O conservadorismo sempre teve medidas de lavagem cerebral. Estes pôsteres são a prova disso. O alvo do tradicionalismo muda, mas o discurso de vitimização é sempre o mesmo. Antes a abolição da escravidão, depois o reconhecimento dos direitos das mulheres, e agora o reconhecimento de causas LGBT.
Esta seleção de cartões postais e pôsteres dos anos 1900 - 1914 fazem parte da propaganda usada contra o direito das mulheres votarem, contra as sufragistas. A mudança é claramente mostrada como um ataque direto aos "valores da família" e lugar do homem na sociedade.
Engraçado como a história se repete.
"Quando mulheres votam maridos trabalham das 3 da manhã à meia noite. "
"O lugar da mulher é em casa."
"Como cuidar de crianças."
"Eu serei a sua líder um dia."
"Acabem com os homens." / "Maridos como empregadas."
"Voto para mulheres."
"No congresso: Como tratar um homem."
"Alimentando uma sufragista à força."
"Voto para mulheres."/ "Eu salvei meu país para isso."
"Se você ama sua mulher, ama menos a sua vida."
"Sufragistas atacando um policial."
"Sufragistas atacando o congresso."
"Mamãe é uma sufragista."
"Conquistando voto da forma mais fácil."
"A mulher masculina Ela é masculina dos sapatos ao chapéu, Casaco, colar, camisa e gravata. Ela usa calças na rua pra se sentir completa, Mas ela sabe que a lei não permitirá isso."
"Minha mulher se juntou ao Movimento Sufragista. (Sofro desde então). "
"Todo mundo trabalha menos a mamãe. Eu quero votar mas minha mulher não deixa."
"Origem e desenvolvimento de uma sufragista: Aos 15 um bichinho de estimação. / Aos 20 uma coquete. / Aos 40 não é casada ainda. /Aos 50 uma sufragista."
"Dia do voto."
"Onde será que está minha linda esposa esta noite?"
"Lar doce lar."
"Estou em uma reunião, as crianças estão na vizinha."
Professor de Filosofia da Unifesp analisa projeto que tipifica "assédio ideológico" nas escolas
Por Juvenal Savian Filho
O Projeto de Lei do deputado Rogério Marinho, do PSDB do Rio Grande do Norte, revela uma preocupação legítima: a escola não deve ser lugar de doutrinação, mas de formação que permita aos estudantes desenvolver a cidadania por meio do exercício da liberdade e do pensamento crítico. O exercício da liberdade e do pensamento crítico, por sua vez, só é possível quando os estudantes tomam contato com diferentes maneiras de pensar e diversas interpretações do mundo.
Vários documentos do Ministério da Educação asseguram, de longa data, esses dois princípios, quer dizer, o papel não doutrinário dos educadores e a apresentação de diferentes visões-de-mundo no ambiente escolar. Não há nenhuma novidade nisso; e a Constituição Federal é plenamente respeitada.
No entanto, o assunto torna-se extremamente delicado e complexo justamente quando se aceita que os educadores devem apresentar diferentes de visões-de-mundo: qual será o critério para decidir se, ao fazer isso, eles não caem em doutrinação?
No cotidiano pé-no-chão (e não em nossos escritórios de intelectuais e políticos, onde se especula sobre o que consideramos ideal para nós e para os outros), é impossível que um educador não revele as suas preferências pessoais e as suas opções políticas, estéticas, religiosas etc. O gesto educativo é um encontro de pessoa a pessoa; é um contato de subjetividades e não de autômatos que transmitem conteúdos pretensamente objetivos.
Dizer isso, porém, não justifica que o educador comporte-se como cabo eleitoral ou propagandista de um partido, nem como missionário de salvações religiosas ou representante de padrões estéticos ou outros. O dilema é que um(a) educador(a) autêntico(a) transpira os valores que formam sua vida. Seu modo de ser, independentemente de seus discursos, já basta para que os estudantes percebamquem é a pessoa que os educa.
