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quinta-feira, 7 de maio de 2015

A crise vai se agravar, mas a esquerda se uniu e Lula voltou - Carta Maior

03/05/2015 00:00 - Copyleft

A crise vai se agravar, mas a esquerda se uniu e Lula voltou

Nasceu a frente de esquerda ordenada na certeza de que o governo Dilma será aquilo que a rua conseguir que ele seja. E uma voz rouca avisou: 'Vou à luta'

por: Saul Leblon 


Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Alguma coisa de muito importante aconteceu no histórico Vale do Anhangabaú, em São Paulo, nesta sexta-feira, 1º de Maio.
 
Quem se limitou ao informativo da emissão conservadora perdeu o bonde.
 
O tanquinho de areia do conservadorismo, sugestivamente deixou escapar o principal ingrediente desta sexta-feira, que pode alterar as peças do xadrez político brasileiro.
 
Preferiu o glorioso jornalismo cometer pequenas peraltices.
 
Tipo contrastar a imagem de Lula com um cartaz contra o arrocho de Levy, como fizeram os petizes da Folha.
 
Blindagens ideológicas e cognitivas ilustram um traço constitutivo daquilo que os willians  –Bonner e Waack—denominam de ética da informação.
 
Trata-se de não informar, ou camuflar o principal em secundário. E vice versa.
 
Não houve sorteio de geladeira no 1º de Maio da esquerda brasileira. Mas os assalariados talvez tenham tirado ali a sorte grande – a mais valiosa de todos os últimos maios.
 
No gigantesco palco de mobilizações épicas, que reuniu um milhão de pessoas há 31 anos para lutar por eleições diretas, a história brasileira deu mais um passo que pode ser decisivo para impulsionar vários outros nos embates que virão.
 
Porque virão; com certeza virão.
 
Essa certeza permeava o Dia do Trabalhador na larga manhã da sexta-feira no Anhangabaú.
 
A engrenagem capitalista opera um conflito independente da vontade de seus protagonistas. A direção que ele toma, porém, reflete o discernimento histórico dos atores sociais de cada época.  
 
A chance de que o embate resulte em uma sociedade melhor depende, portanto, de quem assumir o comando do processo.
 
As lideranças que estavam no Anhangabaú deram um passo unificado nessa direção.
 
Que esse movimento tenha escapado às manchetes faceiras ilustra a degeneração de um aparato informativo que já não consegue se proteger de suas próprias mentiras.
 
Os que enxergam no trabalho apenas um insumo dos mercados, um entre outros, nivelaram a importância do Anhangabaú ao que acontecia no palanque do Campo de Bagatelle quase à mesma hora.
 
Lá se espojavam aqueles que com a mesma sem cerimônia risonha operam a redução do custo da ‘matéria-prima humana’ no Congresso brasileiro.
 
Sorteios de carros e maximização da mais-valia compõem a sua visão de harmonia social, que remete ao descanso da chibata na casa grande em dia de matança de porco.
 
Vísceras, os intestinos, eram franqueados então com alguma generosidade nos campos de Bagatelle pioneiros, em que paulinhos ‘Boca’ vigiavam a fugaz confraternização da casa grande com a tigrada ignara sob sua guarda.
 
A mais grave omissão  do ciclo de governos progressistas iniciado em 2003  foi não ter afrontado essa tradição de forma organizada, a ponto de hoje ser ameaçado por ela.
 
Porque muito se fez e não pouco se avançou em termos sociais e econômicos, mas esse flanco ficou em aberto.
 
O vazio era tão grande que se cultivou a ilusão de que avanços materiais seriam suficientes para impulsionar o resto por gravidade.
 
A primeira universidade brasileira, contou Lula no Anhangabaú, só foi construída em 1920.
 
Colombo descobriu a América em 1492.
 
Em 1507, 15 anos depois de chegar à República Dominicana,  Santo Domingo já construía sua primeira universidade.
 
A elite brasileira demorou quatro séculos anos para fazer o mesmo, reverberou Lula.
 
Tome-se o ritmo de implantação do metrô em duas décadas de poder tucano em São Paulo.
 
Compare com a extensão em dobro da rede mexicana, ou a dianteira argentina, chilena etc.
 
O padrão não mudou.
 
O que Lula estava querendo dizer ao povo do Anhangabaú tinha muito a ver com isso: o desenvolvimento brasileiro não pode depender de uma elite que continua a dispensar ao povo os intestinos do porco.
 
O recado para quem não enxerga diferença entre um governo progressista e a eterna regressão conservadora protagonizada agora pelos sinhozinhos Cunha, Aécio, Beto Richa, Paulo Skaf... foi detalhado e repisado.
 
Foi um metalúrgico sem diploma, espicaçou aquele que ocupa a vaga de melhor presidente do Brasil na avaliação popular, quem promoveu a mais expressiva democratização da educação brasileira.
 
Nos governos do PSDB a tradição colonial se manteve.
 
O sociólogo poliglota não construiu nenhuma universidade em notável coerência com a obra que traz a sua assinatura como autor e protagonista: a teoria do desenvolvimento dependente.
 
