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sexta-feira, 10 de abril de 2015

Democracia & Política: IMPEACHMENT É O GOLPE DE ESTADO DO "MERCADO" (por...

quinta-feira, 9 de abril de 2015

IMPEACHMENT É O GOLPE DE ESTADO DO "MERCADO" (por Samuel Pinheiro Guimarães)



Créditos da foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

Impeachment, golpe de Estado e ditadura de 'mercado'


O impeachment é o golpe de Estado do 'mercado', das classes privilegiadas que temem o progresso e os resultados da democracia.

Por Samuel Pinheiro Guimarães, Embaixador

"O impeachment é a tentativa de anular, por via legislativa, pelo voto de 513 deputados e 81 senadores, os resultados das eleições de novembro de 2014 que refletiram a vontade da maioria do povo brasileiro ao reeleger a Presidenta Dilma Rousseff, por 53 milhões de votos.

Desde 2003, as televisões, em especial a "TV Globo"; os maiores jornais, como o "O Estado de São Paulo", a "Folha de São Paulo" e "O Globo"; e as principais revistas, quais sejam a "Veja", "Isto É" e "Época", se empenham em uma campanha sistemática para desmoralizar o Partido dos Trabalhadores e os partidos progressistas e para tentar “provar” a ineficiência, o descalabro e a corrupção dos Governos do PT, inclusive de seus programas sociais, que retiraram 40 milhões de brasileiros da miséria e da pobreza.

Agora, com a ajuda de membros do Poder Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal, os meios de comunicação, tendo seu candidato perdido as eleições, tentam criar um clima político e de opinião que venha a derrubar ou imobilizar a Presidenta e, assim, anular a vontade da maioria do povo brasileiro. 

Fazem isto divulgando, dia a dia, as declarações de delatores, criminosos confessos, e de procuradores, policiais e juízes que as “vazam” seletivamente, para os meios de comunicação, cometendo notória ilegalidade, e publicando notícias sobre o extraordinário descalabro e corrupção em que viveria o país.

Diante da instabilidade política gerada por essa campanha, a Presidenta Dilma, com o objetivo de conter as manobras golpistas (recontagem de votos, acusações de fraude, ameaças diversas etc.) e de apaziguar o “mercado”, anunciou um programa de austeridade, de equilíbrio orçamentário, de contração de gastos do Estado, de redução de investimentos, na esperança de conquistar a “confiança dos investidores”, seu principal objetivo, e de “acalmar” seus opositores políticos.

É preciso notar que o “mercado” não é uma entidade da sociedade civil, mas sim, na realidade, um ínfimo grupo de multimilionários, investidores, especuladores e rentistas, e seus “funcionários”, quais sejam os chamados economistas-chefe de bancos e fundos, os jornalistas e articulistas de economia, e seus associados no exterior.

Há economistas e jornalistas que são notável exceção a essa afirmação, mas são eles pequena minoria. 

Quando foi apresentado o programa de ajuste, declarou-se, com ênfase, que ele não iria afetar as conquistas dos trabalhadores (a legislação sobre horário de trabalho, férias, aposentadoria, seguro desemprego etc.), nem os programas sociais, mas que iria ele equilibrar o orçamento através do contingenciamento, da contenção de despesas e do aumento de impostos, com o objetivo de fazer um superávit primário que permitisse pagar os juros da dívida pública e conquistar a “confiança do mercado, a confiança dos investidores”

Conquistar a “confiança dos investidores” significa fazer com que tomem a decisão de realizar investimentos (para obter lucros) e assim ampliar a capacidade instalada, gerar empregos, condição para a retomada do desenvolvimento.

A “confiança dos investidores”, todavia, tem a ver com a expansão da demanda, pois só com essa expansão (sustentada) podem surgir oportunidades de investimentos lucrativos.

A construção de “confiança” e a realização de investimentos são improváveis em uma conjuntura em que se elevam os juros dos títulos públicos e das aplicações financeiras para torná-los os mais altos do mundo, o que atrai os capitais para o setor financeiro, especulativo ou rentista, e os afasta do setor produtivo e, portanto, dos investimentos.

Outros fatores que afetam negativamente a “confiança” dos investidores são a competição predatória e destrutiva das importações; taxas cambiais inadequadas; a redução dos investimentos públicos em infraestrutura; o aumento das taxas de juros dos financiamentos de longo prazo do BNDES; a redução da demanda e o aumento do desemprego (que alguns esperam poderia criar as condições políticas para um clima favorável ao impeachment) devido à redução da atividade econômica. 

Há um mantra, repetido sem cessar, sobre competitividade e produtividade, entoado por muitas autoridades públicas, acadêmicos, jornalistas “especializados”, economistas-chefe de consultoras, de empresas, de bancos, que são, na realidade, empregados do “mercado”. 

Segundo esses “especialistas”, a solução dos problemas internos, isto é a retomada do crescimento, e o afastamento para longe da crise externa latente e cada vez mais ameaçadora, dependeriam não somente da “confiança dos investidores” nas também do aumento da produtividade (isto é, da produção por trabalhador) e do aumento da competitividade das empresas brasileiras diante das chinesas, americanas e europeias, e da redução do “Custo Brasil”.

No caso da produtividade, alguns afirmam que seu aumento resultaria de um grande investimento sustentado em educação, como teriam, segundo argumentam, feito os países desenvolvidos, tais como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Coréia e que teria sido, segundo eles, uma razão importante, e talvez a principal, para explicar o seu desenvolvimento.

Os paladinos da educação defendem a educação primária geral, a atenção especial à primeira infância, a inclusão de todas as crianças e jovens (e os adultos?) no sistema. Não se fala muito na preparação de professores, nem no horário integral, nem nos efeitos, negativos, da televisão e da internet sobre o sistema de ensino em seu cerne, que é o tempo dedicado aos estudos pelos jovens. Pode-se perguntar quando esses brasileiros, hoje infantes e jovens, entrariam no mercado de trabalho para tornar a mão de obra mais produtiva e o Brasil mais competitivo: daqui a 10 anos? Daqui a 15? E até lá?

Outros argumentam que os “custos do trabalho” (parte do “Custo Brasil”) seriam muito elevados (em comparação com os “custos” em que países? Na China? Nos Estados Unidos? Na Alemanha?) e que, portanto, seria necessário reduzir esses “custos”, impedindo aumentos “artificiais” do salário mínimo (já que não haveria escassez de mão de obra), reduzindo os benefícios da legislação trabalhista, estimulando a rotatividade da mão de obra etc.

