acabará embarcando em uma versão ou de outra depois que começar a perder emprego e o poder de compra, retirando também a credibilidade que ele ainda deposita na nossa democracia.
Tudo isso porque a Nova República tem se mostrado incapaz de substituir um modelo econômico primário, como o Tripé, para que a economia volte a gerar empregos, e que só existe para justificar juros indecentes. Se nada mudar, essa submissão da nossa democracia às imposições do setor financeiro acabará por destruí-la. E se isso acontecer, certamente o Tripé e os juros indecentes também perecerão…

*Roberto Requião é senador da República, em seu segundo mandato. Foi governador do Paraná três vezes, deputado Estadual e prefeito de Curitiba. É graduado em jornalismo e em direito com especialização em urbanismo.
o apedeuta: impeachement

CLAUDICANDO: Lei Antiterrorismo – um ataque à democracia

CLAUDICANDO: Lei Antiterrorismo – um ataque à democracia: Via Zé Dirceu, blog Ontem a Conectas Direitos Humanos realizou um debate sobre o projeto de lei antiterrorismo ( PL 2016/2015 ), envia...

A urgência da Frente Brasil Popular - Carta Maior

15/09/2015 - Copyleft

A urgência da Frente Brasil Popular

Onde estiver um militante do movimento social, onde estiver um democrata, um progressista, o espírito da Frente espera estar presente.


Roberto Amaral

Lidyane Ponciano
A Frente Brasil Popular, recém lançada em Belo Horizonte (5 de setembro), é a resposta das forças populares às articulações de direita que, derrotadas nas eleições de 2014, intentam depor a presidente Dilma Rousseff mediante o artifício de um impeachment sem base fática, sem arrimo jurídico, apoiado tão simplesmente no ódio dos derrotados sem consolo. Mas, para além de destituir a presidente, o projeto da direita visa ao retrocesso social. Seu instrumento é a tentativa de isolar a presidente e imobilizar o governo.
 
Coube à direita colocar na liça o ódio de classe. Cabe-nos responder ao desafio.
 
A Frente Brasil Popular é ampla, no sentido de que, não sendo estreita (esquerdista), está aberta a todas as forças que aderirem aos compromissos de seu Manifesto, e dois são os objetivos fundamentais: (1) barrar o golpismo e (2) fazer frente à onda conservadora que pervade a sociedade brasleira, açulando os instintos políticos mais primitivos, como a intolerância, o autoritarismo, o sectarismo. A Frente é nacional não apenas no sentido de que se expande por todo o nosso território, mas porque está preocupada com as questões nacionais, a começar pela nossa soberania, pela defesa da economia nacional, de nossas riquezes e de nosso patrimônio, ameaçado, de que serve de exemplo o projeto do grande capital de desnacionalizar e privatizar o pré-sal. A Frente é popular porque não resulta de uma engenharia de cúpula, nascida como exigência dos movimentos sociais que a criaram, que a animam e que a sustentarão. A Frente é politica – pois seus objetivos são políticos – mas não é partidária, nem hegemonizada por partidos; também não é antipartidária, pois está aberta aos partidos progessistas que dela desejem participar. Política, a Frente não é eleitoral. Não olha para os pleitos de 2016 e 2018, mas não descura de sua importância. A Frente é estratégica, mira o médio e o longo prazos, se candidata à defesa das teses progressistas e ao enfretamento do conservadorismo, mas reconhece a necessidade de atividades táticas, como, no imediato, a defesa do mandato da presidente Dilma. A Frente é democrática, pois tem no diálogo e na construção de consensos seu método de atuação, mas não tem a veleidade de ser única: não pleiteia o monopólio do movimento social; antes, espera estimular o maior número possível de iniciativas populares em defesa da demoracia, dos interesses dos assalariados e do avanço social.
 
Onde estiver um militante do movimento social, onde estiver um democrata, um progressista, o espírito da Frente espera estar presente.
 
