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sábado, 4 de abril de 2015

Cinema Secreto: Cinegnose: Viajantes, Detetives e Estrangeiros vagam por Holl...

Viajantes, Detetives e Estrangeiros vagam por Hollywood em "Mapas Para as Estrelas"


Hollywood tem uma tradição de filmes que mostra a cidade dos sonhos como um inferno de ganância, narcisismo e perversões. A crítica especializada tem considerado “Mapas para as Estrelas” de David Cronenberg como mais um filme com esse viés moralista sobre a indústria do cinema. Porém, ao lado do roteirista Bruce Wagner, Cronenberg foi muito além disso: conseguiu criar uma pequena galeria de personagens que consegue sintetizar os principais arquétipos que dão vida aos nossos sonhos: Viajantes, Detetives e Estrangeiros. E também a fragilidade emocional por trás de profissionais bem pagos para produzir o nosso entretenimento: a busca desesperada por amor, adoração e aceitação incondicional. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Cronenberg sempre foi fascinado pelas metáforas da invasão do corpo e a fragilidade da carne diante da tecnologia em filmes como Videodrome, Scanners,Crash ou eXistenZ. Seus filmes até podem sugerir cenas de horror, mas na verdade o diretor transita entre a comédia, o humor negro e o drama. Cronenberg está menos interessado em sangue, e muito mais na natureza monstruosa das nossas obsessões e desejos, na dificuldade de escaparmos de nós mesmos e como a sociedade cruelmente explora esse ponto fraco humano.

Guerra psíquica (Scanners), o domínio mental da TV (Videodrome) e games digitais mortais (eXistenZ) são algumas amostras dessa temática recorrente de como a sociedade é capaz de criar sistemas que envolvem tanto a carne como a alma.Mapas para as Estrelas é mais um filme desse veio crítico de Cronenberg. E dessa vez é o alvo é Hollywood, tal como descrito pelo roteiro de Bruce Wagner: um inferno de ganância, narcisismo e perversidade sexual.


Mas como Cronemberg vem afirmando nas entrevistas, o diretor não pretendeu fazer mais um filme sobre os podres de Hollywood, já muito bem representado em uma série de filmes – O Jogador (1992), Sunset Boulevard (1950),Barton Fink (1991), A Star is Born (1954), Mulholland Drive (2001) entre muitos. “Não é sobre Hollywood, é um comentário sobre a condição humana que podemos encontrar em qualquer outro lugar”, diz Cronenberg para aqueles que acreditam que o filme é apenas  mais uma crítica a indústria do cinema.


De fato, a crítica impiedosa à fauna que habita os bastidores de Hollywood é o ponto de partida de Mapas para as Estrelas. Mas Cronenberg conseguiu algo mais: fez um conto atemporal sobre os arquétipos da condição humana atual a partir de três tipos de personagens que a indústria do entretenimento irradia para todo o mundo - Viajantes, Detetives e Estrangeiros – sobre esses personagens arquetípicosclique aqui.

A atmosfera noir e, ao mesmo tempo, com uma luz do sol radiante e sinistra faz lembrar o diretor xará David Lynch, mas também cria esse cenário atemporal onde só assim foi possível para o diretor desenvolver esses três personagens arquetípicos que são um pedaço de cada um de nós.

Gurus espirituais, atrizes decadentes, duplas personalidades, fantasmas do passado, projeções vingativas formam uma galeria de personagens que, no fundo, são animados por esses três arquétipos da condição humana que são diariamente irradiados para todo o planeta por Hollywood. E o filme de Cronenberg é mais um exemplo disso. Como veremos, dessa maneira Mapas para as Estrelas é também um filme metalinguístico sobre a própria indústria do cinema.

O Filme


Hollywood é uma cidade governada pela fantasia e superstição – e como mostra o filme, as pessoas parecem não perceber a diferença. É um lugar estranhamente obcecado com sua própria história. Grande parte do setor imobiliário é assombrado por memórias de estrelas e escândalos do passado.



O filme abre com Agatha (Mia Wasikowska) chegando a Hollywood como fosse mais uma turista fazendo um tour pela cidade na limusine de Jerome (Robert Pattinson), um dublê de motorista e guia que conta as histórias sobre as casas das celebridades locais. Mas aos poucos percebemos que ela é outra coisa: é o primeiro fantasma do passado – a irmã que foi banida de uma família que retorna em busca de algum tipo de perdão.