Quanto ao “Custo Brasil”, argumentam com os altos custos de transporte e de energia, com a carga tributária elevada, com a multiplicidade de impostos, com a burocracia “infernal”.

Reclamam, também, da intervenção “excessiva” do Estado (empresas estatais e regulamentação) e pedem, ainda que até agora apenas insinuem, a privatização dessas empresas e a “desburocratização”, isto é, menos lei e mais liberdade para o capital.

Segundo os defensores do programa de austeridade, em decorrência do aumento da produtividade interna, a competitividade internacional seria alcançada, com todas as suas vantagens, tais como um superávit comercial estável, a diversificação dos mercados e o aumento das exportações de manufaturados.

Assim, a crise atual seria superada. Todavia, a verdade é outra.

A crise atual, em parte verdadeira e em parte fabricada, decorre da revolta conservadora devido ao fato de a Presidenta Dilma ter cometido dois “pecados mortais” à luz dos interesses do “mercado”, isto é, daqueles indivíduos beneficiários da concentração de riqueza, de renda e de poder político no Brasil, que são os grandes multimilionários, os latifundiários rurais e urbanos, os rentistas, os banqueiros, e seus representantes na mídia, no Congresso, no Judiciário.

O primeiro “pecado” foi a política de redução, ainda que temporária, das taxas de juros; o segundo “pecado” foi o apoio, ainda que tímido, à democratização dos meios de comunicação.

O sistema financeiro e bancário é o principal instrumento de concentração de riqueza no Brasil. Ao reduzir as taxas de juros dos bancos públicos e ao forçar a redução dos juros dos bancos privados (que foi logo compensada pelo aumento das “taxas” de administração) a Presidenta diminuiu a transferência de riqueza da sociedade e do Estado para os bancos privados, seus acionistas e os detentores de títulos públicos. A Presidenta atingiu o cerne do mecanismo de concentração do sistema econômico e provocou a ira dos setores conservadores que hoje pedem a privatização dos bancos públicos.

O sistema de comunicações no Brasil é o instrumento das classes dominantes para construir o imaginário do povo, para manipular as informações e para justificar o sistema econômico e social vigente e desmoralizar aqueles que lutam por mais igualdade, mais liberdade, mais fraternidade e pelos direitos das minorias, em um contexto de desenvolvimento.

A concentração do poder midiático “condena” os que ele acusa, ao difundir e repetir incansavelmente “informações” antes de julgamentos, e transformou o mensalão em julgamento prévio contra o qual não soube resistir o STF ao aceitar a conduta imprópria de seu Presidente da época e a campanha de imprensa.

O mesmo ocorre com a operação Lava Jato. Não há nenhuma iniciativa do Poder Judiciário para impedir a formação de uma opinião pública contra os acusados, gerada pelas denúncias, sem provas, feitas por criminosos confessos que denunciam a torto e a direito quando, no caso dos procedimentos de delação premiada, as investigações deveriam ser feitas sob o maior sigilo, já que se trata de denúncias feitas por criminosos em busca de vantagens pessoais. A mídia transformou o pedido da Procuradoria-Geral da República de investigar determinados indivíduos em prova de sua culpa. Aqueles indivíduos, políticos ou não, que vierem a ser investigados e julgados culpados devem ser punidos com rigor, mas a imprensa não pode substituir o Poder Judiciário nem constrngê-lo por motivos puramente políticos.

Ao ameaçar aqueles dois fundamentos da ordem conservadora, o sistema financeiro e a mídia, a Presidenta Dilma se tornou “culpada” e a oposição insiste, ainda veladamente, em que deve ser punida pela destituição do cargo por um processo de impeachment.

Seria importante que o Governo compreendesse que o que está de fato ocorrendo é uma manobra política cujos objetivos são pela ordem:

-- fazer o Governo adotar o programa econômico e social do “mercado”, isto é, da minoria multimilionária e de seus “associados” externos;

-- ocupar os cargos da administração pública (Ministérios, Secretarias executivas, agências reguladoras) com representantes do “mercado”;

-- enfraquecer política e economicamente o Governo;

-- enfraquecer o PT e os partidos progressistas com vistas a 2018;

-- aprovar leis de interesse do “mercado”; 

-- e, se nada disso ocorrer, fazer o Governo “sangrar” e aí, então, se necessário e possível, exigir o impeachment da Presidenta.

Contra essa enorme e múltipla ofensiva econômica, midiática e política do “mercado”, de seus “funcionários” e representantes, somente há uma estratégia possível: a ação política intensa junto aos movimentos populares, junto às organizações da sociedade civil, junto ao Congresso, junto à Administração Pública e aos Governadores, enfim, a mobilização da sociedade pelo seu esclarecimento para a defesa da democracia em toda sua integridade.

É indispensável que, na distribuição de suas verbas de publicidade, o Governo leve em consideração a existência de televisões comunitárias, universitárias, educativas, de rádios comunitárias, de blogs e sites, e dos pequenos e médios jornais e emissoras regionais e deixe de concentrar a distribuição de verbas e anúncios apenas na grande mídia, o que fortalece os oligopólios que atuam de forma ostensivamente partidária e contra a maioria do povo, estimulando antagonismos violentos e radicalizando a sociedade.

As manifestações populares contra o Governo e contra a Presidenta Dilma têm reunido cidadãos que, em sua maioria, votaram contra a reeleição da Presidenta em 2014.

Hoje, insuflados pela mídia e por organizações de identificação e origem nebulosa, através das redes sociais, inconformados com a derrota e a pretexto da denúncia de corrupção, iniciam o processo político de “Fora Dilma”, que é, de fato, uma campanha pró-impeachment. 

O impeachment é o golpe de Estado do “mercado”. Aqueles que defendem hoje o impeachment e criam o clima de instabilidade e de radicalização são os mesmos golpistas históricos de 1954 e de 1964:as classes privilegiadas que temem o progresso e os resultados da democracia e não os aceitam, apesar de ter o Brasil uma concentração de renda que se encontra entre as dez piores do mundo, enquanto seu PIB é um dos dez maiores do mundo, e de ser urgente deter o processo de concentração de renda (que a crise acentua) para que seja possível construir uma sociedade mais justa, mais democrática, mais próspera, mais estável.

