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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua como instrumento de poder | Gilson Sampaio

QUARTA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 2015

Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua como instrumento de poder

Sanguessugado do Socialista Morena
Cynara Menezes
cortesespana
(Hernan Cortés, o “herói” da nota de mil pesetas)
Imaginem a cena: navegadores astecas chegam à Espanha, matam milhares de pessoas, sequestram e assassinam o rei, roubam todos os artefatos em ouro e prata e derretem tudo, e estupram as princesas, com as quais têm filhos. Como eles seriam chamados? Certamente “bárbaros”, “monstros”, “assassinos”. Pois foi exatamente isso que os espanhóis fizeram no México e no Peru em nome de Deus e da coroa, mas são chamados “conquistadores”, “descobridores”, “colonizadores” e até “heróis”.
A história da América é também uma história dos eufemismos, de como as palavras escolhidas para definir o que de fato aconteceu após a chegada dos europeus foram importantes para forjar uma versão oficial, mais “nobre”, de uma matança. Pinçados a dedo, estes vocábulos são a prova viva de como a história é narrada sob a ótica dos vencedores: a língua foi utilizada como instrumento de poder para subjugar todo um continente.
Hernan Cortés (1485-1547), o “conquistador da América”, protagonizou um banho de sangue no México, mas é tido como “herói” na Espanha, onde se tornou até efígie de cédula na época das pesetas. Era, na verdade, um saqueador que roubou todo o ouro dos astecas, uma civilização evoluída que conhecia inclusive a escrita. Quando entrou em Tenochtitlán, a cidade sagrada dos astecas, o primeiro que fez foi acorrentar os pés do imperador Moctezuma, o que lhe causou “não pouco espanto”, nas palavras do próprio Cortés.
Moctezuma acreditava que a chegada dos espanhóis era a concretização das profecias sobre o retorno do deus Quetzalcóatl, e não opôs resistência. Passados alguns meses, os chefes astecas foram convencidos a fazer um grande desfile com todo o povo ricamente paramentado, como era de seu costume fazer e como se estivessem a sós, sem visitantes. Foram então chacinados pelos “descobridores”.
“Começaram a cortar sem nenhuma piedade, naquela pobre gente, cabeças, pernas e braços, e a estripar, sem temor a Deus, uns partidos pela cabeça, outros cortados ao meio, outros atravessados pelas costas; uns caíam logo mortos, outros fugiam arrastando as tripas até cair. (…) E não contentes com isso os espanhóis foram atrás dos que subiram ao templo e dos que se esconderam entre os mortos, matando quantos podiam estar à mão. O pátio ficou com grande lodo de intestinos e sangue que era coisa espantosa e de grande lástima ver tratar assim a flor da nobreza mexicana que ali faleceu quase toda”, narra um cronista da época, Juan de Tovar, no Códice Ramirez.
Como se chama isso? “Conquista” ou “genocídio”? Morto Montezuma a pedradas pelos seus próprios súditos ou a punhaladas pelos invasores (as versões variam), os espanhóis são derrotados pelos astecas em seguida. Mas Cortés e seus homens se organizam para voltar à carga. Cortam a água potável que chegava a Tenochtitlán por um inovador aqueduto e também a comida. Famintos e sedentos, os mexicas acabam derrotados em nova chacina e o último senhor asteca, Cuauhtémoc, torturado e depois enforcado. Calcula-se que pelo menos 100 mil índios morreram durante a “conquista”; do lado inimigo, entre 50 e 100 espanhóis apenas. Um massacre.
Com Francisco Pizarro (1476-1541) no Peru não foi diferente. Chegando a Cajamarca, logrou capturar o imperador Atahualpa após este se negar a reconhecer a Bíblia (!). O inca propôs então encher de ouro e de prata o quarto onde estava preso em troca de sua liberdade. Pizarro aceitou e recebeu o resgate (84 toneladas de ouro e 164 de prata), mas, como qualquer sequestrador sem palavra, ordenou a execução de Atahualpa, estrangulado. Os tesouros roubados pelos espanhóis do Peru foram ainda mais valiosos do que os saqueados por Cortés no México.
O mais impressionante, para mim, foi descobrir que tanto Pizarro quanto Cortés tiveram a desfaçatez de, ainda por cima, se unirem e terem filhos com as princesas dos impérios que destruíram. Os únicos filhos conhecidos de Pizarro, que chegou com 57 anos ao Peru, nasceram de duas princesas incas: a primeira, Quispe Sisa, filha do imperador Huayna Capac, e a segunda, Cuxirimay, viúva do próprio Atahualpa. Cortés engravidou três filhas de Moctezuma. Uma delas, estuprada pelo espanhol, rejeitou a criança que nasceria, Leonor Cortés de Moctezuma. Um prato cheio para Freud…
Que palavras, portanto, saem na real dessa história? “Tortura”, “assassinato”, “sequestro”, “roubo”, “estupro”, “chacina”. Nenhuma delas gloriosa. De todos os cronistas da “descoberta” da América, o único que foi honesto em nomear o que houve por seu verdadeiro nome foi o frei Bartolomeu de las Casas, que sempre falou em “tragédia”, “destruição” e “história sangrenta” em suas obras e jamais as beneficiou com qualquer adjetivo louvável.
cortesmalinche
(imagem hollywoodiana de Cortés com uma de suas mulheres índias, Marina, a Malinche)