A Frente, ao mirar o futuro, terá de, para o bem do país que queremos construir, de sobreviver às contingências de hoje, e para tal precisará de estabelecer prioridades. E, nas codições atuais, sua prioridade é a preservação do mandato da presidente Dilma, não como fim, mas como ponto essencial da resistência democrática, pois, alcançado o impeachment, por qualquer das muitas formas que os juristas de plantão sabem engendrar, estará aberta a porteira para a derrocada das conquistas sociais e econômicas dos últimos anos, estará aberto o caminho para a construção de uma sociedade autoritária. Será a vitório do retrocesso político e do neoliberalismo arcaico. Se não for detida, agora, a onda conservadora transformer-se-á em verdadeiro tsunami que a todos devorará, e muitos serão os anos necessários para a reconstrução de um projeto de avanços sociais fincado na emergência das massas. Pois a questão fulcral é mesmo essa: a direita de hoje como a direita em 1954 e em 1964 reage à emergência as massas, emergência sempre intolerável para nossas elites rentistas. Seu ponto de ataque é o mandato da presidente, o alvo simbólico, a primeira fortaleza a ser atacada, mas não a última: na sequência, como sempre, serão devoradas as franquias democráticas, restringidos os direitos dos trabalhadores, relevada a segundo plano a soberania nacional. O impeachment, uma vez alcançado – com o lamentável concurso de pessoas honradas como Hélio Bicudo que, não sabendo envelhecer, dá as mãos antes limpas para o abraço com Bolsonaro e Caiado – será o sinal para a destruição dos partidos de esquerda, a começar pelo PT, a destruição dos quadros-ícones da esquerda, a começar pela imagem de Lula. Iluda-se quem quiser e quem quiser que aposte no ‘quanto pior melhor’. É o mais curto caminho para o suicídio político.


Créditos da foto: Lidyane Ponciano


A urgência da Frente Brasil Popular - Carta Maior

A carta da OAB à nação carece de legitimidade popular - Carta Maior

A carta da OAB à nação carece de legitimidade popular - Carta Maior

Imbricações da crise política: saída à esquerda ou definhamento - Carta Maior

15/09/2015 - Copyleft

Imbricações da crise política: saída à esquerda ou definhamento

Sem uma nova articulação política o futuro é certo: ou a vitória do golpismo, via impeachment, ou a manutenção de um governo que não governa.


Francisco Fonseca

Lula Marques/ Agência PT
A crise política que estamos vivenciando de forma aguda assume diversas feições, mas fundamentalmente é consequência da imbricação de várias crises, tal como procurei analisar no artigo publicado neste Portal em 14/07/2015, intitulado “As Três Crises do Governo Dilma”. Como o afirmamos naquele artigo, as causas da crise têm proveniências distintas: a) a reação do rentismo que, embora confortável em seus lucros, viu os mesmos diminuírem em contraste ao aumento da participação dos salários no PIB durante os Governos Lula/Dilma; b) o esgotamento da ampla alianças de classes, que fora estruturada na articulação entre o lumpemproletariado ao próprio rentismo, passando pelo trabalho formalizado e pelo capital produtivo, sem que o sistema político tenha sido alterado perante a nova situação; c) a reação violenta, protofascista e militante das classes médias superiores à maior igualdade existente no país, que implicou a perda de espaços exclusivos de privilégios; d) a fragilidade do Estado de Direito Democrático em investigar e punir de acordo com a lei, sem facciosismos e partidarismos, facciosismos esses simbolizados nas figuras dos juízes Gilmar Mendes e Sérgio Moro, assim como de setores do MP, do TCU, do TCE e da PF; e e) a crise econômica mundial combinada com o esgotamento das medidas anticíclicas, corretamente aplicas pelo Governo Dilma a partir do crash de 2008.
 
O modus operandi do Governo Dilma
 
Tendo em vista esse complexo contexto, pode-se perceber como se dá a reação do principal partido do país, o PT, e do Governo Dilma. Trata-se de incrível incapacidade de o Poder Executivo aplicar um programa de governo, uma vez que abatido: pela oposição carbonária, elitista e reacionária da maioria do Congresso Nacional; pelo aludido facciosismo de instituições do Estado, como parte do STF, do TCE, do TCU e sobretudo da PF e de setores do Judiciário; pelo golpismo fascista da mídia; e pelo ódio militante aos pobres por largos setores das classes médias superiores; pela reação do rentismo internacional articulado ao nacional.
 