Para que serve uma universidade se já não faz sentido ter projeto de nação?
 
Lula criou 18 universidades.
 
Reescreveu na prática a concepção de soberania no século XXI. Instalou-a na fronteira expandida entre a justiça social, a integração latino-americana e o fortalecimento dos BRICs.
 
A nostalgia colonial-dependente, ao contrário, orientou o ciclo da República de Higienópolis na frugal atenção dispensada à formação de quadros para o desenvolvimento.
 
FHC não assentou um único tijolo de escola técnica em oito anos em Brasília.
 
Para que escola técnica se a industrialização será aquela que o livre comércio da ALCA permitir?
 
Juntos, Lula e Dilma fizeram 636 até agora.
 
Com o Prouni, o número de jovens matriculados nas universidades brasileiras passou de 500 mil para mais de 1,4 milhão.
 
Em vez de herdar as vísceras da sociedade, tataranetos de escravos, índios e cafuzos, cujos pais muitas vezes sequer concluíram a alfabetização, começaram a ter acesso a uma vaga no ensino superior pelas mãos do metalúrgico e da guerrilheira mandona.
 
Sim, tudo isso é sabido. A ‘novidade’ agora é desfazer do sabido.
 
Mas Lula somou ao histórico a estocada que calou fundo no silêncio atento do Anhangabaú.
 
O retrospecto do ex-presidente cuja cabeça é solicitada a prêmio a empreiteiros com tornozeleira prisional, tinha por objetivo desnudar o escárnio embutido no projeto de redução da maioridade penal.
 
As elites agora, fuzilou um Lula mordido e determinado, querem se proteger do legado criminoso de cinco séculos, criminalizando a juventude pobre do país.
 
Passos significativos foram dados em seu governo para minar a senzala que ainda pulsa no metabolismo da sociedade brasileira.
 
Mas a voz rouca machucada atesta o golpe por haver se descuidado do embate que viria contra aqueles que mostravam os caninos como se fosse sorriso.
 
Agora se vê, eram maxilares de feras.
 
À primeira turbulência do voo incerto e instável da dinâmica capitalista o sorriso virou mordida de pitbull.
 
A pressão coercitiva mobiliza diferentes maxilares: o do juiz  em relação aos suspeitos da Lava Jato que visa a jugular do PT e do pré-sal; o do ajuste recessivo que ameaça com o caos;  o da terceirização que coage com o desemprego maciço; o da exigência branca à renúncia de Lula a 2018 --ou arcará com a suspeição perpétua que a lixeira da Abril e da Globo despeja semanalmente no aterro mental da classe média.
 
Coube ao presidente da CUT, Vagner Freitas, marcar a ruptura com a omissão histórica que abriu o flanco da história brasileira ao jogral espoliador da democracia e da sociedade.
 
Didático, habilidoso, o líder sindical chamou um a um os representantes das centrais, movimentos e partidos presentes no 1º de Maio do Anhangabaú.
 
Aos olhos de milhares de pessoas, gente do povo basicamente, uns que vieram porque são organizados  -- outros, porque pressentem que um perigo ronda o Brasil nesse momento, Vagner materializou o passo seguinte há muito esperado e cobrado por todos aqueles que sabem o motivo pelo qual o governo Dilma hoje engole os sapos que rejeitava ontem.
 
A avalanche intimidadora que em poucos meses virou de ponta cabeça o programa vitorioso em 26 de outubro não cessará, a menos que a detenha uma frente política de abrangência e contundência maior que a resistência dispersa das partes nos dias que correm.
 
Foi essa mutação que o vale do Anhangabaú assistiu nesse 1º de Maio.
 
O presidente da CUT chamou para a frente do palco os dirigentes da Intersindical e da CBT, chamou Gilmar, do MST, chamou Boulos, do MTST, e outros tantos; e através deles convocou quase duas dezenas de organizações presentes.
 
Vagner apresentou ao Anhangabaú a unidade da esquerda brasileira em torno de uma linha vermelha a ser defendida com unhas e dentes: a fronteira dos direitos, contra a direita.
 
Fez mais que retórica, porém.
 
Submeteu ao voto dos ocupantes da praça e do palco uma agenda de lutas.
 
Devolveu ao 1º de Maio a identidade de uma assembleia popular de quem vive do seu trabalho.
 
Braços erguidos, o Anhangabaú aprovou uma contraofensiva ao cerco conservador.
 
‘Anote’, disse Vagner ao final dos escrutínios: dia nacional de protesto em 29/05, para pressionar o Senado a rejeitar o PL 4330; uma greve geral, caso o Congresso aprove a medida; e uma marcha a Brasília para levar Dilma a rejeitar o projeto, caso passe no Senado.
 
Engana-se quem acredita que isso saiu de graça.
 
Vagner Freitas uniu as forças da esquerda porque a CUT, a partir de agora, comprometeu-se a lutar lado a lado, unida aos demais movimentos e organizações, contra projetos de lei que arrochem direitos e conquistas dos trabalhadores.
 
Foi um realinhamento do desassombro com a responsabilidade histórica da esquerda que fez desse Dia do Trabalhador uma singularidade capaz de produzir outras mais.
 