Agatha é o arquétipo do Viajante: aquele que vem do nada e parte para lugar nenhum. Traz um mistério do passado (seus rosto e partes do corpo tem marcas de queimaduras) que pode definitivamente mudar a vida de todos. Busca a liberdade final, um estado de suspensão (a morte?) que possa ser a fuga de todos os males.

Julianne Moore é Havana Segrand, uma atriz assombrada pelo medo da decadência e pelo fantasma da sua mãe, atriz mais famosa que morreu jovem em um incêndio. Perpetuamente em busca reconhecimento  e do amor de todos ao redor e sempre à beira de um colapso emocional. Moore cai de cabeça em um personagem insano e sem limites – a atriz até se permite interpretar uma cena defecando no banheiro enquanto discute com sua assistente Agatha.

Havana é o arquétipo do Estrangeiro: tudo parece familiar para ela – os amigos, os empresários, os agentes, a profissão. Mas sente-se como uma estrangeira dentro da sua própria cidade, em um permanente estado de alienação. Faz terapia com um guru de autoajuda (Stafford Weiss – John Cusack), um escritor best-seller que vive da mistura californiana massagem-budismo-freudismo.

Mas Weiss também tem seus fantasmas: é Agatha, sua filha “Viajante” que vem do passado ameaçando estragar o lançamento de seu novo livro com um escândalo.



Seu outro filho, Beije (Evan Bird), é uma estrela infantil arrogante e detestável. Enquanto faz mais um filme, preocupa-se que outros atores não roubem suas cenas. Sua família é uma perfeita estufa de sociopatia e tentam esconder a chegada da sua irmã Agatha na cidade. Bieje também é perseguido por um fantasma: uma fã falecida.

O arquétipo transversal do Detetive


Paradoxalmente os fantasmas perseguem pessoas que não creem no sobrenatural: são materialistas e apegados demais a suas carreiras para se preocuparem com questões metafísicas. Por isso, os fantasmas criam loucura e paranoia – para todos há um passado que envolveu incesto, abuso sexual ou assassinato. Por isso, o arquétipo do Detetive é transversal na narrativa.

Assim como nos clássicos do cinema noir onde os detetives procuravam resolver mistérios que, inadvertidamente, relacionavam-se com segredos bem guardados do seu próprio passado, também em Mapas para as Estrelas os personagens lidam com problemas que sem saberem vai remeter a passados obscuros.

Cronenberg e o roteirista Bruce Wagner conseguiram resumir no filme os três personagens arquetípicos que representam a constituição da subjetividade contemporânea. Viajantes, Detetives e Estrangeiros estão presentes em cada filme, vídeo clip ou minissérie produzida pela indústria do entretenimento.

Arquétipos são símbolos do inconsciente coletivo que dão às narrativas ficcionais do cinema o componente espiritual que dá vida e verossimilhança aos filmes. Sem isso, Hollywood seria apenas uma mera produtora de contos.

Metalinguagem


Por isso, Mapas para as Estrelas faz uma poderosa metalinguagem sobre a maquinaria de Hollywood. O fato de Cronenberg ter colocado o astro Robert Pattison como um motorista de limusine que nas horas vagas é ator de filmes B e aspirante a roteirista é uma dessas picardias sobre a indústria do cinema.

Ao lado do astro infantil Beije, que retrata as consequências de crianças que perdem a infância nos sets de filmagem, Cronenberg mostra que tudo em Hollywood parece ser abuso sobre atores que são frágeis e instáveis. São as metáforas da invasão do corpo pelas tecnologias, tema recorrente na obra do diretor.

Com isso, Cronenberg nos mostra que toda a indústria dos nossos sonhos é feita por seres frágeis que por trás da busca do luxo e da fama, na verdade buscam adoração, amor e a aceitação incondicional de todos.

Todos seriam viajantes, detetives e estrangeiros vagando em uma cidade que confunde fantasia e superstição e transforma isso em diversão para todo o planeta.