Mais ainda, tal fragilidade se expressa num conjunto de incapacidades, que assim se localizam: uma vez mais no poder do rentismo, sintetizado pela figura de Joaquim Levy, assim como na “agenda Renan”, e na cortina de fumaça da redução de ministérios etc; na não resposta ao esgotamento da aliança de classes instituída desde o primeiro Governo Lula em que, como aludido, se articulou do lumpemproletariado ao próprio rentismo. Em outras palavras, governa-se como se estivesse vivenciando o pacto de classes, que se esgotou, mas que não fora acompanhado de novo arranjo político; na sinalização equivocada, injusta e politicamente desastrosa de quais grupos são priorizados e quais “penalizados” pelas políticas governamentais – os pobres –, o que implica distanciar-se das bases sociais e da agenda política responsável pela vitória eleitoral: o ajuste fiscal nada mais representa do que o paradoxo de um governo que se elegeu por uma agenda e governa por outra, embora não tenha desfeito as macropolíticas instituídas pelo Governo Lula, o que o difere de um suposto Governo Aécio, cuja barbárie neoliberal seria levada ao limite; na fragilidade governamental, expressa num ministério aquém de enfrentar a crise política, cuja incapacidade de controlar democraticamente a Polícia Federal, ao permitir que uma operação de tal envergadura, como a “Lava Jato”, esteja sob comando de um juiz de primeira instância, claramente faccioso e articulado a setores golpistas do Estado e da oposição, é talvez sua maior expressão; na incapacidade de ler os efeitos do golpismo midiático e de sua atuação como “intelectual orgânico do Capital”, que deveria resultar na retirada unilateral de toda e qualquer publicidade governamental veiculada na grande mídia, jamais intentada; e sobretudo na incapacidade de unificar sua base de sustentação – eleitoral e política –, que são os pobres, os movimentos populares e grande parte dos que se beneficiaram dos programas sociais e das políticas anticíclicas dos Governos Lula e Dilma. Tal unificação poderia implicar importantíssimo sustentáculo a um projeto de governo e de país, tornando claro qual o lado que se está.
 
Em vez disso, o Governo Dilma tenta se sustentar pela direita: ajuste fiscal, cortes orçamentários, taxas de juros exorbitantes, concessões ao rentismo, não enfrentamento dos polos de poder que estão golpeando o governo e a democracia, manutenção do ministério frágil politicamente, tentativa de manter o grande pacto de classes – expresso no presidencialismo de coalizão – a qualquer custo, entre outros aspectos.
 
Se há um pacto ainda é possível seria a aliança entre setores produtivos nacionais (ou cuja tomada de decisão seja nacional) com os trabalhadores formais e informais, deixando claro quem são os inimigos: o rentismo internacional, a agenda neoliberal, o capital especulativo – o que implicaria restrições à sua entrada –, o privilégios dos segmentos que querem o golpe, o empresariado articulado internacionalmente, entre outros segmentos golpistas.
 
É importante ressaltar que grande parte das classes médias que vão às ruas é composta por inocentes úteis, verdadeiros “analfabetos políticos”, filhos da desinformação golpista da grande mídia. Representam ínfima minoria, mas que são inflados e amplificados pela grande mídia. 
 
A crise econômica – a menor das crises – é, dessa forma, retroalimentada pela imbricação das crises políticas e pela ausência de um norte político: quanto mais agenda Levy (neoliberalismo rentismo) mais desemprego e insatisfação, e consequentemente ampliação da base social para o golpismo.
 
Por sua vez, o golpismo político tem elementos conservadores (religiosos e ligados ao ataque aos direitos civis) claramente articulados à visão privatista e pró-Capital, logo, antipopular e antitrabalhista: trata-se de revanche aos direitos sociais alcançados.
 
Tudo isso se re-imbrica a um sistema partidário eivado de interesses privados que privatizam o sistema político, assim como a radical irresponsabilidade dos dois outros principais partidos políticos, o PSDB e o PMDB, que não perceberam – tal como a UDN lacerdista – que serão tragados pelos efeitos desse verdadeiro tsunami que se está vivenciando no país.
 