Em boa hora.
 
A crise econômica vai se agravar nos próximos meses; esse era o consenso subjacente à união selada no palanque.
 
O conservadorismo saltará novos degraus em direção ao golpe –seja na forma do impeachment ou na tentativa de proscrever o PT e com ele as chances eleitorais do campo progressista em 2018.
 
O êxito do ajuste recessivo do ministro Joaquim Levy depende do desajuste do emprego e da expropriação dos ganhos reais de salários acumulados nos últimos anos (de 70% no caso do salário mínimo)
 
Estamos na primeira volta do torniquete.
 
Mas a renda real do trabalhador já registrou uma perda da ordem de 4% em março, em relação a igual período de 2014.  
 
A evolução do desemprego não é menos cortante.
 
Os dados reunidos em nota técnica da Fundação Perseu Abramo são claros: vive-se uma escalada.
 
A taxa desemprego medida pelo IBGE subiu forte nas grandes capitais em março: 6,2%.
 
Era de 5,9% em fevereiro; 5,3% em janeiro; 5% em março de 2014
 
Despejar a conta do ajuste nas costas do assalariado significa submeter o custo do trabalho à pressão de uma turquesa feita de desemprego e queda do poder de compra.
 
Espremidos, os assalariados serão convocados a apoiar falsas promessas de desregulação redentora de vagas, a exemplo do PL 4330.
 
Na semana passada o Banco Central elevou em mais meio ponto a taxa de juro, que já é a mais alta do planeta.
 
É a senha do choque.
 
Apenas essa pisada custará mais R$ 12 bilhões em 12 meses aos cofres públicos: juros adicionais sobre uma dívida pública de R$ 2,4 trilhões.
 
O impasse está contratado.
 
De um lado, a recessão derruba a receita e o emprego; de outro, o governo é intimado a carrear mais recursos escassos à ração gorda dos rentistas.
 
Menos receita com mais gastos.
 
Essa é a fórmula clássica para tanger um governo –qualquer governo que não disponha de uma hegemonia baseada em ampla organização popular-- ao precipício das privatizações saneadoras e dos cortes de programas e investimentos devastadores.
 
Quem acha que a ganância será saciada com a terceirização deveria informar-se sobre as novidades no mundo do trabalho inglês.
 
Sob o comando de engomados filhotes de Tatcher a economia britânica experimenta um novo patamar de flexibilização do mercado de trabalho.
 
A modalidade just-in-time já caracteriza 2,5% da mão de obra empregada, informa o jornal El País, sendo o segmento que mais cresce na economia.
 
A pedra filosofal desse novo assalto à regulação trabalhista é o vínculo empregatício baseado em salário zero.
 
Em que consiste a coisa notável?
 
Consiste em estocar mão de obra às custas da própria mão de obra.
 
Quando necessário aciona-se o almoxarifado social pagando apenas as horas efetivamente usadas do ‘insumo’.
 
Marx, você não entendeu nada de baixar o custo de reprodução da mão de obra.
 
Em vez da CLT, um taxímetro.
 
No futuro a metáfora poderá assumir contornos reais mais sofisticados, como um chip subcutâneo que permita monitorar o empenho muscular para seleção dos mais aptos.
 
Esse, o admirável  mundo novo descortinado do palanque do Campo de Bagatelle no 1º de Maio de 2005 pelos sorridentes perfis de Cunha, Aécio e Paulinho ‘Boca’, da Força.
 
Afrontar esse horizonte em marcha é o que ultimou a união da esquerda no extremo oposto da cidade no mesmo dia.
 
Tolice supor que centrais paralelas à CUT, como a Intersindical, ou o aguerrido Guilherme Boulos, prestar-se-iam a uma cenografia unionista alegórica no Dia do Trabalhador.
 
O que se assistiu no Anhangabaú foi o nascimento de um pacto.
 
Que tem agenda e eixo de luta ancorados no entendimento de que o governo Dilma será aquilo que a rua conseguir que ele seja.
 
Não desobriga a Presidenta de honrar compromissos de campanha, a começar pela rejeição ao vale tudo do PL 4330.
 
Mas divide o desafio da coerência.
 
Construi-la requer uma nova correlação de forças indissociável de uma frente ampla progressista.
 
Quem mesmo assim continua a duvidar da determinação pactuada no legendário Anhangabaú, deve ouvir (abaixo) a íntegra do pronunciamento visceral do mais aplaudido orador do dia.
 
Lula fechou o ato com um aviso à direita buliçosa.
 
Essa que ao mesmo tempo o desdenha como líder morto, mas oferece a liberdade como recompensa ao pistoleiro capaz de alvejá-lo com uma denúncia mortal.
 
Qual?
 
Qualquer denúncia. Desde que impeça a assombração das elites de reaparecer como candidato em carne e osso em 2018.
 
No 1º de Maio de 2015, a voz do fantasma ecoou mais rouca e forte que nunca.
 
Para dizer ao conservadorismo golpista, antinacional e anti-trabalhador: o ectoplasma não vai esperar até 2018.
 