Ficha Técnica

Título: Mapa para as Estrelas
Diretor: David Cronenberg
Roteiro: Bruce Wagner
Elenco: Julianne Moore, Mia Wasikowska, Robert Pattinson, John Cusack, Evan Bird, Olivia Willians
Produção: Prospero Pictures, Sentient Entertainment
Distribuição: Focus World
Ano: 2014
País: Canadá, EUA




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Hipótese de Guy Standing sobre reconfiguração das classes sociais pode ser elemento importante na análise do novo conservadorismo brasileiro — e na busca da virada
Por Rafael Evangelista
A bancada sindical, que colabora decisivamente na defesa dos interesses dos trabalhadores assalariados, é muito menor na atual legislatura. São 46 deputados, número bem próximo ao de 1988, quando foram 44. Em 2002, ano da eleição de Lula, os sindicalistas foram 74. Caíram na eleição seguinte para 54, possivelmente sentindo o baque na imagem do PT após o mensalão. Em 2010 a bancada registrou seu maior número, 83 deputados.
Pode-se atribuir isso ao propalado distanciamento do PT de suas bases. Também é possível afirmar que o partido mais identificado com o sindicalismo cometeu erros estratégicos, apostando em nomes errados na hora de construir seu quociente eleitoral. Porém, é preciso registrar que o PT vem perdendo força nas cidades operárias paulistas, seu conhecido reduto eleitoral. Somente em uma delas, Hortolândia (SP), o governador Geraldo Alckmin não teve a maioria dos votos pela sua reeleição no primeiro turno.
Ao mesmo tempo, assistimos à ascensão da bancada conservadora. Nomes como Marco Feliciano, em São Paulo, e Jair Bolsonaro, no Rio de Janeiro, aparecem como grandes puxadores de votos – este último acompanhado por seu filho, também deputado eleito, mas por São Paulo. Essa não parece ser uma tendência restrita a nomes específicos: a pauta conservadora, contra os direitos humanos, a favor da brutalidade policial, contra os direitos sexuais foi encampada por diversos candidatos espalhados pelo país. Estes enxergam a adesão a bandeiras radicais como forma de alavancarem votos. Candidatos progressistas acabam se tornando mais tímidos, com medo de desagradar um eleitorado bastante vocal e que parece crescer.
Os fenômenos parecem ser, então, dois: o declínio de políticos mais identificados com causas trabalhistas e a ascensão de personagens conservadores que flertam com o populismo de direita. A explicação para isso é complexa, mas parte dela pode estar nas mudanças que o mundo do trabalho vive nos últimos anos, com a queda do trabalho regular, assalariado, com benefícios protegidos por lei e o crescimento do setor de serviços e, mais especificamente, do trabalho fragilizado, intermitente, incerto.
TEXTO-MEIO
O termo precariado, corruptela de precário com proletário, tem sido utilizado para referenciar a emergência do que seria uma nova classe social, um contingente crescente de pessoas que nem gozam de renda estável (vinda do trabalho assalariado ou de renda) nem estão na vala do desemprego crônico. Talvez ele possa nos trazer algumas boas sacadas.
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Guy Standing
Há bastante controvérsia sociológica sobre uma precisa definição do grupo (ou mesmo se este constitui uma classe), mas o fenômeno se torna bastante concreto se olharmos a nossa volta e percebermos situações que vêm se tornando comuns no mercado de trabalho atual. Profissionais com formação educacional satisfatória ou muito boa, que conseguem viver e têm períodos de renda estável, porém intercalados com tempos de ganho muito baixo, em que as dívidas crescem e cada vez é mais difícil pagá-las com o dinheiro que aparece quando a maré melhora. Em geral são pessoas que executam funções abaixo de sua formação ou expectativa. Passam muito tempo “trabalhando para trabalhar”, construindo relações ou fazendo favores que podem render alguma recompensa financeira num futuro incerto.
O economista inglês Guy Standing fala de uma nova divisão de classes, tentando encaixar o fenômeno do precariado em um cenário ampliado. Sua tipificação parece por demais europeizada, mas pode ser útil para começar a precisar o que está acontecendo. No topo da pirâmide das classes estariam os grandes herdeiros, as celebridades ou os executivos das grandes empresas, capazes de reunir poupança mais do que suficiente para situações momentâneas de crise.
Bem abaixo estaria o que ele chama de salariado, os funcionários, públicos e privados, que gozam de férias, benefícios e estabilidade no emprego por lei ou porque sua demissão custaria demais aos seus patrões.
Próximo a eles estariam o que Standing chama de proficians, profissionais sem relação fixa de emprego, que trabalham por contrato, mas cuja combinação de habilidades faz com que consigam facilmente se colocar no mercado com ganhos altos ou bastante bons, o suficiente para não viverem momentos muito incertos e ainda gozando de independência.
Abaixo deles estaria o típico trabalhador industrial tradicional, com emprego fixo, relação formalizada. Um grupo que encolhe rapidamente, substituído pela mecanização ou pela inventividade das empresas na reformulação das estruturas tradicionais de trabalho.
O precariado estaria abaixo desses quatro grupos, ladeado pelos desempregados e pelos socialmente desajustados. Em relações efêmeras de emprego ou renda (bolsas, contratos curtos e sazonais de trabalho, bicos) viveria a constante expectativa de ascender a relações mais formais e com benefícios, ou mesmo conseguir se estabilizar como trabalhador independente. Mas também seria constantemente assombrado e psicologicamente torturado pela perspectiva concreta de descenso social a uma situação bastante desumana, sem direito ao mínimo para viver dignamente.
Standing trata o precariado não somente pela via da relação enfraquecida de trabalho, mas também pelo impacto psicossociológico sofrido por essa categoria. Seria um grupo sem senso de futuro, sem perspectiva de carreira e sem relação identitária positiva com a profissão e desligado da sociedade. Vivendo situações que só podem ser classificadas como de alienação, anomia, ansiedade e que levam ao ódio. Nesse sentido, o desligamento da política seria um sinal preocupante. E a classe seria particularmente vulnerável ao neofascismo.
Parece problemático transferir automaticamente essas observações a um país como o Brasil, com uma história social complicada e com um mundo do trabalho que só muito recentemente conseguiu alguns frágeis direitos. Mas é justamente esse grupo de trabalhadores industriais tradicionais que liderou as conquistas não somente entre 1970 e 1980, mas desde a fase de expansão industrial no início do século, que vem se enfraquecendo.
Esse processo parece tratar de algo ainda não consolidado. O precariado vem crescendo e diversas formas “criativas” de se explorar esse trabalho estão sendo inventadas, em particular pela indústria de tecnologia, que vem dando vazão a novas formas de conciliar a insegurança financeira e psicológica dos precários com a busca de lucro dos intermediários. É a sharing economy.
Aplicativos como o AirBnB, Uber, Favor e muitos outros são tocados no dia a dia majoritariamente por precários. Pessoas que enxergam nesses sistemas um jeito de entrar no mercado de trabalho de maneira independente e sem burocracia. É difícil argumentar que o Uber, por exemplo, não seja uma viabilização, edulcorada pela ideologia do Vale do Silício, do bom e velho táxi pirata. Boa parte dos imóveis disponíveis no AirBnB não são sofás oferecidos generosamente pelos seus donos a simpáticos viajantes. São imóveis disponíveis para temporada, agenciados por precários que intermedeiam o verdadeiro dono e o hóspede, prestando serviços como arrumar o apartamento e receber o viajante.
Que caminhos políticos tomará essa economia global cada vez mais liberalizada, intermediada por sistemas informacionais e ávida por força de trabalho criativa e barata, é ainda algo incerto. O efeito que terá em países subdesenvolvidos, cujos direitos políticos e civis já são historicamente frágeis, também é algo difícil de prever. Porém, parece ser bastante clara a necessidade de se estudar melhor a dinâmica política do precariado e agir reconstruindo laços de solidariedade e ligações culturais entre grupos explorados.
TEXTO-FIM
Para ajudar a compreender a crise da esquerda