Para o linguista Marcos Bagno, professor de Línguas Estrangeiras e Tradução da Universidade de Brasília, o melhor termo para definir a chegada dos europeus a nosso continente é “invasão”. Eu conversei com ele sobre o tema.
Socialista Morena – Falar em “colonização”, “conquista” ou “descobrimento” não é uma forma de edulcorar o que foi feito na América pelos europeus?
Marcos Bagno – Sem dúvida. O discurso da História oficial é o discurso do vencedor. Por exemplo, quando estudamos a História do Brasil, falamos das “invasões” holandesas e francesas, mas nunca da “invasão” portuguesa. O termo “colonização” é o mais sincero, porque significa exatamente instalar-se nas terras dos outros, povoá-la e subjugar os outros, os donos da terra.
SM – Se você tivesse que escolher palavras para definir a chegada dos europeus à América, quais escolheria?
MB – Eu sempre me refiro à chegada dos europeus no continente americano como “invasão”. O termo “descobrimento” é absurdo, porque sugere que até então aquelas terras eram “ocultas” ou “desconhecidas”. Repito: a narrativa é sempre a do vencedor. Os seres humanos que aqui viviam anteriormente são considerados como de segunda categoria. Somente com a chegada dos europeus é que começou uma verdadeira “civilização” digna desse nome. Todo o passado dos povos americanos ancestrais é apagado, sua história é riscada, assim como foram riscados da vida milhões de indivíduos, massacrados no grande genocídio que foi a “conquista da América”.
SM – Há um movimento na África do Sul atualmente de “descolonização”, ou seja, questionar personagens tidos como “heróis” mas que eram todo o contrário, assim como ocorre com os bandeirantes aqui. Seria também possível descolonizar a linguagem?
MB – Existem diversas áreas dos estudos da linguagem que se dedicam precisamente a questionar e a criticar o discurso que impõe a ideologia dominante como a única possível. A análise do discurso, a sociologia da linguagem, a linguística aplicada crítica, por exemplo, se esforçam em demonstrar que não existe linguagem neutra, que todo e qualquer uso da língua implica uma visão de mundo. Descolonizar a linguagem é possível, tanto quanto desmasculinizar a linguagem.
SM  Como, em sua opinião, o poder se utiliza da língua para dominar?
MB – Historicamente, o poder simplesmente se valeu da repressão pura e simples, do genocídio, para impor sua língua e, com ela, suas crenças e seus valores. As “conquistas” dos romanos, por exemplo, apagaram da História centenas de povos que viviam na Europa ocidental e dos quais hoje só temos vagas referências. E as línguas desses povos também desapareceram para sempre, muitas delas sem deixar nenhum vestígio. No período moderno, na chamada expansão marítima, as línguas dos europeus foram impostas aos povos africanos, americanos e asiáticos submetidos ao controle das potências coloniais. Hoje em dia, o predomínio quase exclusivo do inglês como língua internacional reflete o poderio econômico-político-militar-ideológico dos Estados Unidos. No interior de cada país, de cada sociedade, há também uma nítida divisão social por meio da linguagem: o estabelecimento de uma “norma-padrão”, inspirado nos usos das elites e da literatura consagrada, é um modo de separar os que “falam bem” dos que “falam mal” ou que simplesmente “não podem falar”. A linguagem como instrumento de poder é um fenômeno tão antigo quanto a espécie humana.
SM  Todo este pensamento “dominante” a partir do idioma está impregnado nas escolas e universidades. É possível mudar isso?
MB – Muito dificilmente essa situação se transforma. Só mesmo quando há alguma revolução social, alguma perturbação radical da ordem estabelecida, é que os conceitos de “certo” e “errado” se alteram. Pierre Bourdieu diz que só é possível haver uma “subversão herética”, isto é, uma derrubada da doxa vigente e uma substituição de uma “língua legítima” por outra quando há também uma transformação radical na sociedade. De todo modo, nas escolas e universidades é possível questionar o discurso dominante e propor pelo menos uma crítica dele.
SM  Em que setores da sociedade também se nota o uso da língua como instrumento de poder?
MB – Em toda a sociedade, o tempo todo. Nas relações mais íntimas, por exemplo, entre o poder masculino e o não-poder feminino, a linguagem é instrumentalizada para definir os papéis e as hierarquias. Assim também nas relações entre as etnias, as classes sociais, as faixas etárias etc. A sociedade é hierarquizada e não se pode separar linguagem de sociedade.
pizarrolima
(a estátua do “herói” Pizarro na Plaza Mayor em Lima)
***
O mais lamentável dessa história toda é quando a gente se dá conta de quanto conhecimento fomos privados por conta da devastação proporcionada em nosso continente pelos “conquistadores”… Menos mal que no México, país orgulhoso de suas raízes indígenas, não há um só monumento a Cortés, ao contrário do Peru: na praça principal de Lima há uma estátua de Francisco Pizarro e seus restos mortais estão depositados na catedral da capital peruana. Igualzinho ao que nós fazemos com os bandeirantes. A propósito, o adjetivo para definir os bandeirantes é sanguinários, não “heróicos”.
Conquistadores ou estupradores? Descobridores ou genocidas? A língua como instrumento de poder | Gilson Sampaio