Para que esse objetivo possa ser alcançado, é preciso que a sociedade brasileira não se submeta à ditadura do “mercado”, cujos integrantes têm sido os grandes beneficiários da crise, que se iniciou em 2008 e não apresenta sinais sólidos de fim."

FONTE: escrito pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães e publicado no portal "Carta Maior"  (http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Impeachment-golpe-de-Estado-e-ditadura-de-u21Cmercado-u21D%0a/4/33218).


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Centrais sindicais convocam paralisação geral para 15/4 contra terceirizações - Carta Maior

09/04/2015 - Copyleft

Centrais sindicais convocam paralisação geral para 15/4 contra terceirizações

Terceirizados ganham 24,7% menos do que trabalhadores com carteira assinada, trabalham 3h a mais por semana e são as maiores vítimas de acidentes.


Najla Passos

Marcelo SantAnna / Fotos Públicas
As principais centrais sindicais do país (CUT, CTB e Intersindical) e movimentos sindicais (MST e MTST) convocaram paralisação geral para o próximo dia 15, em protesto contra a aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto de lei 4330/04, que legaliza as terceirizações em todos os postos da cadeia produtiva. Em outras palavras, a matéria abre a possibilidade para que empresas possam contratar 100% da mão de obra em condições precárias, sem vincular seus empregados à proteção da CLT.
 
Isso quer dizer que, além dos 12,7 milhões de trabalhadores brasileiros que já se submetem à terceirização em atividades-meio das empresas, enfrentando os problemas decorrentes da precarização deste tipo de contrato de trabalho, os demais 34,7 milhões que ainda são protegidos pela CLT poderão ter que vir a se submeter ao novo regime por pressões de mercado.
 
O deputado Alessandro Molon (PT-RJ), que recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a votação por entender que ela é inconstitucional, acredita que o percentual de terceirizados, que hoje é de 26,8% contra 73,2% de contratados diretos, irá triplicar. “O que vai acontecer nos próximos anos é a inversão desses números”, afirmou ele, acrescento que, com a aprovação do PL 4330/04, o trabalhador brasileiro foi apunhalado pelas costas.
 
Conforme o dossiê “Terceirização e Desenvolvimento: uma conta que não fecha”, lançado no mês passado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 2013, os terceirizados recebiam 24,7% a menos do que os contratados diretos, realizavam uma jornada semanal de 3 horas a mais e eram as maiores vítimas de acidentes de trabalho.
 
No setor elétrico, segundo levantamento da Fundação Comitê de Gestão Empresarial (Coge), morreram 3,4 vezes mais terceirizados do que os efetivos nas distribuidoras, geradoras e transmissoras da área de energia elétrica. Eles são também as maiores vítimas do trabalho escravo: de 2010 a 2013, foram vítimas de 90% dos flagrantes nos 10 maiores resgates de trabalhadores em condições análogas à de escravos no Brasil,.
 
Os terceirizados também permanecem menos tempo no emprego do que os contratados diretos. Enquanto a média desses últimos é de 5,8 anos, a dos primeiros é de apenas 2,7 anos. De acordo com o estudo da CUT, isso decorre da alta rotatividade dos terceirizados - 64,4% contra 33% dos diretamente contratados.

Onda conservadora
 
Os trabalhadores vinham resistindo à aprovação do PL 4330/04 há exatos 11 anos, até a noite da quarta (8), após o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, proibir a entrada de manifestantes ligados às centrais sindicais no plenário da casa.  Foram 324 favoráveis, 137 contrários e duas abstenções, o que dá a medida exata da correlação de forças entre capital e trabalho no parlamento.
 
Dos 28 partidos com representação na Câmara, só votaram integralmente contra o projeto PT e PSOL. Até o PCdoB, historicamente comprometido com o trabalhador, garantiu o voto de um dos seus deputados para a matéria. Outros partidos ditos de esquerda, como o PDT e PSB, rasgaram suas histórias.
 
Desde de o fim das eleições, em outubro do ano passado, o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) já vinha alertando que tempos difíceis para os trabalhadores estavam por vir. Primeiro, porque o governo federal já havia lançado mão de toda as suas armas para acalmar a sanha desenfreada do setor produtivo, como as desonerações.
 
Segundo, porque, com o financiamento privado de campanha em vigência, o poder do capital aumentou sua influência no parlamento, elegendo o congresso mais conservador desde o fim da ditadura: a bancada empresarial da Câmara possui 217 congressistas e a ruralista tem 153, enquanto a sindical foi reduzida para 51. Para agravar o quadro, o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), identificado com os interesses do capital financeiro, foi eleito presidente da casa.
 
Na próxima terça (14), o projeto retorna ao plenário para que sejam votados as emendas e os destaques, que poderão ser apresentados até as 14 horas. As centrais sindicais, porém, estão pessimistas e acreditam que emendas podem até diminuir o impacto negativo do projeto, mas jamais salvaguardar o país dos seus efeitos devastadores.
 
 
O governo da presidenta Dilma Rousseff, contrário ao projeto, tenta acordo com o relator para, em tempos de ajuste fiscal, reduzir o grande prejuízo no recolhimento do FGTS. Se aprovado, o projeto seguirá para o Senado.
Centrais sindicais convocam paralisação geral para 15/4 contra terceirizações - Carta Maior