Conheça dez histórias de corrupção durante a ditadura militar - Notícias - Política

Conheça dez histórias de corrupção durante a ditadura militar

Marcelo Freire
Do UOL, em São Paulo
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  • memoriasreveladas.arquivonacional.gov.br/Arquivo Nacional
    Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964
    Militares em frente ao Ministério do Exército, no Rio, em 2 de abril de 1964
Os protestos de 15 de março, direcionados principalmente contra o governo federal e a presidente Dilma Rousseff, indicaram a insatisfação de parte da população com os casos de corrupção envolvendo partidos políticos, empresas públicas e empresas privadas. Algumas pessoas, inclusive, chegaram a pedir uma intervenção militar, alegando que essa seria a solução para o fim da corrupção.
Mas será que nesse período a corrupção realmente não fazia parte da esfera política? Apesar da blindagem proporcionada pelas restrições ao Legislativo, Judiciário e imprensa, ainda assim a ditadura não passou imune a diversas denúncias de corrupção.
UOL listou dez delas, tendo como fonte a série de quatro livros de Elio Gaspari sobre o período ("A Ditadura Envergonhada", "A Ditadura Escancarada", "A Ditadura Derrotada" e "A Ditadura Encurralada") e reportagens da época. O primeiro item que envolve Delfim Netto contém uma resposta do ex-ministro sobre os casos. Veja:

1 - Contrabando na Polícia do Exército

A partir de 1970, dentro da 1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia do Exército, no Rio de Janeiro, sargentos, capitães e cabos começaram a se relacionar com o contrabando carioca. O capitão Aílton Guimarães Jorge, que já havia recebido a honra da Medalha do Pacificador pelo combate à guerrilha, era um dos integrantes da quadrilha que comercializava ilegalmente caixas de uísques, perfumes e roupas de luxo, inclusive roubando a carga de outros contrabandistas. Os militares escoltavam e intermediavam negócios dos contraventores. Foram presos pelo SNI (Serviço Nacional de Informações) e torturados, mas acabaram inocentados porque os depoimentos foram colhidos com uso de violência – direito de que os civis não dispunham em seus processos na época. O capitão Guimarães, posteriormente, deixaria o Exército para virar um dos principais nomes do jogo do bicho no Rio, ganhando fama também no meio do samba carioca. Foi patrono da Vila Isabel e presidente da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba).

2 - A vida dupla do delegado Fleury

Folhapress
Sérgio Paranhos Fleury
Um dos nomes mais conhecidos da repressão, atuando na captura, na tortura e no assassinato de presos políticos, o delegado paulista Sérgio Fernandes Paranhos Fleury foi acusado pelo Ministério Público de associação ao tráfico de drogas e extermínios. Apontado como líder do Esquadrão da Morte, um grupo paramilitar que cometia execuções, Fleury também era ligado a criminosos comuns, segundo o MP, fornecendo serviço de proteção ao traficante José Iglesias, o "Juca", na guerra de quadrilhas paulistanas. No fim de 1968, ele teria metralhado o traficante rival Domiciano Antunes Filho, o "Luciano",  com outro comparsa, e capturado, na companhia de outros policiais associados ao crime, uma caderneta que detalhava as propinas pagas a detetives, comissários e delegados pelos traficantes. O caso chegou a ser divulgado à imprensa por um alcaguete, Odilon Marcheronide Queiróz ("Carioca"), que acabou preso por Fleury e, posteriormente, desmentiu a história a jornais de São Paulo. Carioca seria morto pelo investigador Adhemar Augusto de Oliveira, segundo o próprio revelaria a um jornalista, tempos depois.
Os atos do delegado na repressão, no entanto, lhe renderam uma Medalha do Pacificador e muita blindagem dentro do Exército, que deixou de investigar as denúncias. Promotores do MP foram alertados para interromper as investigações contra Fleury. De acordo com o relato publicado em "A Ditadura Escancarada", o procurador-geral da Justiça, Oscar Xavier de Freitas, avisou dois promotores em 1973: "Eu não recebo solicitações, apenas ordens. (…) Esqueçam tudo, não se metam em mais nada. Existem olheiros em toda parte, nos fiscalizando. Nossos telefones estão censurados".
No fim daquele ano de 1973, o delegado chegou a ter a prisão preventiva decretada pelo assassinato de um traficante, mas o Código Penal foi reescrito para que réus primários com "bons antecedentes" tivessem direito à liberdade durante a tramitação dos recursos. Em uma conversa com Heitor Ferreira, secretário do presidente Ernesto Geisel (1974-1979), o general Golbery do Couto e Silva – então ministro do Gabinete Civil e um dos principais articuladores da ditadura militar – classificou assim o delegado Fleury, quando pensava em afastá-lo: "Esse é um bandido. Agora, prestou serviços e sabe muita coisa". Fleury morreu em 1979, quando ainda estava sob investigação da Justiça.

3 - Governadores biônicos e sob suspeita

Em 1970, uma avaliação feita pelo SNI ajudou a determinar quais seriam os governadores do Estado indicados pelo presidente Médici (1969-1974). No Paraná, Haroldo Leon Peres foi escolhido após ser elogiado pela postura favorável ao regime; um ano depois, foi pego extorquindo um empreiteiro em US$ 1 milhão e obrigado a renunciar. Segundo o general João Baptista Figueiredo, chefe do SNI no governo Geisel, os agentes teriam descoberto que Peres "era ladrão em Maringá" se o tivessem investigado adequadamente. Na Bahia, Antônio Carlos Magalhães, em seu primeiro mandato no Estado, foi acusado em 1972 de beneficiar a Magnesita, da qual seria acionista, abatendo em 50% as dívidas da empresa.