‘Vou correr o Brasil, vou me encontrar com trabalhadores, com jovens, operários, camponeses e empresários...’
 
‘Eu aceito o desafio’, disparou a voz rouca, ferida, ressentida, mas convencida de que ainda tem uma tarefa incontornável a cumprir no país: terminar o que começou, tarefa que o mercado sozinho jamais o fará.
 
Cunha, Aécio, Skaf não se iludam com o noticiário generoso dos petizes da Folha.
 
Algo mudou no Brasil neste 1º de Maio de 2015.
 
E não foi apenas o preço do aluguel do sindicalismo de Bagatelle.
 
Ouçam a fala de Lula no Anhangabaú: aqui
 
 
https://soundcloud.com/institutolula/lula-discursa-durante-ato-politico-do-dia-do-trabalhador-em-sao-paulo
A crise vai se agravar, mas a esquerda se uniu e Lula voltou - Carta Maior

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Polícias brasileiras não se protegem contra cibervigilância dos EUA — CartaCapital

Polícias brasileiras não se protegem contra cibervigilância dos EUA

por Observatório da Privacidade e Vigilância — publicado 05/05/2015 05h17
Entre 2004 e 2009, governo dos EUA doou computadores para órgãos policiais brasileiros; mesmo com denúncias de espionagem, não foram tomadas medidas de proteção
UK Ministry of Defence/Flickr
De acordo com um telegrama de 2010 vazado pelo WikiLeaks, a embaixada dos Estados Unidos doou com regularidade computadores e outros equipamentos a diversos órgãos policiais brasileiros entre 2004 e 2009.
O uso desses equipamentos doados passou a despertar preocupação depois que uma reportagem da revista alemã Der Spigel, de dezembro de 2013, revelou que uma unidade da NSA, agência de espionagem dos EUA, tem a capacidade de inserir dispositivos para “grampear” computadores, enviando todas as informações processadas pela máquina para a agência.
O Observatório da Privacidade e Vigilância contatou os órgãos policiais brasileiros para saber se os computadores doados pelos EUA estavam em uso e se medidas preventivas foram tomadas para evitar o monitoramento. A Polícia Federal e a Polícia Civil de São Paulo não responderam à reportagem. A Polícia Civil do Paraná disse que um treinamento do serviço secreto dos EUA os ensinou a desmontar e verificar as máquinas e que nada de incomum foi encontrado. A Polícia Civil do Rio de Janeiro informou que não é capaz de localizar as máquinas doadas.
Segundo telegrama vazado pelo Wikileaks, as doações de computadores e outros equipamentos fariam parte do acordo bilateral de cooperação no combate às drogas entre os dois países, com as doações vindo da Seção de Narcóticos, órgão ligado ao Departamento de Estado dos EUA.
O telegrama relata a doação de computadores, servidores, impressoras, celulares, no breaks, trituradores de papel e aparelhos de GPS para diversos escritórios da Polícia Federal, para o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) do Ministério da Fazenda e para as polícias civis dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.
No telegrama, a Embaixada dos EUA em Brasília relata que alguns dos computadores doados para a Polícia Federal estavam sendo utilizados para “coleta de inteligência” e “investigações especiais” em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Belém, Porto Velho, Brasília, Campo Grande e Teresina.
Também são mencionados o uso de cinco computadores pela Delegacia de Atendimento ao Turista da Polícia Civil do Rio de Janeiro para o registro de “roubos de cartão de crédito, passaporte e documentos”, assim como o uso de outros cinco computadores pelo Centro de Operações Especiais da Polícia Civil do Paraná.
As doações passaram a despertar preocupação após reportagem da revista Der Spigel que mostrou a capacidade da agência de espionagem americana de “grampear” equipamentos, de maneira que informações processadas pelas máquinas fossem direcionadas para os EUA. Segundo a revista, a NSA chama esse método de “interdição” e consiste na instalação de bugs ou malwares nas máquinas.
Além disso, a agência tem a capacidade de intervir nas máquinas à distância, por meio de dispositivos “remotamente instaláveis”. Os documentos revelados pela Der Spiegelmostram que os “grampos” podiam ser implantados por um dos dois métodos em equipamentos da Dell, Cisco, Huawei, Samsung, Juniper Networks, Maxtor, Seagate e Western  Digital.
Contatada pela reportagem, a Polícia Civil do Paraná informou que em meados de 2009, policiais do COPE, o Centro de Operações Policiais Especiais, participaram de um curso sobre crimes cibernéticos na Academia de Polícia Civil do Estado de São Paulo, patrocinado pela embaixada americana e ministrado pelo Serviço Secreto dos EUA.
Segundo a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Paraná, dentre as atividades do curso estava o desmonte dos computadores utilizados em aula e nada foi verificado de anormal. Ao final do curso, cinco unidades foram doadas para a Polícia Civil do Paraná, com vinculação de uso no combate ao tráfico de drogas. Ainda segundo a Polícia Civil, durante o período de uso, os equipamentos passaram por manutenção e nenhuma anormalidade foi verificada.
Já a Polícia Civil do Rio de Janeiro alegou não ter meios para saber se os equipamentos continuam em uso, assim como não tem meios para localizar o registro de doação destes equipamentos.
Responsável pela coordenação das atividades de inteligência federal e de segurança da informação, o Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República informou à reportagem não ter registro algum sobre o acordo para doação destes equipamentos, que, segundo o telegrama, vigorou pelo menos entre 2004 e 2009.
As assessorias de imprensa da Polícia Federal e da Polícia Civil de São Paulo confirmaram o recebimento da solicitação de informações do Observatório, mas, passadas três semanas, não deram resposta.
O Observatório da Privacidade forneceu o link para leitura na íntegra do telegrama a todos os órgãos consultados. 
* O Observatório da Privacidade e Vigilância é uma iniciativa do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação da Universidade de São Paulo (GPoPAI-USP) que monitora ações do Estado e de empresas que tenham impacto sobre a privacidade dos cidadãos.
Polícias brasileiras não se protegem contra cibervigilância dos EUA — CartaCapital