Destruição econômica e social | Gilson Sampaio

EM ÚLTIMA INSTÂNCIA É VERDADE



QUARTA-FEIRA, 20 DE MAIO DE 2015

Destruição econômica e social

Via Diário Liberdade

Adriano Benayon

1. Foi muito divulgada esta asserção do professor Wanderley Guilherme dos Santos: "Depois de criado, o Estado liberal transforma-se no Estado em que a hegemonia burguesa não é seriamente desafiada. Trata-se de um Estado cuja intervenção em assuntos sociais e econômicos tem por fim garantir a operação do mercado como o mais importante mecanismo de extração e alocação de valores e bens".
2. Esse cientista político destaca a óbvia natureza intervencionista (não admitida) do Estado dito liberal, sem, porém, propor uma denominação que saia dessa contradição em termos.
3. De resto, os muitos que repetem o termo (neo)liberal, mesmo sabendo-o falso,colaboram com a enganosa comunicação social do capitalismo.
4. O mesmo cientista afirma: "O Estado liberal não é de modo algum um Estado não intervencionista. Muito pelo contrário, o Estado liberal está sempre intervindo, a fim de afastar qualquer obstáculo ao funcionamento 'natural' e 'automático' do mercado".
5. Aí está um engano sério. O mercado, nas mãos dos oligopólios e carteis, não funciona natural nem automaticamente: ele é controlado e manipulado por eles, e lhes serve de álibi, ao usarem o termo impessoal "mercado" em relação a ações praticadas por pessoas físicas, a serviço de grupos concentradores de poder econômico e financeiro.
6. Isso é exatamente o contrário do funcionamento 'natural' e 'automático' do mercado e também do que teorizaram os clássicos da economia sobre mercados livres, com participantes igualmente submetidos à concorrência. Na realidade, a intervenção do Estado capitalista: 1) afasta a aplicação dos mecanismos de defesa econômica do Estado, coibidora dos abusos praticados pelos concentradores; 2) promove o aumento da concentração do poder da oligarquia financeira, através de subsídios governamentais e das políticas fiscal e monetária, entre outras.
7. Portanto, capitalismo é o sistema político e econômico que não admite restrições à concentração dos meios de produção e financeiros, ademais de a fomentar, nas mãos da oligarquia, por menor que seja o número das pessoas que a compõem.
8. Nos países centrais ou imperiais, o Estado liderou o desenvolvimento econômico e nunca abandonou o fomento ao setor privado. À medida que este ganhou corpo, o Estado passou a apresentar-se como liberal, a fazer concessões no campo social e a adotar, na política, formas exteriormente democráticas.
9. Nos períodos de crescimento e bem mais nos de crises, a concentração foi crescendo, e regrediram os avanços, surgindo o fascismo (antes da Segunda Guerra Mundial). E o fascismo não declarado, como nos EUA, desde antes doinside job de setembro de 2001 (destruição das Torres Gêmeas e míssil lançado no Pentágono).
10. A concentração do poder financeiro mundial alcançou o incrível grau presente (147 corporações transnacionais, vinculadas a apenas 50 grupos financeiros, detendo mais de 40% da riqueza mundial).
11. Isso foi se intensificando por mais de 100 anos após os concentradores terem se tornado bastante fortes, para que o Estado capitalista os protegesse adicionalmente. Os setores mais aquinhoados foram o das armas e a finança.
12. O grande impulso recente deu-se através da financeirização da economia, abusando os bancos dos privilégios de criar moeda e títulos de toda sorte. Seus acionistas e executivos locupletaram-se assim, beneficiados pela desregulamentação dos mercados financeiros, a qual lhes proporcionou abusar da alavancagem e de fraudes diversas.
13. Ilustrativa da subordinação do Estado capitalista, falsamente dito liberal, à oligarquia financeira foi a resposta ao colapso financeiro de 2007/2008, provendo mais de 20 trilhões de dólares em ajuda aos banqueiros delinquentes, ao invés de realizar as correções estruturais necessárias ao bem da economia e da justiça.
14. De há muito, as intervenções imperiais - militares ou não - recrudescem em todos os continentes, gerando sistemas políticos pró-imperiais e Estados vassalos, como se tornou o Brasil, à raiz do golpe de Estado de agosto de 1954, passando a partir das Instruções 113 da SUMOC e seguintes (janeiro de 1955) a subsidiar os investimentos estrangeiros diretos, de modo absurdo.
15. Não há como falar em capitalismo periférico. Há somente indivíduos riquíssimos originários das periferias, como muitos outros dos países centrais, subordinados à oligarquia capitalista mundial.
16. À medida que essa oligarquia se foi apropriando, no Brasil, da estrutura econômica, foi também promovendo sucessivas intervenções e manobras no campo das instituições políticas que propiciaram intensificar ainda mais essa apropriação.
17. Temos agora mais uma crise. Nesta, a baixa resiliência – devida à desindustrialização e à desnacionalização – combina-se com o déficit das transações correntes exteriores, mais os déficits das contas públicas nos três níveis da Federação, resultando em grande salto qualitativo para nova degradação econômica e social.
18. Consideremos as taxas básicas dos juros dos títulos públicos, uma das mega-fontes de agravamento do caos decorrente do "ajuste" em curso.
19. Nos últimos cinco meses, a taxa SELIC foi elevada várias vezes. Era 11,25%, em novembro de 2014, e chegou a 13,25%, em 30.04.2015, o que significa taxa efetiva em torno de 16,25% ao ano (a.a.).
20. Em artigo anterior, comparei a aplicação das taxas de 12% a.a. e de 18% a.a., durante 30 anos, sobre o atual montante da dívida mobiliária interna, de cerca de R$ 3 trilhões: a primeira resultaria em R$ 90 trilhões, e a segunda em incríveis R$ 430 trilhões, quantia igual ao dobro da soma dos PIBs de todos os países do mundo.
21. A taxa atual alçaria o estoque da dívida para R$ 274,73 trilhões de reais.
22. Tal como as letais taxas de juros, as demais políticas do "ajuste" só podem ter por objetivo concluir a desestruturação (destruição) econômica e social do país.
23. Em função dos estratosféricos juros da dívida e também da intenção restritiva do "ajuste", os investimentos públicos sofrem enormes cortes. Do mesmo modo, a demolição de direitos sociais, incluindo generalizar a terceirização, significa extrair sangue de organismos anêmicos.
24. É inútil esperar resultados positivos de tais medidas, porque, na atual estrutura, dominada pelos carteis transnacionais, e dada a infraestrutura existente, nenhum "ajuste" levará a diminuir significativamente o "custo Brasil", qualquer que seja a taxa de câmbio.
25. Até mesmo as subsidiárias das transnacionais, que poderiam apresentar custos competitivos, inclusive por não precisarem do crédito local, absurdamente caro, preferem, em vez disso, auferir lucros fabulosos no país, reforçados pelos incríveis subsídios que lhes dão a União, Estados e municípios.
26. Elas remetem esses lucros ao exterior, disfarçados em despesas por serviços, superfaturamento de importações (dos equipamentos, máquinas e insumos) e subfaturamento de exportações. Assim, seus custos são forçosamente altos.
27. Já as empresas de capital nacional vêm sendo alijadas do mercado, desde 1954. Além de não contarem com as vantagens dos incentivos e subsídios, que só as transnacionais estão em condições de aproveitar, elas foram desfavorecidas pelas políticas públicas e deixadas à mercê das práticas monopolistas dos carteis multinacionais.
28. A política de crédito as afeta de modo especialmente agudo, pois os juros que despendem são múltiplos da taxa dos títulos públicos. Já as transnacionais, além de não necessitarem de crédito, bastando-lhes reinvestir pequena parcela dos lucros, têm acesso a crédito barato no exterior.
29. A partir dos anos 90 e após a devastação produzida pela dívida externa, passou-se às indecentes privatizações, já que a classe dominante eram os controladores das transnacionais, cujos governos impõem suas vontades, diretamente e através de agentes, cooptados e corrompidos.
30. Sob o modelo dependente, o país carece de poder armado e financeiro para fazer valer seus interesses na esfera mundial, e sua inserção externa é a pior possível, pois os segmentos de maior valor agregado e maior emprego de tecnologia são controlados pelos carteis mundiais.
31. A própria infraestrutura, como a dos transportes, inclusive em sua orientação geográfica, foi desenhada para servir o interesse das corporações estrangeiras, tal como a escolha dos investimentos, priorizando a extração de minérios em escalas imensas, com pouco ou nenhum processamento no país.
32. Também na agricultura privilegia-se a grande escala, segundo as regras dos carteis mundiais do agronegócio e suas tradings, abusando-se dos agrotóxicos, transgênicos e fertilizantes químicos, para grande dano dos solos e da saúde pública.
33. Entre os grandes escárnios ilustrativos da submissão do Brasil à condição de periferia imperial é a Lei Kandir, que isenta de tributos as exportações primárias. A Inglaterra entendeu, já no Século 13, que era vital sair dessa condição, quando a lã de seus carneiros ia para as indústrias de Flandres e da Itália.
Destruição econômica e social | Gilson Sampaio