A greve dos professores paulistas | Gilson Sampaio

QUINTA-FEIRA, 9 DE ABRIL DE 2015

A greve dos professores paulistas

“O opressor não seria tão forte se não tivesse
cúmplices entre os próprios oprimidos” 
—SIMONE DE BEAUVOIR 
Izaías Almada Greve
Izaías Almada
Minas Gerais, segundo o quadro apresentado pelo governador Fernando Pimentel, chegou a uma situação de quase insolvência no choque de “indigestão” de Aécio Neves. O Paraná vai às ruas contra a administração de Beto Richa e seu “ajuste fiscal”. São Paulo, além da má administração da Sabesp, do trensalão escondido e outras mazelas, continua tratando as reivindicações sociais como caso de polícia.
Três grandes estados da federação governados pelo principal partido da oposição, O PSDB, que assim mostra ao país, muito embora vergonhosamente protegido pelos principais órgãos de comunicação, a incompetência de seus principais quadros.
Fiquemos no caso de São Paulo e a atual greve dos professores estaduais: no último dia 02 de abril resolveram, diante da insensibilidade do governo do estado, dar continuidade ao movimento que já conta com a adesão de mais de 60 mil professores.
Em reunião com a diretoria da APEOESP na segunda-feira, 30, o Secretário Estadual da Educação não apresentou nenhuma proposta salarial à categoria (também não houve avanços concretos nos demais pontos da pauta de reivindicações). Por isso, os 60 mil professores reunidos em assembleia estadual na quinta-feira, 2 de abril, no vão-livre do MASP, na avenida Paulista, decidiram:a greve continua!
A assembleia aprovou também um calendário de mobilizações que prevê o fechamento de estradas e rodovias na próxima quinta-feira, 9. A ação será simultânea em todo o Estado, organizada pelas subsedes, que receberão instruções para esta atividade.
Além da intensificação das visitas às escolas, as sub­sedes devem percorrer os bairros com carros de som esclarecendo a população e realizar a “Operação Caça-Alckmin”: onde o Governador estiver, os professores estarão para protestar e exigir a abertura de negociações e o atendimento das reivindicações.
Durante a assembleia a Presidenta da APEOESP in­formou que uma ação do Governo Estadual nos impede de solicitar que os pais apoiem a nossa luta não enviando seus filhos à escola durante a greve, como vínhamos fazendo. Mas isto não significa que não devamos con­tinuar pedindo o apoio dos pais, dos estudantes e de toda a sociedade ao nosso movimento.
Vamos divulgar pelas redes sociais uma “hashtag” com os seguintes dizeres: “Governador negocie com os professores” (#governadornegociecomosprofessores). Veja abaixo o calendário da mobilização e as principais reivindicações dos professores paulistas:
CALENDÁRIO DE MOBILIZAÇÃO
A assembleia aprovou as seguintes atividades:
 De 6 a 8 de abril – Visita a escola, panfletagens nas regiões, percorrer os bairros com carros de som para esclarecer a população sobre a greve. Buscar apoio nas Câmaras Municipais pe­dindo para que vereadores da base governista intervenham pela abertura das negociações.Também devem ser realizados “pedágios” no trânsito, com a distribuição de cartas abertas e esclarecimentos à população sobre a nossa greve.
 Dia 9 de abril – Fechamento de estradas e rodovias em todo o Estado, em ação simultânea e assembléias regionais. Podem também ser realizados atos nas DEs.
 Dia 10 de abril – Assembleia estadual, às 14 horas, no Palácio dos Bandeirantes.
As principais reivindicações:
 Plano de composição para um aumento de 75,33% para equiparação salarial com as demais categorias com formação de nível superior, rumo ao piso do DIEESE para PEB I com jornada de 20 horas semanais de trabalho, para professores da ativa e aposentados.
 Conversão do bônus em reajuste salarial.
 Pela implantação da jornada do piso.
 Reabertura de classes e períodos fechados. Imediato desmembramento das salas superlotadas.
 Máximo de 25 alunos por sala desde o primeiro ciclo do Ensino Fundamental ao Ensino Médio.
 Nem “quarentena”, nem “duzentena” para os professores da categoria “O”.
 Por uma nova forma de contratação de professores temporários, com garantia de direitos.
 Garantia de atendimento médico no IAMSPE para os professores da categoria “O”.
 Convocação e ingresso de todos os professores concursados.
 Garantia de PCPs nas escolas de acordo com a Resolução 75/2013. No mínimo um PCP em cada escola, independente do número de salas.
 Garantia de condições adequadas de infraestrutura em todas as escolas.
 Pelo fim da lei das faltas médicas; fim da perseguição aos professores nas perícias médicas.
 Pela aceleração dos processos de aposentadoria.
 Pela correção das distorções no plano de carreira que prejudicam os aposentados.
 Água para todos, em todas as escolas.
 Fim do projeto excludente de escola de tempo integral; por uma educação integrada.
 Fim do assédio moral.
 Fim do corte de verbas para as escolas.
 Pela ampliação dos repasses para as escolas.
 Aumento do valor do vale-alimentação e do vale-transporte.
 Continuidade do transporte escolar gratuito para os estudantes.
São Paulo continua sendo a vanguarda do atraso. Fonte inesgotável de conservadorismo, preconceito e ninho protetor de tucanos corruptos. Até quando o Brasil terá que suportar esse fardo?
Outras categorias de trabalhadores, apoiados por movimentos sociais, precisam sair às ruas e defender a democracia e a justiça social no país.


Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mimO medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.
A greve dos professores paulistas | Gilson Sampaio

quinta-feira, 9 de abril de 2015

A geopolítica da guerra dos EUA no Iêmen é o novo Front da ofensiva contra o Irã





Guerra dos EUA no Iêmen:

Dividir o Iêmen?

Os EUA e o reino da Arábia Saudita ficaram muito ansiosos quando o movimento iemenita dos houthis, ou Ansarallah (ar. “pilares de Deus”) conquistou o controle sobre a capital do Iêmen, Sanaa/Sana, em setembro de 2014. O presidente do Iêmen Abdrabbuh Manṣour Al-Hadi, apoiado pelos EUA, foi humilhantemente forçado a dividir o poder com os houthis e a coalizão de tribos do norte do Iêmen que haviam ajudado os houthis a tomar Sana.