4 - O caso Lutfalla

Estadão Conteúdo
Paulo Maluf
Outro governador envolvido em denúncias foi o paulista Paulo Maluf. Dois anos antes de assumir o Estado, em 1979, ele foi acusado de corrupção no caso conhecido como Lutfalla – empresa têxtil de sua mulher, Sylvia, que recebeu empréstimos do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) quando estava em processo de falência. As denúncias envolviam também o ministro do Planejamento Reis Velloso, que negou as irregularidades, e terminou sem punições.

5 - As mordomias do regime

Em 1976, as Redações de jornal já tinham maior liberdade, apesar de ainda estarem sob censura. O jornalista Ricardo Kotscho publicou no "Estado de São Paulo" reportagens expondo as mordomias de que ministros e servidores, financiados por dinheiro público, dispunham em Brasília. Uma piscina térmica banhava a casa do ministro de Minas e Energia, enquanto o ministro do Trabalho contava com 28 empregados. Na casa do governador de Brasília, frascos de laquê e alimentos eram comprados em quantidades desmedidas – 6.800 pãezinhos teriam sido adquiridos num mesmo dia. Filmes proibidos pela censura, como o erótico "Emmanuelle", eram permitidos na casa dos servidores que os requisitavam. Na época, os ministros não viajavam em voos de carreira, e sim em jatos da Força Aérea.
Antes disso, no governo Médici já se observavam outras regalias: o ministro do Exército, cuja pasta ficava em Brasília, tinha uma casa de veraneio na serra fluminense, com direito a mordomo. Os generais de exército (quatro estrelas) possuíam dois carros, três empregados e casa decorada; os generais de brigada (duas estrelas) que iam para Brasília contavam com US$ 27 mil para comprar mobília. Cabos e sargentos prestavam serviços domésticos às autoridades, e o Planalto também pagou transporte e hospedagem a aspirantes para um churrasco na capital federal.

6 - Delfim e a Camargo Corrêa

Leticia Moreira/Folha Imagem
Delfim Netto
Delfim Netto – ministro da Fazenda durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e Médici, embaixador brasileiro na França no governo Geisel e ministro da Agricultura (depois Planejamento) no governo Figueiredo – sofreu algumas acusações de corrupção. Na primeira delas, em 1974, foi acusado pelo próprio Figueiredo (ainda chefe do SNI), em conversas reservadas com Geisel e Heitor Ferreira. Delfim teria beneficiado a empreiteira Camargo Corrêa a ganhar a concorrência da construção da hidrelétrica de Água Vermelha (MG). Anos depois, como embaixador, foi acusado pelo francês Jacques de la Broissia de ter prejudicado seu banco, o Crédit Commercial de France, que teria se recusado a fornecer US$ 60 milhões para a construção da usina hidrelétrica de Tucuruí, obra também executada pela Camargo Corrêa. Em citação reproduzida pela "Folha de S.Paulo" em 2006, Delfim falou sobre as denúncias, que foram publicadas nos livros de Elio Gaspari: "Ele [Gaspari] retrata o conjunto de intrigas armado dentro do staff de Geisel pelo temor que o general tinha de que eu fosse eleito governador de São Paulo", afirmou o ex-ministro.
 
Outro lado: Em relação às denúncias que envolvem seu nome nesse texto, o ex-ministro Delfim Netto respondeu ao UOL: "Trata-se de velhas intrigas que sempre foram esclarecidas. Nunca tive participação nos eventos relatados".
 

7 - As comissões da General Electric

Durante um processo no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) em 1976, o presidente da General Electric no Brasil, Gerald Thomas Smilley, admitiu que a empresa pagou comissão a alguns funcionários no país para vender locomotivas à estatal Rede Ferroviária Federal, segundo noticiou a "Folha de S.Paulo" na época. Em 1969, a Junta Militar que sucedeu Costa e Silva e precedeu Médici havia aprovado um decreto-lei que destinava "fundos especiais" para a compra de 180 locomotivas da GE. Na época, um dos diretores da empresa no Brasil na época era Alcio Costa e Silva, irmão do ex-presidente, morto naquele mesmo ano de 1969. Na investigação de 1976, o Cade apurava a formação de um cartel de multinacionais no Brasil e o pagamento de subornos e comissões a autoridades para a obtenção de contratos.