A saída ao Governo Dilma, ao futuro do Partido dos Trabalhadores e aos direitos sociais e trabalhistas, mas também à democracia, é um governo com uma agenda à esquerda: combate ao rentismo, pacto entre capital produtivo e trabalho, formal e informal (a experiência do Conselhão, desde que relativamente paritário entre os segmentos sociais, e das Câmaras Setoriais, são um bom exemplo), articulação junto aos movimentos sociais e trabalhistas, diretriz quanto à ampliação de direitos, política econômica voltada ao desenvolvimento, política internacional soberana etc. 
 
Com isso, as derrotas no Congresso Nacional teriam outro sentido, pois as bases sociais poderiam se rearticular e pressionar as instituições tendo em vista a garantia do conjunto de direitos advindos da Constituição de 1988 e dos mandatos progressistas dos Governos Lula e Dilma.
 
Resta saber se haverá tempo, uma vez que o golpismo está nas ruas, na mídia, nas instituições (Congresso, setores do Judiciário e da PF, mídia, classes médias rancorosas, rentismo internacional, e seletividade da Operação Lava Jato, entre outros). Isso tudo tem efeito propagador junto aos setores ascendentes e mesmo junto aos pobres, dado o massacre ideológico ao qual são submetidos. O próprio Estado de Direito Democrático demonstra suas inúmeras fragilidades, reitere-se, uma vez que permite um rol substantivo de ilegalidades inconstitucionais, desenvolvidas desde o chamado julgamento do chamado “mensalão”.
 
O Poder Executivo tem assistido a tudo de forma quase paralisante, apostando na reversão de expectativas da direita, no grande Capital e na Agenda Levy/Renan, que prometem crescimento no longo prazo “se fizermos a lição de casa”! Aparentemente há a ilusão de que o possível crescimento econômico amenizaria o intuito golpista que está em movimento, que é uma grande ilusão. Além disso, reitere-se, a paralisia governamental é expressa na incapacidade de pressionar pela reversão das inconstitucionalidades contidas na Operação Lava Jato.
 
Saída à esquerda
 
Portanto, a saída é à esquerda, apostando nas bases sociais que levaram o PT a ser o que é e que possibilitaram a vitória de Dilma. O conflito – ideológico e de interesses – é inevitável e desejável, mas, sem uma nova articulação política o futuro breve é certo: ou a vitória do golpismo, via impeachment, ou a manutenção de um governo que não governa, que “sangra” à espera de sua extinção! 
 
Um tal cenário abre espaço para a direita, notadamente a antiinstitucional, e para a derrota histórica da esquerda e dos direitos sociais e trabalhista. Aqui sim o futuro torna-se incerto.
 
Ainda há tempo para reverter esse quadro, mas, para tanto, a virtú de Maquiavel, ou mesmo aquilo que Carlos Matus chamou de “triângulo de governo” (projeto de governo capacidade de governo governabilidade) nunca foi tão necessário como agora!
 
A agenda progressista e à esquerda é não só cabível como estratégica politicamente: propostas de taxação das grandes fortunas, de reforma tributária que taxe a renda, de reforma da mídia, de reforma do sistema político, de instauração do controle social sobre o Estado e as políticas públicas, de revisão do orçamento, de alteração da lógica da dívida interna, de priorização da agricultura familiar, de pacto entre capital produtivo e trabalho formal e informal, entre tantas outras. Nada é fácil, mas cada vez há menos espaço de manobra para o Governo Dilma.
 
Sem virar – com estratégia e tática – à esquerda o Governo Dilma corre o sério risco de ser, como está sendo, excomungado pela direita, mas sobretudo abandonado pela esquerda. Nesse cenário, o isolamento poderá levar rapidamente ao êxito do golpismo via  impeachment, pois o chamado “centro” migrará naturalmente ao golpe.
 