Al-Hadi declarou que haveria negociações para a formação de um governo de unidade nacional do Iêmen, e seus aliados – EUA e Arábia Saudita tentaram usar um novo diálogo nacional e mediaram conversações, no esforço para cooptar e pacificar os houthis.
A verdade foi virada de pernas para o ar, em tudo que tenha a ver com a guerra no Iêmen. A guerra e a derrubada do presidente Abdrabbuh Manṣour Al-Hadi no Iêmen não são efeito de algum “golpe houthi” que tivesse acontecido no Iêmen. É o contrário disso: Al-Hadi foi derrubado porque ele tentou um golpe, apoiado por sauditas e EUA, para escapar das regras de partilha do poder que o presidente havia assinado; e para devolver o Iêmen à regra autoritária de antes. A derrubada do presidente Al-Hadi pelos houthis e seus aliados políticos foi reação não prevista à tentativa de golpe, para voltar ao poder autoritário de antes, empreendida por Al-Hadi com apoio e planejamento de Washington e da Casa de Saud.
Os houthis e seus aliados representam como uma “fatia” exemplar da diversificada sociedade iemenita e da maioria dos iemenitas. A aliança doméstica dos houthis contra o presidente Al-Hadi inclui muçulmanos xiitas e também muçulmanos sunitas. Os EUA e a Casa de Saud jamais supuseram que os houthis insistiriam em fazer valer os acordos firmados com o governo, a ponto de derrubar o presidente que se recusava a honrar aqueles acordos, mas a verdade é que essa reação estava em preparação há uma década.
Com a Casa de Saud, Al-Hadi, já desde antes de tornar-se presidente, envolveu-se na perseguição aos houthis e na manipulação da política tribal no Iêmen. Quando se tornou presidente, fincou os pés e pôs-se a trabalhar contra a implementação de tudo que fora fixado consensualmente nas negociações do Diálogo Nacional do Iêmen, realizado depois que Ali Abdullah Saleh foi obrigado a deixar o poder em 2011.
Golpe ou contragolpe: 
o que realmente aconteceu no Iêmen?
Primeiro, quando tomaram a capital Sana no final de 2014, os houthis rejeitaram as propostas de Al-Hadi e suas novas ofertas para um acordo formal de partilha do poder, acusando Al-Hadi de ser homem sem moral que estava, de fato, renegando tudo que se comprometera a fazer quando assinara os acordos de partilha do poder. Naquele momento, a atitude submissa e subalterna do presidente Al-Hadi frente a Washington e à Casa de Saud já o havia tornado terrivelmente impopular no Iêmen, detestado pela maioria da população. Dois meses depois, dia 8/11/2014, o próprio partido do presidente Al-Hadi (Congresso Geral Iemenita do Povo), também já o destituíra do posto de líder do partido.
Os houthis chegaram a prender o presidente Al-Hadi e, dia 20/1/2015, tomaram o palácio presidencial e outros prédios do governo. Com apoio popular, cerca de duas semanas adiante, dia 6/2/2015, os houthis constituíram formalmente um governo iemenita de transição. Al-Hadi foi obrigado a renunciar. Dia 26/2/2015, em declaração oficial, os houthis denunciaram que os EUA e a Arábia Saudita preparavam-se para atacar e devastar o Iêmen.
A deposição de Al-Hadi foi duro golpe contra a política exterior dos EUA. A tal ponto que resultou em operação militar de emergência da CIA e do Pentágono, forçados a retirar do Iêmen, às pressas, todo o seu pessoal militar e de inteligência.
Los Angeles Times noticiou dia 25/3/2015, citando funcionários dos EUA, que os houthis haviam confiscado grande quantidade de documentos secretos quando tomaram o prédio do Gabinete de Segurança Nacional do Iêmen, que trabalhava em íntima coordenação com a CIA, documentos que comprometiam as operações de Washington no Iêmen.
Al-Hadi fugiu da capital Sana para Aden, dia 21/2/2015 e dia 7/3/2015 declarou Aden capital do Iêmen. EUA, França, Turquia e seus mais íntimos aliados europeus fecharam suas embaixadas. Pouco depois, em movimento que provavelmente foi coordenado com os EUA, a Arábia Saudita, o Kuwait, o  Bahrain, o Qatar e os Emirados Árabes Unidos reabriram as respectivas embaixadas, já em Aden. Al-Hadi cancelou sua carta de renúncia à presidência e declarou que estava formando um novo governo no exílio.
Os houthis e respectivos aliados políticos recusaram-se a conceder as exigências de EUA e Arábia Saudita, que estavam sendo articuladas através de Al-Hadi em Aden, com a participação de uma Riad cada dia mais histérica. Resultado, o Ministro do Exterior de Al-Hadi, Riyadh Yaseen, pediu que Arábia Saudita e os petro-emirados árabes interviessem militarmente para impedir que os houthis alcançassem, dia 23/3/2015, o controle sobre o espaço aéreo do Iêmen. Yaseen disse ao jornal Al-Shark Al-Awsa, porta-voz dos sauditas, que era absolutamente necessária uma campanha de bombardeios e que tinha de ser imposta sobre o Iêmen uma zona aérea de exclusão.
Os houthis perceberam que começaria a guerra e que seriam atacados – e esse é o motivo pelo qual os houthis e seus aliados no exército do Iêmen correram a ocupar a maior quantidade possível de campos de pouso e bases aéreas do país, o mais rapidamente que puderam, como, dentre outras, Al-Anad. Para neutralizar Al-Hadi, dia 25/3/2015 os houthis invadiram Aden.
Quando os houthis e aliados entraram em Aden, Al-Hadi já fugira para um porto iemenita. E só ressurgiria para o mundo já na Arábia Saudita, quando a Casa de Saud começou a bombardear o Iêmen, dia 26/3/2015. Da Arábia Saudita, Abdrabbuh Mansour Al-Hadi voaria até o Egito para uma reunião da Liga Árabe, convocada para legitimar a guerra contra o Iêmen.
Iêmen e a mutável equação estratégica