Democracia & Política: PRODUÇÃO DE PETRÓLEO CRESCE 13,9% EM MARÇO

quarta-feira, 6 de maio de 2015

PRODUÇÃO DE PETRÓLEO CRESCE 13,9% EM MARÇO




Produção de petróleo cresce 13,9% em março, diz ANP

Por Nielmar de Oliveiram, repórter da Agência Brasil (Edição: Armando Cardoso)

93,3% da produção de petróleo e 75,5% de gás natural foram extraídos de campos marítimo

"A produção de óleo equivalente (petróleo e gás natural) nos campos brasileiros atingiu, em março deste ano, aproximadamente 3 milhões de barris diários. Na comparação com março de 2014, a geração de petróleo cresceu 13,9%. Comparada à de fevereiro deste ano, a produção de óleo fechou em queda de 0,7%. A de gás natural subiu 14,6% em relação a março de 2014 e 0,3% na comparação com fevereiro.

Os dados foram divulgados ontem (5) pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Desse total, 2,413 milhões de barris/dia são relativos à produção de petróleo. A produção de gás natural alcançou 95,6 milhões de metros cúbicos diários.

As informações do Boletim de Produção da ANP de março indicam que a atividade dos 46 poços em atividade na área do pré-sal atingiu 833 mil barris/dia de óleo equivalente, registrando crescimento de 2,9% em relação ao mês fevereiro."

De acordo com os dados, 672,9 mil barris diários equivalem à produção de petróleo e 25,5 milhões de metros cúbicos por dia, à de gás natural.

O relatório da ANP revela ainda que o aproveitamento de gás natural em março chegou a 96%. A queima de gás natural no período totalizou 3,8 milhões de metros cúbicos por dia, aumento aproximado de 16,2% em relação ao mês anterior e redução de 12,4% na comparação com março de 2014.

Segundo os números, 91,7% da produção de petróleo e gás natural são de campos operados pela Petrobras. De acordo com a ANP, no período, 93,3% da produção de petróleo e 75,5% da de gás natural do Brasil foram extraídos de campos marítimos.

O Campo de Roncador, na Bacia de Campos, foi o de maior produção de petróleo, com média de 349,4 mil barris diários, enquanto o de Lula, no pré-sal da Bacia de Santos, foi o maior produtor de gás natural, com média de 13,1 milhões de metros cúbicos por dia.

Somente a plataforma P-52, no Campo de Roncador, no norte fluminense, produziu, em 17 poços interligados, 168,4 mil barris de óleo equivalente/dia. Para a ANP, foi a plataforma com maior produção do país.

A agência informou também que, em março de 2015, 309 concessões, operadas por 24 empresas, foram responsáveis pela produção nacional. Desaas, 81 são concessões marítimas e 228 terrestres.

A produção de petróleo e gás natural anunciada hoje é originária de 9.070 poços, dos quais 8.253 terrestres e 817 marítimos. O campo com o maior número de poços produtores (1.091) foi Canto do Amaro, na Bacia Potiguar. Marlim, na Bacia de Campos, foi o campo marítimo com maior número (62) de poços produtores."

FONTE: escrito por Nielmar de Oliveira, repórter da Agência Brasil (Edição: Armando Cardoso).



Democracia & Política: PRODUÇÃO DE PETRÓLEO CRESCE 13,9% EM MARÇO

“As elites não evoluíram. Ainda é muito parecido com 1964”, afirma historiadora | Brasil de Fato

“As elites não evoluíram. Ainda é muito parecido com 1964”, afirma historiadora

  
 

01/04/2015

Por Rafael Tatemoto
  
  
Maria Aparecida de Aquino é professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, colabora com o Programa de Pós-Graduação em História Social da mesma instituição. Durante a carreira, se dedicou ao estudo da repressão política durante o período da ditadura civil-militar no Brasil, especialmente a censura exercida sobre os veículos de comunicação.
Nesta entrevista à Agência Brasil de Fato, ela aborda os motivos que levaram ao golpe de Estado, o papel exercido pela imprensa e faz comparações com o atual cenário da política nacional. Segundo a historiadora, há um elemento em comum entre passado e presente: “Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964.”