8 - Newton Cruz, caso Capemi e o dossiê Baumgarten

Paula Giolito /Folhapress
Newton Cruz
O jornalista Alexandre von Baumgarten, colaborador do SNI, foi assassinado em 1982, pouco depois de publicar um dossiê acusando o general Newton Cruz de planejar sua morte – segundo o ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, em declaração de 2012, a ordem partiu do próprio SNI. A morte do jornalista teria ligação com seu conhecimento sobre as denúncias envolvendo Cruz e outros agentes do Serviço no escândalo da Agropecuária Capemi, empresa dirigida por militares, contratada para comercializar a madeira da região do futuro lago de Tucuruí. Pelo menos US$ 10 milhões teriam sido desviados para beneficiar agentes do SNI no início da década de 1980. O general foi inocentado pela morte do jornalista.

9 - Caso Coroa-Brastel

Delfim Netto sofreria uma terceira acusação direta de corrupção, dessa vez como ministro do Planejamento, ao lado de Ernane Galvêas, ministro da Fazenda, durante o governo Figueiredo. Segundo a acusação apresentada em 1985 pelo procurador-geral da República José Paulo Sepúlveda Pertence, os dois teriam desviado irregularmente recursos públicos por meio de um empréstimo da Caixa Econômica Federal ao empresário Assis Paim, dono do grupo Coroa-Brastel, em 1981. Galvêas foi absolvido em 1994, e a acusação contra Delfim – que disse na época que a denúncia era de "iniciativa política" – não chegou a ser examinada.

10 - Grupo Delfin

Denúncia feita pela "Folha de S.Paulo" de dezembro de 1982 apontou que o Grupo Delfin, empresa privada de crédito imobiliário, foi beneficiado pelo governo por meio do Banco Nacional da Habitação ao obter Cr$ 70 bilhões para abater parte dos Cr$ 82 bilhões devidos ao banco. Segundo a reportagem, o valor total dos terrenos usados para a quitação era de apenas Cr$ 9 bilhões. Assustados com a notícia, clientes do grupo retiraram seus fundos, o que levou a empresa à falência pouco depois. A denúncia envolveu os nomes dos ministros Mário Andreazza (Interior), Delfim Netto (Planejamento) e Ernane Galvêas (Fazenda), que chegaram a ser acusados judicialmente por causa do acordo.

GOLPE MILITAR COMPLETA 51 ANOS; RELEMBRE

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Veja 10 fatos revelados pela Comissão da Verdade sobre a ditadura no Brasil10 fotos

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Em 2012, a pedido da Comissão Nacional da Verdade, a Justiça de SP determinou a retificação do atestado de óbito do jornalista Vladimir Herzog, o que derrubou a tese militar de que ele teria se suicidado no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do 2º Exército, em São Paulo. O novo documento faz constar que Herzog foi vítima de lesões e maus-tratos. A família recebeu o novo documento no dia 15 de março de 2013Leia mais Reprodução

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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Silvio Caccia Bava: Uma falsa polarização - Le Monde Diplomatique Brasil