Informação Incorrecta: As batatas fritas do McDonald's fazem mal?

20 maio 2015

As batatas fritas do McDonald's fazem mal?

Pergunta legítima: sabemos que muitas vezes as cadeias de fast food sacrificam a qualidade em prol da rentabilidade. Pelo que, lógico questionar-se acerca dum dos itens mais consumidos no mundo: as batatas fritas vendidas pela McDonald's.

O engenheiro Grant Imahara, conhecido pela série televisiva Mithbustersvisitou a fábrica dos EUA onde as chips da McDonald's são preparadas e tornou públicos os resultados.

Pelo que, agora é possível responder à pergunta mais importante: não, as batatas fritas do McDonald's não fazem mal. A não ser que sejam comidas, pois aí o discurso muda.

Mas se forem utilizadas como ornamento, como material para encher as almofadas ou para experiências químicas, então são perfeitamente inócuas.

As chips do simpático Ronald McDonald's contêm 14 ingredientes, alguns dos quais utilizados duas vezesdurante o processo. A seguir a lista completa dos ingredientes presentes em cada batata frita.

Os ingredientes

1. Batata
Por incrível que pareça, a McDonald's ainda não conseguiu substituir totalmente este ingrediente. Mas deve ser só uma questão de tempo. 

2. Óleo canola
É um óleo alimentar transgénico da semente da planta colza. Óptimo também como lubrificante de moldes em fundição de aço; aditivo para outros óleos, pois melhora o desempenho sob alta velocidade e pressão; vulcanização da goma elástica; inseticida ou no biodiesel. Contém acido erúcico, que é tóxico para os humanos.

3. Óleo de soja
O óleo de soja em si não é particularmente prejudicial. Não é o melhor óleo do mundo (bem pelo contrário...): o importante é utiliza-lo com moderação e nunca para fritar, pois nestas condições cria 4-idrossi-trans-2-nonenale que é altamente tóxico. Obviamente, as batatas fritas do McDonald's são fritas...

4. Óleo de soja hidrogenado
O processo de hidrogenização do óleo de soja tem como efeito colateral a isomerização de algumas das ligações insaturadas do carbono. A hidrogenação converte parcialmente essas moléculas em trans-isómeros, os quais estão implicados em doenças circulatórias, incluindo doenças do coração.

5. Aroma natural de carne
Este é um produto natural, derivado do leite. Porque as batatas fritas tenham que ter um sabor a carne não é claro, mas a gente gosta...

6. Leite hidrolisado
É um leite submetido ao processo de hidrólise, uma reação química que quebra as ligações duma molécula com a adição de uma molécula de água. Apesar da descrição que pode assustar (e que nada tem de natural), este processo torna o composto de leite mais saboroso e menos problemático para as pessoas que sofrem de intolerância ao lactósio.

7. Farinha hidrolisada
Como antes: enriquece o sabor.

8. Ácido cítrico
Contrariamente ao que pode ser pensado, hoje o ácido cítrico nada tem a ver com os citrinos, nomeadamente com os limões. É produzido de forma industrial com a fermentação de fungos (com oAspergillus niger) ou leveduras em ambientes com baixo pH e baixa concentração de ferro. É um bom estabilizador e tem óptimas propriedades anti-calcário.

9. Dimetil polissiloxano 
O Dimetil polissiloxano é uma mistura de polímeros lineares de siloxano totalmente metilados. Dito de forma mais simples: é silicone. Este ingrediente tem a função de construir uma membrana capaz de "plastificar" as batatas fritas para que estas não se oxidem. Óptimo como agente antiespumante, combate os piolhos e é utilizado como condicionador para os cabelos.

10. Dextrose
Basicamente: açúcar.

11. Ácido Pirofosfato de sódio
É um composto químico levemente tóxico (mas só levemente) e medianamente irritante (mas só medianamente), inorgânico, utilizado para manter a cor das batatas uma vez congeladas.

12. Sal

13. Óleo de milho
Vegetal, é rico em Poliinsaturados Ômega 6, portanto é muito mais saudável de que o óleo de soja, apesar de ser muito rico em calorias. No entanto: é o 4º óleo utilizado pela McDonald's nas suas batatas fritas....

14. TBHQ
É o Tert-Butylhydroquinone. E já o nome deveria preocupar. É um anti-oxidante que, em elevadas quantidades, provoca o aparecimento de cancros no estômago e alterações do DNA. O que não admira: é um derivado do petróleo.

É importante realçar como a receita aqui apresentada seja aquela utilizada nos Estados Unidos, sendo que pode variar consoante a legislação dos vários Países: no Reino Unido, por exemplo, não é permitido o Dimetil polissiloxano. O que é uma pena, pois desta forma as batatas perdem a camada plastificada...

Como afirmado, a utilização de alguns dos ingredientes citados (nomeadamente: óleo canola, óleo de soja, óleo de soja hidrogenado, ácido cítrico e dimetil polissiloxano) é repetida durante a fase de preparação, pelo que o número de componentes atinge o total de 19. Isso mesmo: dezanove ingredientes para preparar batatas fritas...