Brasil de Fato: Quais foram os motivos que levaram ao golpe de 1964?
A gente precisa levar em consideração que no golpe estão presentes diversas forças dentro do Brasil, bem como existiu apoio internacional - mais especificamente, apoio dos Estados Unidos. Quando a gente pensa quais seriam os motivos que levariam essas forças internas e externas a embarcarem numa aventura, que foi o golpe de 1964 - aventura essa ilegal e ilegítima sobre todos os aspectos - existem razões bastantes diversas. Se tivéssemos que centralizar essas razões eu diria que, basicamente, foi o programa de reformas, as chamadas reformas de base do então presidente João Goulart, o elemento detonador dessa questão. Essas reformas atingiriam todos os setores: penetrariam na educação, no mundo agrícola, na indústria. Era uma proposta para mudar o Brasil.
 
  
Mas não se tratavam de reformas feitas em outros países? Por que aqui não foram aceitas pela elite?
Sim, era um projeto reformista, não revolucionário, mas “há elites e há elites”. Ela não aceitou porque não suporta partilhar, essa é a característica da nossa elite. Não apenas da elite do nosso país. É uma marca das elites dos países que eram consideradas subdesenvolvidas.
Enquanto você tem nos países considerados avançados, como Inglaterra, França, Alemanha, uma determinada caracterização das elites, na medida em que não existe um distanciamento tão grande entre aquele que pertence à elite e aquele que está alijado na sociedade, no Brasil e em outras nações, você tem uma distância imensa. Existem nações em que o menor salário e o maior não ultrapassa dez vezes. Aqui não dá para mensurar quantas vezes ultrapassa. Consequentemente esse distanciamento tão grande faz com que essa elite nossa não seja tão permissiva.
Ela não admite, ela não é democrática. Ela é cruel, mesquinha. No momento em que ela diz “não podem se sentar à mesa”, ela está negando o próprio desenvolvimento. Porque é do acesso dessas pessoas a bens que elas não teriam, e a possibilidade que elas teriam que, inclusive, você tem o maior desenvolvimento do país. Quanto mais gente consumindo, partilhando, mais o país será desenvolvido. Nossa elite nega inclusive o desenvolvimento. O seu próprio desenvolvimento. É predatória, talvez seja o melhor adjetivo para ela.
Hoje se fala muito do papel de resistência à ditadura que os órgão de imprensa desempenharam. Como eles atuaram antes do golpe?
Têm um papel de protagonismo. Eles foram conspiradores. Toda a grande imprensa estava na conspiração contra a democracia. Vai ser uma das articuladoras mais importantes do golpe. O único veículo que não apoiou o golpe e se manteve ao lado do regime deposto foi o jornal “Última Hora”, do Samuel Wainer. Por conta disso, ele ganhou um inimigo total, que vai destruir o jornal. Demora pelo menos quatro anos até ele perder a posse do jornal em 1968, mas é destruído. Também ocorreu com o “Correio da Manhã”, que apoia o golpe, mas que dois dias depois já está contra, se colocando na oposição, já que percebeu o monstro que ajudou a criar. Por conta disso, também será destruído, pelo mesmo grupo que comprou o “Última Hora”.
Então como se explica que parte da grande impressa, após esse momento inicial, passa a resistir à ditadura?
A maior parte dos órgãos de divulgação de notícias tem um tendência absolutamente liberal. Faz parte dos objetivos do liberalismo a defesa da liberdade de expressão e de opinião. Então, a liberdade de imprensa é um elemento central no interior da plataforma liberal. A imprensa tem essa plataforma. Não é o tipo de coisa que eles queriam que acontecesse. Embarcou numa terrível aventura, descobriu que a canoa era furada, num determinado momento a canoa deles também fura. O exemplo lapidar é o jornal que eu estudei, “O Estado de S. Paulo”. Foi um grande conspirador. Os Mesquita [família dona do jornal] assumem que estavam na conspiração, dois anos antes do golpe eles já faziam parte das reuniões que discutiam como seriam o Brasil depois do apocalipse. Mas três anos depois do golpe já está na linha de tiro, tanto que vai receber a censura. Talvez o único, ao lado da revista “Veja” órgão da grande imprensa que tem censura prévia no interior da redação.
Com o fim da ditadura, é possível dizer que há uma contradição entre democratização política e a ausência de democratização da mídia?
Os grandes blocos de comunicação, o Brasil tem meia dúzia, se chegar a tanto, você observa que eles não tem como seu ideal a defesa da democratização das comunicações. Porque democratizar significa, ao fim, que você dará liberdade para as pessoas se organizarem em pequenos jornais que nasceriam, que passariam a ter direito à luz do sol. Para grande imprensa isso não interessa.
Quando você pega “o grande jornal A” versus “o grande jornal B” você vai ver manchetes idênticas, até a fotografia de capa muito parecida. O mesmo para as grandes revistas, parece tudo a mesma coisa. É bom esse mundo, né? Esse mundo entre “iguais” agrada a grande imprensa, o mundo da diversidade não.
Na realidade se está na defesa do oligopólio. Há grupos enormes que dominam fatias gigantescas do mercado das comunicações. É uma defesa cooperativista. Não quer que outros entrem. Para eles o “mesmismo” é bom. De forma alguma tem a ver com liberdade imprensa. Liberdade de imprensa, inclusive, seria lutar pela diversidade
Você vai em uma cidade do Acre, tem uma concessionária dos grandes veículos. É isso que está em jogo. Por isso que está jogo, a perda de domínio. No Brasil, antes mesmo de se colocar em pauta, se faz o discurso de dizer que está se ameaçando a liberdade de imprensa.
Nesse sentido, qual sua avaliação mais geral sobre o papel da imprensa no fortalecimento da democracia?
Fortalece enquanto defensora das liberdades democráticas, dentre elas a liberdade de expressão e imprensa. Tem um papel importante sim, mas não se pode dizer que ela seja fiel à democracia no sentido de que a democracia também significa conviver com o diferente, com o antagônico. O que se vê hoje é a incapacidade de viver com o antagônico. “Vocês estão de um lado, eu de outro, não quero diálogo”. Hoje cumpre um papel péssimo, nesse sentido
Eu fico muito chateada e entristecida quando eu comparo as manchetes que antecedem o golpe de 1964 e o que se faz hoje na grande imprensa. Só é comparável o que se faz hoje em relação ao governo. A grande imprensa está fazendo isso de novo, não aprendeu com a censura, com o fechamento com o empastelamento, não aprendeu nada, repete a mesma coisa. Só a semelhança com a destruição que hoje se faz do governo com o processo de destruição de que foi alvo o governo de João Goulart.
Quando você acompanha as manchetes, as primeiras páginas, os editoriais daquela época, eles são devastadores. Não é “queremos um Brasil melhor”, mas sim “o que está aí não nos serve”, independente de ser democrático ou não, então partiram pro ataque. Está acontecendo o pior que pode ocorrer, não se está dando possibilidade de defesa para alguém que você colocou no chão. Usa-se todo seu potencial e destrata cada um dos pontos do governo. “Nada é bom”.
“O Brasil teve coisas negativas, mas cresceu o nível de emprego”. O “mas cresceu o nível de emprego” é o mais importante, mas aparece no rodapé da página. É clara a iniciativa para quem quiser ver e estiver prestando atenção.
Na sua opinião o que permaneceu intocado mesmo com o fim da ditadura?
Hoje pouca coisa. Uma das coisas que persistem é o comportamento das elites. Ainda é muito parecido com o que era em 1964. As elites não evoluíram, não avançaram. Enquanto o Brasil mudou muito, para melhor, um país que inclui muito mais pessoas, e não só por causa dos últimos anos, vem num processo de inclusão muito importante. A realidade que vivemos hoje está a léguas de diferença da realidade de 50 anos atrás. Talvez a única que que persista é uma atitude semelhante das elites, infelizmente.
 