Mais do que isso, em certas matérias, como Biologia, Física, Literatura, Filosofia, Psicologia, Artes, Sociologia e História (e mesmo as outras, consideradas mais “objetivas”, como Matemática e Química), espera-se que os educadores sejam capazes de manifestar, com responsabilidade, as suas opções teóricas mesmo quando abordam perspectivas diferentes das suas. Isso não apenas é reconhecido mas também recomendado oficialmente por documentos do Ministério da Educação. Por exemplo, um(a) professor(a) de Filosofia que adote em sua visão-de-mundo a perspectiva existencialista não pode despir-se dela ao apresentar a perspectiva analítica ou outra. Será um sinal de maturidade intelectual, como dizem as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, se o(a) educador(a) tiver a capacidade de justificar sua perspectiva sem desprezar as outras, mas apresentando-as com rigor teórico e respeito. Pode-se também pensar nos inúmeros casos de professores de Biologia ou Física que, ao tratar da teoria da evolução das espécies surgida em decorrência da grande explosão inicial ou Big Bang, não podem dar a impressão de ser crentes em Deus quando não o são (embora essas teorias científicas precisas não sejam inconciliáveis com a crença criacionista). Espera-se deles que deem argumentos para não crer na criação e que justifiquem por que, racionalmente, o Big Bang e a evolução excluiriam um ato criador inicial.
Esses exemplos mostram como o gesto educativo plural é um caminhar no fio da navalha: convém evitar tanto a doutrinação quanto a anulação de si; resvalar para qualquer um desses opostos seria um acidente formativo grave. Mas a navalha é a própria vida. Não é algo que se controla. Portanto, também não parece possível querer excluir um dos lados do corte ou os dois. Viver e educar são atividades delicadas que exigem atenção constante.
Nada mais, nada menos, é nessa navalha que toca o Projeto de Lei do deputado Rogério Marinho. Com certa razão, ele define o assédio ideológico como toda prática que condicione a adotar posicionamentos políticos determinados, partidários, ideológicos ou pratique qualquer constrangimento nos estudantes que pensam diferentemente de seus educadores. É facilmente compreensível que se exclua da escola o proselitismo político (como também religioso etc.). Todavia, debater, por exemplo, programas de governo de diferentes partidos e emitir opiniões pessoais equivaleria a fazer proselitismo? Se não houver emissão de opiniões pessoais, então também não há debate!
Infelizmente, hoje, há estudantes com atitudes obscurantistas e que acusam seus professores de “politiqueiros” quando trazem para a sala de aula temas culturais e políticos que não lhes agradam. Pense-se no caso recente do professor do Amazonas que pediu uma pesquisa sobre culturas africanas no Brasil e sofreu a resistência de um grupo de estudantes cristãos: orientados por pais e líderes religiosos, eles se recusaram a fazer a pesquisa, alegando que ela incentivava o satanismo e a homossexualidade. Acusações desse tipo bastarão para incriminar os educadores por assédio ideológico? Mas os educadores não estariam no cumprimento de sua função ao trazer para a sala de aula debates culturais, políticos, religiosos, estéticos etc., visto que uma de suas atribuições é formar para o exercício da cidadania?
Dessa perspectiva, o Projeto de Lei do deputado Rogério Marinho revela uma fragilidade extrema e uma ameaça ao esclarecimento. Se ele for aprovado e implementado, trará grandes chances de instalar-se um claro procedimento de censura, incutindo nos educadores uma permanente insegurança e um desconforto terrível com a necessidade de esconderem quem são. Guardadas as devidas proporções, esse sentimento lembra aquele vivido na ditadura militar, quando os professores simplesmente não podiam ser quem eram. Aliás, é espantoso o fato de que os intelectuais ligados abertamente aos diferentes partidos políticos não foram à imprensa para denunciar o horror que seria a volta da ditadura militar ao poder tal como solicitada recentemente por parte da população brasileira.
Por fim, o Projeto de Lei visa assegurar que a escola seja um espaço para “adotar posicionamentos ideológicos de forma espontânea, livre de assédio de terceiros”. No entanto, é de perguntar: adotar posicionamentos de forma espontânea é algo humanamente possível? Aqui não é necessário evocar debates pedagógicos para ver o equívoco dessa proposta, uma vez que o ser humano só entra no mundo objetivo dos valores por meio da intersubjetividade ou inter-relação com outros seres humanos. Não há geração espontânea na cultura. Crer nisso é dar ocasião para o subjetivismo e o pensar inconsequente, caminho inequívoco para o dogmatismo e o autoritarismo.