As forças políticas progressistas e de esquerda precisam estar atentar ao que está em jogo...e o Governo Dilma necessita acordar, política e imediatamente, antes que seja tarde! Tal como na imagem da luta de boxe, o tempo é curto entre “não jogar a toalha”, “sair das cordas” e “nocautear o adversário” ou mesmo “ganhar por pontos”, isto é, sair do isolamento e tomar a iniciativa política!
 
A reforma ministerial, com a iminente saída de ministros fracos politicamente; a mudança da política econômica, que deve ser voltada ao desenvolvimento; o enfrentamento com a mídia e com o rentismo – utilizando todos os mecanismos que são exclusivos ao Poder Executivo; a defesa de direitos políticos, civis, sociais e trabalhistas; e a interlocução privilegiada com os movimentos sociais e populares; a tentativa de pactuar Capital e Trabalho produtivo, o que implica a proposição de alianças estratégicas: todas essas ações voltam-se a mudar, rapidamente, o rumo do Governo. 
 
Isso tudo implica enfrentamento político e ideológico, e mesmo jurídico. Mesmo que o governo venha a ser derrubado o seria em condições completamente diferentes – pois ancorado em bases sociais e populares – do que o seriam hoje. Isso impactaria potencialmente o futuro da própria esquerda e dos direitos.
 
Ainda há um pequeno tempo antes de o gongo tocar!


Créditos da foto: Lula Marques/ Agência PT
Imbricações da crise política: saída à esquerda ou definhamento - Carta Maior

Dilma se diz otimista com superação da crise e fará ajustes para seguir adiante | Agência Brasil

Dilma se diz otimista com superação da crise e fará ajustes para seguir adiante | Agência Brasil

Dilma diz que fará tudo para impedir avanço de processos antidemocráticos | Agência Brasil

Dilma diz que fará tudo para impedir avanço de processos antidemocráticos | Agência Brasil

Direito de greve e direito de resistência - Carta Maior

14/09/2015 - Copyleft

Direito de greve e direito de resistência

O direito parece estar servindo apenas como expressão de poder do empregador, minando o direito de greve e de resistência dos trabalhadores.


Jorge Luiz Souto Maior(*)

Reprodução
No dia 07 de agosto, quando o governo do Estado do Rio Grande do Sul anunciou cortes de salários, 5 rodoviários foram dispensados por justa causa e outros 2, que possuíam estabilidade no emprego, foram submetidos a processo para apuração de falta grave.
 
Os trabalhadores alegam que as demissões, cujo fato motivador foi a paralisação na segunda (03/08), da qual originou o fechamento dos portões da garagem devido a insegurança que estava na cidade, com números altos de assaltos, sendo que até mesmo os bancos decidiram não abrir naquele dia, teria sido uma forma de perseguição como resultado da greve de 2014.
 
O caso foi levado ao Ministério Público do Trabalho e o ilustre Procurador considerou que a justa causa estava configurada porque a paralisação não foi deliberada em assembleia e também não foi comunicada com antecedência de 72 horas, conforme fixado na Lei n. 7.783/89, tendo sugerido, ainda, que a atitude dos trabalhadores foi criminosa.
 
A posição assumida pelo representante do Ministério Público do Trabalho requer um debate público. Ora, a justa causa não se avalia no vácuo, fora de um contexto, que leve em consideração também todo o histórico da relação de trabalho, chegando-se a ela apenas em situações de extrema gravidade, onde a persistência do vínculo seja totalmente inviabilizada, para que não se transforme em mero instrumento de poder do empregador sobre os trabalhadores, já fragilizados pela ausência de garantia contra dispensa arbitrária, segundo a posição majoritariamente assumida pelos tribunais. Sobretudo há de se tomar cuidado em considerar justa causa atos cometidos pelos trabalhadores durante um conflito de interesses entre empregados e patrão deflagrado no ambiente de trabalho, pois neste instante as ações tendem a ser fora dos padrões da normalidade da vida burocratizada, notadamente dos trabalhadores, eis que pretendem demonstrar que possuem alguma força, para que sejam, de fato, ouvidos.
 