  
Então as elites ainda se comportam do mesmo jeito?
Quando você analisa as elites que estavam posicionadas em 1964 elas são claramente golpistas. Elas querem a derrubada do regime democrático. Elas não sabem e não conseguem conviver com o Estado democrático. Portanto, partem, para sua destruição e dissolução, que ocorre através do golpe, ilegal e ilegítimo.
Hoje você tem uma elite que tem um pouco de receio. Ela tem um pouco de receio de dizer “para nós acabou a brincadeira, a bola é minha e não brinco mais” e assumir uma caracterização abertamente golpista. Não que ela não flerte. Não que ela não seja capaz de embarcar em um aventura terrível, pela forma como age, pelas considerações que ela faz.
Um exemplo foi quando a presidenta Dilma se elegeu. Ela teve uma capacidade eleitoral bastante grande no Nordeste. Quando você olha as redes sociais falando dos nordestinos, você vai ver a cara dessa elite. Ela é exatamente aquilo. Ela começa a dizer: “é esse tipo de gente que elegeu, e nós somos melhores”. Ela tem condições, desejo e vontade de flertar abertamente [com o autoritarismo].
Ou seja, hoje você tem um processo ou uma proposta de inclusão social, que de uma maneira ou de outra dá o acesso às pessoas que não teriam a determinadas instâncias, desde a casa própria até o ensino universitário.
Essa proposta descontentava, como descontenta hoje. A proposta de inclusão. Se o Brasil vive um momento de crise, se é que existe a crise, se ela não é fabricada pelos meios de comunicação, essa crise se deve fundamentalmente a esse descontentamento. São os mesmos grupos, a mesma raiz, que não aceita que as pessoas que não têm nem acesso às migalhas passem a se sentar na mesa.
Como a senhora analisa os protestos pedindo impeachment, os “panelaços”?
Quem bateu panelas? Foi a grande elite? Eu sou capaz de entender o porquê. Tem o que perder, e é só por isso que está batendo panela. Eu não tenho dúvida que essa gente está em defesa de seus privilégios. Existiu a tentativa de puxar um fio de corrupção que envolveria o PSDB, mas foi engavetado. Então por que se diz que só existe um criminoso, o PT?
O Paulo Francis, há mais de vinte anos já falava de corrupção na Petrobras. Faleceu porque veio um processo judicial que ele não conseguiu arcar. A corrupção é exclusiva desse governo?
Mas o consevadorismo, atualmente, não se resume à elite...
Uma coisa é pensarmos no Brasil como um país jovem, que está vivendo um processo de ascensão das chamadas classes médias, quanto a isso não há dúvida, mas é um erro achar que nesse mesmo processo progressivo também terá o mesmo processo no sentido de qual leitura eles terão da realidade brasileira. Infelizmente, a leitura que se tem, na média, é conservadora.
Isso se deve à formação do Brasil, uma escolarização muito baixa. Teve o acesso das pessoas ao ensino, mas é um ensino transformador? Quando se pega a escola pública, que atende à vasta maioria, essa educação transforma sua mentalidade, prepara para os novos tempos? Se tivesse uma imprensa que fosse muito mais plural, também contribuiria para que tivéssemos esses debates ampliados.
O que você diria para alguém que defende o retorno da ditadura?
Pensa, raciocina e observa o que o regime militar produziu. Um mundo sem luz. A desigualdade se ampliou enormemente nesse período, os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. É isso que você quer para a sociedade brasileira? O remédio para a sociedade brasileira é uma aventura antidemocrática? Para combater a corrupção é necessário acabar com a democracia?
Para pessoas que pensam nisso, eu aconselharia a ver as contas da Transamazonica. Ou as contas nunca fechadas da Ponte Rio-Niterói. Ninguém falou, porque naquele momento não podia falar. Se você levantar, você vai trazer uma quantidade de coisas irregulares que arrepia os cabelos de qualquer um. Hoje, graças ao caminho que a sociedade brasileira trilhou, nós temos liberdade de falar. O autoritarismo corre ao lado da irregularidade, porque ele abafa a irregularidade.