A tomada de Sana pelos houthis aconteceu no mesmo cronograma que uma série de outros eventos, todos de vitórias regionais para o Irã, o Hezbollah, a Síria e o Bloco da Resistência e esses e outros atores locais formam coletivamente. Na Síria, o governo sírio conseguiu firmar-se em suas posições, enquanto no Iraque o movimento ISIL/ISIS/Daesh estava sendo forçado a retroceder pelo Iraque, com uma muito visível ajuda do Irã e de milícias iraquianas aliadas de Teerã.
A equação estratégica no Oriente Médio começou a mudar, quando se tornou claro que o Irã ia-se convertendo em item central da arquitetura de segurança e da estabilidade na região.
A Casa de Saud e o Primeiro-Ministro israelense, Benjamin Netanyahu, puseram-se a gemer e a reclamar que o Irã já controlava quatro capitais regionais – Beirute, Damasco, Bagdá e Sana – e que algo teria de ser feito para conter a expansão iraniana. Resultado da nova equação estratégica, os israelenses e a Casa de Saud tornaram-se perfeitamente alinhadas, em termos estratégicos, com o objetivo de neutralizar o Irã e seus aliados regionais. “Quando israelenses e árabes estão na mesma página, todos devem prestar atenção” – disse à Fox News o embaixador israelense Ron Dermer, dia 5/3/2015, comentando o alinhamento Israel-Arábia Saudita.
A construção frenética de medo promovida por israelenses e sauditas não deu certo. Segundo pesquisa do instituto Gallup, apenas 9% dos cidadãos norte-americanos consideravam o Irã como o pior inimigo dos EUA, no momento em que Netanyahu chegou a Washington para falar contra qualquer acordo entre EUA e Irã.
Objetivos geoestratégicos sauditas,
por trás da guerra no Iêmen
Embora, por seu lado, a Casa de Saudi sempre tenha considerado o Iêmen como província subordinada e parte da esfera de influência de Riad, os EUA querem assegurar o controle sobre o estreito de Bab Al-Mandeb, o Golfo de Aden e as ilhas Socotra. Bab Al-Mandeb é importante ponto estratégico para o comércio marítimo internacional e embarques de energia, que conecta o Golfo Pérsico, pelo Oceano Índico, com o Mar Mediterrâneo via o Mar Vermelho. É tão importante quanto o Canal de Suez para as rotas marítimas comerciais entre África, Ásia e Europa.
Israel também se envolveu, porque com o Iêmen controlado por houthis, Israel perde o acesso ao Oceano Índico via o Mar Vermelho e deixa de poder mandar seus submarinos para o Golfo Pérsico para ameaçar o Irã. Essa é a razão pela qual o controle sobre o Iêmen foi um dos pontos sobre os quais Netanyahu discursou no Capitólio quando falou ao Congresso dos EUA sobre o Irã, dia 3/3/2015, no que o próprio New York Times, logo quem, chamou de “o discurso nada convincente de Mr. Netanyahu ao Congresso.”
A Arábia Saudita visivelmente temia que o Iêmen viesse a alinhar-se formalmente ao lado do Irã, e que isso, naquela área, viesse a resultar em novas rebeliões contra a Casa de Saud na Península Arábica. Os EUA também visivelmente temem que isso aconteça, mas pensavam, mais, em termos de rivalidades globais. Impedir que Irã, Rússia ou China consigam firmar algum pé estratégico no Iêmen, como meio de impedir que outras potências venham a poder controlar o Golfo de Aden e se posicionem no estreito de Bab Al-Mandeb era uma das maiores preocupações dos EUA.
Além da importância geopolítica do Iêmen na supervisão de corredores marítimos altamente estratégicos, há também seu arsenal de mísseis militares. Mísseis do Iêmen podem alcançar qualquer navio no Golfo de Aden ou no estreito de Bab Al-Mandeb. Quanto a isso, o ataque saudita contra os depósitos de mísseis estratégicos do Iêmen interessam muito aos EUA e a Israel. O objetivo não é só impedir que os mísseis sejam usados para retaliar contra forças avançadas do exército saudita, mas, também, impedir que os mísseis estejam disponíveis para algum eventual governo iemenita que se alie ao Irã, à Rússia ou à China.
Numa posição pública que contradiz totalmente a política de Riad para a Síria, os sauditas ameaçaram usar força militar se os houthis e seus aliados políticos não aceitassem negociar com Al-Hadi. Resultados de mais essas ameaças dos sauditas, dia 25/3/2015 irromperam protestos de rua por todo o Iêmen contra a Casa de Saud. E assim as engrenagens foram postas em marcha para mais uma guerra no Oriente Médio, quando EUA, Arábia Saudita, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Kuwait começaram a preparar-se para reinstalar Al-Hadi no governo.
Os sauditas vão à guerra

no Iêmen contra o Irã
Por mais que se fale da Arábia Saudita como potência regional, não é potência suficiente para confrontar, sozinha, o Irã. A estratégia da Casa de Saud tem sido formar ou reforçar um sistema de aliança regional para qualquer confronto contra o Irã e o Bloco da Resistência. Para isso, a Arábia Saudita precisa de Egito, Turquia e Paquistão – mal identificados pelo nome de aliança ou eixo “sunita” – para ajudá-la a enfrentar o Irã e seus aliados regionais.
Dia 17/3/2015, o príncipe coroado Mohammed bin Zayed bin Sultan Al Nahyan, o príncipe coroado do Emirado de Abu Dhabi e o Vice-Comandante Supremo do exército dos Emirados Árabes Unidos visitou o Marrocos, para falar sobre alguma resposta militar coletiva contra o Iêmen, dos petro-emirados, Marrocos, Jordânia e Egito. Dia 21/3/2015, Mohammed bin Zayed reuniu-se com o rei saudita Salman Salman bin Abdulaziz Al-Saud, para discutir também uma resposta militar ao Iêmen. Tudo isso enquanto Al-Hadi conclamava a Arábia Saudita e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) para que o ajudasse com uma intervenção militar no Iêmen. Depois das reuniões, houve conversas sobre um novo pacto regional de segurança para os petro-emirados árabes.
Dentre os cinco membros do CCG, o Sultanato de Omã manteve-se à parte. Omã recusou-se a participar da guerra contra o Iêmen. Muscat tem relações amistosas com Teerã. Além disso, os omanitas desconfiam do projeto saudita e do CCG de usarem sectarismos para incendiar um confronto com o Irã e seus aliados. A maioria dos omanitas não são nem muçulmanos sunitas nem muçulmanos xiitas; são muçulmanos Ibadi e temem o incêndio que os EUA, a Casa de Saud e os outros emirados árabes estão tentando soprar sobre toda a região.
Os propagandistas sauditas trabalharam muitas horas extras para disseminar a ideia, falsa, de que a guerra seria uma resposta às tropas que o Irã estaria deslocando para as fronteiras da Arábia Saudita. A Turquia anunciaria, em seguida, apoio à guerra no Iêmen. No dia em que a guerra começou, Erdogan na Turquia disse que o Irã estaria tentando dominar toda a região, e que Turquia, Arábia Saudita e o CCG estavam gravemente incomodados.
Durante esses eventos, Sisi do Egito declarou que a segurança do Cairo, da Arábia Saudita e dos petro-emirados é una e indivisível. Na verdade, dia 25/3/2015, o Egito declarou que não se envolveria em guerra no Iêmen, mas, no dia seguinte, Cairo uniu-se à Arábia Saudita no ataque de Riad contra o Iêmen (o Egito enviou jatos e navios para o Iêmen).
Nessa mesma linha, o Primeiro-Ministro do Paquistão, Nawaz Sharif, distribuiu declarações, dia 26/3/2015, segundo as quais qualquer ameaça à Arábia Saudita geraria “resposta forte” do Paquistão. A mensagem tacitamente estava dirigida ao Irã.
Papéis de EUA e Israel na guerra no Iêmen