Se o Projeto de Lei do deputado Rogério Marinho pode ser visto como um projeto com intenções compreensíveis, ele também pode ser visto como um desserviço à busca da pluralidade e da convivência republicana. Mesmo antes de ser analisado e votado, já está ensanguentado, pois se corta na navalha da vida.
UM PAÍS ACOVARDADO, O CASO MC CARTHY - O ano de 1950 marca o deslanche da Guerra Fria com dois acontecimentos cruciais ocorridos em 1949: a detonação da bomba atômica soviética e o triunfo do comunismo na China.
Havia uma percepção nos EUA de que os russos conseguiram a bomba com espiões levando os segredos da construção do artefato, o que era em parte verdadeiro. Muitos espiões foram presos, como Alger Hiss e Klaus Guchs, formando um quadro que, combinado com o triunfo de Mao Tse Tung na China, provocou grande inquietação nos Estados Unidos.
É nesse cenário que onde surge um demagogo - Joseph Mc Carthy -, que se aproveita do choque que esses dois acontecimentos impactantes e fartamente explorados pela mídia impressa e pela TV que esta começando, criam na população americana e lança uma caça as bruxas que opera em ondas crescentes contra vários grupos sociais.
O Senador Joseph Mc Carthy foi eleito pelo Estado interiorano de Wisconsin contra o então Senador Robert La Folette, um veterano que Mc Carthy acusou de ter lucrado com a guerra enquanto ele, Mc Carthy lutava na Marinha.
A campanha virulenta garantiu a Mc Carthy a cadeira no Senado e levou La Folette ao suicídio.
No mesmo período também se desenrola a Guerra da Coreia, uma guerra contra o comunismo, o que atiça o clima.
A primeira campanha de Mc Carthy foi contra 205 funcionários do Departamento de Estado, acusados de comunistas por ele. Sua narrativa era de que o Partido Nacionalista caiu na China por conta da sabotagem desses diplomatas, o que era um absurdo. O Governo Chiang Kai Shek caiu por causas objetivas mas essa queda foi uma surpresa, uma vez que a mídia americana nunca apresentou a realidade de um regime apodrecido que cairia por sua incompetência, miséria da população, alta corrupção, o casal Chaing Kai Shek era adorado nos EUA.
Mc Carthy fez campanha para o candidato presidencial de 1952 de seu Partido Republicano, o General Eisenhower, que não tolerava sua demagogia mas foi aconselhado a jamais criticá-lo pois Mc Carthy tinha apoio popular e da mídia.
O segundo grupo de ataque na campanha anti-comunista de Mc Carthy foi Hollywood, diretores, roteiristas, artistas, dramaturgos, produtores, dentre eles o legendário Chales Chaplin esteve prestes a ser preso e fugiu para a Europa por causa de Mc Carthy.
O Senador era temido e ninguém o enfrentava, seus discursos no Senado eram violentos e longos, uma vez discursou por seis horas ininterruptas, presidia o Subcomitê de Atividades Anti Americanas do Senado, transformado-o em Tribunal Anti-Comunista. Era abastecido de informações por J.Edgar Hoover, diretor do FBI, a policia federal americana.
No ataque à comunidade artística, Mc Carthy desgraçou carreiras, provocou suicídios, e muitos artistas se exilaram para não ser perseguidos. Seus interrogatórios no Senado eram televisionados e ele humilhava os inquiridos.
Sua terceira onda de ataques foi contra o Exército. Centrou baterias contra o General George Marshall, uma figura lendária, respeitadíssima, o arquiteto da vitoria americana na Segunda Guerra, acusado de ser tolerante com o comunismo, assim como todo o Governo Trumam e o antecessor Franklin Roosevelt.
O General George Marshall, Premio Nobel da Paz de 1953, foi mentor do Presidente Eisenhower que não o defendeu dos ataques de Mc Carthy, tal o medo que este provocava no Partido Republicano, submetido aos seus caprichos.