“As elites não evoluíram. Ainda é muito parecido com 1964”, afirma historiadora | Brasil de Fato

Altamiro Borges: Lula deu uma surra no Panelaço

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Lula deu uma surra no Panelaço

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:

A direita não deve ter ficado muito feliz ontem.

Porque o fato é: Lula surrou o Panelaço.

Aconteceu com o Panelaço o mesmo que ocorrera com o Protesto de 12 de abril: murchou, pifou, depois de uma primeira edição surpreendentemente bem sucedida.

O duplo fracasso – do Panelaço e do Protesto – traz uma verdade doída para os interessados na derrubada de Dilma: seu momento passou.

Passou primeiro porque é simplesmente uma estupidez querer cassar 54 milhões de votos sob pretextos cínicos, falsos e vis.

Segundo porque o governo Dilma e o PT retomaram a iniciativa.

Ficou claro, por exemplo, que ao contrário do que a imprensa vinha tentando propagar os problemas econômicos do país não são exclusividade nacional. Fazem parte de um drama mundial.

Foi grande o esforço dos comentaristas das corporações de mídia em levar os inocentes a crer que o dólar alto era um fenômeno apenas do Brasil.

Mentira.

Houve também uma mobilização conservadora para retratar uma Petrobras aos pedaços.

Outra mentira.

As ações da Petrobras não param de subir, e investimentos bilionários na empresa feitos pela China e pela Shell mostram que a mídia brasileira definitivamente não é levada a sério fora do seu quadrado de atuação.

E então chegamos a Lula, a grande estrela do programa do PT que foi ao ar ontem em rede nacional.

Para desespero da oposição, Lula demonstrou que é o Lula de sempre. Não apenas exibe vigor físico como continua a dominar a arte de falar e convencer.

É um caso único de poder de retórica no universo político brasileiro. Lula reúne simplicidade e profundidade em seu discurso, e transmite sinceridade mesmo quando fala alguma bobagem.

Comparemos.

Aécio fala com pedantismo, com ares de político da Velha República, um Tancredo com implante de cabelo e dentes artificialmente brancos.

FHC é aquele professor que repete a mesma coisa há meio século, e que ninguém aguenta mais escutar. Alckmin é uma mistura de Frontal com Dormonid.

E Dilma pensa melhor que fala, muito melhor. Usa frases longas e repete expressões que acabam com qualquer estilo. (Acredito que etc etc, por exemplo.)

Dilma poderia – deveria – ter treinado a arte de falar em público, mas é preciso reconhecer que mesmo com todas as suas limitações neste terreno ela não teve maiores problemas em lidar com Serra e Aécio.

As circunstâncias precipitaram os debates sobre 2018, e Lula aparentemente leva muita vantagem sobre seus eventuais oponentes.

A direita talvez se preocupe com o tom incisivo de Lula nos últimos tempos, mas não há razões para pânico.

Lula está mobilizando a militância do PT com seu discurso ligeiramente radicalizado, o mesmo grupo que provavelmente o levará ao Planalto em 2018.

Depois, seu espírito conciliador, de sindicalista acostumado a negociar, prevalecerá.

Num país tão polarizado, tão dividido, tão cheio de ódio, um conciliador pode devolver o sentimento perdido de unidade.

Até por isso Lula sobra, desde já, para 2018.
Altamiro Borges: Lula deu uma surra no Panelaço