Uma simples comparação.
Eis a lista dos ingredientes para preparar batatas fritas em casa:

1. Batata
2. Azeite
3. Sal


Serão mais saudáveis, mas são definitivamente batatas muito mais pobres, não é?


Ipse dixit.
Informação Incorrecta: As batatas fritas do McDonald's fazem mal?

CLAUDICANDO: O ovo da serpente pode sair pela culatra

quarta-feira, 20 de maio de 2015

O ovo da serpente pode sair pela culatra


Por Kátia Gerab Baggio, no Viomundo

Vou arriscar uma aposta.

Que os veículos direitistas da mídia — principalmente através de colunistas raivosos como Reinaldo Azevedo e “jornalistas” quase inacreditáveis como Rachel Sheherazade (ambos merecem aspas na palavra jornalista) —, além de vídeos que circulam na internet de figuras de extrema-direita como Olavo de Carvalho, estão plantando o ovo da serpente fascista, isso já sabemos. A enorme votação, em 2014, do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) é apenas uma das provas desse avanço da extrema-direita truculenta e sem escrúpulos.


As agressões mal-educadas aos ex-ministros Guido Mantega, em um hospital, e Alexandre Padilha, em um restaurante; o “bundalelê” de militantes da Força Sindical em plena Câmara dos Deputados; os ratos (ou hamsters, tanto faz) soltos durante a sessão da CPI da Petrobras na qual era ouvido o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto; xingamentos e agressões a ciclistas na cidade de São Paulo (colocando, inclusive, suas vidas em risco), como reação às “ciclovias vermelhas do prefeito petista Fernando Haddad”; as ofensas repetidas de Jair Bolsonaro a mulheres (parlamentares ou não) e homossexuais; as manifestações preconceituosas e agressivas de direitistas contra negros, mulheres (feministas ou não), gays, militantes de movimentos sociais e de direitos humanos, além de nordestinos, podem provocar o aumento da rejeição a essa direita, que, sem dúvida, cresce no país.

É claro que a internet e as redes sociais contribuem imensamente para a exacerbação de truculências e desrespeitos (e aqui incluo alguns setores das esquerdas, ainda que minoritários).

Não tenho dúvida de que essa direita truculenta sempre existiu no Brasil. A história de violência contra os movimentos sociais e de superexploração do trabalho demonstra isso.

Mas a direita e a extrema-direita “saíram do armário”, nos últimos anos, como reação aos mais de 12 anos de governos federais liderados pelo PT, com a conivência, ou mesmo o apoio e estímulo, da mídia liberal-conservadora, explicitamente antipetista.

Entretanto, os exageros dessa direita truculenta, fora e dentro do Congresso Nacional, estão demonstrando o quanto essas pessoas desprezam a democracia e desrespeitam quem pensa diferente delas.

Ou seja, avalio que há dois movimentos em relação às direitas: de um lado, seu avanço inequívoco. De outro, a crescente exposição pública de sua truculência e desrespeito pelas regras básicas do regime democrático e da convivência social respeitosa das diferenças, diversidade e pluralidade.

Os mais de 12 anos de governos liderados pelo PT e os importantes avanços sociais conquistados nesses anos (ainda muito limitados, na verdade, diante da dimensão das desigualdades no Brasil) estão revelando, cada vez mais, um país que estava submerso, caracterizado pelo ódio de classe e rejeição às conquistas sociais e aos direitos humanos.

Ao mesmo tempo, a truculência dessa gente está cada vez mais exposta. E isso pode gerar, possivelmente, uma crescente rejeição ao avanço dessa direita agressiva por parcelas da sociedade brasileira que podem até ser conservadoras, mas não admitem esse circo infame que tem sido protagonizado por alguns parlamentares, setores da mídia e da própria sociedade.

Como escrevi no início, é uma aposta de que nem todos os setores da sociedade brasileira que fazem oposição ou têm restrições ao PT, aos governos liderados por petistas e/ou às esquerdas apoiam agressões, truculência e circo midiático e parlamentar (com minhas desculpas aos artistas circenses, que nada têm a ver com isso).

* Kátia Gerab Baggio é professora de História das Américas na UFMG.
CLAUDICANDO: O ovo da serpente pode sair pela culatra: Por Kátia Gerab Baggio, no  Viomundo Vou arriscar uma aposta. Que os veículos direitistas da mídia — principalmente através de ...

Democracia & Política: GASOLINA NO BRASIL É CARA OU BARATA?

quarta-feira, 20 de maio de 2015

GASOLINA NO BRASIL É CARA OU BARATA?


[Ver no link indicado no texto, para visualizar a tabela acima]


Gasolina cara ou barata? O Brasil está exatamente no meio, entre 170 países.

Por Fernando Brito

"Toda hora você escuta que o Brasil está “lá em cima” nos índices de deficiências: em educação, saúde, burocracia etc. Muitas vezes é verdade.

Mas escuta e lê nas redes sociais (e às vezes nos jornais) que "a gasolina brasileira está entre as mais caras do planeta".

Como essa discussão veio à tona depois que a Petrobras apresentou um ótimo resultado em seu balanço, expurgado do que devia e do que não devia ter sido cortado, algumas pessoas atribuíram isso ao preço da gasolina aqui.

Como eu tenho uma vaga ideia de que o papel do jornalismo é informar – e, ao opinar, fazê-lo com base em fatos – já tinha conseguido alguns dados sobre o assunto.

Agora, com a ajuda de um leitor, publico um aplicativo que permite saber o preço de gasolina e diesel em qualquer país do mundo (são 170 na lista), em qualquer moeda que se deseje.

O Brasil está exatamente no meio da tabela, no preço de bomba.

Acima dele, além de os Estados Unidos, onde gasolina é uma espécie de deusa nacional, a imensa maioria é dos países que nadam em petróleo.

Escolhendo o país e a moeda, dólar ou real, você pode chegar às suas conclusões, sem se emprenhar pelos ouvidos com a história de que a gasolina – cuja matéria prima, o petróleo, custa a mesma coisa em qualquer parte do mundo, exceto para as petronações. E convém lembrar que apenas 1/3 do preço da gasolina é o valor pago à Petrobras para produzi-la."