Como já manifestado em outro texto, há uma racionalidade específica para a avaliação das condutas durante a greve:
 
Durante a greve, com extensão para todas as situações presentes e futuras que a ela se relacionam, os direitos e as obrigações que foram estabelecidos para a estabilização das relações individuais de trabalho não têm aplicação, com a mesma potencialidade, durante a greve, pois o direito não existe em tese e não incide no vácuo. 
 
Ora, as atitudes dos trabalhadores, no exercício da greve ou na construção da consciência coletiva para se implementar uma luta coletiva por melhores condições de trabalho, não podem ser avaliadas como se estivessem em momento de conflito contido. Não é racional pressupor que dirigentes sindicais ou líderes do movimento se dirijam aos demais trabalhadores neste momento de tensão sem exprimir palavras de ordem, sem proferir discursos inflados e sem a demonstração de que seus atos correspondem às suas falas. Se nem mesmo nas discussões no Congresso, no Supremo, nas Assembleias Legislativas o tom é, digamos assim, nobre e cordial, ainda que as manifestações sejam antecedidas por um “vossa excelência”, por que o deveriam ser as que se proferem em caminhões de som por ocasião de uma greve? 
 
O modo como tem sido entendida juridicamente a greve confere, ademais, uma posição extremamente cômoda ao empregador, sendo que a greve seria, exatamente, para retirá-lo dessa zona de conforto. Sem uma visão em torno da efetividade do direito de greve, basta ao empregador se recusar a atender as reivindicações dos trabalhadores e a negociar para que todo o peso do momento recaia sobre os trabalhadores em greve, sendo que ainda conta, primeiro, com os “fura-greves”, a quem, conforme se costuma dizer, há o direito de ir e vir para adentrar no ambiente de trabalho e continuar trabalhando normalmente e, segundo, com a força policial, que se coloca em favor de garantir esse pretenso direito e também o suposto direito do empregador de continuar em franca atividade. Não se esqueça que aos empregadores ainda tem sido conferida a possibilidade de minar os efeitos da greve mediante a utilização, cada vez mais ampla, da terceirização, sendo oportuno destacar que é exatamente com esse propósito que se apresenta a reivindicação patronal pela aprovação do PL 4. 330/04.
 
Nesse contexto totalmente desviado daquilo que seria o ideal, qual seja, de um direito sendo utilizado para garantir a greve, os trabalhadores em greve acabam experimentando, pelo exercício da greve, um momento de enormes sacrifícios pessoais e de extrema insegurança jurídica. 
 
Com efeito, diante de tantas adversidades, ao tentarem levar adiante o movimento de greve, com discursos inflamados e ações de piquetes, necessárias para impedir o cometimento da ilegalidade dos fura-greves, os trabalhadores em greve se veem obrigados a um enfrentamento com outros colegas de trabalho e não raro com a Polícia Militar e é exatamente neste instante que se completa a inversão de valores, pois quando os trabalhadores de fato estão sendo coibidos de exercer o direito de greve e buscam se defender passam a ser tomados por agressores, como se fossem eles os agressores da ordem jurídica. 
 
Então, por atos praticados na dinâmica de uma luta, que vai ao ponto do enfrentamento em razão das estratégias silenciosas do empregador de repressão ao movimento, os trabalhadores em greve são punidos por meio de uma compreensão invertida da ordem jurídica e pela aplicação de normas que se direcionam a realidades estáticas e não ao momento de efervescência do conflito, o que representa, em concreto, negar a própria essência do direito de greve, que deve ser entendido como o direito de expressão do conflito entre o capital e o trabalho para viabilizar uma forma democrática de reconstrução do conjunto normativo que estabelece obrigações ao capital pelo permissivo da exploração do trabalho.
 
Esse pressuposto de análise, que é necessário para melhor compreender os atos praticados pelos trabalhadores na dinâmica de uma greve, não pode ser afastado nem mesmo diante de uma decisão judicial determinando o fim da greve, até porque na essência as decisões judiciais que buscam cessar a greve sem eliminar o conflito ferem a lógica do comportamento humano e própria essência do direito de greve, ainda mais quando tais decisões são dadas liminarmente sem considerar as peculiaridades próprias do serviço e da origem do conflito. 
 