Dia 27/3/2015, foi anunciado no Iêmen que Israel estava ajudando a Arábia Saudita no ataque ao país árabe. “É a primeira vez que os sionistas unem-se em operação conjunta com árabes” – Hassan Zayd, líder do partido Al-Haq do Iêmen, escreveu pela internet, chamando a atenção para os interesses convergentes entre Arábia Saudita e Israel.
Mas essa aliança Israel-sauditas contra o Iêmen não é novidade. Os israelenses ajudaram a Casa de Saud durante a Guerra Civil do Iêmen do Norte, iniciada em 1962; naquela ocasião, Israel forneceu armas à Arábia Saudita para ajudar os monarquistas, contra os republicanos do Iêmen do Norte.
Os EUA também estão envolvidos, liderando “dos fundos”, ou à distância. Ao mesmo tempo em que querem um acordo nuclear com o Irã, trabalham para manter uma aliança contra Teerã, usando os sauditas. O Pentágono garantirá o que chamou de “apoio logístico e de inteligência” à Casa de Saud. Que ninguém se engane sobre esse ponto: a guerra contra o Iêmen também é guerra de Washington. O CCG atirou-se contra o Iêmen obedecendo ordens dos EUA.
Há muito se fala sobre a formação de uma força militar pan-árabe, mas as propostas voltaram à mesa, renovadas, dia 9/3/2015, com o selo da Liga Árabe. As propostas de uma força militar árabe unificada interessam aos EUA, a Israel e aos sauditas. A conversa sobre um exército pan-árabe foi motivada pelos preparativos desse mesmo trio para atacar o Iêmen, repor Al-Hadi no governo e confrontar regionalmente o Irã, a Síria, o Hezbollah e o Bloco da Resistência.

 Dividir o Iêmen?

Dia 6 de março, a revista Foreign Policy dizia que “Estão sendo traçadas linhas de combate no Iêmen, o país mais pobre do mundo árabe e  mais recente candidato a estado fracassado. Se, como parece mais provável a cada dia, a guerra irromper em breve, a disputa pela supremacia regional entre Arábia Saudita e Irã só tornará piores as coisas. As duas potências já se mostraram ansiosas por armar grupos que lhes parece que possam controlar, apesar do legado que essa rivalidade destrutiva já deixou na Síria e no Iraque”. Nada mais distante da realidade!
pragmatismo ou sectarismo?
Os houthis absolutamente não são ‘procuradores’ dos iranianos, não são, de modo algum. O movimento houthi é ator político independente, que emergiu como resultado da repressão. Pretender que os houthis seriam ‘delegados’ dos iranianos é erro empírico, e ignora toda a história e a política do Iêmen. Até a revista Foreign Policy teve de admitir que “Se eclodir uma guerra de oposições sectárias, não será porque haja alguma divisão sectária histórica no Iêmen; será porque os financiadores estrangeiros da guerra estão fazendo incendiar  divisões sempre existentes, que nunca tiveram qualquer importância.”
Os líderes houthis repetidas vezes rejeitaram qualquer alegação de que receberiam ordens de Teerã. Nem os repetidos desmentidos contudo impediram que funcionários dos sauditas e Khaliji (do Golfo) e agentes da empresa-mídia usassem e manipulassem declarações de funcionários do Irã, como uma comparação dos houthis aos Basij do Irã, para pintar os houthis como se fossem agentes ou clientes do Irã.
Assim como os houthis não são agentes ‘procuradores’ do Irã, tampouco há qualquer aliança xiita entre eles e Teerã no Iêmen. Conversas, noticiário e ‘análises’ que se concentrem nessa narrativa simplória sobre sectarismo inexistente, servem para ocultar a natureza e as motivações reais do conflito no Iêmen – e encobrem, para vergonha eterna dos encobridores, a luta dos houthis contra a repressão. Até os anos 1970s, a Casa de Saud sempre foi dedicada apoiadora dos grupos pró-realeza no Iêmen – que eram predominantemente muçulmanos xiitas.
Sobretudo, os muçulmanos xiitas no Iêmen não são Jaffaris (‘Dos 12′) como a maioria dos muçulmanos xiitas no Irã, na República do Azerbaijão, Líbano, Iraque, Afeganistão, Paquistão e na região do Golfo Persa. Além de bolsões de xiitas ismailitas – que podem também ser chamados ‘Dos 7′ – nos governoratos de Saada, Hajja, Amran, Al-Mahwit, Sana, Ibb e Al-Jawf, a maioria dos muçulmanos xiitas no Iêmen são zaidistas. Os ismailitas no Iêmen são na maioria membros das seitas davidianas eSulaimani (Salomônicas) do ismailismo Mustali que se separou do grupo maior dos ismailistas Nizari(nizaristas).
Foi a hostilidade de EUA e sauditas contra o movimento houthi que empurrou os houthis a se movimentarem, pragmaticamente na direção do Irã, em busca de ajuda que lhes servisse como contrapeso. Nas palavras do Wall Street Journal, “militantes houthis que controlam a capital do Iêmen tentam construir laços com o Irã, Rússia e China, para contrabalançar o apoio que o ocidente e os sauditas dão ao presidente deposto.” (…) “O governo interino dos houthis enviou delegações ao Irã em busca de fornecimento de combustível, e à Rússia, à procura de projetos para investimentos em energia, segundo dois altos oficiais houthis. Outra delegação planeja visitar a China nas próximas semanas, dizem os mesmos oficiais” – dizia também o Wall Street Journal na mesma matéria de 6 de março.
Resultado do movimento dos houthis para fora, em busca de apoios, Irã e Iêmen anunciaram que dia 2 de março haverá voos entre Teerã e Sana. É importante linha de suprimentos, vital para o movimento houthi.
A narrativa sectária
e a carta do sectarismo
A instabilidade no Iêmen não é causada pelo Irã nem pelos houthis, mas pela interferência dos EUA e dos sauditas no Iêmen – desde a invasão pela Arábia Saudita em 2009, até os atuais ataques pelosdrones norte-americanos – e décadas de apoios saudita garantiu longa vida, no Iêmen, a um governo autoritário e impopular.
O Iêmen absolutamente não é país inerentemente dividido. À parte a Al-Qaeda, que sauditas e EUA alimentam e mantêm viva, não há real divisão nem tensões graves entre xiitas e sunitas. Para impedir a independência do Iêmen, os EUA e os sauditas reforçaram todas as tendências a qualquer sectarismo, na esperança de ‘implantar’ no Iêmen uma oposição mortal entre xiitas e sunitas.
Diferente do que reza a falsa narrativa hoje dominante, as alianças do Irã com países do Oriente Médio não são alianças baseadas em divisões sectárias. Todos os aliados palestinos de Teerã são predominantemente muçulmanos sunitas; e no Iraque e Síria, além dos respectivos governos, o Irã apoia e ajuda uma gama variadas de grupos religiosos e étnicos que também inclui não árabes e cristãos. Na Síria, por exemplo, incluem-se aí muçulmanos sírios predominantemente sunitas e curdos iraquianos, além da ala Sutoro Assíria do Syriac Union Party (SUP) na Síria. No Líbano, além do Hezbollah, os iranianos também são aliados de partidos sunitas, drusos e cristãos, dentre os quais o Movimento da Frente Patriótica de Michel Aoun – o maior partido cristão que há no Líbano.
Se há alguém realmente engajados em sectarismos como política, são os EUA e seus aliados nos petro-emirados árabes. Ambos, EUA e Arábia Saudita já lutaram antes contra os houthis e os usaram contra a Fraternidade Muçulmana no Iêmen. Além disso, durante a Guerra Fria, ambas, a Casa Branca e a Casa de Saud tentaram usar os xiitas iemenitas contra os republicanos no Iêmen do Norte e na República Popular Democrática do Iêmen no sul. Foi quando o movimento houthi deixou muito claro que não seria vassalo nem de Washington nem de Riad, que EUA e a Arábia Saudita tornaram-se extremamente hostis.