Mas ao atacar o Exercito Mc Carthy não mediu o que estava em jogo e superestimou sua força. O Exército o enfrentou e o derrubou. Em 21 de desembro de 1954 o Senado provocou um voto de censura contra Mc Carthy, que o derrubou por 67 a 22, tirando-lhe o cargo de presidente da subcomissão, que era sua trincheira. A partir dai Mc Carthy derrapou rapidamente para a decadencia e sua real dimensão ficou clara para o País, um reles demagogo que explorava certos temores da sociedade americana mas que era um canalha e um vilão sem nenhum caráter.
Mc Carthy morreu aos 48 anos de hepatite mas a real causa foi seu alcoolismo. Deixou um rastro terrível na Historia americana, um vampiro de carreiras e vulgar explorador de sentimentos e receios de uma sociedade amedrontada.
A lição do Caso Mc Carthy é o perigo que cruzadas falsamente moralistas "em prol do interesse publico" podem encobrir ação de maníacos e demagogos. A registrar o papel indecente da mídia conservadora a favor de Mc Carthy, especialmente do grupo TIME LIFE, que o prestigiou até o último momento de sua cruzada, um apoio acrítico que fez também não ser atacado pelos seus colegas do Congresso ou pela Suprema Corte.
Mc Carthy desgraçou milhares de pessoas a quem acusava de espiões comunistas sem que outras forças do País lhe cortasse os passos.
Mc Carthy foi uma mancha negra na Historia americana, que os Republicanos de hoje fazem questão de esquecer.
Aos intelectuais, jornalistas e celebridades acadêmicas que têm se dedicado, nos últimos dias, a manifestar a decepção repentina com José Dirceu depois que ele foi conduzido a prisão da Polícia Federal em Curitiba, gostaria de dizer, do alto de minha modéstia, que sinto vergonha por esse comportamento.
Falando dos argumentos de conveniência, antes de chegar às teses de consciência. A experiência recomenda que se evite bater em quem está por baixo, depois de muita badalação no tempo em que se encontrava por cima. Não é só política. É pudor – que ajuda a preservar a própria memória.
Até pela biografia, como um dos líderes da resistência à ditadura, que organizou grandes protestos estudantis, articulou a luta pela anistia e as diretas-já, Dirceu tem credibilidade para ser ouvido, para se explicar e para se defender, se for o caso.
Queira-se ou não, é parte da história da nossa democracia. Se hoje podemos usufruir direitos e liberdades, isso se deve a pessoas que tiveram atitudes definidas e claras, no momento correto. Dirceu foi uma delas.
É claro que o passado não garante anistia prévia a ninguém. Mas ajuda a pensar.
Pensei que já tínhamos vivido – nós, que perdemos em 64, fomos derrotados de novo em dezembro de 68, que enfrentamos muitos momentos cruéis e assustadores – tempo suficiente para ter aprendido de uma vez por todas algumas lições essenciais. Por exemplo:
-- Que não se pode transigir com valores e garantias democráticas;
-- Que todo cidadão é inocente até que se prove o contrário, o que só é possível com um amplo direito de defesa e o processo contraditório;
-- Que o casamento entre meios de comunicação (“Basta!” “Fora!”, quem pode esquecer dessas manchetes?) e os tribunais costuma produzir situações degradantes, como lembram as velhas Comissões Gerais de Investigação do pós-64;
Vivemos um período tão especial – não tão raro assim em nossa história, vamos admitir -- em que as pessoas não são presas porque foram julgadas ou condenadas. Elas são presas para confessar e delatar, o que os responsáveis da Lava Jato costumam negar mas a matemática trabalha contra seu argumento: das 18 delações do caso, só uma foi feita com o acusado em liberdade. Um procurador, Mauro Pastana, autor de pareceres favoráveis à Lava Jato, admitiu com todas as letras que as prisões preventivas podem estimular os acusados a “colaborar.”
Isso permite entender que a Operação não segue a lógica das investigações criminais, que tem um crime a investigar, um responsável a julgar e punir, se for caso. Mas temos uma lógica de guerra, onde o alvo é visto como inimigo.
Onde nossos intelectuais resolveram esconder Norberto Bobbio, pai da unidade entre justiça e da democracia, que ajudou a afastar a esquerda do totalitarismo da era stalinista? Não foi ele, citação obrigatória dos anos 1980 e 1990, que ajudou a explicar que a democracia era um valor universal, para nós e para eles – sejam quem forem o “nós” e o “eles”?