Uma falsa polarização
Claudius
por Silvio Caccia Bava
Há intelectuais que querem nos fazer crer que estamos vivendo no Brasil uma polarização de posições políticas entre esquerda e direita, entre neoliberais e bolivarianos, entre uma classe média “coxinha” e os trabalhadores, e por aí vai. De quebra assistimos à condenação do governo federal e do PT como corruptos. Isso é o que vemos na superfície e que gera uma insatisfação geral.
O que não está visível são os principais atores que impulsionam essa polarização e seus objetivos. Um primeiro passo para entendermos essa situação é olhar para o lucro das grandes empresas e bancos. As empresas que têm ações na Bovespa, que são as maiores, tiveram aumento de seu lucro da ordem de 46% em 2014, se comparado ao lucro de 2013. E os bancos, algo entre 26% (Itaú) e 30% (Safra). Isso numa economia em que o crescimento do PIB de 2014 ficou próximo de zero. Como se opera esse milagre? Essa rentabilidade depende muito da taxa Selic, que remunera a dívida pública, e das taxas cobradas pela intermediação financeira sobre empréstimos e financiamentos pelos bancos.
O governo federal, adotando políticas contracíclicas para garantir o dinamismo da economia brasileira diante da crise internacional, em 2009 reduziu a taxa Selic; em 2010 sofreu pressões para aumentá-la novamente; em 2011 retomou a política de baixar os juros. Como consequência, 2014 apresentou o menor superávit primário desde 1999, ou seja, a menor remuneração para os rentistas. O setor rentista também se sentiu ameaçado com a ação dos bancos públicos – Caixa e BNDES, especialmente –, que aumentaram o crédito, baixaram os juros e ganharam mercado. Os bancos públicos, de 35% do mercado que detinham em 2009, chegam a 55% em 2015. O congelamento dos preços da gasolina e da eletricidade tem o mesmo sentido, de preservar a capacidade de compra das pessoas e manter o dinamismo do mercado interno, e também contrariou interesses das empresas concessionárias.
Como consequência dessas políticas, o grande empresariado e o setor financeiro se uniram contra a redução da rentabilidade do rentismo, contra as políticas anticíclicas, contra o governo Dilma. Isso se expressou nas eleições de 2014 e nas tentativas de desestabilização política que continuam até hoje.
A estratégia defendida pelos governos do PT, de promover um impacto “keynesiano” de estímulo da economia pelo lado da demanda, de preservação do emprego, pode ser observada na distribuição entre renda do trabalho (salários, pensões, aposentadorias) e renda do capital (lucros, juros, aluguéis e renda da terra) nas contas nacionais. A participação da renda do trabalho no PIB era de 35% em 2003; em 2013, foi de 47%. O rentismo disputa a retomada de parcela maior da renda nacional, travando, com isso, o impacto esperado das políticas contracíclicas e o desenvolvimento do país.
Pesquisas recentes mostram uma classe média tradicional assustada com o cenário econômico, com medo do desemprego, com medo de uma perda maior de poder aquisitivo, coisa que já estão sentindo. Há muito tempo não se via esse medo voltar. É essa insatisfação que é trabalhada pela grande imprensa escrita e televisiva, e mesmo internacional, para direcioná-la contra o governo e até para criar a pressão “fora Dilma”. Não importa que a crise seja internacional e que seja de fato necessário equilibrar as contas do país. Importa que o ajuste não toque nos mais ricos e a corrupção passe a ser a explicação da situação atual.
Essa estratégia de focar a corrupção para promover o desgaste do governo está trazendo resultados inesperados, pois atinge o sistema político como um todo. As ações do Ministério Público implicam também os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Aécio Neves, todos os partidos e outras personalidades denuncistas da oposição.
É com base nas denúncias contra a corrupção que a oposição quer mobilizar a população contra o governo, e tem conseguido bons resultados. Mas a classe média que foi para as ruas é um setor muito desinformado. Até uma simples pergunta de quem assumiria a Presidência num eventual impedimento de Dilma fica sem resposta para a maioria dos manifestantes. Apenas 27% defendem “fora Dilma”. Eles estão na rua para defender o que entendem por seus direitos num cenário econômico recessivo, o que guarda semelhança com as demandas apresentadas pelas centrais sindicais em outra recente manifestação de peso.
Também é importante lembrar que 37 milhões de brasileiros votaram branco ou nulo nas últimas eleições, ou seja, não se posicionaram em relação às opções eleitorais disponíveis. Isso não significa que não tenham opiniões, mas que não se sentem representados ou não valorizam mais este sistema político. Temos de lembrar também o rechaço aos partidos políticos, seja nas manifestações de junho de 2013, seja nas de 15 de março deste ano. Quando políticos quiseram se manifestar, ouviram da população nas ruas um veto: gritava-se “sem partido, sem partido”. É o próprio sistema político que está em xeque, e não este ou aquele partido. É uma oportunidade interessante enfrentar essa falsa polarização, promovendo um trabalho de esclarecimento público sobre os verdadeiros agentes e interesses que apostam na desestabilização do governo. Se ao lado desses esclarecimentos surgir um forte movimento de defesa dos direitos sociais, também buscando mobilizar a classe média, então o jogo pode mudar e a reforma política por uma Constituinte independente pode se tornar uma bandeira de muitos, de uma ampla aliança da cidadania com capacidade para mudar a correlação de forças. Diretas Já! foi assim.


Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil





Silvio Caccia Bava: Uma falsa polarização - Le Monde Diplomatique Brasil