FONTE: escrito por Fernando Brito em seu blog "Tijolaço"  (http://tijolaco.com.br/blog/?p=26824).
Democracia & Política: GASOLINA NO BRASIL É CARA OU BARATA?: [ Ver no link indicado no texto,   para visualizar a tabela acima ] Gasolina cara ou barata? O Brasil está exatamente no meio, entre 170 ...

Democracia & Política: DEVEMOS TEMER OS INVESTIMENTOS CHINESES?

Porque não temos de temer os investimentos chineses como “imperialistas”

Por Fernando Brito

"Quando fiz comentários, outro dia, aqui, sobre o interesse dos chineses em investir no Brasil, surgiram algumas pessoas preocupadas com o que seria o “imperialismo chinês no Brasil”.


Respondi meio na base da brincadeira (politicamente incorreta, aliás) de que deveríamos, quem sabe, procurar nas pastelarias os agentes de Pequim.

Mas acho que isso vale um reflexão mais profunda sobre o que é diferente no estabelecimento de relações de negócio com a China do que foram, no passado, as com a Inglaterra e ainda são as com o EUA.

A primeira, obvia, é que somos praticamente antípodas. Estamos fora do conceito de "espaço vital" (o Lebensraun da Alemanha nazista é um conceito do século 19), fortemente inspirado nas ideias do “Destino Manifesto” que empolgou os EUA, ao ponto do presidente James Buchanan, em meados do século ter dito que “a expansão dos Estados Unidos sobre o continente americano, desde o Ártico até a América do Sul, é o destino de nossa raça (…) e nada pode detê-la”.

O que foi repetido, 150 anos depois, pelo General Colin Powell: “O nosso objetivo com a ALCA é garantir para as empresas norte-americanas o controle de um território que vai do Pólo Ártico até a Antártida“.

Muito menos parece que os chineses pretendam criar, como arrogavam-se os ingleses, um império “onde o sol nunca se põe”.

A segunda é que, ao que conste, não existe de parte dos chineses nenhuma iniciativa de controlar jazidas e terras por aqui. No primeiro caso, a modéstia (20%) com que participaram do leilão de Libra e – aqui revelo algo que me contaram – com um chinês vigiando o envelope do lance, para que não se desse um tostão acima do lance mínimo. Positivamente, não é atitude de quem quer, a qualquer preço, abocanhar um grande naco do nosso petróleo. Também não se registra qualquer interesse por minas de ferro ou de outros minérios, que eu saiba.

Também não causa preocupação aqui o apetite chinês por áreas agricultáveis – que eles têm, sim, na Austrália e na África – porque depois de muita conversa, no início da década, de que os chineses queriam comprar terras por aqui, o assunto sumiu e deu lugar a interesse de acordos entre produtores brasileiros – ou empresários do agronegócio – com o poderoso mercado chinês, aliás no qual a liberação das importações de carne do Brasil é um dos maiores interesses do setor.

O foco deles é, sim, a logística, porque são importadores e serão ainda mais, com o crescimento de sua economia e, sobretudo, de seu consumo interno, onde inclusão, mesmo pequena, representa agregação de dezenas de milhões ao mercado.

No “front” tecnológico, embora estejam muito mais avançados que nós, também não tem a China a possibilidade de pretender ser “dona” do pedaço, ao menos no horizonte visível. Pode partilhar algumas pesquisas de ponta, mas não pretender domínio – o que aliás nem tenta – de nossa indústria, onde o prejuízo que traz é no setor têxtil e de vestuário, que está longe de ser indústria high-tech ou de base, embora seja importante.

Mas temos muito a partilhar em áreas onde os chineses são fortes:transmissão de energia elétrica (natural, porque também têm dimensões continentais), construção naval, ferrovias, siderurgia (são o maior produtor de aço do mundo), tecnologia agrícola (da qual eles dependem fortemente) e muitas outras áreas.

Igualmente na área militar, não consta que os chineses estejam tentando espalhar sua doutrina. Ao contrário, dos grandes países, são mesmo o que menos detém tecnologia própria, que se desenvolveu, como todos sabem, com “cópias adaptadas” de armamentos de outros países e só agora – e muito modestamente – cuidam de criar vetores bélicos (porta-aviões, aviões furtivos e mísseis de longo alcance- áreas em que são assumidamente muito inferiores aos EUA) com poder de projeção a longas distâncias.

O melhor exemplo é que só agora estão fazendo seu segundo porta-aviões.

No que eles se esmeram, seja em armas, convencionais ou nucleares ou em meios eletrônicos – é, isto sim, em criar um poder bélico dissuasório.

Bem, some o leitor e a leitora todas as brutais diferenças culturais, econômicas e sociais que há entre os dois países e veja se estamos sujeitos a uma hipotética “dominação chinesa”.

Claro que os chineses não são “santinhos” e querem, como sempre foi a regra das grandes potências econômicas mundiais, ganhar dinheiro e poder, ou vice-versa. E que com eles, ou com os norte-americanos, os alemães ou os franceses devemos fazer negócios que sejam bons para o Brasil. A única diferença é que eles estão oferecendo essas oportunidades, e os outros não, ou, ao menos, nem tanto ou muito menos.

E estão oferecendo porque, como você pode ver no mapa acima (mesmo não sendo tão atual, ajuda a ter uma ideia) que mostra o investimento chinês através do mundo e revela o quanto a participação do Brasil nessas inversões de capital é pequena em relação ao tamanho da sétima economia do mundo.

Mesmo que tenhamos, nesta década, nos tornado o quinto ou sexto destino de capitais chineses, ainda atraímos muito menos que Austrália, EUA e Canadá (será que alguém acha que estão controlados pelos chineses?) e, sobretudo, que acumulamos um atraso imenso nessa captação, comparada ás nossas potencialidades.

É isso, e não outra coisa, que explica o volume dos acordos que estamos assinando com aquele país.

O resto é conversa de quem, em relação ao capital internacional, fez séculos de maus negócios, embora para os estrangeiros o Brasil tenha sido, sim, um negócio da China."

FONTE: escrito por Fernando Brito em seu blog "Tijolaço'  (http://tijolaco.com.br/blog/?p=26843).

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Democracia & Política: DEVEMOS TEMER OS INVESTIMENTOS CHINESES?