Sem a redução do elemento momentaneamente potencializador do conflito, sem avaliação da responsabilidade do empregador em não negociar, em desrespeitar os direitos dos trabalhadores, em tentar manter-se em funcionamento durante a greve com utilização de terceirizados e incentivos aos fura-greves, qualquer decisão judicial que apenas culpa os trabalhadores pelo conflito e pelos eventuais prejuízos à população acaba constituindo uma nova agressão ao direito de greve e tende a ser inserida na própria dinâmica do conflito, que é a de uma luta social para avanço da ordem jurídica, repita-se, e se verá, por isso mesmo, sob o risco de sofrer abalo em sua autoridade.
 
Claro que tudo isso tem muito mais valor no plano teórico das normas jurídicas compreendidas e aplicadas com a racionalidade do Direito Social, porque, em concreto, o direito de greve é sistematicamente desrespeitado pelos empregadores e estes têm sido auxiliados nesta atitude pelas instituições cuja função seria a de garantir o direito de greve, sempre sob o argumento falseado de que estão privilegiando outros valores, como o direito de ir e vir, o direito individual de trabalhar, o direito de manter a atividade produtiva e o direito à prestação de serviços públicos. Mas foi exatamente para a se contrapor a esses direitos que se conferiu o direito de greve aos trabalhadores, entendidos enquanto classe e não como individualidades! 
 
Aliás, esses direitos têm sido privilegiados até o ponto extremo não apenas de impedir que a greve exista enquanto expressão do conflito, com todas as dinâmicas de uma luta, mas também de punir todos os trabalhadores que, compreendendo a ilicitude da repressão, resolvem defender, com dignidade e necessária coragem, os seus direitos.
 
Claro, pode-se dizer que no caso em questão a atitude dos trabalhadores não esteve amparada pelo direito de greve, vez que esta não foi deflagrada em conformidade com o que dispõe a Lei n. 7.783/89. No entanto, em primeiro lugar, a lei em questão é inconstitucional, na medida em que cria trâmite burocrático não previsto na Constituição, que confere aos trabalhadores também o procedimento de escolha da oportunidade da greve e os interesses que por meio dela pretendem defender. Em segundo lugar, a Constituição diz, expressamente, que a greve é um direito dos trabalhadores e não do ente, com personalidade jurídica própria, que é o sindicato. E, por fim, nem é possível confundir greve com ato de defesa de direitos fundamentais, o que se identifica, juridicamente, como ato de resistência.
 
Ora, quando se interrompe o trabalho para garantir a integridade física e moral ameaçada pela própria condição de trabalho não se está falando, propriamente, de greve e sim de ato de resistência, que, nem em tese, portanto, depende do atendimento dos requisitos da Lei n. 7.783/89, mesmo em atividades consideradas essenciais, porque a condição humana está acima de qualquer outro valor. 
 
Seguindo a linha de avaliação sugerida pelo representante do Ministério Público do Trabalho, o que seria efetivamente “criminoso”? Parar a circulação de ônibus em defesa da segurança ou exigir que o empregado continue o serviço sem garantias de segurança? Paralisar o serviço ou se ver obrigado a prosseguir trabalhando sem o recebimento de salários ou outros direitos como horas extras etc. ou mesmo sem auferir o reajuste anual para recomposição do poder de compra do salário?
 
O fato de apenas alguns trabalhadores se insurgirem contra a situação não exclui a incidência do instituto da resistência, que não é, vale repetir, um direito que, para ser exercido, dependa de deliberação coletiva. De fato, uns possuem mais “coragem”, digamos assim, de resistir e outros nem tanto e aos que o fazem o direito não pode punir, sob pena de eliminar, em concreto, o sentimento de autodefesa dos trabalhadores, que é a essência da dignidade humana. Bastante esclarecedora, aliás, a explicação de Márcio Túlio Viana, no sentido de que o oposto a uma garantia concreta ao direito de resistência é a submissão, que é sinônimo de dignidade perdida.
 