Será que todos se esqueceram de Emile Zola, forçado a exilar-se em Londres para ficar longe dos fanáticos do ódio manipulado pela imprensa reacionária da França do final do século XIX?
Dirceu tem inúmeros defeitos mas não é por causa deles que se tornou um alvo político do conservadorismo brasileiro, que só deixou de persegui-lo com ataques brutais no período em que se tornou importante demais para ser alvejado sem receio de retaliação.
Entre os diversos políticos brasileiros, Dirceu cometeu erros inúmeros, exibe defeitos imensos, mas é um dos poucos que, em sua estatura, não foi cooptado. Conservou uma visão própria do mundo e das coisas da política – e isso incomoda demais. Por isso não basta que seja derrotado. Deve ser esmagado. Repetindo a sentença do tribunal de uma rainha louca contra um revolucionário que não vou citar aqui para não inspirar comparações indevidas, seu corpo deve ser esquartejado e a terra, salgada. Não é de envergonhar?
Copiamos o absolutismo português, por outros meios.
A última derrota de Dirceu foi ter negado o pedido de acesso integral às denúncias feitas contra ele. O argumento é que isso poderia atrapalhar o curso das investigações. É um direito básico, que faz parte da construção da democracia e da invenção dos direitos humanos, ocorrida naquele período em que homens e mulheres deixaram de ir a praça pública aplaudir esquartejamentos, torturas e mortes na forca.
Hoje se prende sem condenação. Houve uma época em que se prendia sem acusação.
Evoluímos. Mas também regredimos.
Que o juiz Sérgio Moro tenha argumentos para impor essa situação e até convença os tribunais superiores de seus motivos, como ocorreu com o ministro do STF Teori Zavaski, eu até compreendo – embora me reserve o direito de considerar um absurdo.
Quando intelectuais se submetem a esse meio conhecimento, a essa verdade censurada, e mesmo assim se dispõe a condenar, assumem uma condição inaceitável: em vez de viver das próprias ideias, permitem-se pensar com o cérebro dos outros?
É desse modo que passamos a torcer pelo fim da divisão entre trabalho manual e intelectual?
Não, meus amigos. A realidade é ainda mais feia. O universo político está em mudança e não faltam mentes de olho nas vagas disponíveis na nova ordem. Aquelas que, a partir de 2003, cortejavam a ordem da qual Dirceu fazia parte.
Minha opinião é que Dirceu deveria ser deixado em paz. Quase septuagenário, com contas a apresentar aos brasileiros, e explicações a dar. Tem um ajuste de contas a fazer com sua própria história.
Dirceu perdeu os direitos políticos em 2005, no início da AP 470. O relator que conduziu a cassação de seu mandato acaba de ser acusado de receber R$ 150 000 para abafar uma das diversas CPIs da Petrobras – coisa que ele desmente, como Dirceu sempre desmentiu o que se disse sobre ele.
Como tantos antes e depois dele, no Brasil e no mundo, Dirceu passou a oferecer serviços que políticos, advogados e ministros das altas esferas possuem de melhor: contatos, conhecimentos, ideias que encurtam distâncias e vencem dificuldades. Não vou julgar essa opção aqui e agora. Cidadãos que fazem isso, em geral, devem renunciar à atividade política.
Na pátria dos lobistas registrados, o próprio Barack Obama foi obrigado a desconvidar um senador democrata, competente e articulado, Tom Dashle, que, fora do Congresso, passou a trabalhar para um escritório de empresas de saúde.
A denúncia que levou Dirceu à cadeia é que sua atividade é uma farsa e que ele só estava armando esquemas de corrupção e enriquecimento. Cabe investigar, apurar, acusar e esclarecer. Os fatos concretos são necessários para saber quem está mentindo.
De preferência, em liberdade.
Qualquer pessoa que já foi obrigada a dar explicações para representantes da Lei e da Ordem – estou falando daqueles que têm gravata – sabe a diferença. É isso que separa a civilização da barbárie.
Apesar de tudo, um advogado que esteve com Dirceu trouxe boas notícias sobre o prisoneiro: "o humor dele está melhor do que o meu."