A constrangedora leveza intelectual dos "meninos" que lideram a campanha pelo impeachment - Viomundo - O que você não vê na mídia

A constrangedora leveza intelectual dos “meninos” que lideram a campanha pelo impeachment

publicado em 13 de março de 2015 às 22:16
Da Redação
Os jovens promotores dos protestos que pedem o impeachment de Dilma conquistaram seus 15 minutos de fama.
Autor do vídeo “E se Dilma fosse uma vilão da ficção?”, Kim Kataguiri, de 19 anos, é fã de bandas como Maroon 5 e Strokes
Um dos líderes da manifestação nacional que, entre outras pautas, pedirá o impeachment da presidente Dilma Rousseff no domingo (15) é um jovem de 19 anos, neto de japoneses, que defende uma economia de linhagem liberal e que largou a universidade antes de terminar o primeiro ano: “Estava sem tempo para ir e as faculdades de economia no Brasil são muito atrasadas.”
Kim Kataguiri faz parte do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo favorável a uma política econômica liberal, com um Estado microscópico – – o que se traduz com medidas como a privatização de estatais e dos sistemas de saúde e de educação (“com a distribuição de carteiras para aqueles que não puderem pagar”). Defende ainda a “liberdade de imprensa” e o “fim do perdão de dívidas de ditaduras” (como Guiné Equatorial).
Seria apenas constrangedor descobrir que dezenas de milhares de brasileiros foram convencidos a ir às ruas por um garoto que se acredita personagem de mangá e produz vídeos supostamente bem humorados como os que aparecem acima.
Kataguiri é co-autor de um espantoso artigo publicado pela Folha de S. Paulonum tom grandiloquente que caberia muito bem em um videogame:
Captura de Tela 2015-03-13 às 21.21.16
Como é que é?
Um menino de 19 anos, que abandonou a faculdade antes de completar o primeiro ano, quer demolir o Estado brasileiro?
Kataguiri talvez seja apenas mais um inocente útil, guindado à condição de protagonista pelo desespero da mídia em encontrar novos heróis, “apartidários”, para praticar o antipetismo.
O tal MBL, ao qual ele pertence, é uma versão fuleira do movimento libertário dos Estados Unidos, financiado pelos irmãos Koch.
Se não houver uma intervenção da matriz, essa garotada vai acabar avacalhando o liberalismo, como o próprio Kataguiri faz ao admitir, na entrevista reproduzida acima, que, uma vez privatizadas a saúde e a educação, ainda assim quem não pudesse pagar receberia ajuda.
Será que ele sabe que o guru Ronald Reagan disse que “there is no free lunch in America”?
Os “meninos do golpe”, como os definiu Rodrigo Vianna, só não são uma piada completa porque as teses que eles advogam, impulsionadas pelos milhões de dólares dos irmãos Koch, já causaram muito dano por aí, especialmente nos Estados Unidos.
Os Koch, que fizeram sua fortuna de U$ 100 bilhões no ramo do petróleo, estão na lista dos maiores poluidores norte-americanos. É tentador imaginar que advogam um Estado fraco para se livrar de prestar contas à sociedade.
Na cartilha libertária deles também estão a privatização da Previdência Social, a extinção dos sindicatos e do salário mínimo e o aumento da idade de aposentadoria.
Isso é o que se chama de advogar em causa própria!
Os irmãos Koch já torraram milhões de dólares para produzir uma câmara de eco para ideias que os beneficiam economicamente, através de:
1. Estudos “neutros”, publicados por think thanks financiados por eles;
2. “Especialistas” que se colocam à disposição da mídia para dar entrevistas;
3. Jornalistas que reproduzem nos jornais, no rádio e na TV as ideias da dupla;
4. Políticos que tiveram suas campanhas financiadas pelos bilionários.
Tendo combatido o movimento pelos direitos civis nos anos 60, os Koch militam pelo que é chamado nos Estados Unidos de “neighborhood schools”, escolas da vizinhança.
Por trás desta imagem benigna se esconde o combate à integração entre negros e brancos, de bairros diferentes, na mesma escola, uma política pública implementada com transporte escolar.
À primeira vista, o jovem Kataguiri parece ser apenas um aspirante a Danilo Gentili recém-saído da adolescência.
Se ele nos presta algum serviço neste momento, é o de oferecer um alerta sobre a profundidade e a extensão do analfabetismo político de um número bastante razoável de brasileiros.
PS do Viomundo: Apesar dos meninos do MBL desmentirem qualquer relação com os irmãos Koch — e eles merecem o benefício da dúvida –, as ideias de ambos são como as de gêmeos univitelinos.
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Inês Nassif: Sem anestesia, FHC tirou dinheiro da área social e aumentou desemprego. Que moral tem para falar de 'estelionato eleitoral'? - Viomundo - O que você não vê na mídia

Inês Nassif: Sem anestesia, FHC tirou dinheiro da área social e aumentou desemprego. Que moral tem para falar de ‘estelionato eleitoral’?