Se havia razões suficientes para o ato de resistência, se ele foi proporcional à ameaça etc. tudo isso é tema a ser visto no estudo do caso concreto, cujos elementos não possuo, mas que, de todo modo, não seriam, por si, a priori, motivadores de uma justa causa, pois as atitudes de resistência não visam a prejudicar o empregador ou a quebrar o vínculo de boa-fé, aliás, muito pelo contrário, já que tendendo a melhorar as condições de trabalho, favorecem, neste aspecto, tanto ao trabalhador quanto ao empregador. Os empregados que se preocupam e que lutam por um ambiente de trabalho mais seguro e menos insalubre importam-se com suas vidas e com seus empregos, estando, por conseguinte, na direção oposta da justa causa.
 
Além disso, se a justa causa deve ser embasada em ato grave exaustivamente provado e integrado a uma análise contextual, há uma presunção jurídica em favor do trabalhador e da preservação do emprego, ainda mais em situações que potencialmente a aplicação da justa causa possa ser vislumbrada como discriminação, ou, pior, como represália diante de uma reivindicação. 
 
A respeito da proteção contra discriminação, o Tribunal Superior do Trabalho tem se posicionado nos termos da seguinte Ementa:
 
“DISPENSA DISCRIMINATÓRIA. REINTEGRAÇÃO. 4.1 - O entendimento desta Corte superior é no sentido de que ônus da prova da dispensa não discriminatória cumpre ao empregador. Isso porque o direito de rescisão unilateral do contrato de trabalho, mediante iniciativa do empregador, como expressão de seu direito potestativo, não é ilimitado, encontrando fronteira em nosso ordenamento jurídico, notadamente na Constituição Federal, que, além de ter erigido como fundamento de nossa Nação a dignidade da pessoa humana e os valores sociais do trabalho (art. 1.º, III e IV), repele todo tipo de discriminação (art. 3, IV) e reconhece como direito do trabalhador a proteção da relação de emprego contra despedida arbitrária (art. 7.º, I). 4.2 - Esta Corte, inclusive, sinaliza que, quando caracterizada a dispensa discriminatória, ainda que presumida, o trabalhador tem direito à reintegração, mesmo não havendo legislação que garanta a estabilidade no emprego, consoante a diretriz da Súmula 443 do TST e de precedente jurisprudencial. 4.3 - No presente caso, emerge dos autos a presunção de que a dispensa do reclamante, portador de glaucoma congênito e em vias de realizar cirurgia, por iniciativa do empregador, foi discriminatória e arbitrária, até porque não houve nenhuma prova de que ela ocorreu por motivo diverso, constituindo, portanto, afronta aos princípios gerais do direito, especialmente os previstos nos arts. 1.º, III, 3.º, IV, 7.º, I, e 170 da Constituição Federal. Recurso de revista conhecido e provido. PROCESSO Nº TST-RR-1996700-79.2006.5.09.0011, 7ª. Turma, Ministra Relatora, Delaíde Miranda Arantes).”
 
Portanto, o fato e a forma como foi analisado pelo representante do Ministério Público do Trabalho conferem a oportunidade de um rico debate para o necessário aprimoramento da avaliação jurídica dos atos de trabalhadores em luta, primeiro, porque depois de junho de 2013 toda a sociedade aprendeu que tanto pode quanto deve mobilizar-se para a defesa e a conquista de direitos e esse direito de lutar, por óbvio, não pode ser negado à classe trabalhadora, e, segundo, porque, até agora, o direito parece estar servindo apenas como um aparato para os atos antidemocráticos e de expressão de poder do empregador que se destinam, unicamente, a minar os direitos de greve e de resistência dos trabalhadores.
 
(*) Professor livre-docente da Faculdade de Direito da USP.
 
.  HYPERLINK "http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Principios-Fundamentais/O-massacre-do-Rio-de-Janeiro-contra-os-garis/40/33400"http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Principios-Fundamentais/O-massacre-do-Rio-de-Janeiro-contra-os-garis/40/33400, acesso em 29/08/15.
 
. VIANA, Márcio Túlio. Direito de resistência: possibilidades de autodefesa do empregado em face do empregador. São Paulo: LTr, 1996, p. 79.
 
 
 
 


Créditos da foto: Reprodução
Direito de greve e direito de resistência - Carta Maior