Preparação para invadir o Iêmen

Dia 20 de março, suicidas-bombas atacaram as mesquitas de Al-Badr e Al-Hashoosh durante asr salat(“as preces da tarde”). Morreram mais de 300 pessoas. Abdul Malik al-Houthi acusou EUA e Israel de apoiarem os ataques terroristas, além de apoiarem também o ISIL/ISIS/Daesh/Estado Islâmico e a Al-Qaeda no Iêmen. A Arábia Saudita também foi responsabilizada.
Enquanto persiste o silêncio no Marrocos, na Jordânia e nos petro-emirados, a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Irã, Marziyeh Afkham, condenou os ataques terroristas no Iêmen. De um modo ou de outro, Síria, Iraque, Rússia e China todos condenaram também os ataques terroristas no Iêmen. Para fazer prova do apoio de Teerã ao Iêmen, dois aviões cargueiros do Irã carregados com itens de ajuda humanitária foram enviados ao Iêmen, e a Sociedade do Crescente Vermelho transportou para hospitais iranianos mais de 50 iemenitas vítimas dos ataques terroristas, para serem tratados.
A Casa de Saud fracassou no Iêmen

O movimento dos houthis é resultado das políticas da Arábia Saudita no Iêmen e do apoio dos sauditas ao governo autoritário. Nesse sentido, os houthis são uma reação à brutalidade dos sauditas e ao apoio que a Casa de Saud garantiu sempre ao autoritarismo iemenita. Os houthis emergiram como parte de uma rebelião liderada por Hussein Badreddin Al-houthi em 2004, contra o governo iemenita.
No projeto de demonizar o movimento dos houthis, os regimes saudita e iemenita têm insistido em divulgar a ideia falsa de que os houthis aspirariam a impor um imamato zaidista na Arábia. Mas nada disso impediu que o movimento se fortalecesse. Em 2009, o exército do Iêmen ditatorial não conseguiu dar conta deles, o que levou à intervenção saudita chamada “Operação Terra Chamuscada” [orig.Operation Scorched Earth] lançada dia 11 de agosto de 2009.
A Arábia Saudita fracassou quando enviou seus militares para o Iêmen para lutar contra os houthis em 2009 e 2010. Fracassou na tentativa de obrigar o Iêmen e o movimento dos houthi a ajoelhar-se e obedecer. Quando os sauditas exigiram que os houthis e o governo iemenita de transição dançassem conforme a música saudita e viajassem a Riad para negociações, o ‘convite’ foi totalmente rechaçado pelos houthis e pelos Comitês Revolucionários do Iêmen, porque as tais negociações e qualquer esquema de partilha do poder que os sauditas apoiassem sempre poriam de lado os houthis e outras forças políticas iemenitas. Essa é a razão pela qual a posição dos houthis contra a Arábia Saudita recebeu o apoio da União das Forças Populares, do Congresso Geral do Povo do próprio Hadi e do Partido Baath do Iêmen.

Dividir o Iêmen?

O Iêmen conheceu numerosas insurreições, intervenções militares por exércitos dos EUA e da Arábia Saudita, e cresce, nos governoratos do sul um movimento separatista. O exército iemenita está fragmentado e há tensões tribais. Ouve-se falar cada vez com mais frequência de o país acabar transformado em mais um estado árabe falhado.
Em 2013, o jornal New York Times propôs que Líbia, Síria, Iraque e Iêmen fossem divididos. No caso do Iêmen, a ‘proposta’ era dividir o país novamente em dois. Para o New York Times aconteceria, ou poderia acontecer depois de um possível referendo nos governoratos do sul do país. O New York Timestambém propôs que “todo o Iêmen Sul, ou parte dele, poderia então ser incorporado à Arábia Saudita. Praticamente todo o comércio saudita faz-se por mar, e garantir acesso direto ao Mar da Arábia diminuiria a dependência do Golfo Persa – e medos da capacidade do Irã para fechar o Estreito de Ormuz”.
Agora, a Arábia Saudita e Al-Hadi cortejam desavergonhadamente os separatistas no sul do Iêmen, que têm apoio de, no máximo, 1/10 da população. A próxima opção para EUA e Arábia Saudita pode ser dividir o Iêmen, como meio para mitigar o duro golpe e a mudança estratégica que advirão de uma vitória dos houthis. Com o Iêmen dividido, a Arábia Saudita e os países do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) teriam ponto de trânsito no sul para o Oceano Índico, e os EUA preservariam o pé que ainda têm no Golfo de Aden.
A geopolítica da guerra dos EUA no Iêmen é o novo Front da ofensiva contra o Irã