publicado em 20 de maio de 2015 às 13:04
desemprego FHC
A autoridade moral de Fernando Henrique Cardoso – II
Sem anestesia, FHC tirou dinheiro da área social e aumentou o desemprego com o pacote fiscal de 1998. E ainda assim quer falar de ‘estelionato eleitoral’?
Por razões que qualquer pedaço amarelado de jornal da época indicam, é difícil entender a lógica do PSDB e do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, segundo a qual o pesadíssimo ajuste fiscal feito nos primeiros dias após as eleições de outubro de 1998 foi um ato louvável, e as medidas anunciadas pela presidenta Dilma Rousseff no ano passado, nas mesmas condições, são estelionato eleitoral.
Em 1998, o mundo tinha acabado de enfrentar a crise russa, com grande repercussão sobre o Brasil, que empurrou seus sérios problemas cambiais com a barriga até que FHC vencesse a disputa pela reeleição, apesar das fragilidades externas do país, e jogou o país na recessão.
No ano passado, Dilma, logo após o pleito que a reconduziu ao cargo, anunciou um corte drástico de despesas e investimentos do governo e reduziu gastos com alguns programas sociais – e, ao que tudo indica, paralisou também o país – sob o argumento de que a crise internacional, que o Brasil dribla desde 2008, havia, enfim, atingido a economia brasileira com intensidade.
A semelhança entre ambos é que os dois ajustes foram feitos seguindo o be-a-bá da ortodoxia e jogaram ainda mais para baixo uma atividade econômica já deprimida.
A diferença entre ambos é que o Brasil de FHC não tinha gordura, estava à beira da bancarrota e sequer teve escolha: seguiu à risca o receituário do FMI porque precisava desesperadamente da ajuda de U$ 41 bilhões que o FMI, outros organismos internacionais e países desenvolvidos condicionavam à aplicação dos famosos remédios amargos que, segundo o receituário neoliberal tão caro ao então presidente e sua equipe econômica, eram necessários, um preço a ser pago para entrar no clube do mundo globalizado.
Em 1998, sequer houve escolha: ou era isso, ou o Brasil quebrava. O clima beirava ao pânico. Tanto que, em 29 de janeiro de 1999, uma sexta-feira negra, boatos sobre a situação econômica do país provocaram uma corrida aos bancos. O governo teve que decretar feriado bancário na segunda-feira para evitar o pior. (“Agora, sob nova direção: FMI assume política econômica e impõe pesada recessão para conter a inflação e a queda do Real”, Isto É, 10/2/1999).
No caso de Dilma, embora haja uma justa discussão se o pacote fiscal foi amargo demais para o tamanho da doença, existe o fato inegável de que o Brasil não vai quebrar – e vai precisar de muito ataque especulativo ao país, como os que já ocorreram, para tornar o Brasil próximo ao que era na crise de 1998. Naquele ano, as reservas internacionais brasileiras eram de US$ 34 bilhões e cairiam para US$ 23,9 bilhões no ano seguinte. O Brasil fechou o ano passado com US$ 374,1 bilhões de reservas.
O que não é crível, no caso atual, é que o ex-presidente FHC, que considerou como remédio necessário o arrocho fiscal de 1998, venha dizer do pacote de Dilma que “estão operando sem anestesia” para uma plateia de empresários, em 29 de maio passado. Provavelmente, o mesmo público que, 17 anos atrás, pagava pelos danos do pacote de FHC. No final de agosto de 1998, um grupo de empresários e o então sindicalista Paulinho da Força foram ao vice-presidente Marco Maciel para alertá-lo dos efeitos colaterais do pacote (“Principal temor é o desemprego”,O Estado de S. Paulo, 8/10/1998). Não haviam conseguido chegar em FHC ou no seu ministro da Economia para apresentarem as queixas.
Naquele ano, o IEDI (Instituto de Estudos do Desenvolvimento Industrial), em documento, diagnosticava que “as políticas de juros, cambial e tributária condenam as empresas ao desaparecimento”.
O governo FHC chegou a anunciar um “mutirão anticrise”, a disponibilização de linhas de crédito para empresas em dificuldade, segundo a Folha de S. Paulo para “compensar os efeitos das altas taxas de juros na economia e atenuar a recessão”. Mas, segundo o jornal, sem grandes chances de concretização, pois “falta dinheiro nas principais instituições oficiais de crédito”. “O BNDES deverá reduzir em 1999 seu orçamento de investimentos”, informa o jornal. (“Falta dinheiro para o mutirão anticrise”, Folha de S. Paulo, 27/01/1999).
Da parte de FHC, não teve anestesia nem remédio para dor. Depois dos cortes de outubro de 1998, em fevereiro seguinte o governo anunciou um corte adicional (“Governo decide cortar mais R$ 1 bilhão só no 1º bimestre”, FSP, 20/2/1999). Sem Novalgina, FHC resolve reduzir “Outras despesas de custeio, que incluem os gastos em projetos sociais do governo federal”. O anúncio foi feito no mesmo dia em que era divulgado o resultado do PIB de 1998 pelo IBGE, de 0,15%, perdendo apenas para o posterior ao Plano Collor, em 1992, que provocou um crescimento negativo do PIB de 0,54% (“PIB tem o pior resultado em seis anos”, FSP, 20/2/1999).
O jornal Folha de S. Paulo, em 21 de fevereiro de 1999, deu na manchete que “País tem 5% do desemprego mundial”. Na página de dentro (a 7 do Caderno Dinheiro) informava que não apenas o ajuste fiscal do governo, mas o próprio modelo econômico do modelo FHC, havia levado o Brasil a um quarto lugar mundial em número de desempregados. “O crescimento recente da participação brasileira no desemprego mundial começou quatro anos atrás, em 1995. Não por acaso, o desemprego acompanha o aumento da abertura do país aos produtos importados”. Era a âncora cambial do governo FHC produzindo os seus efeitos. Sem anestesia.
Também sem nenhum conforto para a dor, os preços dos produtos básicos chegaram à estratosfera. “Cesta básica sobe e bate recorde no real”, anunciou a Folha de S. Paulo, em sua edição de 23/02/1999. Onze dias depois, era a vez de mais más notícias: “Desemprego bate recorde em SP” (FSP, 3/3/1999). Segundo o IBGE, a Região Metropolitana de São Paulo atingia a maior taxa de desemprego desde 1983, de 9,18% da população economicamente ativa.
Dois dias depois, os jornais anunciavam que o novo presidente do Banco Central, Armínio Fraga, no dia de sua posse, promoveu um aumento de juros para 45% ao ano, a unificação das taxas em uma única, a Selic, e o início do regime de metas de inflação – herança imposta aos sucessores de FHC. No mesmo dia, sem anestesia, o governo aumentou os derivados de petróleo em 11,5%. Esperou a campanha eleitoral passar. (“Juros sobem para conter a inflação; combustível terá aumento de 11,5%”, FSP, 05/03/1999).
Ainda no mês de março, e já como resultado das medidas fiscais restritivas, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) anunciou a redução de 0,71% no nível de emprego industrial do Estado (“Indústrias fecham 11,6 mil vagas em fevereiro em SP”, FSP, 11/03/1999). Na edição do dia 14, a FSP informa que “o PIB vai cair de 3,5% a 4% em 1999” segundo o FMI, previsão que “embute o recuo de 8% na produção industrial” (“Indústria tem pior queda com o FMI”, FSP, 14/3/1999).
Esses são apenas exemplos da autoridade moral de FHC para se tornar o porta-voz das críticas a Dilma. Quem quiser mais, basta ler jornais velhos.
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